{"id":17817,"date":"2010-10-28T07:47:37","date_gmt":"2010-10-28T10:47:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=17817"},"modified":"2010-10-28T07:47:37","modified_gmt":"2010-10-28T10:47:37","slug":"educacao-na-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=17817","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o na cidadania"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 240px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" title=\"Quatro m\u00e3os ajudam-se a escrever, uma sobre a outra\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/fotos_novas\/82521.jpg\" alt=\"Quatro m\u00e3os ajudam-se a escrever, uma sobre a outra\" width=\"240\" height=\"161\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: Tatiana Clauzet<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>O desafio de formar cidad\u00e3os para uma sociedade sustent\u00e1vel: as li\u00e7\u00f5es da Escola da Ponte, analisadas pelo seu idealizador, Jos\u00e9 Pacheco.<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as motiva\u00e7\u00f5es que levam um professor a abra\u00e7ar o magist\u00e9rio, mas a principal delas resulta de um desejo de transforma\u00e7\u00e3o. Apesar de sempre ter transformado realidades por onde passou, a come\u00e7ar pela sua pr\u00f3pria, Jos\u00e9 Pacheco nunca imaginou que se tornaria um educador. E os caminhos que o levaram a tal of\u00edcio foram bastante inusitados.<\/p>\n<p>Depois de integrar miss\u00f5es italianas na \u00c0frica durante a Segunda Guerra Mundial, militar na Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos e trabalhar como engenheiro el\u00e9trico, Pacheco decidiu prestar um concurso para dar aulas na rede p\u00fablica de ensino de Portugal. E foram justamente esses fatos, \u00e0 primeira vista aleat\u00f3rios, que o levaram a protagonizar uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria de ensino na Escola da Ponte, cuja hist\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 bastante conhecida ao redor do mundo.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o na cidadania \u00e9 o eixo central dessa proposta, orientada por tr\u00eas valores fundamentais: solidariedade, autonomia e responsabilidade individual e social. Na Ponte, os alunos se organizam em grupos de interesse, independente de faixa et\u00e1ria ou anos de escolaridade. Esse modelo de ensino exige uma ruptura radical com as linhas de pensamento convencionais e a pr\u00f3pria ideia concebida a respeito do processo educacional.<\/p>\n<p>Qualquer semelhan\u00e7a dessa experi\u00eancia com o desafio da sustentabilidade n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia. \u201cA ideia da educa\u00e7\u00e3o na cidadania existe exatamente para assegurar a sustentabilidade, a perenidade dos projetos. Tudo depende de fatores externos. Na depend\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 como desenvolver autonomia, promover a sustentabilidade\u201d, afirma Pacheco.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m defende a import\u00e2ncia de educar pelo exemplo e, por isso, cr\u00ea no papel das lideran\u00e7as. \u201cO l\u00edder precisa ter duas caracter\u00edsticas principais. A primeira \u00e9 saber escutar. A segunda decorre da primeira: ao escutar, deve estabelecer consensos e n\u00e3o maiorias. Se essas duas caracter\u00edsticas forem atendidas, temos a\u00ed um l\u00edder de novo tipo, que n\u00e3o se imp\u00f5e, nem \u00e9 eleito. \u00c9 consensualmente aceito\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Em 2007, o educador adotou o Brasil \u2013 mais especificamente a cidade de Belo Horizonte \u2013 e diz que n\u00e3o pretende deixar o Pa\u00eds. Sabe que ter\u00e1 muito trabalho por aqui. Seu objetivo n\u00e3o \u00e9 idealizar nenhum novo projeto, tampouco criar uma Escola da Ponte brasileira. Pretende, sim, mobilizar a partir de um exemplo concreto de que \u00e9 poss\u00edvel transformar realidades por meio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em conversa com Juliana Lopes, de Ideia Socioambiental, durante a Confer\u00eancia Internacional de Cidades Inovadoras, realizada pela Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado do Parar\u00e1 em mar\u00e7o, na cidade de Curitiba, Pacheco falou da import\u00e2ncia de educar para a sustentabilidade, promovendo a mudan\u00e7a a partir do exemplo.<\/p>\n<p>Ideia Socioambiental: Qual o seu envolvimento com as quest\u00f5es socioambientais? Essa experi\u00eancia influenciou o trabalho desenvolvido na Escola da Ponte? De que maneira?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pacheco: Fiz parte de movimentos ecol\u00f3gicos primitivos, alimentares, de macrobi\u00f3tica, movimentos hippies. Participei da Revolu\u00e7\u00e3o de maio de 1968. Basta falar isso para perceber que sou do tempo dos dinossauros, como costumo brincar. Ent\u00e3o, quando me tornei educador, levava essa consci\u00eancia l\u00f3gica ambiental. S\u00f3 que nada naquelas escolas correspondia \u00e0quilo que esperava e sabia que era correto, o que me levava a um sentimento esquizofr\u00eanico. Estava em um ambiente que n\u00e3o tinha nada a ver comigo, mas eu percebia que podia ter. S\u00f3 n\u00e3o sabia como.<\/p>\n<p>Quando cheguei \u00e0 Ponte, tudo se transformou. Era uma sociedade abandonada, marginal, de sofrimento, com problemas ambientais imensos. Basta dizer que ao lado da escola tinha um lix\u00e3o a c\u00e9u aberto. \u00c9ramos picados por pernilongos, os ratos passavam por entre nossos p\u00e9s\u2026 N\u00e3o tinha banheiro. N\u00e3o havia saneamento. Os po\u00e7os artesianos iam captar \u00e1gua j\u00e1 contaminada.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos por erradicar os lix\u00f5es, criamos uma horta biol\u00f3gica e um hospital de animais. Foi a primeira vez que se falou em coleta seletiva do lixo. Repare que est\u00e1vamos em 1976. Ningu\u00e9m tocava nesses temas. Fizemos tudo muito por intui\u00e7\u00e3o, com a colabora\u00e7\u00e3o da chamada Comiss\u00e3o Nacional do Meio Ambiente. Quando Portugal passou da ditadura para a democracia, foi criada essa Comiss\u00e3o que depois deu origem \u00e0 Secretaria do Ambiente e, ent\u00e3o, ao Minist\u00e9rio do Ambiente.<\/p>\n<p>I.S: Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o do movimento de sustentabilidade?<\/p>\n<p>J.P: Hoje h\u00e1 maior converg\u00eancia, sem d\u00favida. Penso que o tempo vai instalando na mente das pessoas novos conceitos, novas atitudes. Mas ainda h\u00e1 muito descaso, sobretudo nas escolas. \u00c9 s\u00f3 falar o que vi h\u00e1 um m\u00eas. Fui a uma faculdade de Educa\u00e7\u00e3o. Na entrada havia grandes cartazes: \u201cVamos salvar a Amaz\u00f4nia\u201d. Quando subi as escadas, vi garrafas PET vazias pelo ch\u00e3o, latas de coca-cola, guardanapos de papel\u2026<\/p>\n<p>Os jovens sentados em cima das mesas, com os p\u00e9s nos bancos. Fui ao banheiro e tinha outro cartaz dizendo: \u201cPor favor, urine no vaso\u201d. Eu olhei para aquilo e fiquei em estado de choque. E estou falando de uma faculdade de Educa\u00e7\u00e3o. D\u00e1 para entender o descaso? Fiquei escandalizado. Comecei minha exposi\u00e7\u00e3o dizendo: \u201cFa\u00e7am-me um favor. Quando eu terminar a palestra, tirem aquele aviso do banheiro. \u00c9 uma ofensa para n\u00f3s que somos educadores\u201d.<\/p>\n<p>O audit\u00f3rio tinha mil e tantas pessoas, metade formado por professores e a outra metade por alunos. Depois de muito choque, de discuss\u00e3o, veio o intervalo. Sa\u00ed do palco e fui apanhar os copinhos pl\u00e1sticos, os guardanapos de papel e os restos de porcaria que haviam deixado. Eles retornaram atrapalhados, constrangidos e come\u00e7aram a recolher tamb\u00e9m. Pediram para eu parar de fazer aquilo, mas respondi que n\u00e3o, dizendo: \u201cSou educador e sou respons\u00e1vel por voc\u00eas, assim como voc\u00eas s\u00e3o respons\u00e1veis por mim.\u201d Foi outro choque. Na segunda parte da palestra, havia uma tens\u00e3o tremenda no ar, porque eu tinha feito duas coisas que afetaram imensamente aquelas pessoas.<\/p>\n<p>I.S: Qual a sua impress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de sustentabilidade? O termo se desgastou com o tempo?<\/p>\n<p>J.P: Todos n\u00f3s j\u00e1 vimos muitas defini\u00e7\u00f5es de sustentabilidade. E eu n\u00e3o vou cit\u00e1-las porque s\u00e3o tantas\u2026 Prefiro falar de outro conceito \u2013 embora eu reconhe\u00e7a a necessidade da sustentabilidade \u2013 que \u00e9 a ideia da educa\u00e7\u00e3o na cidadania, exatamente para assegurar a sustentabilidade, a perenidade dos projetos.<\/p>\n<p>Tudo depende de fatores externos. Na depend\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 como desenvolver autonomia, promover a sustentabilidade. Mas gosto muito de uma palavra que n\u00e3o \u00e9 do campo da Educa\u00e7\u00e3o, prov\u00e9m da F\u00edsica: resili\u00eancia, que est\u00e1 muito ligada \u00e0 discuss\u00e3o dos conceitos aristot\u00e9licos de agir e fazer. Est\u00e1 tudo escrito na Antiguidade Cl\u00e1ssica. Ent\u00e3o, ao falar da resili\u00eancia, quero dizer que as pessoas agem, modificam e, mais do que resistir, elas criam condi\u00e7\u00f5es de perenidade para aquilo que fazem, a partir do modo como agem, porque n\u00e3o basta fazer: \u00e9 preciso agir.<\/p>\n<p>Quando entro em algum projeto nunca estou no projeto. N\u00e3o sou eu que fa\u00e7o porque, se eu fizer, algu\u00e9m vai ficar dependente daquilo. Ajo com os outros em contextos sustent\u00e1veis e, com os outros, construo dispositivos de sustentabilidade. Nunca saio completamente, mas, quando deixo o projeto de fato, sei que tudo se mant\u00e9m e prospera, isto \u00e9, se reinventa porque a base existe. Vou dar o exemplo da Ponte. Muita gente me dizia \u2013 h\u00e1 uns 10 anos \u2013 que estava na hora de escolher um sucessor.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava l\u00e1 havia quase 25 anos. Mas eu sabia que ainda n\u00e3o existiam condi\u00e7\u00f5es de sustentabilidade. Todo mundo pensava que a Escola da Ponte iria acabar, porque n\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de um projeto que n\u00e3o entre em deteriora\u00e7\u00e3o com a sa\u00edda de seu criador. V\u00e1rias iniciativas na \u00e1rea educacional tiveram esse destino.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, quando volto l\u00e1, a Ponte est\u00e1 mais forte, mais desenvolvida. Isso aconteceu porque se criou uma estrutura. Pode-se modificar uma metodologia, pode-se modificar algo, mas a estrutura est\u00e1 l\u00e1. E essa estrutura \u00e9 sustent\u00e1vel porque as decis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o de um, mas de todos. Os participantes praticam a solidariedade em prol de algo que \u00e9 comum e n\u00e3o h\u00e1 um sistema de rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Portanto, cada um \u00e9 respons\u00e1vel pelos seus atos. Olhe para esta cultura: \u201cEu sou individualmente respons\u00e1vel por ti, por todos, e todos s\u00e3o por mim.\u201d Quem \u00e9 que destr\u00f3i uma cultura dessas? Isso n\u00e3o \u00e9 sustentabilidade? E onde \u00e9 que ela est\u00e1 assentada? Na rede de rela\u00e7\u00f5es e interrela\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o \u00e9 isso que eu considero como sustentabilidade. N\u00e3o criar artif\u00edcio, para\u00edsos artificiais que todo mundo estuda, publica e, passados alguns anos, se pergunta onde \u00e9 que est\u00e3o.<\/p>\n<p>I.S: Na miss\u00e3o da Escola da Ponte est\u00e1 colocada a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os cultos, educados, solid\u00e1rios e democraticamente comprometidos com a constru\u00e7\u00e3o de um destino coletivo. Pensando nos desafios atuais relacionados \u00e0 sustentabilidade, o senhor acrescentaria alguma outra quest\u00e3o a esse prop\u00f3sito?<\/p>\n<p>J.P: Por intui\u00e7\u00e3o, h\u00e1 34 anos, criamos um projeto com uma matriz axiol\u00f3gica. Tr\u00eas valores, que s\u00e3o os mesmos hoje, agregados a outros. O valor da autonomia; da solidariedade e da responsabilidade individual e social. A Escola da Ponte \u00e9 a \u00fanica do meu pa\u00eds que tem todos os galard\u00f5es da Bandeira Azul da Europa , uma entidade que distingue ambientes sustent\u00e1veis. Mais do que mudan\u00e7a metodol\u00f3gica ou qualquer artefato potencialmente did\u00e1tico, as pessoas t\u00eam sempre em mente esses tr\u00eas valores e tudo \u00e9 condicionado por eles.<\/p>\n<p>I.S: E ao longo desse processo de mudan\u00e7a de paradigmas, voc\u00eas enfrentaram resist\u00eancias? Quais?<\/p>\n<p>J.P: N\u00e3o s\u00f3 tivemos barreiras e animosidades como enfrentamos at\u00e9 viol\u00eancia f\u00edsica. Mas o maior obst\u00e1culo n\u00e3o foi esse, no in\u00edcio. O maior obst\u00e1culo inicial fui eu mesmo e minha cultura da autossufici\u00eancia. Foi preciso uma reconvers\u00e3o muito grande, uma reelabora\u00e7\u00e3o da minha cultura pessoal, assim como os outros tamb\u00e9m sentiram essa necessidade.<\/p>\n<p>\u00c9ramos seres isolados, sozinhos nas salas de aula. Os professores sofrem porque muitas vezes s\u00e3o aprendizes de feiticeiro. Querem estar sozinhos, continuam sozinhos, sujeitos a humilha\u00e7\u00f5es, a ser maltratados e mal pagos. Quando eles abriram os olhos e perceberam que a mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 individual, mas coletiva, ent\u00e3o tivemos muitos problemas at\u00e9 com o Estado portugu\u00eas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, ao fim de 30 anos, o Estado capitulou: \u201cSe n\u00e3o podes com eles, alia-te a eles\u201d, costumamos brincar. O ministro disse que \u00e9ramos como o Asterix. Tantas vezes tentaram destruir a aldeia do Asterix e n\u00e3o conseguiram. E por qu\u00ea? J\u00e1 havia uma cultura instalada. T\u00ednhamos a popula\u00e7\u00e3o do nosso lado e os pais, que nos protegiam como pitbulls. T\u00ednhamos a prefeitura nas nossas m\u00e3os, tudo fundamentado. E, sobretudo, um esp\u00edrito de equipe que ningu\u00e9m consegue destruir. O Estado acabou fazendo um contrato de autonomia. Isso porque a nossa escola estava fora da lei, mas era a melhor do pa\u00eds. Isso \u00e9 para dizer o qu\u00ea? \u00c9 poss\u00edvel, dentro do sistema, utilizar os instrumentos de que ele disp\u00f5e para contrariar, reverter e construir.<\/p>\n<p>I.S:E como mobilizar esses educadores a se engajarem, agindo pela mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>J.P: H\u00e1 tr\u00eas tipos de professores: aqueles que s\u00e3o bons; aqueles que podem ser bons e aqueles que devem mudar de profiss\u00e3o, n\u00e3o se identificam. N\u00e3o quero ser manique\u00edsta, mas a verdade \u00e9 que eles existem. Os que podem ser bons professores aderem, depois de algum tempo, porque seguem o exemplo. Na Ponte, mostramos que os nossos alunos eram os melhores em rendimento acad\u00eamico, tinham atitudes de respeito que outros n\u00e3o tinham. Acolh\u00edamos os alunos rejeitados por outras escolas e faz\u00edamos deles os melhores. Ao fim de oito anos e meio \u2013 lembro que foi em 1984 \u2013, todos os outros professores da Ponte come\u00e7aram a enxergar o que estava acontecendo. E perguntaram como poderiam ajudar. Ent\u00e3o mudaram. Como v\u00ea, essa transforma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pelo exemplo. \u201cS\u00ea tu pr\u00f3prio a mudan\u00e7a que queres para o mundo\u201d.<\/p>\n<p>I.S: Como estabelecer rela\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de aprendizado?<\/p>\n<p>J.P: Instalando essa outra cultura. Vou dar um exemplo. Como eu posso aprender contigo? Criando condi\u00e7\u00f5es de aprendizagem m\u00fatua. Como \u00e9 que se consegue isso em uma escola onde o Minist\u00e9rio obriga crian\u00e7as de at\u00e9 certa idade a estarem juntas \u2013 de sete com sete anos, de oito com oito, de nove com nove? Ningu\u00e9m aprende com quem tem a mesma idade. Ningu\u00e9m aprende com quem sabe a mesma coisa.<\/p>\n<p>Aprendemos com quem sabe coisas diferentes, com quem tem outras idades. A lei est\u00e1 errada. Nesse caso, \u00e9 preciso transgredir a lei, fundamentando na Pedagogia, na Psicologia. Nas escolas \u00e9 isso que \u00e9 preciso fazer. Mostrar que a lei est\u00e1 errada, com todo o respeito que merece o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. E que essa lei \u00e9 uma das respons\u00e1veis pelos insucessos, pelos 70% de analfabetos funcionais que este Pa\u00eds tem. Pessoas que n\u00e3o sabem interpretar um texto. \u00c9 muita gente. S\u00e3o mais de 100 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Trata-se de uma trag\u00e9dia.Para aprendermos uns com os outros temos de instalar uma outra cultura. Quem a faz? Aqueles que j\u00e1 tomaram consci\u00eancia de que \u00e9 necess\u00e1rio. Com quem? Com aqueles que j\u00e1 perceberam que \u00e9 necess\u00e1rio, por\u00e9m respeitando os que discordam, esperando que tamb\u00e9m tomem consci\u00eancia de que fazem algo que n\u00e3o serve e que produz a infelicidade.<\/p>\n<p>Quando entro nas escolas p\u00fablicas do Brasil, tenho pena daquela gente. Salas escuras, fileiras todas viradas para um lado, a crian\u00e7ada fazendo barulho, o professor aos gritos com a cara triste de sofrimento. Crian\u00e7a mandada para a diretora, crian\u00e7a expulsa. O que \u00e9 isso? Que escola \u00e9 essa?<\/p>\n<p>I.S: O exemplo \u00e9 importante? Precisamos de lideran\u00e7as? Que caracter\u00edsticas o l\u00edder dever ter para \u201cser\u201d a mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>J.P: Primeira caracter\u00edstica, que vem de um ditado: \u201cTemos uma boca e dois ouvidos; sabeis escutar\u201d. Segunda, que decorre da primeira: ao escutar, sabeis estabelecer consensos e n\u00e3o maiorias. Se essas duas caracter\u00edsticas forem atendidas, temos a\u00ed um l\u00edder de novo tipo. Um l\u00edder que n\u00e3o se imp\u00f5e, nem \u00e9 eleito.<\/p>\n<p>\u00c9 consensualmente aceito. Por qu\u00ea? Porque aceita o outro como ele \u00e9. Tenta compreender a l\u00f3gica do outro. Tenta compreender que o outro n\u00e3o tem defeitos, e que os defeitos dele \u00e9 que s\u00e3o projetados no outro. Psicanaliticamente \u00e9 assim. Mas o outro tem l\u00f3gicas que eu n\u00e3o domino. E n\u00e3o vou colocar em vota\u00e7\u00e3o, porque a minoria nunca vai seguir aquilo que foi votado. Vai fazer exatamente o que queria. Portanto, \u00e9 escutar e promover consensos. H\u00e1 muitos outros requisitos, mas esses s\u00e3o fundamentais.<\/p>\n<p>I.S: Como foi a experi\u00eancia de se tornar prefeito de Vila das Aves? Voc\u00ea conseguiu levar alguns princ\u00edpios da Escola da Ponte para a gest\u00e3o da cidade?<\/p>\n<p>J.P: Quem toma consci\u00eancia deve agir como tal. Quando entrei na pol\u00edtica ativa de governo, fui um joguete no meio dos pol\u00edticos partid\u00e1rios. O prefeito tem assento na chamada Assembleia Municipal. Eu participava enquanto prefeito para representar a minha cidade. Nunca tive partido, mas fui adotado por um, que cedeu a chapa para eu poder concorrer, sen\u00e3o tinha que p\u00f4r dinheiro para fazer campanha. Eu n\u00e3o tinha dinheiro nem aceitei de ningu\u00e9m. Mas eu comecei a contrariar os interesses do pr\u00f3prio partido que ajudou a me eleger, porque eles faziam um jogo pol\u00edtico nojento. Cheguei a ser o \u00fanico a votar contra propostas do pr\u00f3prio partido na Assembleia. Levantei-me sozinho, insultado por aquela legenda que tinha me acolhido. Ent\u00e3o, nessa altura, percebi que precisava agir. E agi contra o pr\u00f3prio partido, contra aquele jogo miser\u00e1vel, que ainda hoje eu vejo aqui no Brasil.<\/p>\n<p>I.S: Quando as pessoas n\u00e3o tomam consci\u00eancia de que a mudan\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria, o l\u00edder tamb\u00e9m tem a responsabilidade de tomar decis\u00f5es por elas? Qual \u00e9 essa medida?<\/p>\n<p>J.P: Estava em uma reuni\u00e3o num per\u00edodo muito dif\u00edcil para a Ponte. Passamos uma hora com 40 pessoas, discutindo umas com as outras. Algumas j\u00e1 quase choravam de desespero porque n\u00e3o sabiam que rumo tomar. E eu calado. At\u00e9 que uma delas perguntou o que eu achava que poderia ser feito. Assim que respondi, todos concordaram dizendo: \u201cVai ser assim\u201d. Acabou a reuni\u00e3o e uma professora veio falar comigo indignada: \u201cPassamos uma hora discutindo um assunto t\u00e3o s\u00e9rio e decisivo para a escola. E voc\u00ea o tempo todo calado.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, quando lhe perguntaram, voc\u00ea respondeu e todo mundo resolveu fazer. Voc\u00ea tem certeza daquilo que disse?\u201d, perguntou-me. E respondi: \u201cN\u00e3o. A pessoa aqui que tem mais d\u00favida sobre aquilo que disse sou eu. Quando falei serenamente o que dever\u00edamos fazer, estava todo destru\u00eddo por dentro, em d\u00favidas. Mas n\u00e3o podia transparecer. Em certos momentos, preciso mostrar uma seguran\u00e7a que eu n\u00e3o tenho. Porque se eu dissesse que n\u00e3o sabia, seria o princ\u00edpio do descalabro\u201d. Ela compreendeu, deu um sorriso e foi embora. Hoje, ela \u00e9 coordenadora da Escola da Ponte, a terceira desde que sa\u00ed. O l\u00edder tem de ter uma palavra final. E o l\u00edder que escuta chega ao consenso. \u00c9 um exerc\u00edcio muito dif\u00edcil porque exige vigil\u00e2ncia. Sou um vigilante perante mim e os outros.<\/p>\n<p>I.S: Na sua opini\u00e3o, qual \u00e9 o papel do Estado na transi\u00e7\u00e3o de modelos para uma sociedade sustent\u00e1vel?<\/p>\n<p>J.P: Quando me perguntam qual seria a principal medida pol\u00edtica educativa eu respondo, sempre: a que ajudaria o Estado a resolver metade dos problemasda educa\u00e7\u00e3o, hoje, seria publicar um decreto que extinguisse o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. E a partir da\u00ed criar regulamenta\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias que assegurassem que a Educa\u00e7\u00e3o seria algo de responsabilidade local. A\u00ed Bras\u00edlia deixaria de ter aquele monstro burocr\u00e1tico, onde h\u00e1 gente maravilhosa, muito competente, intelectualmente honesta, cientificamente capaz, cujo trabalho n\u00e3o serve para nada. Eles mandam projetos para escolas distantes da realidade deles e os projetos v\u00e3o para a gaveta. O problema do Minist\u00e9rio, no Brasil, \u00e9 o mesmo de Portugal. O monstro burocr\u00e1tico que \u00e9 o MEC brasileiro consome metade dos recursos da Educa\u00e7\u00e3o. Essa m\u00e1quina, que n\u00e3o serve para nada, subdividida em secretarias, coordenadorias, subcoordenadorias.<\/p>\n<p>I.S: Fazendo um paralelo, no ano passado tivemos a COP15, que apesar de ter reunido mais de 100 chefes-de-Estado n\u00e3o chegou a um resultado concreto. Quest\u00f5es globais como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que envolvem interesses diversos e conflitantes, devem ser discutidas em institui\u00e7\u00f5es multilaterais?<\/p>\n<p>J.P: Essas institui\u00e7\u00f5es supranacionais s\u00e3o in\u00fateis porque s\u00e3o controladas pelo mercado. Temos de perceber que o sistema capitalista existe. \u00c9 incontorn\u00e1vel. E as l\u00f3gicas do sistema n\u00e3o t\u00eam nada a ver com uma sociedade sustent\u00e1vel. O que eu fa\u00e7o, ent\u00e3o? Vou vivendo, assim, em dois planos diferentes simult\u00e2neos, sincr\u00f4nicos. Estou naquele que desejo e considero melhor para a humanidade para que ela n\u00e3o desapare\u00e7a, para que n\u00e3o haja mais sofrimento do que j\u00e1 existe. Mas convivo no outro, que \u00e9 o que me d\u00e1 sustento, aposentadoria. Estou sempre com os dois p\u00e9s nesse mundo que n\u00e3o \u00e9 nada abstrato, que \u00e9 o que eu fa\u00e7o na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A ponte com a realidade<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos turmas, n\u00e3o temos alunos separados por classes, nossos professores n\u00e3o d\u00e3o aulas com giz e lousa, n\u00e3o temos campainhas separando o tempo, n\u00e3o temos provas e notas.\u201d Foi com essa descri\u00e7\u00e3o que Rubem Alves teve o seu primeiro contato com a Escola da Ponte. A explica\u00e7\u00e3o, que num primeiro momento chocou o escritor brasileiro, partiu de uma aluna de seis anos.<\/p>\n<p>A desconfian\u00e7a inicial se transformou em encantamento, assim que Alves p\u00f4de compreender a dimens\u00e3o daquele trabalho. N\u00e3o sem raz\u00e3o, tornou-se um de seus principais promotores, vindo inclusive a relatar essa sua experi\u00eancia no livro A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir, publicado pela editora Papirus.<\/p>\n<p>Trata-se de uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de ensino, localizada em Vila das Aves, no Distrito do Porto, em Portugal. O projeto pedag\u00f3gico, que mudou a realidade dessa escola e a tornou internacionalmente conhecida, come\u00e7ou a ser constru\u00eddo em 1976, com a chegada do educador Jos\u00e9 Pacheco.<\/p>\n<p>O modelo surgiu da necessidade de respeitar as diferen\u00e7as individuais dos alunos. Come\u00e7ou-se, ent\u00e3o, por eliminar as s\u00e9ries e a divis\u00e3o por faixa et\u00e1ria para organizar os estudantes em torno de temas de interesse comum. Cada um dos grupos conta com a orienta\u00e7\u00e3o de um professor. Juntos, eles estabelecem um programa de trabalho de duas semanas. Durante esse tempo, leem e pesquisam para depois se reunirem, a fim de avaliar o que aprenderam ou deixaram de aprender.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Natureza em cores e formas \u2013 As obras que ilustram esta entrevista s\u00e3o de autoria da artista pl\u00e1stica paulista Tatiana Clauzet. De seu ateli\u00ea, instalado em meio \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica, no sul do Estado do Rio de Janeiro, ela contempla e procura reproduzir as cores e as formas desse rico ecossistema.<\/p>\n<p>O trabalho da artista pl\u00e1stica \u00e9 inspirado na natureza e suas conex\u00f5es, principalmente na rela\u00e7\u00e3o espiritual entre homem e natureza, expressando-se por meio de formas simb\u00f3licas, cores harmoniosas e vibrantes. Em 10 anos de carreira profissional, ela tem realizado diversas exposi\u00e7\u00f5es no Brasil e no exterior.<\/p>\n<p>Para quem tem curiosidade em saber de onde vem tanta inspira\u00e7\u00e3o, uma boa not\u00edcia: o ateli\u00ea da artista fica aberto ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es: http:\/\/www.tatianaclauzet.pro.br<\/p>\n<p>_________________________________<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.envolverde.com\/materia.php?cod=82521&amp;edt=8\">Envolverde\/Ideia Socioambiental<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O desafio de formar cidad\u00e3os para uma sociedade sustent\u00e1vel: as li\u00e7\u00f5es da Escola da Ponte, analisadas pelo seu idealizador, Jos\u00e9 Pacheco. 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