{"id":18224,"date":"2010-12-22T23:59:37","date_gmt":"2010-12-23T02:59:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=18224"},"modified":"2010-12-22T23:59:37","modified_gmt":"2010-12-23T02:59:37","slug":"economista-diz-que-cuidar-da-crianca-e-melhor-caminho-para-acabar-com-a-miseria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=18224","title":{"rendered":"Economista diz que cuidar da crian\u00e7a \u00e9 melhor caminho para acabar com a mis\u00e9ria"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" title=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as brincando\" src=\"http:\/\/metropolionline.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/crian\u00e7as-quinta-na-pra\u00e7a.gif\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as brincando\" width=\"210\" height=\"168\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>A presidenta eleita, Dilma Rousseff, mostra disposi\u00e7\u00e3o de que seu governo utilize valores de refer\u00eancia para calcular o n\u00famero de pessoas pobres e o n\u00famero de miser\u00e1veis que precisam de pol\u00edticas p\u00fablicas para garantir subsist\u00eancia e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida. Os valores n\u00e3o foram divulgados, mas o estabelecimento das linhas de pobreza e de indig\u00eancia permitem ao governo avaliar a efic\u00e1cia dos programas sociais e assistir \u201cos mais pobres dos pobres\u201d, como dizem os economistas. Al\u00e9m dessa prioridade, Dilma quer focar na inf\u00e2ncia para cumprir a promessa de acabar com a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Para a economista S\u00f4nia Rocha, autora do livro Pobreza no Brasil: Afinal, de Que Se Trata?, cuidar das crian\u00e7as \u00e9 \u201co melhor caminho para romper o c\u00edrculo vicioso da pobreza\u201d. Esse tipo de investimento, segundo ela, pode gerar melhores garantias de emprego no futuro. Nos \u00faltimos anos, a participa\u00e7\u00e3o de pessoas pobres no mercado de trabalho foi o principal fator para a melhoria da distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha \u00e9 doutora em planejamento econ\u00f4mico pela Universidade de Sorbonne (Fran\u00e7a) e j\u00e1 trabalhou nas tr\u00eas principais institui\u00e7\u00f5es brasileiras que produzem e analisam indicadores socioecon\u00f4micos: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e a Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV). Atualmente, a economista \u00e9 pesquisadora do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), no Rio de Janeiro. Ela concedeu essa entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil por e-mail.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil &#8211; O futuro governo anuncia que adotar\u00e1 uma linha oficial de pobreza para avaliar os resultados das pol\u00edticas sociais. A linha de pobreza serve para isso? Por que at\u00e9 hoje n\u00e3o h\u00e1 uma linha oficial?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o governo federal anuncia esse tipo de iniciativa e espero que agora seja para valer. Seria a forma de ter par\u00e2metros de refer\u00eancia para estabelecer metas de desempenho e acompanhamento da sua execu\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. Metodologicamente n\u00e3o h\u00e1 dificuldade, mas o governante corre sempre o risco de ter o \u00f4nus pol\u00edtico de resultados aqu\u00e9m do esperado. Vale lembrar que, uma vez utilizando as linhas oficiais, o indicador de resultado n\u00e3o dever\u00e1 ser apenas o n\u00famero de pobres e\/ou de indigentes (caso, como desej\u00e1vel, sejam adotados tamb\u00e9m par\u00e2metros oficiais para as linhas de indig\u00eancia). Caberia considerar outros indicadores, como, por exemplo, o que mede o n\u00edvel de renda dos pobres, chamado de hiato da renda.<\/p>\n<p>ABr &#8211; Como o governo deve calcular essa linha? H\u00e1 alguma refer\u00eancia internacional interessante?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; Diferentemente da maioria dos pa\u00edses &#8211; mesmo os mais desenvolvidos, como os da Comunidade Europeia -, o Brasil tem, de longa data, um sistema estat\u00edstico rico. Isso significa que h\u00e1 muito dispomos de estat\u00edsticas que permitem estabelecer linhas de indig\u00eancia (que correspondem ao custo da cesta alimentar b\u00e1sica) e linhas de pobreza (que correspondem ao custo de todo o consumo b\u00e1sico) a partir da estrutura de consumo observada entre os pobres. As estat\u00edsticas brasileiras permitem n\u00e3o s\u00f3 que se evite definir as cestas de forma normativa &#8211; isto \u00e9, uma cesta ideal ou padr\u00e3o \u2013, mas estabelecer a composi\u00e7\u00e3o de cestas e seus respectivos valores para diferentes regi\u00f5es e \u00e1reas rurais e urbanas. Assim \u00e9 poss\u00edvel levar em conta a diversidade da estrutura de consumo e de pre\u00e7os ao consumidor em cada uma delas. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma dificuldade metodol\u00f3gica nem exemplos not\u00e1veis no exterior. A melhor solu\u00e7\u00e3o a ser adotada no pa\u00eds significa apenas fazer o melhor aproveitamento da disponibilidade de dados estat\u00edsticos brasileiros. A esse respeito \u00e9 importante lembrar que abordagens simples e muitas vezes toscas t\u00eam que ser utilizadas em outros pa\u00edses em fun\u00e7\u00e3o da falta de informa\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas, o que n\u00e3o \u00e9 o nosso caso. Nesse sentido, duas caracter\u00edsticas metodol\u00f3gicas para o estabelecimento de linhas dever\u00e3o ser obrigatoriamente adotadas no Brasil, j\u00e1 que se disp\u00f5e de pesquisa atualizada e de cobertura nacional sobre or\u00e7amentos familiares (IBGE\/Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares 2008\/2009): linhas baseadas no consumo observado e linhas diferenciadas por \u00e1reas geogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>ABr &#8211; Que valores a senhora calcula que devem ser estabelecidos para as linhas de pobreza e de mis\u00e9ria?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; Os valores s\u00e3o necessariamente diferenciados por \u00e1reas, por exemplo, mais alto nas regi\u00f5es metropolitanas, onde o custo de vida dos pobres \u00e9 mais elevado, e mais baixo em \u00e1reas rurais, onde ocorre o contr\u00e1rio. H\u00e1 diferen\u00e7as regionais e entre estados. A gama de valores a ser adotada depende de decis\u00f5es quanto a especificidades de cunho metodol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m de um consenso quanto ao n\u00edvel de pobreza, que \u00e9 pol\u00edtica e operacionalmente aceit\u00e1vel para ser usado hoje como ponto de partida. Minhas estimativas de propor\u00e7\u00e3o de pobres e de indigentes, com base na \u00faltima Pnad [Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios], a de 2009, foram de, respectivamente, 21,8% da popula\u00e7\u00e3o (40,5 milh\u00f5es de pessoas pobres) e 5,2% de indigentes (9,6 milh\u00f5es de pessoas). A minha linha de pobreza mais alta tinha o valor de R$ 316,39 (metr\u00f3pole de S\u00e3o Paulo) e a mais baixa R$ 83,24 (Norte rural). Esses valores referem-se ao custo do consumo m\u00ednimo de cada pessoa na fam\u00edlia por m\u00eas.<\/p>\n<p>ABr &#8211; Dentro desses crit\u00e9rios, quantos brasileiros s\u00e3o pobres e quantos s\u00e3o miser\u00e1veis? A senhora sabe a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica desses dois segmentos nas grandes regi\u00f5es e estados?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; As regi\u00f5es Norte e Nordeste permanecem como as mais pobres, e a Regi\u00e3o Sul \u00e9 aquela onde os \u00edndices de pobreza s\u00e3o mais baixos, com destaque para o estado de Santa Catarina. Vale lembrar que a \u00e1rea rural, onde os \u00edndices de pobreza j\u00e1 foram cr\u00edticos e notadamente mais elevados do que os das \u00e1reas metropolitanas, tiveram melhorias significativas nos \u00faltimos 20 anos, apresentando hoje indicadores de rendimento semelhantes aos das \u00e1reas urbanas e metropolitanas.<\/p>\n<p>ABr &#8211; Olhando em retrospectiva a \u00faltima d\u00e9cada, os \u00edndices de pobreza atestam se houve de fato aumento real de renda dos estratos mais baixos? Isso foi suficiente para diminuir a desigualdade? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; O aumento de renda que vem se dando de forma mais acentuada para os mais pobres se reflete nos indicadores de pobreza, tais como o n\u00famero de pobres, a propor\u00e7\u00e3o de pobres na popula\u00e7\u00e3o total e o hiato da renda. A desigualdade de renda diminui porque a renda dos mais pobres est\u00e1 crescendo de forma mais r\u00e1pida do que a do resto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>ABr &#8211; Os supostos aumento da renda e eleva\u00e7\u00e3o de estratos sociais t\u00eam sido atribu\u00eddos pelo atual governo, especialmente, ao ganho real do sal\u00e1rio m\u00ednimo e ao Bolsa Fam\u00edlia. Visto que no pr\u00f3ximo ano ser\u00e1 limitado o ganho real do m\u00ednimo e que o governo anuncia estar pr\u00f3ximo da universaliza\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia, h\u00e1 riscos do esgotamento dessas f\u00f3rmulas? Se sim, o que pode ser feito?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; O principal fator para a melhoria distributiva foi o funcionamento do mercado de trabalho, impactando com perdas menores os mais pobres quando a renda do trabalho caiu entre 1997 e 2003, e gerando ganhos maiores na base da distribui\u00e7\u00e3o no per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o da renda do trabalho desde 2004. Esse resultado est\u00e1 em parte ligado \u00e0 pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, mas tamb\u00e9m a melhorias associadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e consequentes ganhos de produtividade da m\u00e3o de obra. O Bolsa Fam\u00edlia teve papel proporcionalmente importante em fun\u00e7\u00e3o dos baixos valores transferidos. No entanto, \u00e9 poss\u00edvel ainda melhorar a focaliza\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios pagos e a cobertura da popula\u00e7\u00e3o-alvo, o que seria essencialmente uma quest\u00e3o de gest\u00e3o do programa. H\u00e1 tamb\u00e9m espa\u00e7o para aumentar o valor dos benef\u00edcios pagos, o que depende de decis\u00e3o pol\u00edtica. Em ambos os casos, o resultado seria o aumento do impacto distributivo do programa.<\/p>\n<p>ABr &#8211; O futuro governo tamb\u00e9m tem anunciado foco nas crian\u00e7as na primeira e segunda inf\u00e2ncia. Como essa prioridade repercute em favor do aumento de renda das fam\u00edlias mais pobres e, eventualmente, da diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade?<\/p>\n<p>S\u00f4nia Rocha &#8211; Essas medidas s\u00e3o priorit\u00e1rias porque protegem melhor as crian\u00e7as pobres hoje, que s\u00e3o, de fato, os indiv\u00edduos mais vulner\u00e1veis entre os vulner\u00e1veis quando na fase pr\u00e9-escolar. Ademais, essas medidas s\u00e3o o melhor caminho para romper o c\u00edrculo vicioso da pobreza, j\u00e1 que aumenta o capital humano das fam\u00edlias pobres, criando a possibilidade de melhor inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho mais adiante. A esse respeito \u00e9 importante lembrar que as transfer\u00eancias de renda s\u00e3o medidas paliativas e que n\u00e3o h\u00e1 problema algum nisso: elas d\u00e3o aos mais pobres a possibilidade de melhorar imediatamente o seu n\u00edvel de vida, apesar de suas desvantagens estruturais no presente. Infelizmente, as medidas antipobreza mais eficazes, aquelas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, aten\u00e7\u00e3o materno-infantil em geral), s\u00e3o medidas de custo mais elevado do que as transfer\u00eancias de renda, com retornos pol\u00edticos menores e de operacionaliza\u00e7\u00e3o dif\u00edcil devido aos problemas de gest\u00e3o da rede de atendimento.<\/p>\n<p>_________________<\/p>\n<p><strong>Fonte: <\/strong><a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/home\/-\/journal_content\/56\/19523\/1125265\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a economista S\u00f4nia Rocha, autora do livro Pobreza no Brasil: Afinal, de Que Se Trata?, cuidar das crian\u00e7as \u00e9 \u201co melhor caminho para romper o c\u00edrculo vicioso da pobreza\u201d. 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