{"id":17507,"date":"2010-09-30T06:03:01","date_gmt":"2010-09-30T09:03:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=17507"},"modified":"2010-09-30T06:03:01","modified_gmt":"2010-09-30T09:03:01","slug":"manifesto-dos-brancos-da-ufrgs-pelas-cotas-raciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=17507","title":{"rendered":"Manifesto dos brancos da UFRGS pelas cotas raciais"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 172px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Megafone\" src=\"http:\/\/megafone.vilson.zip.net\/images\/boca_megafone1.jpg\" alt=\"Megafone\" width=\"172\" height=\"173\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Este texto \u00e9 um manifesto escrito e subscrito por brancos que comp\u00f5em a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele \u00e9 uma retumbante admiss\u00e3o p\u00fablica, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclus\u00e3o estrutural de negros e ind\u00edgenas dos benef\u00edcios e espa\u00e7os de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, \u00e9 produzida uma teia de privil\u00e9gios a n\u00f3s brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa conviv\u00eancia. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando n\u00e3o queremos ser. O racismo n\u00e3o \u00e9 um &#8220;problema dos negros&#8221;, mas tamb\u00e9m dos brancos. \u00c9 pelo reconhecimento destes privil\u00e9gios que marcam toda nossa exist\u00eancia, mesmo que n\u00f3s brancos n\u00e3o os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprova\u00e7\u00e3o de A\u00e7\u00f5es afirmativas de Repara\u00e7\u00e3o \u00e0s popula\u00e7\u00f5es negras e ind\u00edgenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. J\u00e1 \u00e9 comprovado que ra\u00e7a \u00e9 um conceito biologicamente inadmiss\u00edvel, s\u00f3 existe ra\u00e7a humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e constru\u00edmos nossa realidade di\u00e1ria em cima de concep\u00e7\u00f5es raciais. Portanto, ra\u00e7a \u00e9 uma realidade sociol\u00f3gica. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de que eu ou voc\u00ea sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas \u00e9 s\u00f3 olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atra\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o de pessoas para estes ou aqueles espa\u00e7os sociais, dependendo de sua cor. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que n\u00e3o temos quase m\u00e9dicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de sa\u00fade; que quase n\u00e3o vemos jornalistas negros, mas estes s\u00e3o expostos diariamente em p\u00e1ginas policiais; que n\u00e3o temos quase professores negros, especialmente em posi\u00e7\u00f5es com melhores sal\u00e1rios, e vemos alunos negros apenas em escolas p\u00fablicas enquanto, na universidade p\u00fablica quase s\u00f3 encontramos brancos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito m\u00ednimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes \u00e9 surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta fal\u00e1cia de dizer que n\u00e3o aceitamos cotas raciais na universidade, porque n\u00e3o queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se constru\u00edmos nossas vidas dentro deste conjunto de rela\u00e7\u00f5es onde a ra\u00e7a \u00e9 um elemento determinante, somos todos racistas! N\u00e3o fujamos da realidade. N\u00e3o usemos a falsa desculpa de que n\u00e3o queremos criar divis\u00f5es entre ra\u00e7as no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que j\u00e1 \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>O estudo de Marcelo Paix\u00e3o intitulado &#8220;Racismo, pobreza e viol\u00eancia&#8221;, compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das popula\u00e7\u00f5es, combinando os tr\u00eas fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medi\u00e7\u00e3o: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na \u00faltima vers\u00e3o do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73\u00ba lugar entre 173 pa\u00edses avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11\u00ba pa\u00eds mais desenvolvido economicamente no mundo. Por\u00e9m, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o n\u00famero de pobres ficou 5 milh\u00f5es menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na m\u00e9dia o 44\u00ba do mundo em mat\u00e9ria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104\u00ba lugar!!!<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novidade, por\u00e9m, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclus\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o dos negros e de privil\u00e9gios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que n\u00e3o tenham inten\u00e7\u00f5es de serem racistas. N\u00f3s brancos n\u00e3o precisamos enxergar o racismo estrutural porque n\u00e3o sofremos diariamente diversos processos de exclus\u00e3o e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa ra\u00e7a. Nossa ra\u00e7a (e seus privil\u00e9gios) s\u00e3o tornados invis\u00edveis dia-a-dia. Este sistema de privil\u00e9gios invis\u00edveis a n\u00f3s brancos \u00e9 que nos p\u00f5e em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situa\u00e7\u00f5es, e que destro\u00e7a qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por m\u00e9ritos pessoais. Que m\u00e9rito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confort\u00e1vel em que se encontra hoje, mesmo que tenha sa\u00eddo da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?<\/p>\n<p>Vamos apresentar uma breve listinha de circunst\u00e2ncias em nossas vidas que exp\u00f5em nossos privil\u00e9gios de brancos e que, embora n\u00e3o perceb\u00eassemos, embora os v\u00edssemos apenas como rela\u00e7\u00f5es naturais para n\u00f3s, por sermos pessoas normais e &#8220;de bem&#8221;, foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por n\u00e3o serem vivenciados tamb\u00e9m por negros e ind\u00edgenas, seu resultado \u00e9 fazer com que seja t\u00e3o desproporcional o n\u00famero destas popula\u00e7\u00f5es dentro da UFRGS, por exemplo):<\/p>\n<p>1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele n\u00e3o faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no \u00f4nibus, nas lojas, etc;<\/p>\n<p>2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manuten\u00e7\u00e3o de um emprego;<\/p>\n<p>3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu sal\u00e1rio fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma fun\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>4) Posso ligar a televis\u00e3o e ver pessoas de minha ra\u00e7a em grande n\u00famero e muitas em posi\u00e7\u00f5es sociais confort\u00e1veis e que me d\u00e3o perspectivas para o futuro;<\/p>\n<p>5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes her\u00f3is e grandes obras feitas por pessoas da minha ra\u00e7a;<\/p>\n<p>6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a hist\u00f3ria dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais seguran\u00e7a de quem sou e pra onde posso ir;<\/p>\n<p>7) Nunca precisei ouvir que no meu estado n\u00e3o existiam pessoas da minha ra\u00e7a;<\/p>\n<p>8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele;<\/p>\n<p>9) J\u00e1 fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha ra\u00e7a fosse um elemento que refor\u00e7asse minha poss\u00edvel condena\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha ra\u00e7a posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura;<\/p>\n<p>11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha ra\u00e7a;<\/p>\n<p>12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de &#8220;brincadeira&#8221;; 13) Sempre tive professores da minha ra\u00e7a;<\/p>\n<p>14) Nunca me senti minoria em termos da minha ra\u00e7a, em nenhuma situa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci at\u00e9 hoje eram da mesma ra\u00e7a que eu;<\/p>\n<p>16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranq\u00fcilo de que ningu\u00e9m relacionar\u00e1 isso com minha ra\u00e7a;<\/p>\n<p>17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ningu\u00e9m ligue isso a minha ra\u00e7a;<\/p>\n<p>18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui for\u00e7ado a falar em nome de minha ra\u00e7a, carregando nas costas o peso de representar 45% da popula\u00e7\u00e3o brasileira;<\/p>\n<p>19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha inf\u00e2ncia, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo;<\/p>\n<p>20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele n\u00e3o seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou est\u00e1gio;<\/p>\n<p>21) Se eu declarar que &#8220;o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma quest\u00e3o racial&#8221; n\u00e3o serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal;<\/p>\n<p>22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convic\u00e7\u00e3o de que a cor da minha pele n\u00e3o far\u00e1 com que meu tratamento sofra dificuldades;<\/p>\n<p>23) Posso fazer minhas atividades seguro de que n\u00e3o experienciarei sentimentos de rejei\u00e7\u00e3o a minha ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Esta realidade destro\u00e7a meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida n\u00e3o foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha ra\u00e7a, assim como fechadas a outras pessoas. A op\u00e7\u00e3o de falar ou n\u00e3o em privil\u00e9gios dos brancos j\u00e1 \u00e9 um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privil\u00e9gios dos brancos s\u00e3o estruturais, as a\u00e7\u00f5es contra o racismo devem ser tamb\u00e9m estruturais. Racismo n\u00e3o \u00e9 preconceito: racismo \u00e9 preconceito mais poder.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o for\u00e7armos mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es e posi\u00e7\u00f5es de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou n\u00e3o vai &#8220;cortar na pr\u00f3pria pele&#8221; o racismo que at\u00e9 hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu pr\u00f3ximo vestibular? Se mantivermos o vestibular &#8220;cego \u00e0s desigualdades raciais&#8221; estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que n\u00f3s mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.<\/p>\n<p>N\u00f3s, brancos da universidade que assinamos esta carta j\u00e1 nos posicionamos: exigimos cortar em nossa pr\u00f3pria pele os privil\u00e9gios que at\u00e9 hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS j\u00e1!<br \/>\n______________<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/protarciso.blogspot.com\/2010\/09\/manifesto-dos-brancos-da-universidade.html\"> Sociologia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto \u00e9 um manifesto escrito e subscrito por brancos que comp\u00f5em a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 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