{"id":12634,"date":"2009-11-25T07:00:59","date_gmt":"2009-11-25T10:00:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=12634"},"modified":"2009-11-25T07:00:59","modified_gmt":"2009-11-25T10:00:59","slug":"dificultadores-arquitetonicos-e-urbanisticos-a-escada-e-o-seu-papel-no-patrimonio-edificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=12634","title":{"rendered":"Dificultadores arquitet\u00f4nicos e urban\u00edsticos: a escada e o seu papel no patrim\u00f4nio edificado"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_12635\" aria-describedby=\"caption-attachment-12635\" style=\"width: 284px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/escada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12635\" title=\"Ilus\u00e3o de \u00f3tica de uma escada sem come\u00e7o ou destino.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/escada.jpg\" alt=\"Ilus\u00e3o de \u00f3tica de uma escada sem come\u00e7o ou destino.\" width=\"284\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/escada.jpg 284w, https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/escada-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12635\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\"><strong>Arquiteta Flavia Boni Licht<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Apresentado no Semin\u00e1rio Acessibilidade no Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Cultural<br \/>\nOrganiza\u00e7\u00e3o: CREA-Bahia e Instituto do Patrim\u00f4nio Art\u00edstico e Cultural da Bahia<br \/>\nSalvador, 19 de novembro de 2009<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>Muito mais do que uma quest\u00e3o de cadeira de rodas,<br \/>\na acessibilidade \u00e9 a ess\u00eancia da arquitetura levada \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias.<br \/>\nAs pessoas n\u00e3o contemplam a arquitetura, mas criam o espa\u00e7o com os seus movimentos,<br \/>\ndesde aqueles que se fazem numa cozinha at\u00e9 os de uma prociss\u00e3o saindo da catedral.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o arquitet\u00f4nico sem pessoas. Sem elas o arquiteto apenas sonha.<br \/>\nEssas s\u00e3o id\u00e9ias que podem servir de pistas<br \/>\npara pensar na arquitetura do passado, do presente e do futuro.<\/em><br \/>\n<em>Arquiteto DEMETRIO RIBEIRO<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ao aceitar o convite para falar neste semin\u00e1rio sobre o papel da escada no patrim\u00f4nio edificado, me vi frente a uma encruzilhada. Um dos poss\u00edveis caminhos, talvez o mais simples, me levaria a trazer exemplos fotogr\u00e1ficos de variadas escadas para debater como um \u00fanico elemento presente nas edifica\u00e7\u00f5es e nas cidades, hist\u00f3ricas ou n\u00e3o, ao lado de sua fun\u00e7\u00e3o de articular espa\u00e7os, pode ser gerador de dificuldades e de impossibilidades na vida das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O outro trajeto \u2013 aquele que escolhi e que acredito ter sido a inten\u00e7\u00e3o dos organizadores deste evento \u2013 foi o de entender e trazer \u00e0 nossa discuss\u00e3o a escada como materializa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de um conjunto de conceitos que, da configura\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o no entorno urbano, passam pelo lugar que ocupa como possibilidade construtiva e aglutinador de usos, como gerador de impon\u00eancia e valor desejado na busca de distanciamento, como definidor de itiner\u00e1rios e express\u00e3o de movimento e, aqui mais especialmente, como elemento de segrega\u00e7\u00e3o e de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, inicio me socorrendo em segmentos da nossa hist\u00f3ria, talvez, mais especialmente, em segmentos da nossa hist\u00f3ria como construtores, que, atuando sobre o ambiente natural, deixamos ali os sinais do nosso conhecimento, das nossas cren\u00e7as e, tamb\u00e9m, dos nossos preconceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ent\u00e3o, tomando nossa civiliza\u00e7\u00e3o aos saltos, comecemos com os eg\u00edpcios que, ao empilhar imensos blocos de pedra, encontraram nos degraus, a possibilidade de concretizar suas pir\u00e2mides. E n\u00e3o s\u00f3 externamente. No interior daqueles monumentos, o desejado repouso eterno do fara\u00f3 foi protegido por complexos labirintos num intrincado jogo de n\u00edveis que se articulavam por meio de alguns ou de muitos degraus. Ou seja, as escadas se faziam presentes para guardar segredos e preservar tesouros, mas tamb\u00e9m para dificultar passagens e obstaculizar acessos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seguindo nossa viagem, chegamos \u00e0 Gr\u00e9cia, onde a escada adquire um protagonismo inquestion\u00e1vel, pois o desejo de sentir-se o mais pr\u00f3ximo dos deuses levou aquela civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0s alturas. Seja, por um lado, na escolha dos s\u00edtios para edificar seus monumentos mais simb\u00f3licos; seja, por outro, nos pr\u00f3prios templos dedicados \u00e0s divindades, sempre constru\u00eddos sobre plataformas elevadas precedidas por altos degraus. E como seus antecessores eg\u00edpcios, tamb\u00e9m na Gr\u00e9cia as imponentes escadarias tornavam real o distanciamento pretendido entre alguns \u2013 poderosos e ol\u00edmpicos, que chegavam at\u00e9 a desafiar limites entre deuses e homens \u2013 e outros tantos, certamente a maioria, o povo, os escravos. Isso no pr\u00f3prio \u201cber\u00e7o da democracia\u201d, onde tamb\u00e9m aqueles que se distanciavam dos ideais definidos como da perfei\u00e7\u00e3o f\u00edsica eram sumariamente sacrificados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nos s\u00e9culos seguintes, a busca da inacessibilidade para configurar prote\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se presente nas fortifica\u00e7\u00f5es amuralhadas, com muitos degraus para vencer terrenos \u00edngremes. Esses mesmos degraus tamb\u00e9m possibilitaram ainda que os edif\u00edcios se descolassem do solo em locais menos salubres, quando a preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade p\u00fablica come\u00e7ou a dar seus primeiros passos. E o car\u00e1ter que ambicionava a distin\u00e7\u00e3o dos comuns e a express\u00e3o de majestade, separando do n\u00edvel vulgar as casas mais nobres, encontra nas pomposas escadarias a formata\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para se explicitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Concluindo esse r\u00e1pido percurso, chegamos aos dias de hoje onde, mesmo com ideais distintos dos nossos antepassados, seguimos buscando as alturas, n\u00e3o mais empilhando apenas pedras para enterrar reis, mas sim completos espa\u00e7os para todas as fun\u00e7\u00f5es e usos do nosso cotidiano; n\u00e3o mais para chegar perto dos deuses, mas sim para rentabilizar os terrenos cada vez mais valorizados dos nossos centros urbanos.  E chegamos aos dias de hoje tamb\u00e9m com uma variada heran\u00e7a de edifica\u00e7\u00f5es e cidades, produto de diversas culturas, com m\u00faltiplas vis\u00f5es de mundo e de sociedade, com variadas representa\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e diferenciadas solu\u00e7\u00f5es construtivas, heran\u00e7a essa que nos cabe preservar e passar adiante, associando ao existente nossas habilita\u00e7\u00f5es e nossos valores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que antes era feito para segregar e dificultar, nos dias atuais, contrariamente, o que se quer \u00e9 reunir e facilitar; o que antes era feito apenas para alguns, o que se quer hoje \u00e9 que valha para todos. Pelo menos, \u00e9 o que afirmam as cartas constitucionais da maioria dos pa\u00edses. Inclusive a do nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Examinando, ent\u00e3o, os impedimentos de mobilidade que criamos ao longo da hist\u00f3ria dos nossos ambientes edificados, acredito que podemos dizer, sem medo de errar, que conhecimento acumulado para super\u00e1-los n\u00e3o nos falta. Hoje, os desn\u00edveis hist\u00f3ricos, antes vencidos apenas por conjuntos menores ou maiores de degraus, podem encontrar alternativas nas mesmas solu\u00e7\u00f5es desenvolvidas para resolver a verticaliza\u00e7\u00e3o mais contempor\u00e2nea que gerou imensas dist\u00e2ncias da base ao topo das edifica\u00e7\u00f5es e trouxe problemas de deslocamento para todos. Como consequ\u00eancia, rapidamente, disponibilizamos a nosso favor a tecnologia existente, criando op\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas para vencer esses obst\u00e1culos e seguir nosso percurso ascensional, com menos conota\u00e7\u00f5es religiosas e reduzido esfor\u00e7o f\u00edsico. E aqui mesmo, nesta cidade, temos um exemplo bastante representativo dessa conquista: o Elevador Lacerda, desde finais do s\u00e9culo 19, estabelece um ponto de conex\u00e3o entre os dois segmentos de Salvador afastados pela morfologia urbana e \u00e9 impens\u00e1vel para a quase totalidade das pessoas vencer a p\u00e9 a dist\u00e2ncia entre a cidade alta e a cidade baixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Claro est\u00e1 que, para toda essa mobilidade conquistada, apostamos na manuten\u00e7\u00e3o de um del\u00edrio sem qualquer olhar para a escassez energ\u00e9tica que, atualmente, j\u00e1 come\u00e7a a nos preocupar. Vale pensar no que seria de n\u00f3s para viver, trabalhar, ir ao cinema, \u00e0 escola, ao m\u00e9dico nos edif\u00edcios e cidades contempor\u00e2neas se algu\u00e9m simplesmente apagasse a luz&#8230; In\u00fameros andares a subir ou descer por escadas em qualquer edif\u00edcio seriam uma relevante barreira para todos n\u00f3s. Este colapso inimagin\u00e1vel \u00e9 apenas parte das dificuldades vivenciadas cotidianamente por uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o ao se deparar com um desn\u00edvel no meio-fio sem rebaixo ou uma escadaria na entrada de um museu, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Chegamos, ent\u00e3o, no que acredito mais fundamental para a nossa discuss\u00e3o:<br \/>\nQuais os valores que ainda nos levam a deixar sem solu\u00e7\u00e3o um ou muitos degraus a marcar a entrada de um monumento, decidindo, de forma concreta, quem tem e quem n\u00e3o tem direito de ali entrar?<br \/>\nNo que acreditamos ao elaborar leis e normas que se, por um lado, exigem acessibilidade em todos os espa\u00e7os edificados contempor\u00e2neos, por outro, abrem exce\u00e7\u00f5es para os chamados bens patrimoniais?<br \/>\nA quem \u00e9 dado o poder para tomar essas decis\u00f5es?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">E como o foco deste semin\u00e1rio \u00e9 acessibilidade e patrim\u00f4nio edificado, parece importante trazer alguns questionamentos direcionados ao significado dessas express\u00f5es. Acredito que, referindo-se \u00e0 acessibilidade, estamos todos de acordo: independente da idade ou da condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, a acessibilidade \u00e9 o direito que todos devem ter de compreender um espa\u00e7o, relacionar-se com os seus conte\u00fados e usar os seus elementos com autonomia e independ\u00eancia. J\u00e1 na quest\u00e3o do patrim\u00f4nio e de como ele deve ser mantido hoje para as futuras gera\u00e7\u00f5es, as posi\u00e7\u00f5es se mant\u00e9m controversas: alguns ainda defendem que qualquer bem s\u00f3 ter\u00e1 seu valor preservado se restabelecer a unidade da edifica\u00e7\u00e3o do ponto de vista de sua concep\u00e7\u00e3o e legibilidade originais; outros, hoje em maior n\u00famero, nos ensinam que as interven\u00e7\u00f5es, incluindo novas destina\u00e7\u00f5es, ser\u00e3o bem-vindas se o objetivo for o de assegurar a sobreviv\u00eancia dos monumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, de questionamento em questionamento, seguimos perguntando:<br \/>\nComo se define e quem define o est\u00e1gio de integridade a ser mantido?<br \/>\nQual o significado de \u2018possibilitar interven\u00e7\u00f5es para assegurar a vida de um monumento\u2019?<br \/>\nO que entendemos por \u2018vida de um monumento\u2019?<br \/>\nQuais interven\u00e7\u00f5es seriam aceit\u00e1veis?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ser\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel respeitar o passado de uma edifica\u00e7\u00e3o, desrespeitando os direitos das pessoas, selecionando com nossas decis\u00f5es de restauro, quem pode ou n\u00e3o desfrutar de um patrim\u00f4nio que \u00e9 de todos? E, talvez pior, isso pode ser feito com todo o amparo da legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u2013 caso da NBR 9050\/2004 da ABNT, que abre exce\u00e7\u00f5es para os bens tombados, e da Instru\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 01\/2003 do IPHAN que as confirma.<br \/>\nJo\u00e3o Filgueiras Lima, o respeitado e querido arquiteto Lel\u00e9, que enriqueceu com sua sensibilidade esta e tantas outras cidades brasileiras, nos indica um bom caminho a seguir. Nas suas mem\u00f3rias profissionais, aprendemos que certas coisas n\u00e3o est\u00e3o escritas no manual, fazem parte da consci\u00eancia cr\u00edtica de cada um. Ou seja, podemos entender acessibilidade como quest\u00e3o de \u00e9tica profissional, pois assumimos como compromisso que nosso trabalho deve ser sempre colocado a servi\u00e7o da melhoria da qualidade de vida do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m na contram\u00e3o das citadas decis\u00f5es normativas e legais, o arquiteto Antonio Cravotto \u2013 representando a Comiss\u00e3o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, Art\u00edstico e Cultural do Uruguai, no 2\u00ba Semin\u00e1rio Ibero-americano de Promotores e Formadores em Acessibilidade ao Meio F\u00edsico, realizado em Montevid\u00e9u \u2013 j\u00e1 em 1990 apresentava um entendimento bem distinto:<br \/>\nem termos pr\u00e1ticos, os bens patrimoniais s\u00f3 podem ser salvaguardados se usados apropriadamente no presente, se reabilitados para atender fun\u00e7\u00f5es adequadas \u00e0 sua natureza e conforma\u00e7\u00e3o, o que vai desde a contempla\u00e7\u00e3o (no caso das ru\u00ednas) at\u00e9 as formas mais especializadas e complexas. Para tanto, todos esses bens ser\u00e3o necessariamente afetados por: modifica\u00e7\u00f5es espaciais e estruturais; incorpora\u00e7\u00e3o de elementos, dispositivos, sistemas e redes t\u00e9cnicas; inclus\u00e3o de equipamentos e de sinaliza\u00e7\u00e3o. Essas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o possuem justificativa nem melhor nem diferente das originadas pela elimina\u00e7\u00e3o das barreiras para pessoas com defici\u00eancia. [&#8230;]<br \/>\nPara tanto, recomendo uma \u2018regra de ouro\u2019 orientadora, que os \u2018t\u00e9cnicos\u2019 rotineiros e pouco imaginativos \u2013 os quais, desgra\u00e7adamente, abundam \u2013 considerar\u00e3o seguramente vaga e pouco pr\u00e1tica: \u2018respeitar o homem e respeitar suas obras\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ent\u00e3o, com o apoio das palavras do professor Cravotto, podemos voltar ao foco do nosso tema e examinar o tombamento e o posterior restauro de uma resid\u00eancia significativa de qualquer uma de nossas cidades. Vencidos todos os procedimentos legais, o bem \u00e9 tombado e, para possibilitar a sua sobreviv\u00eancia, transformado, de imediato, em sede de alguma institui\u00e7\u00e3o cultural, ou seja, j\u00e1 foi aprovado sem discuss\u00f5es um novo uso para a edifica\u00e7\u00e3o; os projetos e as obras, referendando essa mudan\u00e7a, indicam e executam modifica\u00e7\u00f5es em planta, alteram redes e inserem equipamentos exigidos pela seguran\u00e7a e conforto contempor\u00e2neos, renovam rebocos, pintam alvenarias, trocam vidros quebrados e madeiras atacadas por cupins, derrubam \u00e1rvores do jardim para criar estacionamentos, retocam ou refazem pinturas murais, substituem o mobili\u00e1rio residencial pelo institucional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cabe, assim, perguntar: o que sobrou de original? Apenas a entrada principal, marcada por uma intocada escadaria \u2013 claro que depois de polidos seus m\u00e1rmores ou seus bronzes&#8230; E se algu\u00e9m se aventurar a discutir o obst\u00e1culo representado por aqueles degraus e a necessidade de encontrar solu\u00e7\u00f5es para fazer daquela entrada o acesso principal para todos, j\u00e1 sabemos que a resposta ser\u00e1 instant\u00e2nea e praticamente un\u00edssona: ah, nisso n\u00e3o d\u00e1 pra tocar, pois, al\u00e9m de caro (e o custo torna-se, instant\u00e2nea e magicamente, um impedimento decisivo) qualquer interfer\u00eancia na fachada vai desvirtuar as refer\u00eancias hist\u00f3ricas desse bem tombado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 mais de vinte anos, o arquiteto I. M. Pei foi chamado a intervir num dos inquestion\u00e1veis patrim\u00f4nios da humanidade, o Museu do Louvre. Feito j\u00f3ia rara, sua pir\u00e2mide em a\u00e7o e vidro define o novo e monumental acesso para aquele igualmente monumental conjunto. Dominando o espa\u00e7o interno l\u00e1 est\u00e1, como um imenso grupo escult\u00f3rico, a fus\u00e3o entre elevador e escada, a incorpora\u00e7\u00e3o do movimento livre \u00e0 estrutura est\u00e1tica, provando que h\u00e1 possibilidade de tornar acess\u00edvel a todos um bem hist\u00f3rico e cultural sem desqualific\u00e1-lo; provando que temos capacita\u00e7\u00e3o, criatividade e aud\u00e1cia. Talvez nos falte apenas aceitar a necessidade de desmontar os resultados da nossa cultura excludente, mudando a dire\u00e7\u00e3o do nosso olhar para, rompendo h\u00e1bitos e costumes, tomar a decis\u00e3o definitiva de abrir os espa\u00e7os para todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Temos pela frente um grande desafio, mas tamb\u00e9m uma oportunidade rara de reunir o importante passado expresso pelos bens patrimoniais edificados \u00e0 vis\u00e3o contempor\u00e2nea de respeito ao diverso que nos brinda a acessibilidade, para repensar o que queremos que fique como nossa heran\u00e7a. Para tanto, inicialmente, teremos que, \u201cacess\u00edveis\u201d e \u201cpatrimoni\u00e1veis\u201d, nos despir das nossas carapa\u00e7as ortodoxas para estabelecer um di\u00e1logo franco que compatibilize conceitos, encontre identidades, equilibre posi\u00e7\u00f5es e construa circunst\u00e2ncias sempre, como nos iluminou o mestre Cravotto, na dire\u00e7\u00e3o do respeito ao homem e \u00e0s suas obras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que antes era feito para segregar e dificultar, nos dias atuais, contrariamente, o que se quer \u00e9 reunir e facilitar; o que antes era feito apenas para alguns, o que se quer hoje \u00e9 que valha para 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