{"id":17605,"date":"2010-10-07T06:11:19","date_gmt":"2010-10-07T09:11:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=17605"},"modified":"2010-10-07T06:11:19","modified_gmt":"2010-10-07T09:11:19","slug":"autismo-ainda-um-enigma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=17605","title":{"rendered":"Autismo: ainda um enigma"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_17606\" aria-describedby=\"caption-attachment-17606\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/autismo_capa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-17606\" title=\"Capa da edi\u00e7\u00e3o da Revista Ci\u00eancia Hoje, um menino aparece de costas num balan\u00e7o\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/autismo_capa.jpg\" alt=\"Capa da edi\u00e7\u00e3o da Revista Ci\u00eancia Hoje, um menino aparece de costas num balan\u00e7o\" width=\"250\" height=\"336\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17606\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>A revista Ci\u00eancia Hoje traz reportagem especial, em seu n\u00famero 45, sobre o tema, com a participa\u00e7\u00e3o do Dr. Leonardo C. de Azevedo, do Instituto Fernandes Figueira (IFF \u2013 Fiocruz), hoje presidente do Departamento de Neurologia da SBP.<\/p>\n<p><strong>Ainda um enigma<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mais de 70 anos cientistas de todo mundo se dedicam a estudar aquela que \u00e9 uma das mais enigm\u00e1ticas desordens neurol\u00f3gicas: o autismo. Embora muitos avan\u00e7os tenham sido feitos na \u00e1rea cl\u00ednica, os mecanismos moleculares, gen\u00e9ticos e neurobiol\u00f3gicos desse dist\u00farbio permanecem em grande parte desconhecidos. Novos estudos, entretanto, parecem dar esperan\u00e7a para se recomendar tratamentos e medicamentos mais eficazes em um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Isabela Fraga<br \/>\nCi\u00eancia Hoje\/RJ<\/p>\n<p>\u201cEle vive no seu pr\u00f3prio mundo.\u201d A frase \u00e9 bastante utilizada para descrever de forma leviana pessoas distra\u00eddas, que d\u00e3o pouca aten\u00e7\u00e3o ao que acontece ao seu redor. As mesmas palavras, entretanto, ganham um significado muito mais enf\u00e1tico quando se referem a um portador de autismo \u2013 uma desordem neurol\u00f3gica manifestada por uma tr\u00edade de sintomas: d\u00e9ficit de intera\u00e7\u00e3o social, dificuldade de linguagem e comportamento repetitivo.<br \/>\nA imagem cl\u00e1ssica da pessoa autista \u2013 reproduzida em filmes, livros e seriados de televis\u00e3o \u2013 \u00e9 a de um indiv\u00edduo indiferente ao ambiente que o cerca, balan\u00e7ando para frente e para tr\u00e1s, sem olhar nos olhos de ningu\u00e9m, conversar ou demonstrar interesse por qualquer assunto. Como todos os estere\u00f3tipos, essa representa\u00e7\u00e3o do autismo n\u00e3o pode ser encarada como verdade absoluta.<br \/>\nAfinal, o autismo n\u00e3o \u00e9 uma disfun\u00e7\u00e3o \u00fanica, mas sim um espectro de problemas, que variam de intensidade e tipo. Uma crian\u00e7a com um autismo leve como a s\u00edndrome de Asperger, por exemplo, pode conversar, frequentar escolas normais e ter uma vida independente quando envelhecer. E \u00e9 justamente por abarcar uma infinidade de comportamentos e sintomas secund\u00e1rios que m\u00e9dicos e cientistas preferem classificar o dist\u00farbio, de maneira mais geral, como desordens do espectro autista (ASD, na sigla em ingl\u00eas).<br \/>\nComo um dos principais sintomas do autismo \u00e9 a dificuldade de intera\u00e7\u00e3o social e de comunica\u00e7\u00e3o, torna-se um duplo desafio para pais, m\u00e9dicos, neurologistas, psic\u00f3logos e psiquiatras diagnosticar e tratar de crian\u00e7as que apresentam esse comportamento. N\u00e3o receber resposta a perguntas simples como \u2018o que h\u00e1 de errado?\u2019 e n\u00e3o conseguir estabelecer conex\u00e3o com o filho ou paciente s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es cotidianas para pessoas que lidam de perto com o autismo. \u201c\u00c9 uma charada dif\u00edcil de ser desvendada, e por isso decepcionante e frustrante\u201d, comenta o neuropediatra Leonardo deAzevedo, do Instituto Fernandes Figueira (IFF-Fiocruz), no Rio de Janeiro.<br \/>\nDeAzevedo realiza estudos cl\u00ednicos sobre o autismo, em especial sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o dist\u00farbio e o sistema imunol\u00f3gico do seu portador. Al\u00e9m dele, outros pesquisadores e m\u00e9dicos do Laborat\u00f3rio de Neurobiologia e Neurofisiologia Cl\u00ednica do setor de Neurologia do instituto t\u00eam as desordens do espectro autista como objeto de estudo, como \u00e9 o caso do neurofisiologista Vladimir Lazarev e do neurologista Adailton Pontes, mais voltados para a neurofisiologia da desordem.<br \/>\nDiagn\u00f3stico: quanto antes, melhor<br \/>\nO document\u00e1rio O nome dela \u00e9 Sabine, dirigido pela atriz francesa Sandrine Bonnaire, apresenta bem alguns aspectos da vida de uma pessoa portadora de autismo. No filme, a diretora focaliza sua irm\u00e3, Sabine, portadora de um tipo de autismo que n\u00e3o \u00e9 explicitado ao longo do document\u00e1rio. Ela tem olhar vago, est\u00e1 acima do peso, n\u00e3o estabelece contato visual, repete a mesma pergunta v\u00e1rias vezes, n\u00e3o mant\u00e9m uma conversa por muito tempo e tem surtos ocasionais de viol\u00eancia.<br \/>\nSobre essa imagem triste da irm\u00e3, a diretora contrap\u00f5e trechos de filmes caseiros antigos, nos quais Sabine est\u00e1 completamente diferente. Mais magra, ela parece demonstrar mais dom\u00ednio sobre seu corpo, conversa com a irm\u00e3 com muito mais facilidade, dan\u00e7a e ri. A diferen\u00e7a entre essas duas Sabines \u00e9 enorme, e logo o espectador compreende: por falta de diagn\u00f3stico e tratamento adequados, Sabine acabou por ser internada num hospital psiqui\u00e1trico, onde permaneceu por cinco anos. O filme parece ser um mea culpa de Sandrine em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 piora dr\u00e1stica da irm\u00e3.<br \/>\nEpis\u00f3dios como esse, no entanto, em que uma crian\u00e7a portadora de autismo \u00e9 erroneamente diagnosticada e, por isso, n\u00e3o passa por tratamentos adequados, n\u00e3o s\u00e3o raros, mesmo hoje em dia. No Brasil, por exemplo, ainda h\u00e1 muitos casos de diagn\u00f3stico tardio. A dificuldade, por parte dos pais, de perceber os sintomas em seus filhos ainda beb\u00eas, juntamente com o desconhecimento em rela\u00e7\u00e3o ao dist\u00farbio, fazem com que a crian\u00e7a seja apontada como autista somente quando est\u00e1 mais velha.<br \/>\nEsse cen\u00e1rio est\u00e1 longe do ideal. \u00c9 de consenso geral entre os cientistas: quanto antes for feito o diagn\u00f3stico do autismo, mais f\u00e1cil e eficiente \u00e9 o tratamento e, consequentemente, tamb\u00e9m a melhora. Para o m\u00e9dico Estev\u00e3o Vadasz, coordenador do Projeto Autismo no Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade de S\u00e3o Paulo, o ideal \u00e9 que o diagn\u00f3stico seja feito quando a crian\u00e7a tem entre um ano e meio e dois anos. \u201cO mais comum, no entanto, \u00e9 a partir dos tr\u00eas anos de idade\u201d, afirma.<br \/>\nPor apresentar diversos sintomas e n\u00edveis, o pr\u00f3prio diagn\u00f3stico para a desordem do espectro autista \u00e9 bastante individualizado e subjetivo. Segundo Vadasz, a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 a base para que se aponte se uma crian\u00e7a tem ou n\u00e3o autismo. \u201cObservamos as tr\u00eas \u00e1reas mais afetadas pelas desordens autistas: a comunica\u00e7\u00e3o e a linguagem, a socializa\u00e7\u00e3o; e os comportamentos repetitivos e interesses circunscritos\u201d, explica o m\u00e9dico, acrescentando que n\u00e3o h\u00e1 um exame m\u00e9dico espec\u00edfico para o diagn\u00f3stico do autismo.<br \/>\nNo Brasil, n\u00e3o h\u00e1 uma estimativa oficial do governo de casos de autismo na popula\u00e7\u00e3o e, para fins estat\u00edsticos, utilizam-se dados extrapolados de institui\u00e7\u00f5es estrangeiras, como o Centro de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as dos EUA (CDC). Segundo um relat\u00f3rio de 2006 desse instituto, uma em cada 110 crian\u00e7as \u00e9 portadora de uma desordem do espectro autista. O n\u00famero parece bastante alto, mas os crit\u00e9rios do instituto provavelmente englobam muitos n\u00edveis de autismo, inclusive os mais leves.<br \/>\nOs v\u00e1rios autismos<br \/>\nDe maneira geral, as desordens de espectro autista, que englobam uma grande variedade de comportamentos e problemas sob o ponto de vista cl\u00ednico, podem ser divididas em dois \u2018tipos\u2019 de autismo. Obviamente, essa divis\u00e3o \u00e9 artificial e abarca em si outras muitas pequenas varia\u00e7\u00f5es.<br \/>\n1) S\u00edndrome de Asperger. Descrita pela primeira vez pelo pediatra austr\u00edaco Hans Asperger (1906\u20131980), \u00e9 considerada uma forma de autismo mais branda. Seus portadores apresentam os tr\u00eas sintomas b\u00e1sicos (dificuldade de intera\u00e7\u00e3o social, de comunica\u00e7\u00e3o e comportamentos repetitivos), mas suas capacidades cognitivas e de linguagem s\u00e3o relativamente preservadas. Na verdade, alguns at\u00e9 mesmo apresentam n\u00edveis de QI acima da m\u00e9dia, motivo pelo qual a crian\u00e7a portadora da s\u00edndrome de Asperger \u00e9 comumente representada como um pequeno g\u00eanio que descobre c\u00f3digos e resolve enigmas. Entretanto, a s\u00edndrome de Asperger engloba aproximadamente 20-30% dos portadores de desordens do espectro autista.<br \/>\n2) Autismo \u2018cl\u00e1ssico\u2019. \u00c9 o tipo descrito pelo m\u00e9dico austr\u00edaco erradicado nos Estados Unidos Leo Kanner (1894-1981). Kanner foi o primeiro a utilizar a nomenclatura \u201cautismo infantil precoce\u201d, em um relat\u00f3rio de 1943, no qual [ele] descrevia 11 crian\u00e7as com comportamentos muito semelhantes. O m\u00e9dico utilizou express\u00f5es como \u2018solid\u00e3o aut\u00edstica\u2019 e \u2018insist\u00eancia na mesmice, que hoje s\u00e3o sintomas ainda tipicamente encontrados em pessoas autistas. Os portadores desse \u2018autismo cl\u00e1ssico\u2019 t\u00eam comprometimento das capacidades cognitivas que varia de moderado a grave, al\u00e9m da dificuldade de intera\u00e7\u00e3o social, de comunica\u00e7\u00e3o e do comportamento repetitivo. Os autistas chamados de \u2018alto funcionamento\u2019<br \/>\n3) Autistas do tipo regressivo. Essa varia\u00e7\u00e3o no espectro de desordens autistas inclui aqueles que se desenvolvem normalmente at\u00e9 aproximadamente 1 ano e meio, e em seguida, at\u00e9 os 3 anos, sofrem regress\u00e3o da linguagem e do comportamento tornando-se autistas.<br \/>\nA for\u00e7a da gen\u00e9tica<br \/>\nDesde que o autismo foi descrito pela primeira vez, em 1943, pelo m\u00e9dico austr\u00edaco Leo Kanner, um sem-n\u00famero de estudos j\u00e1 foi feito sobre a desordem, mas ela ainda \u00e9 considerada uma das mais enigm\u00e1ticas da ci\u00eancia. Muitas hip\u00f3teses e teorias foram levantadas para explic\u00e1-la, e um n\u00famero igual delas j\u00e1 foi derrubado. Chegou-se a dizer, por exemplo, que vacinas poderiam causar intoxica\u00e7\u00e3o que levaria ao autismo; que determinados alimentos causariam o dist\u00farbio; e at\u00e9 mesmo que a m\u00e3e era culpada pelo surgimento dos sintomas no filho.<br \/>\n\u201cN\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o de nenhum fator ambiental no surgimento do autismo\u201d, afirma o neurofisiologista Vladimir Lazarev, do Instituto Fernandes Figueira (IFF). Juntamente com o m\u00e9dico Adailton Pontes, tamb\u00e9m do IFF, Lazarev tem conduzido estudos sobre o perfil neurofisiol\u00f3gico de crian\u00e7as portadoras de autismo (ver \u2018Em busca do diagn\u00f3stico preciso\u2019 em CH 224).<br \/>\nFora do Brasil, a ideia geral \u00e9 tamb\u00e9m que \u201cal\u00e9m de processos gen\u00e9ticos, n\u00e3o se conhece outras poss\u00edveis causas cientificamente vi\u00e1veis para o autismo\u201d, nas palavras do psic\u00f3logo Ami Klin, coordenador do Programa de Autismo da Universidade de Yale (Estados Unidos). O desconhecimento de influ\u00eancias do ambiente, no entanto, n\u00e3o significa que elas n\u00e3o existam.<br \/>\nOs processos gen\u00e9ticos aos quais Klin se refere s\u00e3o, na verdade, muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas \u2013 ou seja, microdele\u00e7\u00f5es, invers\u00f5es ou duplica\u00e7\u00f5es de determinados genes \u2013 que se descobriu ter rela\u00e7\u00e3o com o autismo. \u201cOs fatores gen\u00e9ticos respondem por mais de 90% das causas para o autismo\u201d, explica o neuropediatra Leonardo deAzevedo. Os outros poss\u00edveis fatores n\u00e3o s\u00e3o conhecidos, e podem ser, por exemplo, resultado de problemas durante a gravidez, como rub\u00e9ola, toxoplasmose e acidentes.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 apenas um gene relacionado ao dist\u00farbio, mas v\u00e1rios, o que dificulta o trabalho dos cientistas. \u201cO envolvimento de m\u00faltiplos genes pode responder por mais de 90% dos casos de propens\u00e3o para o autismo\u201d, explica deAzevedo. Esse mapeamento, embora impreciso, \u00e9 importante, pois possibilita a elabora\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis tratamentos ou medicamentos que suprimam as faltas ou estabilizem os excessos causados pelas muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas.<br \/>\nEntre os genes-candidatos, est\u00e3o dois respons\u00e1veis pelo metabolismo da serotonina, um neurotransmissor que tem um papel regulador de determinadas fases do sono. Outra possibilidade \u00e9 o gene RELN, codificador de uma prote\u00edna extracelular que coordena a migra\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios durante o desenvolvimento do c\u00e9rebro. Essa prote\u00edna, chamada de relina, tem papel importante no desenvolvimento do c\u00f3rtex cerebral, do hipocampo e do cerebelo \u2013 estruturas nas quais j\u00e1 foram identificadas anormalidades em pessoas autistas.<br \/>\nNo Brasil, a pesquisa gen\u00e9tica tamb\u00e9m tem bons progn\u00f3sticos. O laborat\u00f3rio coordenado por Vadasz no Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo tem, al\u00e9m de uma \u00e1rea de diagn\u00f3stico e tratamento para dist\u00farbios do espectro autista, um projeto de pesquisa voltado para a identifica\u00e7\u00e3o de genes-candidatos \u00e0 desordem e c\u00e9lulas-tronco. Vadasz \u00e9 otimista. Para ele, em cinco ou 10 anos, ser\u00e1 poss\u00edvel realizar interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas. \u201cA ideia \u00e9 tirar c\u00e9lulas-tronco dos dentes de leite de crian\u00e7as autistas, coloc\u00e1-las em cultura e, com o tempo, diferenciar essas c\u00e9lulas em neur\u00f4nios\u201d, explica. Em seguida, os cientistas tentar\u00e3o introduzir esses neur\u00f4nios no sistema nervoso para suprir algumas falhas no processamento cerebral, numa t\u00e9cnica chamada de \u2018reengenharia dos neur\u00f4nios\u2019.<br \/>\nOxitocina: o \u2018horm\u00f4nio do amor\u2019?<br \/>\nEntre todos os genes candidatos, a descoberta de um deles tem gerado efeitos pr\u00e1ticos mais concretos. Trata-se do gene respons\u00e1vel pelo controle da produ\u00e7\u00e3o da oxitocina, um horm\u00f4nio relacionado ao sistema reprodutor feminino, que \u00e9 produzido no hipot\u00e1lamo. Apelidada de \u2018horm\u00f4nio do amor\u2019 e \u2018horm\u00f4nio da confian\u00e7a\u2019 gra\u00e7as ao seu papel nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e nos comportamentos afetivos, a oxitocina tem sido analisada em v\u00e1rios pa\u00edses por seu potencial de tratamento de alguns comportamentos autistas, como a aus\u00eancia de contato visual e a dificuldade de rela\u00e7\u00e3o com outras pessoas.<br \/>\n\u201cAlguns estudos j\u00e1 comprovaram que pessoas com algum tipo de desordem do espectro autista possuem menos oxitocina no sangue perif\u00e9rico\u201d, explica Azevedo. Em experimenta\u00e7\u00e3o em roedores, percebeu-se que a prote\u00edna CD38 regula a secre\u00e7\u00e3o de oxitocina. Nos roedores em que falta a prote\u00edna CD38, os n\u00edveis de oxitocina no sangue s\u00e3o baixos.<br \/>\nFoi a partir dessa constata\u00e7\u00e3o que institui\u00e7\u00f5es do mundo todo t\u00eam realizado testes que analisam os efeitos da ingest\u00e3o de oxitocina em pacientes autistas sob a forma de spray nasal. Um desses estudos, publicado na revista norte-americana PNAS, foi coordenado pela neurocientista francesa Elissar Andari, do Instituto Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas da Fran\u00e7a.<br \/>\nAndari e seus colegas conduziram um estudo com 13 pessoas portadoras de autismo de alto desempenho \u2013 aqueles que possuem suas capacidades cognitivas preservadas. Em um jogo no qual deveriam jogar uma bola e receb\u00ea-la de volta de tr\u00eas outros jogadores fict\u00edcios, os cientistas analisaram a intera\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o aos outros jogadores, que eram divididos entre bons, ruins e neutros. Aquelas portadoras de autismo n\u00e3o diferenciavam quais jogadores tinham melhor desempenho. No entanto, ap\u00f3s a inala\u00e7\u00e3o de oxitocina, esses pacientes percebiam a diferen\u00e7a e interagiam mais com o jogador \u2018bom\u2019, lan\u00e7ando uma quantidade maior de bolas para ele.<br \/>\n\u201cDiz-se que a oxitocina causa melhora em alguns comportamentos autistas essenciais, como o engajamento social, mas isso ainda n\u00e3o \u00e9 comprovado totalmente\u201d, opina Klin. No entanto, dados os excelentes resultados em estudos como o de Andari, a expectativa \u00e9 de que futuramente se poder\u00e1 tratar o autismo com oxitocina.<br \/>\nNo Brasil, o grupo de deAzevedo, em colabora\u00e7\u00e3o com a professora Vivian Rumjanek, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, est\u00e1 estudando o comportamento desta prote\u00edna nas crian\u00e7as autistas. J\u00e1 no Hospital das Cl\u00ednicas, em S\u00e3o Paulo, o tratamento com a oxitocina \u00e9 feito por meio do contato com c\u00e3es. Vadasz, coordenador do programa que realiza o tratamento, explica essa rela\u00e7\u00e3o um tanto surpreendente: \u201cEstudos j\u00e1 demonstraram que, quando temos algum contato com c\u00e3es, nosso c\u00e9rebro produz oxitocina\u201d. Nos Estados Unidos, a chamada terapia assistida por c\u00e3es (TAC) tem apresentado bons resultados.<br \/>\nEnquanto ela n\u00e3o vem\u2026 Os tratamentos<br \/>\nA oxitocina ainda est\u00e1 em fase de testes para o tratamento de sintomas do autismo. Por enquanto, o tratamento para o dist\u00farbio passa por v\u00e1rias \u00e1reas m\u00e9dicas, e o grau de efetividade depende da idade em que \u00e9 iniciado. A cura, entretanto, ainda n\u00e3o est\u00e1 num horizonte pr\u00f3ximo. \u201cN\u00e3o sabemos de uma causa espec\u00edfica para o autismo e, at\u00e9 que isso seja conhecido, ser\u00e1 dif\u00edcil falar de cura\u201d, explica Klin. \u201cNo entanto, h\u00e1 tratamentos comportamentais bastante efetivos que podem ajudar crian\u00e7as e adultos a superar suas dificuldades.\u201d Para ele, o objetivo com esses tratamentos \u2013 em sua maior parte sem a utiliza\u00e7\u00e3o de medicamentos \u2013 n\u00e3o \u00e9 curar, mas ajudar os portadores dessa desordem no seu relacionamento com outros.<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil precisar um tipo espec\u00edfico de tratamento para desordens do espectro autista, primeiramente porque elas s\u00e3o muitas e bastante vari\u00e1veis. H\u00e1 crian\u00e7as autistas que simplesmente n\u00e3o falam; outras que repetem a mesma frase fora de contexto muitas vezes; h\u00e1 aquelas que n\u00e3o demonstram interesse por absolutamente nada, e outras que escolhem um assunto espec\u00edfico para se aprofundar. O espectro \u00e9, de fato, bastante amplo. Por isso, tanto psicanalistas como outros m\u00e9dicos e pediatras concordam que o melhor \u00e9 um tratamento individualizado, de acordo com as limita\u00e7\u00f5es apresentadas por cada pessoa.<br \/>\nAutora do livro Do sil\u00eancio ao eco: autismo e cl\u00ednica psicanal\u00edtica,publicado pela Edusp, a psicanalista Luciana Pires defende essa abordagem individualizada. Depois de mais de dez anos de cl\u00ednica dedicada ao tratamento de crian\u00e7as autistas no Brasil e na Inglaterra, Pires chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o do paciente com o analista \u00e9 ponto de partida para que este crie condi\u00e7\u00f5es de melhorar o desenvolvimento subjetivo e emocional da crian\u00e7a. \u201cPor detr\u00e1s dos mesmos sintomas, temos posi\u00e7\u00f5es subjetivas muito diferentes. Essa compreens\u00e3o orienta a a\u00e7\u00e3o do psicanalista na cl\u00ednica do autismo\u201d, explica ela.<br \/>\nC\u00e9rebro: ainda h\u00e1 d\u00favidas<br \/>\nSe clinicamente o autismo \u00e9 bastante conhecido e suas formas de tratamento j\u00e1 alcan\u00e7aram relativo sucesso, os mecanismos pelos quais ele atua no c\u00e9rebro ainda geram d\u00favidas. Muitas hip\u00f3teses consideradas t\u00eam sido derrubadas por falta de comprova\u00e7\u00e3o. De maneira geral, a teoria mais aceita pela comunidade cient\u00edfica \u00e9 que as muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas causam falhas de conex\u00e3o entre as diferentes regi\u00f5es cerebrais, o que geraria problemas em algumas estruturas, como o cerebelo, o hipot\u00e1lamo (onde se sintetiza, por exemplo, a oxitocina) e o c\u00f3rtex.<br \/>\nLazarev e Pontes, pesquisadores do Instituto Fernandes Figueira, t\u00eam utilizado a eletroencefalografia para sustentar a hip\u00f3tese de que, em c\u00e9rebros de pessoas portadoras de autismo, h\u00e1 altera\u00e7\u00e3o na assimetria funcional entre os hemisf\u00e9rios direito e esquerdo. De acordo com essa hip\u00f3tese, o hemisf\u00e9rio direito do autista teria menor n\u00edvel de ativa\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com a mesma regi\u00e3o de pessoas sem o dist\u00farbio. Ao mesmo tempo, o hemisf\u00e9rio esquerdo teria o que eles chamam de hiperatividade, ou seja, hiperconectividade funcional entre as diferentes regi\u00f5es deste hemisf\u00e9rio. A hiperatividade do hemisf\u00e9rio esquerdo seria, portanto, uma forma de \u2018compensa\u00e7\u00e3o\u2019 da atividade relativamente baixa do lado direito.<br \/>\n\u201cH\u00e1 ainda quem pense, como o psic\u00f3logo ingl\u00eas Baron-Cohen, que o c\u00e9rebro autista seria hipermasculino, uma vez que ele tem o hemisf\u00e9rio esquerdo hiperativo\u201d, explica Lazarev. Para entender a afirma\u00e7\u00e3o do neurofisiologista, \u00e9 importante lembrar: enquanto o hemisf\u00e9rio direito \u00e9 ligado \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es interpessoais, o lado esquerdo responde mais pela l\u00f3gica e racionalidade. A hip\u00f3tese de assimetria cerebral, portanto, converge com os principais sintomas das desordens do espectro autista.<br \/>\nKlin, da Universidade de Yale, entretanto, tem uma vis\u00e3o diferente. \u201cA hip\u00f3tese de assimetria cerebral \u00e9 antiga, e alguns pensam que ela simplifica o perfil neurofisiol\u00f3gico do autismo\u201d, comenta. Para ele, uma hip\u00f3tese mais prov\u00e1vel \u00e9 a da \u2018conectividade at\u00edpica\u2019, que \u00e9 mais recente. Segundo ela, o c\u00e9rebro de um portador de autismo apresenta hipoconectividade em conex\u00f5es mais longas (como entre hemisf\u00e9rios) e hiperconectividade em conex\u00f5es mais curtas \u2013 ou \u2018locais\u2019.<br \/>\nPara Lazarev e Pontes, o modelo comentado por Klin, e j\u00e1 definido por outros autores, n\u00e3o vai de encontro \u00e0 sua hip\u00f3tese. \u201cEsses resultados foram encontrados por meio de avalia\u00e7\u00e3o das oscila\u00e7\u00f5es bioel\u00e9tricas do c\u00e9rebro, que mede a conectividade de curta e longa dist\u00e2ncia entre as \u00e1reas cerebrais\u201d, explica Pontes. \u201cLogo, nossa hip\u00f3tese est\u00e1 em sintonia com o modelo de conectividade at\u00edpica.\u201d<br \/>\nEsses modelos, entretanto, n\u00e3o devem ser vistos como uma tentativa de explicar os mecanismos espec\u00edficos do c\u00e9rebro autista. \u201cEssa hip\u00f3tese \u00e9 uma vis\u00e3o geral para entender os padr\u00f5es de imagem do c\u00e9rebro autista\u201d, explica Klin, acrescentando que as \u00faltimas descobertas sobre a gen\u00e9tica do autismo apontam, por exemplo, para a exist\u00eancia de mol\u00e9culas de ades\u00e3o celular que t\u00eam papel no aprendizado. \u201cDe qualquer forma, altera\u00e7\u00f5es cerebrais resultantes de hip\u00f3teses celulares ou moleculares ainda n\u00e3o foram suficientemente desenvolvidas\u201d, resume Klin.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista Ci\u00eancia Hoje, em seu nro. 45, traz reportagem especial sobre o tema, com a participa\u00e7\u00e3o do Dr. Leonardo C. de Azevedo, do Instituto Fernandes Figueira (IFF \u2013 Fiocruz), hoje presidente do Departamento de Neurologia da SBP. 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