{"id":14880,"date":"2010-04-13T08:20:15","date_gmt":"2010-04-13T11:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=14880"},"modified":"2010-04-13T08:20:15","modified_gmt":"2010-04-13T11:20:15","slug":"os-dez-mandamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=14880","title":{"rendered":"Os Dez Mandamentos"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Mois\u00e9s e as t\u00e1buas da lei.\" src=\"http:\/\/farm4.static.flickr.com\/3467\/3203021711_10308605e1_o.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"320\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Mois\u00e9s e as t\u00e1buas da lei.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por <\/strong><strong> Ladislau Dowbor<\/strong> *<em><\/p>\n<p><\/em><\/p>\n<div>Como sociedade, desejamos n\u00e3o somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque n\u00e3o, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados m\u00ednimos a serem atingidos, com os processos decis\u00f3rios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados t\u00eam um denominador comum: todos j\u00e1 foram experimentados e est\u00e3o sendo aplicados em diversas regi\u00f5es do mundo, setores ou inst\u00e2ncias de atividade. S\u00e3o iniciativas que deram certo, e cuja generaliza\u00e7\u00e3o, com as devidas adapta\u00e7\u00f5es e flexibilidade em fun\u00e7\u00e3o da diversidade planet\u00e1ria,\u00a0 \u00e9 hoje vi\u00e1vel. N\u00e3o temos a ilus\u00e3o relativamente \u00e0 dist\u00e2ncia entre a realidade pol\u00edtica de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necess\u00e1rias, pois ter um norte mais claro ajuda na constru\u00e7\u00e3o de uma outra governan\u00e7a planet\u00e1ria. N\u00e3o est\u00e3o ordenadas por\u00a0 ordem de import\u00e2ncia, pois a maioria tem implica\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas e dimens\u00f5es interativas. Mas todos os mandamentos dever\u00e3o ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingir\u00e1 a todos, sem precisar esperar a outra vida.<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando que a obedi\u00eancia \u00e0 vers\u00e3o original dos Dez Mandamentos foi apenas aleat\u00f3ria, desta vez o Autor teve a prud\u00eancia de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explica\u00e7\u00e3o, destinada em particular aos impenitentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-weight: bold;\">I \u2013 N\u00e3o comprar\u00e1s os Representantes do Povo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resgatar a dimens\u00e3o p\u00fablica do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se \u00e9 o dinheiro das corpora\u00e7\u00f5es a regular que elege os reguladores? Se as ag\u00eancias que avaliam risco s\u00e3o pagas por quem cria o risco? Se \u00e9 aceit\u00e1vel que os respons\u00e1veis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar\u00a0 emprego?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das propostas mais evidentes da \u00faltima crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro pol\u00edtico, \u00e9 a necessidade de se reduzir a capacidade das corpora\u00e7\u00f5es privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transa\u00e7\u00f5es financeiras, de reduzir a regula\u00e7\u00e3o de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer opera\u00e7\u00e3o, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os pol\u00edticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e n\u00e3o por pessoas jur\u00eddicas, que constituem fic\u00e7\u00f5es em termos de direitos humanos. Enquanto n\u00e3o tivermos financiamento p\u00fablico das campanhas, pol\u00edticas que representem os interesses dos cidad\u00e3os, prevalecer\u00e3o os interesses econ\u00f4micos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">II \u2013 N\u00e3o Far\u00e1s Contas erradas<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As contas t\u00eam de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas n\u00e3o nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta disp\u00f5e. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doen\u00e7as, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH j\u00e1 foi um imenso avan\u00e7o, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esfor\u00e7os, e particularmente da aloca\u00e7\u00e3o de recursos financeiros, em fun\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento que n\u00e3o seja apenas economicamente vi\u00e1vel, mas tamb\u00e9m socialmente justo e ambientalmente sustent\u00e1vel. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos pa\u00edses, setores ou pesquisas. A amplia\u00e7\u00e3o dos indicadores internacionais como o IDH, a generaliza\u00e7\u00e3o de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comiss\u00e3o Stiglitz\/Sen\/Fitoussi, o movimento FIB \u2013 Felicidade Interna Bruta \u2013 todos apontam para uma reformula\u00e7\u00e3o das contas. A ado\u00e7\u00e3o em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida \u2013 veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators \u2013 tornou-se hoje indispens\u00e1vel para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustent\u00e1vel, o resultado em termos de qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">III \u2013 N\u00e3o Reduzir\u00e1s o Pr\u00f3ximo \u00e0 Mis\u00e9ria<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas coisas n\u00e3o podem faltar a ningu\u00e9m. A pobreza cr\u00edtica \u00e9 o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articula\u00e7\u00e3o com os dramas ambientais, o n\u00e3o acesso ao conhecimento, a deforma\u00e7\u00e3o do perfil de produ\u00e7\u00e3o que se desinteressa das necessidades dos que n\u00e3o t\u00eam capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (no valor do ano 2000) tirar da mis\u00e9ria um bilh\u00e3o de pessoas que vivem com menos de um d\u00f3lar por dia. S\u00e3o custos rid\u00edculos quando se considera os trilh\u00f5es transferidos para grupos econ\u00f4micos financeiros no quadro da \u00faltima crise financeira. O benef\u00edcio \u00e9tico \u00e9 imenso, pois \u00e9 inaceit\u00e1vel morrerem de causas rid\u00edculas 10 milh\u00f5es de crian\u00e7as por ano. O benef\u00edcio de curto e m\u00e9dio prazo \u00e9 grande, na medida em que os recursos direcionados \u00e0 base da pir\u00e2mide dinamizam imediatamente a micro e pequena produ\u00e7\u00e3o, agindo como processo antic\u00edclico, como se tem constatado nas pol\u00edticas sociais de muitos pa\u00edses. No mais longo prazo, ser\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as que ter\u00e3o sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade pol\u00edtica e de seguran\u00e7a geral, os impactos s\u00e3o \u00f3bvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experi\u00eancias brasileira, mexicana e de outros pa\u00edses j\u00e1 nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria t\u00e3o popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, \u00e9 simplesmente desmentida pelos fatos: sair da mis\u00e9ria estimula, e o dinheiro \u00e9 simplesmente mais \u00fatil onde \u00e9 mais necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">IV \u2013 N\u00e3o Privar\u00e1s Ningu\u00e9m do Direito de Ganhar o seu P\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Universalizar a garantia do emprego \u00e9 vi\u00e1vel. Toda pessoa que queira ganhar o p\u00e3o da sua fam\u00edlia deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde h\u00e1 um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, \u00e9 absurdo o n\u00famero de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos t\u00e9cnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente \u00fatil. As experi\u00eancias de Maharashtra na \u00cdndia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experi\u00eancias brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. S\u00e3o op\u00e7\u00f5es onde todos ganham: o munic\u00edpio melhora o saneamento b\u00e1sico, a moradia, a manuten\u00e7\u00e3o urbana, a policultura alimentar. As fam\u00edlias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade \u00e9 obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em m\u00e3o de obra. Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e d\u00e1 excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na constru\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento sustent\u00e1vel. Na organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, al\u00e9m do resultado produtivo, \u00e9 essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oce\u00e2nica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo \u00e9 desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milh\u00f5es de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimens\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de emprego de todas as iniciativas econ\u00f4micas tem de se tornar central. Assegurar a contribui\u00e7\u00e3o produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o sal\u00e1rio m\u00ednimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">V \u2013 N\u00e3o Trabalhar\u00e1s Mais de Quarenta Horas<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho \u00e9 um problema planet\u00e1rio, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milh\u00f5es de pessoas na PEA, temos 31 milh\u00f5es formalmente empregadas no setor privado, e 9 milh\u00f5es de empregados p\u00fablicos. A conta n\u00e3o fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da na\u00e7\u00e3o \u201cse vira\u201d para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas n\u00e3o vivem por excesso de carga de trabalho. N\u00e3o se trata aqui de uma exig\u00eancia de luxo: s\u00e3o incont\u00e1veis os suic\u00eddios nas empresas onde a corrida pela efici\u00eancia se tornou simplesmente desumana. O stress profissional est\u00e1 se tornando uma doen\u00e7a planet\u00e1ria, e a quest\u00e3o da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espa\u00e7o central.\u00a0 A redistribui\u00e7\u00e3o social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resist\u00eancias s\u00e3o compreens\u00edveis, mas a realidade \u00e9 que com os avan\u00e7os da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em m\u00e3o de obra, e reduzir a jornada \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo. N\u00e3o podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnol\u00f3gicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de exclu\u00eddos, inclusive porque se trata de equilibrar a remunera\u00e7\u00e3o e, consequentemente, a demanda. A redu\u00e7\u00e3o da jornada n\u00e3o reduzir\u00e1 o bem estar ou a riqueza da popula\u00e7\u00e3o, e sim a deslocar\u00e1 para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. N\u00e3o precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">VI \u2013 N\u00e3o Viver\u00e1s para o Dinheiro<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mudan\u00e7a de comportamento, de estilo de vida, n\u00e3o constitui um sacrif\u00edcio, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilh\u00f5es de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milh\u00f5es,\u00a0 toda pol\u00edtica envolve tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito \u00e0s normas ambientais, a modera\u00e7\u00e3o do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generaliza\u00e7\u00e3o da reciclagem, a redu\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio \u2013 h\u00e1 um conjunto de formas de organiza\u00e7\u00e3o do nosso cotidiano que passa por uma mudan\u00e7a de valores e de atitudes frente aos desafios econ\u00f4micos, sociais e ambientais. No apag\u00e3o energ\u00e9tico do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da m\u00eddia, e a puni\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos excessos permitiu uma racionaliza\u00e7\u00e3o generalizada do uso dom\u00e9stico da energia. Esta dimens\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o dos problemas \u00e9 essencial, e envolve tanto uma legisla\u00e7\u00e3o adequada, como sobretudo uma participa\u00e7\u00e3o ativa da m\u00eddia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje 95% dos domic\u00edlios no Brasil t\u00eam televis\u00e3o, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunica\u00e7\u00e3o tornou-se fundamental. Frente aos esfor\u00e7os necess\u00e1rios para reequilibrar o planeta, n\u00e3o basta reduzir o martelamento publicit\u00e1rio que apela para o consumismo desenfreado, \u00e9 preciso generalizar as dimens\u00f5es informativas dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A m\u00eddia cient\u00edfica praticamente desapareceu, os notici\u00e1rios navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma popula\u00e7\u00e3o informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 se \u201c\u00e9 bom para mim\u201d, mas se \u00e9 bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equil\u00edbrio razo\u00e1vel. A op\u00e7\u00e3o individual \u00e9 essencial, mas n\u00e3o suficiente. Grande parte da mudan\u00e7a do comportamento individual depende de a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas: as pessoas n\u00e3o deixar\u00e3o o carro em casa (ou deixar\u00e3o de t\u00ea-lo) se n\u00e3o houver transporte p\u00fablico, n\u00e3o far\u00e3o reciclagem se n\u00e3o houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma pol\u00edtica p\u00fablica de mudan\u00e7a do comportamento individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">VII \u2013\u00a0 N\u00e3o Ganhar\u00e1s Dinheiro com o Dinheiro dos Outros<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Racionalizar os sistemas de intermedia\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 vi\u00e1vel. A aloca\u00e7\u00e3o final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em fun\u00e7\u00e3o dos usos finais de est\u00edmulo e orienta\u00e7\u00e3o de atividades econ\u00f4micas e sociais, para obedecer \u00e0s finalidades dos pr\u00f3prios intermedi\u00e1rios financeiros. A atividade de cr\u00e9dito \u00e9 sempre uma atividade p\u00fablica, seja no quadro das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do p\u00fablico, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a aus\u00eancia de mecanismos confi\u00e1veis de regula\u00e7\u00e3o no setor. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as permita a reformula\u00e7\u00e3o do sistema de regula\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da produtividade sist\u00eamica dos recursos. Enquanto n\u00e3o se gera uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mais favor\u00e1vel, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regula\u00e7\u00e3o financeira. O dinheiro n\u00e3o \u00e9 mais produtivo onde rende mais para o intermedi\u00e1rio: devemos buscar a produtividade sist\u00eamica de um recurso que \u00e9 p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Cor\u00e9ia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para financiar transporte coletivo e alternativas energ\u00e9ticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo \u00e9 ambiental pela redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es, \u00e9 anti-c\u00edclico pela dinamiza\u00e7\u00e3o da demanda, \u00e9 social pela redu\u00e7\u00e3o do desemprego e pela renda gerada, \u00e9 tecnol\u00f3gico pelas inova\u00e7\u00f5es que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do tempo vida que as pessoas desperdi\u00e7am no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento p\u00fablico, pois os bancos comerciais n\u00e3o teriam esta preocupa\u00e7\u00e3o, nem esta vis\u00e3o sist\u00eamica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em \u00faltima inst\u00e2ncia, os recursos devem ser tornados mais acess\u00edveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sist\u00eamicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustent\u00e1vel. A intermedia\u00e7\u00e3o financeira \u00e9 um meio, n\u00e3o \u00e9 um fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Particular aten\u00e7\u00e3o precisa ser dada aos intermedi\u00e1rios que ganham apenas nos fluxos entre outros intermedi\u00e1rios \u2013 com pap\u00e9is que representam direitos sobre outros pap\u00e9is \u2013 e que t\u00eam tudo a ganhar com a maximiza\u00e7\u00e3o dos fluxos, pois s\u00e3o remunerados por comiss\u00f5es sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilh\u00f5es de d\u00f3lares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermedia\u00e7\u00e3o especulativa \u2013 diferentemente das intermedia\u00e7\u00e3o de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais \u2013 apenas gera uma pir\u00e2mide especulativa e inseguran\u00e7a, al\u00e9m de desorganizar os mercados e as pol\u00edticas econ\u00f4micas.[1]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-weight: bold;\">VIII \u2013 N\u00e3o Tributar\u00e1s Boas Iniciativas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma pol\u00edtica tribut\u00e1ria equilibrada na cobran\u00e7a, e reorientada na aplica\u00e7\u00e3o dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democr\u00e1ticos. O eixo central n\u00e3o est\u00e1 na redu\u00e7\u00e3o dos impostos, e sim na cobran\u00e7a socialmente mais justa e na aloca\u00e7\u00e3o mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxa\u00e7\u00e3o das transa\u00e7\u00f5es especulativas (nacionais ou internacionais) dever\u00e1 gerar fundos para financiar uma s\u00e9rie de pol\u00edticas essenciais para o reequil\u00edbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas \u00e9 hoje essencial para reduzir o poder pol\u00edtico das dinastias econ\u00f4micas (10% das fam\u00edlias do planeta \u00e9 dono de 90% do patrim\u00f4nio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a heran\u00e7a \u00e9 fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gera\u00e7\u00f5es. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com al\u00edquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. \u00c9 importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral est\u00e3o vinculadas n\u00e3o a um acr\u00e9scimo de capacidades produtivas do planeta, e sim \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o maior de empresas por um s\u00f3 grupo, gerando uma pir\u00e2mide cada vez mais inst\u00e1vel e menos govern\u00e1vel de propriedades cruzadas, imp\u00e9rios onde a grande luta \u00e9 pelo controle do poder financeiro, pol\u00edtico e midi\u00e1tico, e a apropria\u00e7\u00e3o de recursos naturais. O sistema tribut\u00e1rio tem de ser reformulado no sentido anti-c\u00edclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equil\u00edbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de prote\u00e7\u00e3o ambiental ao taxar emiss\u00f5es t\u00f3xicas ou geradoras de mudan\u00e7a clim\u00e1tica, bem como o uso de recursos naturais n\u00e3o renov\u00e1veis.[2]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poder redistributivo do Estado \u00e9 grande, tanto pelas pol\u00edticas que executa \u2013 por exemplo as pol\u00edticas de sa\u00fade, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o n\u00edvel de consumo coletivo\u00a0 \u2013 como pelas que pode fomentar, como op\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas, inclus\u00e3o digital e assim por diante. Fundamental tamb\u00e9m \u00e9 a pol\u00edtica redistributiva que envolve pol\u00edtica salarial, de previd\u00eancia, de cr\u00e9dito, de pre\u00e7os, de emprego. A forte presen\u00e7a das corpora\u00e7\u00f5es junto ao poder pol\u00edtico constitui um dos entraves principais ao equil\u00edbrio na aloca\u00e7\u00e3o de recursos. O essencial \u00e9 assegurar que todas as propostas de aloca\u00e7\u00e3o de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econ\u00f4mico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes pol\u00edticas sociais (\u201cBolsa-Fam\u00edlia\u201d, pol\u00edticas de previd\u00eancia etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam \u00e0 \u201cbase da pir\u00e2mide\u201d, s\u00e3o incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redu\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamiza\u00e7\u00e3o de atividades econ\u00f4micas induzidas pela demanda local. A democratiza\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 fundamental. A apropria\u00e7\u00e3o dos mecanismos decis\u00f3rios sobre a aloca\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos est\u00e1 no centro dos processos de corrup\u00e7\u00e3o, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; font-weight: bold;\">IX \u2013 N\u00e3o Privar\u00e1s o Pr\u00f3ximo do Direito ao Conhecimento<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Travar o acesso ao conhecimento e \u00e0s tecnologias sustent\u00e1veis n\u00e3o faz o m\u00ednimo sentido. A participa\u00e7\u00e3o efetiva das popula\u00e7\u00f5es nos processos de desenvolvimento sustent\u00e1vel envolve um denso sistema de acesso p\u00fablico e gratuito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. A conectividade planet\u00e1ria que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benef\u00edcio da inclus\u00e3o digital generalizada \u00e9 simplesmente imbat\u00edvel, pois \u00e9 um programa que desonera as inst\u00e2ncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o se tornam sujeitos do seu pr\u00f3prio desenvolvimento. A rapidez da apropria\u00e7\u00e3o deste tipo de tecnologia at\u00e9 nas regi\u00f5es mais pobres se constata na propaga\u00e7\u00e3o do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo \u00e9 imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclus\u00e3o digital generalizada \u00e9 um destravador potente do conjunto do processo de mudan\u00e7a que hoje se torna indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo frequentemente esquece que 2 bilh\u00f5es de pessoas ainda cozinham com lenha, \u00e1rea em que h\u00e1 inova\u00e7\u00f5es significativas no aproveitamento cal\u00f3rico por meio de fog\u00f5es melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de prote\u00e7\u00e3o dos cultivos etc., constituem um vetor de mudan\u00e7a da cultura dos processos produtivos. A cria\u00e7\u00e3o de redes de n\u00facleos de fomento tecnol\u00f3gico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experi\u00eancia da \u00cdndia, onde foram criados n\u00facleos em praticamente todas as vilas do pa\u00eds. O World Economic and Social Survey 2009 \u00e9 particularmente eloquente ao defender a flexibiliza\u00e7\u00e3o de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da popula\u00e7\u00e3o mundial o acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas exigidas por um desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: bold;\">X \u2013 N\u00e3o Controlar\u00e1s a Palavra do Pr\u00f3ximo<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Democratizar a comunica\u00e7\u00e3o tornou-se essencial. A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das \u00e1reas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transforma\u00e7\u00f5es da sociedade. Estamos em perman\u00eancia cercados de mensagens. As nossas crian\u00e7as passam horas submetidas \u00e0 publicidade ostensiva ou disfar\u00e7ada. A ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o, com sua fant\u00e1stica concentra\u00e7\u00e3o internacional e nacional\u00a0 \u2013 e a sua crescente intera\u00e7\u00e3o entre os dois n\u00edveis \u2013 gerou uma m\u00e1quina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que refor\u00e7a o elitismo, as desigualdades, o desperd\u00edcio de recursos como s\u00edmbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos pre\u00e7os dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corpora\u00e7\u00e3o utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustent\u00e1vel e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagn\u00e9tico em que estas mensagens navegam \u00e9 p\u00fablico, e o acesso a uma informa\u00e7\u00e3o inteligente e gratuita para todo o planeta, \u00e9 simplesmente vi\u00e1vel. Expandindo gradualmente as in\u00fameras formas alternativas de m\u00eddia que surgem por toda parte, h\u00e1 como introduzir uma cultura nova, outras vis\u00f5es de mundo, cultura diversificada e n\u00e3o pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato que mais inspira esperan\u00e7a \u00e9 a multiplica\u00e7\u00e3o impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gest\u00e3o local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produ\u00e7\u00e3o menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que come\u00e7ar a construir uma vida mais digna para o \u201candar de baixo\u201d, para os dois ter\u00e7os de exclu\u00eddos, n\u00e3o gera trag\u00e9dias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passar\u00e3o a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilh\u00e3o de pessoas passam fome, onde 10 milh\u00f5es de crian\u00e7as morrem anualmente de causas rid\u00edculas, e onde se dilapidam os recursos naturais das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, em proveito de fortunas irrespons\u00e1veis, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta \u00e9poca interativa, o Alt\u00edssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Alt\u00edssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugest\u00f5es ou necessitem consultar documentos mais completos, poder\u00e3o se instruir com outros Assessores, em linha direta sob <span class=\"link-external\"><a href=\"http:\/\/www.criseoportunidade.wordpress.com\">www.criseoportunidade.wordpress.com<\/a><\/span> Cr\u00edticas, naturalmente, dever\u00e3o ser endere\u00e7adas a Inst\u00e2ncias Superiores. Aprecia\u00e7\u00f5es positivas e sugest\u00f5es de outros Mandamentos poder\u00e3o ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail <span class=\"link-mailto\"><a href=\"mailto:ladislau@dowbor.org\">ladislau@dowbor.org<\/a><br \/>\n_______________________________<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"link-mailto\"><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.rts.org.br\/artigos\/artigos_-_2009\/os-dez-mandamentos\">Blog Crise e Oportunidade\/RTS<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Como sociedade, desejamos n\u00e3o somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque n\u00e3o, com felicidade.&#8221; O (bem-vindo) upgrade \u00e9 do Ladislaw 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