{"id":16169,"date":"2010-06-23T09:03:57","date_gmt":"2010-06-23T12:03:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=16169"},"modified":"2010-06-23T09:03:57","modified_gmt":"2010-06-23T12:03:57","slug":"quem-vai-ter-coragem-de-incluir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=16169","title":{"rendered":"Quem vai ter coragem de incluir?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/participacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-12981\" title=\"Inclusive - alunos fazendo arte e pinturas no ch\u00e3o.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/participacao.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"147\" \/><\/a>Educa\u00e7\u00e3o privada \u00e9 para poucos e, quando se trata de crian\u00e7as com defici\u00eancia, a restri\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda maior. No Paran\u00e1, existem apenas 3,6% de alunos deficientes que conseguiram entrar na rede privada do ensino regular. \u00c9 um n\u00famero que daria para contar nos dedos. A desculpa esbarra sempre na quest\u00e3o arquitet\u00f4nica: o col\u00e9gio \u00e9 antigo, tem escadas e n\u00e3o d\u00e1 para adaptar. E, para aqueles que conseguem transpor as escadas, a defici\u00eancia intelectual (ou mental) acaba sendo o empecilho: nesses casos, a Escolacostuma dizer que n\u00e3o tem mais vagas. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Uma conversa com pais e representantes de Escolas responde a pergunta. O que falta mesmo \u00e9 coragem da sociedade para fazer com que a inclus\u00e3o aconte\u00e7a. Em tempos em que se pede aos quatro cantos pela igualdade, ainda existem crian\u00e7as que chegam \u00e0 Escola e reproduzem o preconceito que \u00e9 desenvolvido e alimentado dentro de casa. Elas dizem ao colega deficiente: \u201cPapai falou que n\u00e3o era para eu ficar perto de voc\u00ea.\u201d Esse caso aconteceu em uma Escola privada de Curitiba. Uma pesquisa feita neste ano em 501Escolas p\u00fablicas do Brasil comprova o preconceito: 96,5% dos 18,5 mil entrevistados disseram ter alguma restri\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a portadores de necessidades especiais. E a discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o para por a\u00ed.<\/p>\n<p>A diretora do Col\u00e9gio Atua\u00e7\u00e3o, Cristina Pereira, lembra que as Escolas precisam incluir em todos os aspectos. \u201cOs pais de uma aluna branca e loira resolveram tir\u00e1-la da Escola porque uma aluna negra a mordeu. Quando o acidente aconteceu com outra aluna branca, por\u00e9m, eles n\u00e3o fizeram nada\u201d, diz. Se a discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a ainda existe, o preconceito contra os deficientes \u00e9 ainda maior porque a ideia da inclus\u00e3o deles nas Escolas regulares \u00e9 recente. Faz 15 anos que o governo federal entendeu e recomendou, com base na Cons\u00actitui\u00e7\u00e3o, a conviv\u00eancia entre todos os tipos de educandos \u2013 surdos e ouvintes, cadeirantes e caminhantes. Mas, se n\u00e3o houver algu\u00e9m que comece a enfrentar o assunto, pouco vai mudar.<\/p>\n<p>Acessibilidade<br \/>\nVerbas para Escolas p\u00fablicas<\/p>\n<p>A partir do dia 31 deste m\u00eas, as Escolas p\u00fablicas que t\u00eam alunos deficientes matriculados poder\u00e3o apresentar planos de trabalho com pedido de recursos ao Programa EscolaAcess\u00edvel. Os repasses variam de R$ 12 mil a R$ 18 mil, segundo o n\u00famero de matr\u00edculas da institui\u00e7\u00e3o de ensino no Censo Escolar. Os pedidos devem ser feitos por meio do Sistema Integrado de Planejamento, Or\u00e7amento e Finan\u00e7as do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC).<\/p>\n<p>De acordo com a Resolu\u00e7\u00e3o n.\u00ba 10\/2010, do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o (FNDE), podem fazer planos e pedir recursos as Escolas que participaram, entre 2005 e 2008, do Programa de Implanta\u00e7\u00e3o de Salas de Recursos Multifuncionais, desenvolvido pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Especial (Seesp) do MEC.<\/p>\n<p>Os recursos, transferidos pelo Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), s\u00e3o para iniciativas de adequa\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica ou estrutural de espa\u00e7o f\u00edsico e aquisi\u00e7\u00e3o de mobili\u00e1rio acess\u00edvel, cadeira de rodas, material desportivo acess\u00edvel e outros recursos de tecnologia assistiva.<\/p>\n<p>Experi\u00eancias<\/p>\n<p>A s\u00edndrome de Down de Manoel Fernandes Cachoeira, 2 anos, \u00e9 invis\u00edvel aos olhos dos coleguinhas. Ele estuda no maternal do Col\u00e9gio Integral e est\u00e1 superando os pr\u00f3prios limites quando percebe no outro a possibilidade de ir al\u00e9m. \u201cAs crian\u00e7as s\u00e3o como um espelho para Manoel, no qual ele se enxerga e quer fazer igual. Isso tem ajudado nosso filho a se desenvolver muito melhor\u201d, afirma o pai, Paulo Cachoeira. Desde que come\u00e7ou a frequentar a Escola, Manoel conseguiu evoluir nas quest\u00f5es cognitivas e motoras.<\/p>\n<p>Pedagogos s\u00e3o un\u00e2nimes em dizer que quanto mais cedo a inclus\u00e3o acontecer, mais facilmente a crian\u00e7a com defici\u00eancia se sentir\u00e1 acolhida pela sociedade e conseguir\u00e1, assim, desenvolver um futuro promissor. \u201cAt\u00e9 a 4.\u00aa s\u00e9rie a inclus\u00e3o \u00e9 tranquila. As crian\u00e7as n\u00e3o enxergam as diferen\u00e7as. Depois disso \u00e9 complicado, o adolescente n\u00e3o tem paci\u00eancia e acaba se isolando. Por isso enfatizamos a import\u00e2ncia desse aluno ter um grupo de amigos, de come\u00e7ar a estudar cedo e da necessidade de haver sempre transpar\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o entre fam\u00edlia e Escola\u201d, afirma a pedagoga Marisa Pan, do Col\u00e9gio Integral.<\/p>\n<p>O estudante Bruce Za po toczny, 8 anos, encontrou na amizade dos colegas de classe uma maneira de participar dos jogos de futebol, esporte de que tanto gosta, mas que n\u00e3o consegue praticar porque teve paralisia cerebral e perdeu a capacidade motora dos bra\u00e7os e pernas. \u201cOs amigos empurram a cadeira de rodas para a quadra de esportes \u2013 a tutora vai junto \u2013, lhe d\u00e3o um apito e ele fica respons\u00e1vel por apitar sempre que sai um gol\u201d, conta emocionado o pai Iverson.<\/p>\n<p>Bruce, que n\u00e3o teve comprometimento na parte cognitiva, est\u00e1 no 3.\u00ba ano da EscolaMunicipal professor Guilherme Butler. Como estudou em creches e entrou no col\u00e9gio desde o 1.\u00ba ano do ensino regular, j\u00e1 se sente inclu\u00eddo. \u201cEle foi nosso primeiro aluno com defici\u00eancia. Quando fez a matr\u00edcula, participamos de uma reuni\u00e3o para ver quais seriam as necessidades dele e conseguimos atend\u00ea-las.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil porque nem todos est\u00e3o preparados, mas quando h\u00e1 boa vontade tudo \u00e9 poss\u00edvel. Quem comanda a turma \u00e9 o Bruce, ele nos ensinou muitas coisas\u201d, conta a pedagoga da Escola, Clarisn\u00e9ia Schilipack.<\/p>\n<p>Nas Escolas p\u00fablicas a inclus\u00e3o \u00e9 maior do que nas particulares. Dados recentes da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Especial do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) mostram que 59,4% dosalunos com defici\u00eancia no Paran\u00e1 est\u00e3o inclu\u00eddos em salas de aula do ensino regular da rede p\u00fablica, contra os 3,6% na rede particular. No Brasil s\u00e3o 80,4% dos deficientes na rede p\u00fablica regular e apenas 11,5% nas particulares. E um dos motivos para tamanha diferen\u00e7a pode estar justamente no fato de que as p\u00fablicas n\u00e3o podem negar a vaga, enquanto as particulares, em geral, criaram um regimento que diz que pode haver apenas um alunodeficiente por turma (\u00e0s vezes nem isso \u00e9 cumprido). O motivo \u00e9 pedag\u00f3gico, porque n\u00e3o basta colocar o aluno na sala: \u00e9 preciso for\u00e7a de vontade para adaptar o curr\u00edculo de acordo com as necessidades dele e assim inclu\u00ed-lo de fato. O esfor\u00e7o existe, mas infelizmente n\u00e3o chegou a todas as Escolas privadas do Brasil.<\/p>\n<p>Adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 pequena<\/p>\n<p>O Paran\u00e1 est\u00e1 bem melhor do que o Brasil quando o assunto \u00e9 Escola adaptada. Enquanto nacionalmente existem 17,4% de Escolas preparadas para receber o deficiente, no estado s\u00e3o 31,6%. Curitiba chega a um porcentual ainda me lhor, de 43,7% de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas Escolas municipais da capital paranaense, o \u00edndice de adapta\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica \u00e9 alto: existem 179 col\u00e9gios e 175 est\u00e3o aptos para receber cadeirantes. Dos 171 Centros deEduca\u00e7\u00e3o Infantil, existem 85 adaptados. A realidade, por\u00e9m, \u00e9 um pouco diferente nasEscolas estaduais.<\/p>\n<p>Das 2.126 Escolas p\u00fablicas da rede estadual do Paran\u00e1, 559 t\u00eam atendimento na \u00e1rea deEduca\u00e7\u00e3o especial no ensino regular. E o n\u00famero \u00e9 bastante desproporcional porque muitos dos col\u00e9gios funcionam em constru\u00e7\u00f5es antigas, algumas com mais de 50 anos e que s\u00e3o inclusive tombadas pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, o que impossibilita a altera\u00e7\u00e3o da arquitetura.<\/p>\n<p>\u201cDesde 2003, todas as Escolas constru\u00eddas foram adaptadas, o que ajudou a elevar o n\u00famero de estudantes deficientes inclu\u00eddos de 17,7 mil, em 2002, para 37 mil at\u00e9 o final do ano passado\u201d, afirma a chefe do departamento de Educa\u00e7\u00e3o Especial e Inclus\u00e3o Educacional, Angelina Matiskei. Al\u00e9m disso, o estado manteve as Escolas de Educa\u00e7\u00e3oespecial para alunos deficientes que n\u00e3o conseguem se adequar \u00e0s Escolas regulares: s\u00e3o 41 mil deficientes que desfrutam desse benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Opini\u00e3o:<br \/>\nA realidade do distanciamento<\/p>\n<p>Antes de me formar jornalista, trabalhei em uma Escola particular de Educa\u00e7\u00e3o infantil. Foi l\u00e1 que presenciei na pr\u00e1tica como a inclus\u00e3o funciona. Um aluno de 4 anos com s\u00edndrome de Asperger foi aceito pela Escola, mas n\u00e3o pelos pais dos alunos. Em um m\u00eas de conviv\u00eancia com os colegas de classe, os desentendimentos come\u00e7aram a aparecer.<\/p>\n<p>Mordida \u00e9 coisa que sempre acontece quando as crian\u00e7as s\u00e3o pequenas, mas quando a marca dos dentes no bra\u00e7o do outro \u00e9 feita por um aluno deficiente os pais n\u00e3o aceitam a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o velho ditado: o coleguinha \u201cnormal\u201d pode, mas o outro n\u00e3o pode. Pelo menos uns tr\u00eas pais compareceram \u00e0 secretaria da Escola e amea\u00e7aram: se ele n\u00e3o sair, n\u00f3s vamos tirar nossos filhos daqui. A Escola tentou explicar a situa\u00e7\u00e3o e pediu paci\u00eancia durante o per\u00edodo de adapta\u00e7\u00e3o. A toler\u00e2ncia, por\u00e9m, n\u00e3o veio.<\/p>\n<p>A sala do menino come\u00e7ou a esvaziar \u2013 os que sa\u00edram levantaram a bandeira do \u201cn\u00f3s estamos certos, voc\u00eas \u00e9 que n\u00e3o sabem o que est\u00e3o fazendo\u201d.<\/p>\n<p>Quem tem S\u00edndrome de Asperger costuma apresentar varia\u00e7\u00f5es de temperamento, muito control\u00e1veis, por sinal (no caso deste menino). A adapta\u00e7\u00e3o pode demorar um tempo, j\u00e1 que o ambiente novo deixa pessoas com essa defici\u00eancia mais hiperativas e sens\u00edveis. Nada que o bom senso n\u00e3o ajude. Hoje n\u00e3o sei como est\u00e1 este menino, que deve ter completado seus 10 anos, mas sempre me lembro dele.<br \/>\nPara mim, ele \u00e9 a prova de que s\u00e3o eles, os deficientes, que t\u00eam muito a nos ensinar sobre inclus\u00e3o, respeito e humanidade. Basta darmos a oportunidade.<\/p>\n<p>Pollianna Milan, rep\u00f3rter de Vida e Cidadania.<\/p>\n<p>____________________________________<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.todospelaeducacao.com.br\/Comunicacao.aspx?action=5&amp;mID=8232\">Todos Pela Educa\u00e7\u00e3o\/Gazeta do Povo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escolas particulares t\u00eam menos alunos deficientes que as p\u00fablicas. No Paran\u00e1, o porcentual de crian\u00e7as inclu\u00eddas nas p\u00fablicas \u00e9 de 59,4% contra 3,6% no ensino privado. 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