{"id":18253,"date":"2010-12-29T14:01:36","date_gmt":"2010-12-29T17:01:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=18253"},"modified":"2010-12-29T14:01:36","modified_gmt":"2010-12-29T17:01:36","slug":"as-infancias-do-mundo-reflexoes-sobre-diversidade-e-perspectivas-de-inclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=18253","title":{"rendered":"As inf\u00e2ncias do mundo. Reflex\u00f5es sobre diversidade e perspectivas de inclus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_13106\" aria-describedby=\"caption-attachment-13106\" style=\"width: 207px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/1171701005_diversidade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-13106\" title=\"Inclusive - diversidade.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/12\/1171701005_diversidade.jpg\" alt=\"Inclusive - diversidade.\" width=\"207\" height=\"150\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13106\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>As inf\u00e2ncias do mundo. Reflex\u00f5es sobre diversidade e perspectivas de inclus\u00e3o, por Irene Rizzini e Malcolm Bush. Revista Inclus\u00e3o. Bras\u00edlia &#8211; DF, v.1, n.2.<\/p>\n<p><strong>Resumo\/Abstract<\/strong><\/p>\n<p>Este artigo examina as oportunidades e tens\u00f5es que emergem das diferen\u00e7as presentes no cotidiano de vida da popula\u00e7\u00e3o infantil e juvenil no contexto de um pa\u00eds ou em diferentes pa\u00edses. Negar estas tens\u00f5es, na tentativa de pensar a inclus\u00e3o de forma superficial ou ret\u00f3rica, apenas as exacerba. Os autores argumentam que h\u00e1 medidas a serem consideradas para enfrentar o desafio da diversidade.<\/p>\n<p><strong>Sobre os autores<\/strong><\/p>\n<p>Irene Rizzini<br \/>\nProfessora e pesquisadora da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro \u2013 Brasil e diretora do Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Inf\u00e2ncia (Ciesp).<br \/>\nE-mail: rizzini@hexanet.com.br<\/p>\n<p>Malcolm Bush<br \/>\nPresidente do Woodstock Institute (Chicago, USA), organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 pesquisa e pol\u00edticas na \u00e1rea de desenvolvimento econ\u00f4mico, comunit\u00e1rio e acesso a recursos financeiros.<br \/>\nE-mail: oliveirap@oitbrasil.org.br<\/p>\n<p>DIVERSIDADE E PERSPECTIVAS DE INCLUS\u00c3O<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o pressup\u00f5e a exist\u00eancia de exclus\u00e3o. Esta normalmente resulta de diferen\u00e7as, reais ou percebidas, entre pessoas de diversos contextos ou segmentos. Entretanto, algumas destas diferen\u00e7as acabam criando tens\u00f5es que podem conduzir \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e \u00e0 intoler\u00e2ncia, fen\u00f4menos que est\u00e3o na origem de diversos conflitos presentes na sociedade contempor\u00e2nea. Neste artigo, examinamos as oportunidades e tens\u00f5es que emergem das diferen\u00e7as existentes no cotidiano de vida da popula\u00e7\u00e3o infantil e juvenil.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que se compreender na atual conjuntura pol\u00edtica internacional sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o jovem 1 em um mundo sujeito a t\u00e3o r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es. A id\u00e9ia datransforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa dizer que as mudan\u00e7as em grande escala sejam uma experi\u00eancia inteiramente nova, ainda mais se considerarmos que o fen\u00f4meno de ondas migrat\u00f3rias, conquistas e trocas comerciais sempre estiveram presentes ao longo de toda a hist\u00f3ria da humanidade. E esses fen\u00f4menos sempre impactaram a vida das crian\u00e7as e dos adolescentes.<\/p>\n<p>No entanto, a experi\u00eancia contempor\u00e2nea da globaliza\u00e7\u00e3o apresenta caracter\u00edsticas quantita-tivamente distintas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s experi\u00eancias pregressas. As economias nacionais tornaram-se cada vez mais interdependentes com a dinamiza\u00e7\u00e3o dos fluxos comerciais e a integra\u00e7\u00e3o dos mercados. Uma das conseq\u00fc\u00eancias perversas deste sistema \u00e9 a exclus\u00e3o de n\u00famero consider\u00e1vel de crian\u00e7as oriundas de pa\u00edses pobres e que se encontram \u00e0 margem do processo de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e industrial.<\/p>\n<p>1 Neste texto, nosso foco \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o infantil e juvenil, cobrindo os primeiros 18 anos de vida, mesmo que por vezes utilizemos apenas o termo crian\u00e7a (ou inf\u00e2ncia). Agradecemos o trabalho cuidadoso de tradu\u00e7\u00e3o de Mariana Menezes Neumann, da equipe do Ciespi.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, cabe ressaltar que o fen\u00f4meno da globaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apresenta aspectos positivos para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o jovem. N\u00f3s devemos celebrar o fato de que muitas crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o mais abaixo da linha da pobreza e que a \u00cdndia e a China experimentam um processo de crescimento econ\u00f4mico acelerado. Ao mesmo tempo, n\u00e3o podemos esquecer que as disparidades entre os pa\u00edses pobres e ricos se acentuaram e que as chances de os pa\u00edses pobres participarem da economia de mercado globalizado tende a ser cada vez menor, em fun\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as no n\u00edvel de escolaridade, capacita\u00e7\u00e3o profissional e investimento.<\/p>\n<p>As conseq\u00fc\u00eancias tr\u00e1gicas das guerras, como a fome e as doen\u00e7as, continuam a afetar a vida de in\u00fameras crian\u00e7as. E a quest\u00e3o da pobreza n\u00e3o se limita exclusivamente \u00e0 renda. Como ressaltado pelo reverendo Rowan Williams, ela se refere tamb\u00e9m \u00e0 estabilidade dom\u00e9stica, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao acesso a fontes de \u00e1gua limpa. E acrescenta, lan\u00e7ando m\u00e3o de uma express\u00e3o que reflete sua sensibilidade: a pobreza se relaciona com a familiaridade com certas pr\u00e1ticas e linguagens que possibilitam a compreens\u00e3o humana2.<\/p>\n<p>O que podemos dizer para as crian\u00e7as e adolescentes que n\u00e3o encontram alternativas para participar ativamente da sociedade? E o que dizer para as crian\u00e7as que t\u00eam perspectivas auspiciosas para o futuro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quelas que nada t\u00eam? A essas perguntas, gostar\u00edamos de acrescentar uma outra que afeta profundamente a vida das crian\u00e7as e que, a nosso ver, com freq\u00fc\u00eancia, passa despercebida. Ou seja, o poder exercido pela diferen\u00e7a ou diversidade na capacidade de provocar encantamento ou perturba\u00e7\u00e3o, alimentar a nossa imagina\u00e7\u00e3o ou destruir a nossa capacidade de viver em harmonia. O que dizer das perspectivas de inclus\u00e3o pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica dos jovens cidad\u00e3os de hoje na sociedade de amanh\u00e3?<\/p>\n<p>Muitos pa\u00edses admitem a recorr\u00eancia de atitudes discriminat\u00f3rias e violentas por parte daqueles que det\u00eam algum tipo de poder, em fun\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as raciais, \u00e9tnicas, religiosas ou de g\u00eanero. No Brasil, at\u00e9 pouco pouco tempo acredit\u00e1vamos ser refer\u00eancia de uma sociedade diversificada racialmente convivendo de forma harmoniosa. No entanto, a realidade se mostra diferente, levando-nos a confrontar os desafios relacionados \u00e0 ra\u00e7a e oportunidades de vida.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que estas quest\u00f5es se tornam alvo de cr\u00edticas, corremos o risco de mais uma vez perder o foco e passarmos a uma celebra\u00e7\u00e3o superficial da diversidade. Isso poderia nos impossibilitar de identificar os problemas prementes que temos dificuldade de assimilar e, acima de tudo, aqueles que desestabilizam o nosso sistema de cren\u00e7as e valores. Assim, identificamos a exist\u00eancia de uma tens\u00e3o dial\u00e9tica entre celebrar a diversidade que as crian\u00e7as de contextos socioculturais distintos trazem para as nossas vidas e, ao mesmo tempo, conviver com diferen\u00e7as dif\u00edceis de serem aceitas.<\/p>\n<p>O poeta sufi Hafiz3, do s\u00e9culo XIV, celebra a diversidade a partir da m\u00fasica:<\/p>\n<p>Cada cidade \u00e9 uma c\u00edtara 4<\/p>\n<p>Que entoa o seu canto aos nossos ouvidos.<\/p>\n<p>Em outro poema, Hafiz ressalta a emerg\u00eancia da m\u00fasica onde h\u00e1 vida:<\/p>\n<p>Em qualquer lugar<\/p>\n<p>Em que Deus dirige o seu olhar<\/p>\n<p>A vida se inicia<\/p>\n<p>Batendo palmas.<\/p>\n<p>As mir\u00edades de criaturas<\/p>\n<p>Pegam os seus instrumentos<\/p>\n<p>E o auxiliam na composi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Da m\u00fasica5.<\/p>\n<p>Onde quer que existam pessoas e comunidades, independentemente do lugar, cada um ter\u00e1 uma forma particular de expressar felicidade e contentamento, contribuindo para o caleidosc\u00f3pio de m\u00fasicas. O antrop\u00f3logo Clifford Geertz percebe que a diferen\u00e7a e a diversidade fazem parte da realidade que devemos enfrentar para evitar graves conseq\u00fc\u00eancias. Primeiramente, Geertz insiste em pontuar que a id\u00e9ia de vivermos em uma \u201caldeia global\u201d n\u00e3o reduz as diferen\u00e7as:<\/p>\n<p>2 Reverendo Dr. Rowan Williams, Arcebispo de Canterbury, \u201cChristianity, Islam and the Challenge of Poverty\u201d, discurso proferido no Instituto Bosniak, Sarajevo, maio, 2005. www.archbishopof canterbury.org\/sermons_speeches . Acesso em 19 de junho de 2005.<\/p>\n<p>3 Hafiz, \u201cEvery City is a Dulcimer\u201d in The Gift. Poems by Hafiz, the Great Sufi Master. Tradu\u00e7\u00e3o Daniel Ladinsky, New York: Arkana, penguin Putman inc, p.315.<\/p>\n<p>4 A palavra no original \u00e9 \u201cdulcimer\u201d. De acordo com o dicion\u00e1rio, significa \u201cc\u00edtara\u201d, que \u00e9 \u201cum antigo instrumento de cordas semelhante \u00e0 lira, mas maior (www.priberam.pt, acesso em 3\/03\/2006).<\/p>\n<p>5 Hafiz, \u201cLife Starts Clapping\u201d, ibid. p.85.<\/p>\n<p>Todos sem exce\u00e7\u00e3o \u2013 socialistas, positivistas, sikhs e irlandeses \u2013 n\u00e3o ir\u00e3o perceber de forma semelhante o que \u00e9 aceit\u00e1vel, justo, bonito ou razo\u00e1vel, nem agora, e provavelmente, nunca o far\u00e3o6.<\/p>\n<p>Pense nos inimigos ancestrais do seu pa\u00eds ou regi\u00e3o e pergunte a voc\u00ea mesmo se Geertz est\u00e1 certo. No entanto, a vis\u00e3o do autor n\u00e3o \u00e9 pessimistaper se. Ele percebe a diferen\u00e7a e a diversidade como parte da ess\u00eancia do ser humano. E essas diferen\u00e7as n\u00e3o existem somente no vilarejo vizinho, ou regi\u00e3o ou mesmo pa\u00eds. Citando Geertz novamente, \u201co sentimento de estranhamento (ou estrangeirismo) n\u00e3o se inicia no limite do rio, mas sim no da pele\u201d7. A grande diferen\u00e7a \u00e9 na verdade identificar o que nos torna diferentes (voc\u00ea e eu) de todo o resto.<\/p>\n<p>Esta percep\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 esperan\u00e7a e, ao mesmo tempo, nos desafia, pois reside na exist\u00eancia de diferen\u00e7as que transcendem a esfera do cotidiano e do familiar. Assim sendo, n\u00e3o estar\u00edamos legitimados a concentrar-nos justamente nestes desafios? Neste caso, ficar\u00edamos tomados pela exaspera\u00e7\u00e3o, ao compararmos a enorme disparidade entre as condi\u00e7\u00f5es de vida de uma crian\u00e7a em Ruanda e a que se encontra na Nova Zel\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Mais uma vez Geertz confronta as nossas ilus\u00f5es:<\/p>\n<p>O que poderia ter sido, e o que gostar\u00edamos que ocorresse, se empobrece na soberania do que \u00e9 familiar: a tal n\u00edvel que o futuro torna-se obscuro. N\u00e3o significa que devemos nos amar ou morrer (a exemplo de \u00e1rabes e judeus, negros e africaners, pois, neste caso, estamos todos condenados, creio eu). Significa que devemos nos conhecer uns aos outros, e convivermos com essa sabedoria, ou iremos terminar, de acordo com Beckett, em um mundo de solil\u00f3quios8.<\/p>\n<p>Abordaremos alguns pontos que devemos considerar a respeito de nossas diferen\u00e7as, se efetivamente objetivamos melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida e ampliar as oportunidades de inclus\u00e3o social e econ\u00f4mica da popula\u00e7\u00e3o infantil e juvenil no mundo. A t\u00edtulo de exemplo, podemos come\u00e7ar com o epis\u00f3dio que aconteceu recentemente em Paris, relativo \u00e0s diverg\u00eancias que ocorreram entre estudantes mu\u00e7ulmanas e as autoridades francesas. De acordo com a religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, a mod\u00e9stia \u00e9 expressa por meio do uso de v\u00e9us. No entanto, as autoridades governamentais francesas defendem que as cren\u00e7as religiosas n\u00e3o devem ser ostentadas na escola. Esta vis\u00e3o de mundo coaduna-se com o ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Como as escolas s\u00e3o mantidas fundamentalmente com recursos estatais, prevalece o princ\u00edpio que as escolas n\u00e3o devem promover o culto religioso, tornando-as acess\u00edveis para qualquer crian\u00e7a. Algumas fam\u00edlias, confrontadas por esse dilema, optam por enviar seus filhos para escolas vinculadas \u00e0 sua tradi\u00e7\u00e3o religiosa. No entanto, na tentativa de solucionar um problema, geram outro, ou seja, crian\u00e7as que n\u00e3o sabem lidar com diferentes vis\u00f5es de mundo.<\/p>\n<p>Podemos ainda mencionar outro exemplo, que se refere \u00e0s profundas diferen\u00e7as socioecon\u00f4micas na cidade do Rio de Janeiro. As crian\u00e7as residentes nas \u00e1reas privilegiadas da cidade podem facilmente ter acesso \u00e0s melhores praias durante o carnaval. No caso das crian\u00e7as que moram no morro Santa Marta em Botafogo, ao contr\u00e1rio, correm o risco de serem removidas em caminh\u00f5es de lixo, \u201cpara limpar o cen\u00e1rio para os turistas\u201d. Depois do carnaval, parte destas crian\u00e7as freq\u00fcentar\u00e1 as escolas particulares, enquanto as outras, se tiverem sorte, ir\u00e3o para escolas p\u00fablicas sucateadas e desaparelhadas. E como n\u00e3o h\u00e1 um entrosamento real entre os dois grupos, acabamos fortalecendo o sentimento de discrimi-na\u00e7\u00e3o e intoler\u00e2ncia. Ou se voltarmos novamente para o caso europeu, como as crian\u00e7as ciganas em Portugal, taxadas de \u201csujas, feias e m\u00e1s\u201d conseguir\u00e3o ter acesso \u00e0s mesmas oportunidades que as demais?<\/p>\n<p>Estes exemplos demonstram diferen\u00e7as existentes nos pa\u00edses de forma isolada. E, se ampliarmos este diagn\u00f3stico para uma compara\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses, veremos que as crian\u00e7as e os adolescentes de classe m\u00e9dia alta nos sub\u00farbios norte-americanos vivem em um universo completamente antag\u00f4nico ao das crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s e contaminadas pela Aids no meio rural no Qu\u00eania.<\/p>\n<p>6 Geertz, Clifford. Available Light: Anthropological Reflections on Philosophical Topics. Princeton: princeton University Press, 2000, p.73.<\/p>\n<p>7 Geertz, 2000, p.76.<\/p>\n<p>8 Geertz, 2000, p.84.<\/p>\n<p>Enquanto celebramos a diversidade de experi\u00eancias das crian\u00e7as em nossos pa\u00edses, n\u00e3o podemos nos furtar em perceber o lado perverso desta realidade \u2013 aquele que produz e alimenta a cont\u00ednua desigualdade no acesso \u00e0s oportunidades de vida. Podemos sugerir quatro etapas que contemplam medidas a serem consideradas para enfrentar o desafio da diversidade.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, confrontarmos a crescente desigualdade entre os pa\u00edses e a incapacidade de os pa\u00edses pobres superarem a estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a pobreza sem o aux\u00edlio dos pa\u00edses desenvolvidos. Vejamos alguns exemplos. O Produto Interno Bruto (PIB) da Noruega \u00e9 de US$ 43.000, o brasileiro \u00e9 de US$ 3.000, enquanto o PIB da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo \u00e9 de US$ 100,00. Um dos nossos grandes desafios \u00e9 identificar que tipo de aux\u00edlio realmente faz diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A segunda etapa \u00e9 reconhecer que as diferen\u00e7as entre as condi\u00e7\u00f5es de vida das crian\u00e7as tamb\u00e9m est\u00e3o presentes dentro de nossos pa\u00edses por meio da desigualdade econ\u00f4mica, das pol\u00edticas p\u00fablicas inadequadas, da indiferen\u00e7a e da hostilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as marginalizadas. Dados, como os apresentados aqui, devem servir como um chamado \u00e0 realidade. No Brasil, 20% da popula\u00e7\u00e3o det\u00e9m 2,5% do rendimento nacional. Na Rep\u00fablica tcheca, esse n\u00famero se reduz para 14%, enquanto, na \u00cdndia, \u00e9 de 9%. Defendemos, como muitos outros, o perd\u00e3o da d\u00edvida externa para os pa\u00edses pobres, mas n\u00e3o podemos nos furtar em reconhecer que o n\u00edvel de corrup\u00e7\u00e3o e incompet\u00eancia reduz drasticamente as oportunidades para a popula\u00e7\u00e3o jovem.<\/p>\n<p>Como se sabe, em 2000 a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas estabeleceu metas ambiciosas para a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. No entanto, como o ministro do Tesouro ingl\u00eas Gordon Brown apontou, semanas antes do encontro do G-8 na Esc\u00f3cia, nas condi\u00e7\u00f5es atuais, as metas estabelecidas para 2015 s\u00f3 poderiam ser concretizadas em um per\u00edodo de 150 anos 9.<\/p>\n<p>A terceira etapa diz respeito a aprender a ver com bons olhos as diferen\u00e7as que nos questionam, nos provocam raiva ou nos incomodam. N\u00e3o devemos ignorar estas diferen\u00e7as, fingindo que elas n\u00e3o existem, ou por meio do \u201cpoliticamente correto\u201d, que acaba gerando mais discrimina\u00e7\u00e3o e intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, devemos lidar com os aspectos positivos e com os perigos da diferen\u00e7a aos olhos da crian\u00e7a, o alvo das nossas preocupa\u00e7\u00f5es. As crian\u00e7as podem n\u00e3o saber sobre a d\u00edvida do Terceiro Mundo, sobre as diferen\u00e7as na balan\u00e7a comercial ou a devasta\u00e7\u00e3o causada pela pandemia da Aids. No entanto, podem facilmente identificar, a partir da sua experi\u00eancia individual, as diferen\u00e7as que enriquecem as suas vidas e aquelas que trazem sofrimento. Essa dan\u00e7a eterna \u00e9 t\u00e3o intricada e complexa para a crian\u00e7a quanto para o adulto.<\/p>\n<p>O objetivo deste texto \u00e9 abordar o tema da diferen\u00e7a como algo que vai al\u00e9m de um exerc\u00edcio acad\u00eamico \u2013 algo capaz de fomentar o confronto com a realidade complexa que reside fora do nosso universo pessoal como uma condi\u00e7\u00e3osine qua non para nos dedicarmos \u00e0 pesquisa e \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. N\u00e3o nos esquivamos da responsabilidade de investigar, analisar e debater quest\u00f5es relativas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida das crian\u00e7as. Mas a oportunidade (e a responsabilidade) que se apresenta \u00e9 enfocarmos e concentrarmos as nossas energias nas crian\u00e7as e nos adolescentes que enfrentam a exclus\u00e3o e a intoler\u00e2ncia. Esta \u00e9 uma realidade que pode roubarlhes o futuro.<\/p>\n<p>9 Website Guardian Unlimited Politics www.politics.guardian.co.uk\/ development\/story Acesso em 19 de junho de 2005.<\/p>\n<p>_____________________<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/i.creativecommons.org\/l\/by\/3.0\/88x31.png\" alt=\"\" width=\"88\" height=\"31\" \/><\/p>\n<p>Esta obra est\u00e1 licenciada sob uma <a rel=\"license noopener\" href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by\/3.0\/\" target=\"_new\">Licen\u00e7a Creative Commons Attribution 3.0<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo examina as oportunidades e tens\u00f5es que emergem das diferen\u00e7as presentes no cotidiano de vida da popula\u00e7\u00e3o infantil e juvenil no contexto de um pa\u00eds ou em diferentes pa\u00edses. Negar estas tens\u00f5es, na tentativa de pensar a inclus\u00e3o de forma superficial ou ret\u00f3rica, apenas as exacerba. 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