{"id":14509,"date":"2010-03-23T06:11:02","date_gmt":"2010-03-23T09:11:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=14509"},"modified":"2010-03-23T06:11:02","modified_gmt":"2010-03-23T09:11:02","slug":"algo-esta-errado-no-pais-da-democracia-racial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=14509","title":{"rendered":"Algo est\u00e1 errado no pa\u00eds da democracia racial"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_12591\" aria-describedby=\"caption-attachment-12591\" style=\"width: 152px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/afropress21.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12591\" title=\"Logotipo da Afropress - Ag\u00eancia de Informa\u00e7\u00e3o Multi\u00e9tnica\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/afropress21.jpg\" alt=\"\" width=\"152\" height=\"152\" srcset=\"https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/afropress21.jpg 190w, https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/afropress21-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 152px) 100vw, 152px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12591\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por Kabengele Munanga *<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 84px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Kabengele Munanga.\" src=\"http:\/\/www.afropress.com\/images\/fotos\/kabengele.jpg\" alt=\"\" width=\"84\" height=\"112\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>*Interven\u00e7\u00e3o do Prof. Kabengele Munanga na Audi\u00eancia P\u00fablica no dia 04 de mar\u00e7o convocada pelo Supremo Tribunal Federal para discutir a ado\u00e7\u00e3o de cotas e a\u00e7\u00f5es afirmativas para negros e ind\u00edgenas.<\/strong><\/p>\n<p class=\"paddDestaq\">Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Excelent\u00edssimo Senhor Ministro Enrique Ricardo Lewandowski por me ter habilitado para representar nesta Audi\u00eancia P\u00fablica, o Centro de Estudos Africanos da Universidade de S. Paulo.<\/p>\n<p class=\"paddTexto\">Bem, eu ingressei no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancia sociais da Universidade de S. Paulo em 1.975. Fui o primeiro negro a concluir o doutorado em antropologia social nessa universidade em 1.977. Por mera coincid\u00eancia, esse primeiro negro era oriundo do continente africano e n\u00e3o do pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, ingressei na carreira docente na mesma institui\u00e7\u00e3o, no atual Departamento de Antropologia onde fui o primeiro e o \u00fanico negro professor, desde sua funda\u00e7\u00e3o. Daqui a tr\u00eas anos, estarei compulsoriamente me aposentando, sem ainda vislumbrar a possibilidade do segundo docente negro nesse Departamento.<\/p>\n<p>Creio que esta \u00e9 a hist\u00f3ria dos brasileiros afro-descendentes, n\u00e3o apenas nas universidades, mas tamb\u00e9m em outros setores da vida nacional que exigem forma\u00e7\u00e3o superior para ocupar cargos e postos de comando e responsabilidade.<\/p>\n<p>Quando se tem um, \u00e9 sempre o primeiro e o \u00fanico no exemplo da Casa que nos recebe), raramente o segundo e o terceiro. Encontrar tr\u00eas ou quatro juntos numa mesma institui\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 motivo de festa! Esse quadro \u00e9 considerado como gritante quando comparado ao dos outros pa\u00edses que convivem ou conviveram com as pr\u00e1ticas racistas como os Estados Unidos e a \u00c1frica do Sul. Os dados ao nosso conhecimento mostram que na v\u00e9spera do fim do regime do apartheid, a \u00c1frica do Sul tinha mais negros com diploma superior que o Brasil de hoje, incluindo o l\u00edder da luta antiapartheid, Nelson Mandela. S\u00f3 este exemplo basta para mostrar que algo est\u00e1 errado no pa\u00eds da \u201cdemocracia racial\u201d que precisa ser corrigido.<\/p>\n<p>Da\u00ed o sentido e a raz\u00e3o de ser das pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa ou de reserva de vagas nas universidades p\u00fablicas nacionais cujo processo de desencadeou principalmente ap\u00f3s a Terceira Confer\u00eancia Mundial contra o Racismo realizada na \u00c1frica do Sul, em 2.001.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos oito anos, a come\u00e7ar pelas universidades estaduais do Rio de Janeiro (UERJ) e do Norte Fluminense (UENF) onde a pol\u00edtica de cota foi implementada por meio de uma lei aprovada em 2001 na Assembl\u00e9ia Estadual do Rio de Janeiro, dezenas de universidades p\u00fablicas federais e estaduais adotaram o sistema de cotas a partir da decis\u00e3o de seus \u00f3rg\u00e3os internos e conselhos universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Contrariando todas as previs\u00f5es escatol\u00f3gicas daqueles que pensam que essa pol\u00edtica provocaria um racismo ao contr\u00e1rio, consequentemente uma guerra racial devido \u00e0 racializa\u00e7\u00e3o de todos os aspectos da vida nacional, a experi\u00eancia brasileira destes \u00faltimos anos mostra totalmente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve dist\u00farbios e linchamentos raciais em nenhum lugar como n\u00e3o apareceu nenhum movimento Ku Klux Klan \u00e0 brasileira, prova de que as mudan\u00e7as em processo est\u00e3o sendo bem digeridas e compreendidas pelo povo brasileiro. Mais do que isso, as avalia\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 o momento comprovam que apenas nesses \u00faltimos oito anos da experi\u00eancia das pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa, houve um \u00edndice de ingresso e de diplomados negros e ind\u00edgenas no ensino superior jamais alcan\u00e7ado em todo o s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>O que se busca pela pol\u00edtica de cotas para negros e ind\u00edgenas, n\u00e3o \u00e9 para ter direito \u00e1s migalhas, mas sim ter acesso ao topo em todos os setores de responsabilidade e de comando na vida nacional onde esses dois segmentos n\u00e3o s\u00e3o devidamente representados como manda a verdadeira democracia.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o profissional, t\u00e9cnica, universit\u00e1ria e intelectual de boa qualidade oferece a chave e a garantia de competitividade entre todos os brasileiros. Neste sentido, a pol\u00edtica de cotas busca a inclus\u00e3o daqueles brasileiros que por raz\u00f5es hist\u00f3ricas e estruturais que t\u00eam a ver com o nosso racismo \u00e0 brasileira, encontram barreiras que a educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o superior podem em parte remover. Infelizmente, alguns invertem a l\u00f3gica da proposta e v\u00eaem na pol\u00edtica de cotas a possibilidade de uma fratura da sociedade. Outros confessam que t\u00eam medo, mas medo de que? De errar ou de acertar? Uma sociedade que quer mudar n\u00e3o deve ter medo de conflitos, pois n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a poss\u00edvel sem erros e sem conflitos, penso eu.<\/p>\n<p>Alguns obst\u00e1culos propositalmente colocados sobre as chances de sucesso das pol\u00edticas de cotas se fizeram entender desde o in\u00edcio do processo em 2.002. Felizmente, foram, no decorrer do tempo e do processo, removidos um a um pela pr\u00f3pria pr\u00e1tica e experi\u00eancia das cotas nas universidades que as adotaram. Dizia-se no in\u00edcio que era dif\u00edcil definir quem \u00e9 negro ou afro-descendente por causa da intensa miscigena\u00e7\u00e3o ocorrida no pa\u00eds desde o seu descobrimento. Falsa dificuldade, porque a pr\u00f3pria exist\u00eancia da discrimina\u00e7\u00e3o racial anti-negro \u00e9 prova de que n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel identific\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Existem evidentemente casos limites que mereceriam uma aten\u00e7\u00e3o desdobrada para n\u00e3o se cometer erros, casos esses que dependem da auto-identifica\u00e7\u00e3o dos candidatos. A bem da verdade, n\u00e3o houve d\u00favidas sobre a identidade da maioria dos estudantes brasileiros que ingressaram na universidade atrav\u00e9s das cotas.<\/p>\n<p>Diz-se tamb\u00e9m, que essa pol\u00edtica \u00e9 importada em vez de ser uma solu\u00e7\u00e3o nacional, baseada na realidade brasileira. Ora, , sabemos todos que na hist\u00f3ria da humanidade nenhum povo inventa a totalidade de suas solu\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, parte importante de nossos modelos, seja no campo do pensamento, ci\u00eancia, tecnologia, pol\u00edtico, jur\u00eddico, etc., foi inspirada em ou importada de outros pa\u00edses onde obtiveram sucesso.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o fundamental \u00e9 saber reinterpret\u00e1-las e adapt\u00e1-las a nossas realidades antes de nos apropriarmos delas. Penso que n\u00e3o devemos sucumbir-nos ao sofisma diante de uma desigualdade racial t\u00e3o gritante em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o entre brasileiros.<\/p>\n<p>Dizia-se tamb\u00e9m que a pol\u00edtica das cotas violaria o princ\u00edpio do m\u00e9rito segundo o qual na luta pela vida os melhores devem ganhar. Pois bem, os melhores s\u00e3o aqueles que possuem armas mais eficazesa, que em nosso caso seriam alunos oriundos dos col\u00e9gios particulares melhor abastecidos. Os outros, que socialmente n\u00e3o nasceram com essas possibilidades, que se conformem!<\/p>\n<p>Finalmente, alegou-se que a pol\u00edtica das cotas iria prejudicar o princ\u00edpio de excel\u00eancia muito caro para as grandes universidades. Mas, felizmente, tamb\u00e9m as avalia\u00e7\u00f5es feitas sobre o desempenho dos alunos cotistas na maioria das universidades que aderiram ao sistema, n\u00e3o comprovou a cat\u00e1strofe. Surpreendentemente, os resultados do rendimento acad\u00eamico desses alunos foram iguais e at\u00e9 mesmo superiores. Nem tampouco baixo o n\u00edvel de excel\u00eancia dessas universidades.<\/p>\n<p>Sobrou apenas uma acusa\u00e7\u00e3o, que explica nossa presen\u00e7a nesta Magna Casa: a inconstitucionalidade da pol\u00edtica de a\u00e7\u00e3o afirmativa para ind\u00edgenas e afro-descendentes. Pois bem! Seria descab\u00edvel e at\u00e9 mesmo um contra-senso da minha parte, pela minha forma\u00e7\u00e3o como antrop\u00f3logo, ter a ousadia e o atrevimento para defender a constitucionalidade da pol\u00edtica das cotas numa casa composta pelos especialistas da Lei e das leis e diante de juristas altamente qualificados e conceituados para defender a constitucionalidade ou acusar a inconstitucionalidade das cotas com compet\u00eancia e propriedade. Como n\u00e3o me considero um franco atirador, prefiro ser aluno e repetir fielmente o que alguns juristas, inclusive nesta Casa, j\u00e1 disseram a respeito.<\/p>\n<p>Escreve Sidney Madruga, Procurador da Rep\u00fablica, em seu \u201cDiscrimina\u00e7\u00e3o Positiva: A\u00e7\u00f5es Afirmativas na Realidade Brasileira\u201d:<\/p>\n<p>\u201cA distin\u00e7\u00e3o entre o princ\u00edpio da isonomia formal e substancial ou material, sobressai ante o tema das a\u00e7\u00f5es afirmativas, as quais como destaca M\u00f4nica de Melo, buscam revigorar o princ\u00edpio da igualdade a partir de sua \u00f3tica material, da efetiva igualdade entre todos (&#8230;) [p.32] A igualdade formal seria a igualdade perante a lei. Ante a lei todos somos iguais sem distin\u00e7\u00e3o [op.cit.] A igualdade substancial, portanto, \u00e9 a busca da igualdade de fato, da efetiva\u00e7\u00e3o, da concretiza\u00e7\u00e3o dos postulados da igualdade perante a lei (igualdade formal) (&#8230;) [p.41] &#8211; Ainda assim, n\u00e3o se pode falar em desconex\u00e3o, mas numa diferencia\u00e7\u00e3o entre a igualdade formal e a substancial, p.42 A isonomia constitucional, registra Manoel Gon\u00e7alves Ferreira Filho, citado por H\u00e9dio Silva Jr., tamb\u00e9m abarca desiguala\u00e7\u00f5es, a fim de promover o bem de todos. Vale dizer, o princ\u00edpio da igualdade n\u00e3o pro\u00edbe de modo absoluto as diferencia\u00e7\u00f5es de tratamento, vedando apenas aquelas diferencia\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias. V\u00ea-se, portanto, conforme atesta Maria Garcia, que a igualdade traz em seu bojo um conceito relativo e relacional. Relativo, pois n\u00e3o pode ser compreendido num sentido absoluto; isto \u00e9, a m\u00e1xima \u201ctodos s\u00e3o iguais perante a lei\u201d passa a ser entendida como a composi\u00e7\u00e3o de duas afirma\u00e7\u00f5es distintas, a saber: o igual deve ser tratado igualmente e o desigual desigualmente, na medida exata de sua diferen\u00e7a (&#8230;) [p. 49-50].<br \/>\nAssim, igualdade tanto \u00e9 n\u00e3o discriminar, como discriminar em busca de uma maior equaliza\u00e7\u00e3o (discriminar positivamente) [p. 50].\u201d<\/p>\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o de muitos, essa concretude de direitos passa pela implementa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es afirmativas, que v\u00e3o al\u00e9m das barreiras a condutas anti-discriminat\u00f3rias, em desfavor de grupamentos humanos discriminados. Note-se, ainda, que a discrimina\u00e7\u00e3o positiva n\u00e3o tem apenas o escopo de prevenir a discrimina\u00e7\u00e3o, na medida em que, como possui duplo car\u00e1ter, qual seja o reparat\u00f3rio (corrigir injusti\u00e7as praticadas no passado) e o distributivo (melhor repartir, no presente, a igualdade de oportunidades) direcionados, principalmente para \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e do emprego. Os pronunciamentos de alguns ministros desta Casa s\u00e3o clar\u00edssimos e sem nenhuma ambig\u00fcidade sobre este assunto.<\/p>\n<p>Para concluir, penso que existe um debate na sociedade que envolve pensamentos, filosofias, representa\u00e7\u00f5es do mundo, ideologias e forma\u00e7\u00f5es diferentes. Esse pluralismo \u00e9 socialmente saud\u00e1vel, na medida em que pode contribuir para a conscientiza\u00e7\u00e3o de seus membros sobre seus problemas e auxiliar a quem de direito, na tomada de decis\u00f5es esclarecidas. Este debate se resume a duas abordagens dualistas. A primeira compreende todos aqueles que se inscrevem na \u00f3tica essencialista, segundo a qual existe uma natureza comum a todos os seres humanos em virtude da qual todos t\u00eam os mesmos direitos, independentemente de suas diferen\u00e7as de idade, sexo, ra\u00e7a, etnia, cultura, religi\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Trata-se de uma defesa clara do universalismo ou do humanismo abstrato, concebido como democr\u00e1tico. De fato, esse humanismo abstrato se op\u00f5e ao reconhecimento p\u00fablico das diferen\u00e7as entre brancos e n\u00e3o brancos, entre homens e mulheres, jovens, crian\u00e7as e adultos. As melhores pol\u00edticas p\u00fablicas, capazes de resolver as mazelas e as desigualdades na sociedade brasileira, deveriam ser somente macros sociais ou universalistas.<\/p>\n<p>Qualquer proposta de a\u00e7\u00e3o afirmativa vinda do Estado que introduza as diferen\u00e7as para lutar contra as desigualdades, \u00e9 considerada nessa abordagem, como um reconhecimento oficial das ra\u00e7as e, consequentemente, como uma racializa\u00e7\u00e3o do Brasil, cuja caracter\u00edstica dominante fundante \u00e9 a mesti\u00e7agem. Ou, em outras palavras, as pol\u00edticas de reconhecimento das diferen\u00e7as poderiam incentivar os conflitos raciais que, segundo postula, nunca existiram. Nesse sentido, a pol\u00edtica de cotas \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 mistura racial, ao ideal da paz consolidada pelo mito da democracia racial.<\/p>\n<p>A segunda abordagem re\u00fane todos aqueles que se inscrevem na postura nominalista ou construcionista, ou seja, os que se contrap\u00f5em ao humanismo abstrato e ao universalismo, rejeitando uma \u00fanica vis\u00e3o do mundo em que n\u00e3o se integram as diferen\u00e7as. Eles entendem o racismo como produ\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio destinado a funcionar como uma realidade a partir de uma dupla vis\u00e3o do outro diferente, isto \u00e9, do seu corpo mistificado e de sua cultura tamb\u00e9m mistificada.<\/p>\n<p>O outro existe primeiramente por seu corpo antes de se tornar uma realidade social. Neste sentido, se a ra\u00e7a n\u00e3o existe biologicamente, hist\u00f3rica e socialmente ela \u00e9 dada, pois no passado e no presente ela produz e produziu v\u00edtimas. Apesar do racismo n\u00e3o ter mais fundamento cient\u00edfico, tal como no s\u00e9culo XIX, e n\u00e3o se amparar hoje em nenhuma legitimidade racional, essa realidade social da ra\u00e7a que continua a passar pelos corpos das pessoas n\u00e3o pode ser ignorada.<\/p>\n<p>Grosso modo, eis as duas abordagens essenciais que nos dividem: intelectuais, estudiosos, midi\u00e1ticos, ativistas e pol\u00edticos, n\u00e3o apenas no Brasil, mas no mundo todo. Ambas produzem l\u00f3gicas e argumentos intelig\u00edveis e coerentes, numa vis\u00e3o que eu considero manique\u00edsta. A melhor abordagem, do meu ponto de vista, seria aquela que combina a aceita\u00e7\u00e3o da identidade humana gen\u00e9rica com a aceita\u00e7\u00e3o da identidade da diferen\u00e7a. Para ser um cidad\u00e3o do mundo, \u00e9 preciso ser, antes de mais nada, um cidad\u00e3o de algum lugar, observou Milton Santos num de seus textos.<\/p>\n<p>A cegueira para com a cor \u00e9 uma estrat\u00e9gia falha para se lidar com a luta antirracista, pois n\u00e3o permite a auto-defini\u00e7\u00e3o dos oprimidos e institui os valores do grupo dominante e, consequentemente, ignora a realidade da discrimina\u00e7\u00e3o cotidiana. A estrat\u00e9gia que obriga a tornar as diferen\u00e7as salientes em todas as circunst\u00e2ncias obriga a negar as semelhan\u00e7as e imp\u00f5e expectativas restringentes.<\/p>\n<p>No entanto, a discuss\u00e3o fica empobrecida quando se busca um posicionamento para saber se \u201cessa igualdade na igualdade\u201d \u00e9 bom ou ruim, pois a sociedade n\u00e3o funciona de maneira bin\u00e1ria (ou isso ou aquilo) pr\u00f3pria dos desajustados manique\u00edstas, mas sim na permanente tens\u00e3o entre diferentes for\u00e7as.<\/p>\n<p>Visto deste \u00e2ngulo, n\u00e3o creio que haja lei capaz de suprimir a mesti\u00e7agem ou de instituir a ra\u00e7a na sociedade brasileira, at\u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 isso que a lei busca.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es afirmativas nos Estados Unidos e na \u00cdndia n\u00e3o foram para criar ra\u00e7as ou castas que j\u00e1 existiam antes naquelas sociedades. As leis que proibiram os intercursos sexuais entre brancos e negros nos Estados unidos e na \u00c1frica do Sul em busca da pureza racial, n\u00e3o tiveram o \u00eaxito que delas se esperavam. A Constitui\u00e7\u00e3o da \u00cdndia de 1.950 aboliu o sistema de castas naquele pa\u00eds, embora, passados 60 anos, ele continuar a vigorar na pr\u00e1tica, provas de que as leis sozinhas n\u00e3o resolvem todos os problemas de uma sociedade.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa foram implementadas nesses pa\u00edses para corrigir os efeitos negativos acumulados e presentes causados pelas discrimina\u00e7\u00f5es e sobretudo pelo racismo institucional. Creio que isso \u00e9 tamb\u00e9m a l\u00f3gica dessa pol\u00edtica no Brasil que defendemos.<\/p>\n<p>Se a quest\u00e3o fundamental \u00e9 como combinar a semelhan\u00e7a com a diferen\u00e7a para podermos viver harmoniosamente, sendo iguais e diferentes, porque n\u00e3o podemos tamb\u00e9m combinar as pol\u00edticas universalistas com as pol\u00edticas diferencialistas? Diante do abismo em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o superior, entre brancos e negros, brancos e \u00edndios, e levando-se em conta outros indicadores s\u00f3cio-econ\u00f4micos provenientes dos estudos estat\u00edsticos do IBGE e do IPEA, os demais \u00edndices de desenvolvimento humano provenientes dos estudos do PNUD, as pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa se imp\u00f5em com urg\u00eancia, sem que se abra m\u00e3o das pol\u00edticas macros sociais.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum defensor das cotas que se oponha \u00e0 melhoria do ensino p\u00fablico. Pelo contr\u00e1rio, os que criticam as cotas e as pol\u00edticas diferencialistas se op\u00f5em categoricamente a qualquer pol\u00edtica de diferencia\u00e7\u00e3o por consider\u00e1-las a favor da racializa\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>As leis para a regulariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e das terras das comunidades quilombolas, de acordo com o art. 68 da Constitui\u00e7\u00e3o, das leis 10.639\/03 e 11.645\/08, que tornam obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria da \u00c1frica, do negro no Brasil e dos povos ind\u00edgenas; as pol\u00edticas de sa\u00fade para doen\u00e7as espec\u00edficas da popula\u00e7\u00e3o negra como a anemia falciforme, etc., tudo isso \u00e9 considerado como racializa\u00e7\u00e3o do Brasil, e virou motivo de piada. Para alguns, a defesa da melhoria da escola p\u00fablica \u00e9 apenas um bom \u00e1libi para criticar as pol\u00edticas focadas de a\u00e7\u00e3o afirmativa.<\/p>\n<p>Creio, Senhor Ministro, que uma pol\u00edtica que integre os cidad\u00e3os brasileiros, que por motivos hist\u00f3ricos e estruturais vinculados \u00e0 ideologia racista, n\u00e3o deveria ser considerada anti-constitucional, ou como uma pol\u00edtica que divide a sociedade brasileira. Mas como n\u00e3o h\u00e1 unanimidade em mat\u00e9ria de interpreta\u00e7\u00e3o das leis e da Carta magna da na\u00e7\u00e3o brasileira, resta, para n\u00f3s, as pessoas comuns apenas a esperan\u00e7a de que os que de direito possam nos oferecer a senten\u00e7a que desejamos.<\/p>\n<p>Muito lhe agrade\u00e7o, Senhor Ministro, pela oportunidade de defender, sem medo de errar, os interesses de um segmento importante da sociedade brasileira, que s\u00e3o tamb\u00e9m os interesses do Brasil.<\/p>\n<p class=\"paddTexto\">* Possui gradua\u00e7\u00e3o em Curso de Antropologia Cultural pela Universit\u00e9 Officielle Du Congo \u00e0 Lubumbashi (1969) e doutorado em Ci\u00eancia Social (Antropologia Social) pela Universidade de S\u00e3o Paulo (1977) . Atualmente \u00e9 professor titular da Universidade de S\u00e3o Paulo, Membro de corpo editorial da \u00c1frica (S\u00e3o Paulo), Membro de corpo editorial da Tricontinental &#8211; Revista PEC-G (UFPB), Membro de corpo editorial da Humanitas (PUCCAMP) e Membro de corpo editorial da Revista Digital Intoler\u00e2ncia. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Antropologia, com \u00eanfase em Antropologia das Popula\u00e7\u00f5es Afro-Brasileiras. Atuando principalmente nos seguintes temas: mesti\u00e7agem, identidade nacional, Identidade Negra.<br \/>\n<strong>______________<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p class=\"paddTexto\"><strong>Fonte: <\/strong> <a href=\"http:\/\/www.afropress.com\/colunistasLer.asp?id=703\">Afropress<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Bem, eu ingressei no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancia sociais da Universidade de S. Paulo em 1.975. 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