{"id":18267,"date":"2010-12-29T12:19:11","date_gmt":"2010-12-29T15:19:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=18267"},"modified":"2010-12-29T12:19:11","modified_gmt":"2010-12-29T15:19:11","slug":"conviver-com-pessoa-com-deficiencia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=18267","title":{"rendered":"Conviver com pessoa com defici\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/logotipo_PlanetaEducacao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-12135\" title=\"Logotipo do Planeta Educacao, um globo terrestre formado pela letra E\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/logotipo_PlanetaEducacao.jpg\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"120\" \/><\/a><strong>Deise Fernandes<\/strong><\/p>\n<p><em>Como diz Reinaldo Bulgarelli, \u201cDiversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos somos todos n\u00f3s\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Todos acreditamos na  frase acima, ningu\u00e9m duvida que somos todos  diferentes, com caracter\u00edsticas  f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas, e culturais  muito diferentes, e quando pensamos na  hist\u00f3ria mais e maiores  diferen\u00e7as encontramos. Todavia, quando pensamos em uma  pessoa com  defici\u00eancia, essas diferen\u00e7as v\u00e3o al\u00e9m. As diferen\u00e7as de uma pessoa  com  defici\u00eancia v\u00eam carregadas de significados, de interpreta\u00e7\u00f5es, que  levam a  constru\u00e7\u00e3o de imagens, que por sua vez tamb\u00e9m est\u00e3o carregadas  de emo\u00e7\u00e3o  impregnadas das viv\u00eancias ou n\u00e3o, com uma pessoa com  defici\u00eancia.  Isso sem falar do medo que todos temos de adquirir  uma  defici\u00eancia ao longo da vida.<\/p>\n<p>Muitos foram os que  tentaram eliminar a incoer\u00eancia dos conceitos,  mas a palavra \u201cdeficiente\u201d tem  um significado muito forte.  Freq\u00fcentemente \u00e9 confundido \u201cdeficiente\u201d como ant\u00f4nimo  de \u201ceficiente\u201d,  que por sua vez leva \u00e0 id\u00e9ia de \u201cincapaz\u201d. Id\u00e9ia que se fortalece,   quando n\u00e3o existe viv\u00eancia com uma pessoa com defici\u00eancia, ou se a  viv\u00eancia for  com uma pessoa cuja defici\u00eancia seja de fato limitante e  incapacitante.<\/p>\n<p>E aqui outra quest\u00e3o  aparece, \u201cgeneraliza\u00e7\u00e3o\u201d. De novo, a frase  \u201cDiversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, Diversos  somos todos n\u00f3s\u201d, n\u00e3o \u00e9 aplicada  para a pessoa com defici\u00eancia.  O simples fato de ter uma defici\u00eancia   semelhante ao outro, j\u00e1 \u00e9 determinante que seja igual. As diferen\u00e7as   individuais, familiares, socioecon\u00f4micas, psicol\u00f3gicas, n\u00e3o s\u00e3o levadas  em  considera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA sociedade constr\u00f3i seus  valores culturais, se organiza conforme  eles, e se expressam atrav\u00e9s das  palavras. Portanto, o primeiro grande  desafio das pessoas com defici\u00eancia \u00e9  superar o significado e a imagem  que lhes \u00e9 imposta pela palavra \u201cdeficiente\u201d.<\/p>\n<p>Seu desafio come\u00e7a na  fam\u00edlia, que n\u00e3o espera e nem quer ter um  filho com defici\u00eancia, depois na escola,  na sociedade, e por fim na  empresa. Outro valor cultuado pela sociedade \u00e9 o sucesso,  que define  que para se ter sucesso \u00e9 necess\u00e1rio ser perfeito, completo, forte,  ter  tudo em ordem, portanto, aquele que n\u00e3o tem alguma parte do seu corpo,  n\u00e3o  pode conseguir o sucesso, a ordem, o progresso, e leva o estigma de  dependente,  com necessidade de tutela.<\/p>\n<p>No fundo, a frase \u201cDiversos  n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos somos todos  n\u00f3s\u201d \u00e9 muito mais frase de desejo do  que de realidade, na medida em que  a sociedade reconhece e valoriza os iguais,  homog\u00eaneos, aqueles que de  todas as formas atendam suas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>O mais cruel \u00e9 que a sociedade  cria suas regras, e mesmo que essas  sejam incoerentes ou injustas, todos  acreditam e as seguem. Mesmo  aqueles que s\u00e3o os estigmatizados acreditam que de  fato s\u00e3o inferiores,  menores, menos. E as pessoas com defici\u00eancia tamb\u00e9m trazem  dentro de  si os conceitos impostos pela cultura, e precisam superar os   sentimentos de inferioridade e incapacidade.<\/p>\n<p>Este artigo tem o  objetivo de trazer essas quest\u00f5es para serem  debatidas pelas pessoas, por ser  necess\u00e1rio que se reconstruam esses  valores, tanto da pessoa com defici\u00eancia,  como da sem defici\u00eancia,  porque as imagens constru\u00eddas est\u00e3o na cabe\u00e7a dos dois  lados, e de  muitas formas se alimentam, impedindo que se estabele\u00e7am   relacionamentos maduros  e sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para escrever essas  reflex\u00f5es, li e reli in\u00fameros textos, de  diversos autores, sens\u00edveis, interessados  na quest\u00e3o da pessoa com  defici\u00eancia. Apesar de reconhecer a riqueza de  informa\u00e7\u00f5es e a  dedica\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o desses autores em definir e conceituar o  que \u00e9 ser  pessoa com defici\u00eancia e o que \u00e9 inclu\u00ed-las na sociedade, devo   confessar que pouqu\u00edssimas vezes me senti representada, e raramente  reconheci  minha vida e meu jeito de ver as coisas nos relatos que li.<\/p>\n<p>Sou cega desde os 15  anos, em conseq\u00fc\u00eancia de um deslocamento de  retina, que teve como causa alta  miopia. Talvez exatamente por ter  perdido a vis\u00e3o aos 15 anos, tenha outro  jeito de enxergar as coisas,  mas um caso como o meu n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. Conhe\u00e7o muitos  deficientes visuais  que adquiriram a cegueira depois de adultos, e n\u00e3o s\u00f3 a  defici\u00eancia  visual como todas as outras, por conta de doen\u00e7as ou principalmente   acidentes de tr\u00e2nsito e de trabalho. Portanto, somos muitos que n\u00e3o nos   sentimos retratados pelos estudiosos e pesquisadores do tema \u201cInclus\u00e3o  das  Pessoas com Defici\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero falar em nome  das pessoas com defici\u00eancia, nem ao menos  dos deficientes visuais, n\u00e3o fiz  nenhuma pesquisa e n\u00e3o tenho  autoriza\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m para falar em nome do  grupo. Tudo que estou  escrevendo s\u00e3o minhas pr\u00f3prias reflex\u00f5es e que  eventualmente possam  refletir o jeito de viver de v\u00e1rias dessas pessoas.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, n\u00e3o  podemos esquecer que estamos no Brasil e que  temos car\u00eancia de quase tudo, e  que a desigualdade entre as pessoas no  nosso pa\u00eds \u00e9 um aspecto mundialmente  conhecido e que muito nos  envergonha como brasileiros.<\/p>\n<p>O ideal de uma sociedade  verdadeiramente inclusiva est\u00e1 na cabe\u00e7a de  poucos, e ainda temos muito que  avan\u00e7ar para termos uma sociedade com  igualdade e respeito a todos.<\/p>\n<p>Percebemos as  dificuldades do Brasil na falta de escolas, que \u00e9  sentida n\u00e3o s\u00f3 pelas pessoas  com defici\u00eancia, mas por muitas crian\u00e7as  que, em idade escolar, n\u00e3o encontram  vagas para estudar; no sistema de  sa\u00fade, que n\u00e3o previne e nem cuida de todos  os nossos doentes; nas  poucas vagas e postos de trabalho para os brasileiros em  idade  economicamente ativa; na realidade de que nem todos possuem casa  pr\u00f3pria,  e que muitos vivem em condi\u00e7\u00f5es subumanas, e assim por diante.  Com esse cen\u00e1rio  brasileiro, n\u00e3o podemos e nem devemos esperar que  especificamente as pessoas  com defici\u00eancia tenham tudo o que grande  parte dos brasileiros n\u00e3o possui. N\u00e3o  podemos cobrar dos governos,  empresas, escolas, e mesmo fam\u00edlias, o que ainda  n\u00e3o sabem e nem podem  oferecer. O Brasil est\u00e1 em plena constru\u00e7\u00e3o de uma  sociedade  democr\u00e1tica e justa. E nessa constru\u00e7\u00e3o precisa de todos trabalhando   juntos de forma compartilhada e cooperativa, para sermos uma na\u00e7\u00e3o forte  e  sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sermos  brasileiros e vivermos nessa realidade antes de  sermos deficientes, somos  pessoas, com tudo o que isso significa.  Sonhos, medos, hist\u00f3ria de vida,  oportunidades, tend\u00eancias, voca\u00e7\u00f5es, e  tudo mais. \u00c9 comum em minhas palestras  eu pedir que as pessoas fechem  os olhos e que percebam que continuam sentindo,  pensando, desejando as  mesmas coisas de quando com os olhos abertos. A  defici\u00eancia \u00e9 quase  como uma caracter\u00edstica pessoal, como cor de cabelo,  altura, cor dos  olhos.<\/p>\n<p>Desde que nascemos, ou  algum tempo depois de adquirirmos uma  defici\u00eancia, incorporamos suas  caracter\u00edsticas, suas limita\u00e7\u00f5es, como  qualquer outra caracter\u00edstica f\u00edsica. Todos  n\u00f3s somos acostumados com a  nossa altura, por exemplo, e nos adaptamos \u00e0s suas  particularidades e  \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo nos aproveitamos de suas vantagens. Assim  tamb\u00e9m  acontece com a defici\u00eancia.<\/p>\n<p>A rotina, o sentimento de  sobreviv\u00eancia e a repeti\u00e7\u00e3o das atividades  fazem com que aprendamos a lidar com  as limita\u00e7\u00f5es e superar as  dificuldades, valorizando e explorando ao m\u00e1ximo as  facilidades e  possibilidades.<\/p>\n<p>Existem in\u00fameros exemplos  de pessoas com defici\u00eancia que fizeram e  fazem coisas que ningu\u00e9m acreditava  ser poss\u00edvel. Mas eles conseguiram  porque convivem consigo mesmos o tempo todo  e sabem o que, como, onde e  quando devem avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Durante um tempo, e esse  tempo depende de cada pessoa, a defici\u00eancia  causa algum desconforto.  A falta de institui\u00e7\u00f5es capacitadas, as   dificuldades da fam\u00edlia na aceita\u00e7\u00e3o e no apoio que precisamos, as  barreiras  arquitet\u00f4nicas, nos causam inseguran\u00e7a e algumas vezes  impot\u00eancia para superar  as dificuldades, mas a vida, com sua for\u00e7a  extraordin\u00e1ria, nos impulsiona para o  desafio de crescer, de se  desenvolver, de avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>A defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9  doen\u00e7a, a defici\u00eancia n\u00e3o d\u00f3i, portanto nossa  vontade, alegria, coragem  continuam dentro de n\u00f3s, e chega um momento  que n\u00e3o suportamos a clausura e  sa\u00edmos para a vida.<\/p>\n<p>Sair para a vida, n\u00e3o  significa que sabemos o que queremos, nem  sempre sabemos ao menos onde estamos,  o que somos, quantos somos.  Queremos sair para fazer a nossa hist\u00f3ria, do nosso  jeito, de algum  jeito.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as fazem birra,  gritam, exigem, querem porque querem ir \u00e0  escola, sair, brincar. J\u00e1 presenciei  in\u00fameras cenas assim, por um lado a  crian\u00e7a tem fome e necessidade de vida,  pelo outro os familiares  seguram, impedem, pro\u00edbem, por medo, por  desinforma\u00e7\u00e3o, por  superprote\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei a medida certa. N\u00e3o tenho receitas  prontas, mas  sei que falta di\u00e1logo entre pais e filhos. N\u00e3o s\u00f3 das fam\u00edlias com   pessoa com defici\u00eancia, infelizmente, mas nesse caso, existe um  componente a  mais. Cada defici\u00eancia tem seus cuidados especiais.<\/p>\n<p>E aqui come\u00e7am as  confus\u00f5es. O que precisa de cuidados especiais s\u00e3o  as defici\u00eancias, e n\u00e3o as  pessoas.  Em algum momento essas duas   coisas se cruzam, mas na maioria das vezes deveriam ser tratadas em  planos  diferentes.<\/p>\n<p>Em um primeiro plano, a  pessoa com defici\u00eancia, de nascen\u00e7a ou  adquirida, precisa de informa\u00e7\u00f5es, de  capacita\u00e7\u00e3o, de formas e t\u00e9cnicas  de como desenvolver os outros sentidos ou  \u00f3rg\u00e3os para superar e  compensar ao que foi perdido. Aos deficientes visuais \u00e9  necess\u00e1rio  aprender o uso da bengala, a escrita Braille, a coordena\u00e7\u00e3o motora,  a  no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, o desenvolvimento do olfato, do ver com os ouvidos. Ao  deficiente  f\u00edsico, o desenvolvimento e fortalecimento do membro n\u00e3o  afetado e  principalmente a explora\u00e7\u00e3o do membro deficiente, para que  fa\u00e7a o m\u00e1ximo que  puder.  Aos auditivos, como fazer leitura  dos  l\u00e1bios, como aprender a falar (a grande maioria dos deficientes  auditivos  possuem as cordas vocais perfeitas), aprender LIBRAS  (Linguagem Brasileira de  Sinais), precisam aprender a se comunicar de  alguma forma. Aos deficientes mentais,  a se comunicar com clareza, a  fazer as atividades da vida di\u00e1ria com  facilidade, e aos m\u00faltiplos  aquilo que precisarem e puderem aprender para se  tornarem o mais  independente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Algumas vezes esses  aprendizados parecem muito esfor\u00e7o e at\u00e9  crueldade para uma crian\u00e7a, ou mesmo  um adulto que ficou deficiente e  ter\u00e1 que reaprender muitas coisas. Mas na  verdade, cruel \u00e9 n\u00e3o  incentiv\u00e1-los, apoi\u00e1-los, empurr\u00e1-los, para que aprendam a  fazer tudo o  que for poss\u00edvel e um pouco mais.<\/p>\n<p>Cruel e desumano \u00e9 fazer  que a defici\u00eancia seja motivo da  depend\u00eancia, da submiss\u00e3o, de sua  descaracteriza\u00e7\u00e3o.  \u00c9 fazer essas  pessoas  mais limitadas do que a pr\u00f3pria defici\u00eancia j\u00e1 o faz. Cuidar do  aprendizado  espec\u00edfico para cada defici\u00eancia \u00e9 ser respons\u00e1vel e  humano.<\/p>\n<p>Em um outro plano  encontramos as pessoas que desde o nascimento ou  depois de adultos adquiriam  uma defici\u00eancia. E aqui os cuidados s\u00e3o  outros.   Alguns aceitam rapidamente e partem para recuperar o que  perderam,  outros, no entanto, ficam paralisados, sem saber por onde  come\u00e7ar. Respeitar o  tempo de luto de cada um \u00e9 fundamental.    Ensin\u00e1-los as coisas mais pr\u00e1ticas ajuda muito. Como escovar os dentes,   tomar banho, pentear os cabelos. Na medida em que percebem que  conseguem  resolver suas necessidades prim\u00e1rias, a mente, o psicol\u00f3gico,  vai ousando  avan\u00e7ar em outros campos da vida.<\/p>\n<p>Importante entender que  as defici\u00eancias simplesmente trazem as  limita\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de sua natureza,  nada mais.  A cegueira apenas  traz \u00e0  pessoa a limita\u00e7\u00e3o de n\u00e3o enxergar, a surdez de n\u00e3o ouvir, a  paraplegia de n\u00e3o  andar, e assim por diante, portanto \u00e9 incorreto  pensar que a defici\u00eancia  determina o jeito de ser da pessoa que a  possui.<\/p>\n<p>A pessoa \u00e9 a somat\u00f3ria de  suas experi\u00eancias, oportunidades, sua  forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, sua maturidade  espiritual.  Por isso \u00e9 comum   encontrarmos pessoas com a mesma defici\u00eancia, por\u00e9m com trajet\u00f3rias de  vida  muito diferentes.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 outro conceito  importante: as pessoas com defici\u00eancia, apesar  das semelhan\u00e7as de suas  limita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o de forma nenhuma iguais. A  generaliza\u00e7\u00e3o, muito comum na  cabe\u00e7a das pessoas, n\u00e3o tem fundamentos  s\u00f3lidos e nem l\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as pessoas  com defici\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o santas, e nem  diab\u00f3licas. N\u00e3o s\u00e3o absolutamente  corajosas, e nem covardes. Nem  felizes, nem sofredoras. N\u00e3o necessariamente  ajudam a motiva\u00e7\u00e3o no  ambiente de trabalho, nem prejudicam. As pessoas com  defici\u00eancia s\u00e3o  antes de tudo pessoas, com tudo o que isso significa, somado a  um  esfor\u00e7o diferente, que \u00e9 aprender a viver, apesar de sua limita\u00e7\u00e3o  f\u00edsica,  sensorial ou mental.<\/p>\n<p>Pessoas com defici\u00eancia  trazem consigo medos, inseguran\u00e7as,  des\u00e2nimos, pregui\u00e7a, comodismo, rebeldia,  tanto como coragem,  determina\u00e7\u00e3o, alegria, vontade, intelig\u00eancia, bom senso.  Como, ali\u00e1s,  todas as pessoas que est\u00e3o vivendo e que precisam levantar todos  os  dias de manh\u00e3 e ir \u00e0 luta. E que muitas vezes gostariam de ficar  deitadas,  que outras tantas se sentem desvalorizadas, cansadas e  tristes, e em outros  dias, est\u00e3o absolutamente felizes, realizadas,  esperan\u00e7osas.<\/p>\n<p>Ser pessoa \u00e9 uma mistura  de todos os sentimentos, \u00e9 ter que  enfrentar as limita\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o apenas  aquelas oficialmente  consideradas defici\u00eancias, mas todas as outras, como ser  loira, ser  obesa, ser baiana, ser magra demais, ser mais lenta, ter necessidade  de  pensar um pouco mais antes de decidir, e assim por diante.<\/p>\n<p>Na verdade, \u201cdiversos n\u00e3o  s\u00e3o os outros. Diversos somos todos n\u00f3s\u201d.    E em alguma medida, todos precisamos ser aceitos, inclu\u00eddos,   reconhecidos e valorizados.<\/p>\n<p>Relatos como o de Guga  Dorea, logo abaixo, s\u00e3o mais comuns do que  deveriam. A maioria das fam\u00edlias n\u00e3o  est\u00e3o preparadas para receber um  membro deficiente.<\/p>\n<p>\u201cEram 12h30 da tarde.  Algo de novo estava preste a acontecer em  minha exist\u00eancia. O primeiro filho.  Sensa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas percorriam o meu  corpo naquele instante quando, de repente,  experimentei o inesperado,  que se instalou em meu organismo \u2013 fortemente  marcado por cargas  estigmatizadas \u2013 como se fosse um pontiagudo aguilh\u00e3o.<\/p>\n<p>As horas j\u00e1 haviam se  passado. No momento m\u00e1gico do nascimento,  quando aquela nova vida j\u00e1 fazia  parte de minha subjetividade, a  enfermeira se postou em minha frente, com uma  fisionomia de desalento e  de quase perplexidade. Thiago estava em seus bra\u00e7os  quando ela disse:  \u2018olhe a testa de seu filho\u2019. Sem compreender o porqu\u00ea, olhei  e, em  fun\u00e7\u00e3o da requisi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria enfermeira, fui levado a confirmar que   realmente aquele n\u00e3o compreens\u00edvel olhar havia se concretizado.<\/p>\n<p>Logo em seguida, a  pr\u00f3pria enfermeira apontou o corredor ao lado da  sala de parto e me chamou para  informar, da pior maneira poss\u00edvel, que  meu filho poderia ter nascido com  alguma \u2018anomalia\u2019 gen\u00e9tica, mas era  para que eu voltasse ao lado da m\u00e3e e n\u00e3o  transmitisse nenhuma  fisionomia contr\u00e1ria \u00e0quele momento de habitual alegria e  de incont\u00e1vel  realiza\u00e7\u00e3o. Afinal, a sua barriga ainda estava aberta.<\/p>\n<p>Nesse instante, e n\u00e3o  poderia ter sido diferente, a minha vida  parecia haver desabado, o que  significou, na pr\u00e1tica, a sa\u00edda  instant\u00e2nea de um mundo aparentemente seguro e  confort\u00e1vel, repleto de  opini\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es supostamente formadas, para um  universo  desesperador do caos, da incerteza, da f\u00faria, do \u00f3dio, enfim, a minha   impress\u00e3o era de que toda uma exist\u00eancia havia se quebrado, sem chances  de  retorno a um mar calmo, a um porto seguro.<\/p>\n<p>\u00c9 como se eu estivesse sendo  sugado, exatamente naquele segundo, por  um mar extremamente bravio, surgido do  nada, que havia me lan\u00e7ado para  outro mundo, preocupadamente intoler\u00e1vel e  enigm\u00e1tico. O meu corpo n\u00e3o  se reconhecia mais naquele \u2018eu\u2019, que havia se  transformado em um outro  corpo, uma outra subjetividade, em suma, estava  assustadoramente no  limiar de um outro mundo em que meus projetos de futuro n\u00e3o  caberiam  mais.\u201d (Guga Dorea).<\/p>\n<p>As familias n\u00e3o est\u00e3o  preparadas, principalmente, porque receberam  toda carga ideol\u00f3gica que reina no  interior de nossa cultura. Deste  modo, as rea\u00e7\u00f5es podem ser as mais variadas:  rejei\u00e7\u00e3o, simula\u00e7\u00e3o,  segrega\u00e7\u00e3o, superprote\u00e7\u00e3o, paternalismo exacerbado, ou mesmo  piedade.  Em geral, um casal nunca tem a id\u00e9ia de que um dia poder\u00e1 ter um filho   que nas\u00e7a com qualquer tipo de defici\u00eancia. Uma fam\u00edlia n\u00e3o tem a id\u00e9ia  de que  um membro poder\u00e1 um dia sofrer um acidente que o fa\u00e7a  deficiente. A palavra \u201cdeficiente\u201d  adquire uma conota\u00e7\u00e3o negativa.  Deficiente ser\u00e1 aquele membro que dar\u00e1 sempre  muito trabalho, que  viver\u00e1 encostado \u00e0 custa da fam\u00edlia. Outra ang\u00fastia \u00e9 a  culpa que a  maioria dos pais, particularmente as m\u00e3es, sentem em rela\u00e7\u00e3o a um  filho  deficiente. Sempre encontram falhas, equ\u00edvocos, esquecimentos, que   imaginam ter sido a causa da defici\u00eancia do filho. Tamb\u00e9m existem os  casais que  culpam um ao outro pelo que aconteceu e \u00e9 muito comum, os  casais se separarem  depois do nascimento do filho deficiente, o que s\u00f3  aumenta a culpa e o  desconforto com a defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Alguns pais procuram  centros de reabilita\u00e7\u00e3o, ou cl\u00ednicas para um  acompanhamento, o que, ali\u00e1s, \u00e9  absolutamente necess\u00e1rio, sob pena do  agravamento da limita\u00e7\u00e3o se isso n\u00e3o for  feito em tempo certo. Mas  infelizmente, n\u00e3o s\u00e3o todos os pais que podem ou  t\u00eam a consci\u00eancia   desse dever, e negligenciam os cuidados  consigo mesmos, com o filho, e  com as necessidades da defici\u00eancia.  O resultado \u00e9, na maioria das  vezes,  deprimente e cruel, porque traz seq\u00fcelas a todos da fam\u00edlia, n\u00e3o  s\u00f3 para a  pessoa com defici\u00eancia, mas para todos, e muitas delas  limitadoras e  traum\u00e1ticas at\u00e9 mesmo para aqueles que n\u00e3o possuem  nenhuma defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse ambiente de  restri\u00e7\u00f5es, incompreens\u00f5es, as crian\u00e7as com  defici\u00eancia v\u00e3o se desenvolvendo  como podem, com as dificuldades de  qualquer crian\u00e7a, acrescidas das dificuldades  da sua defici\u00eancia,  porque n\u00e3o possuem par\u00e2metros de compara\u00e7\u00e3o (em geral, nas  fam\u00edlias,  existe uma \u00fanica pessoa com defici\u00eancia). Como essas crian\u00e7as s\u00e3o   mantidas dentro de casa, at\u00e9 por conta da preocupa\u00e7\u00e3o com sua seguran\u00e7a,  ou  pelos constrangimentos que trazem, ou mesmo pelo trabalho que d\u00e3o,  n\u00e3o  conseguem ter grandes viv\u00eancias ou experi\u00eancia, que sabemos serem  fundamentais  no desenvolvimento infantil. Assim, temos um outro  problema sendo constru\u00eddo.  Al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es da defici\u00eancia,  encontramos, com bastante freq\u00fc\u00eancia,  pessoas com defici\u00eancia com  dificuldades cognitivas, de desenvolvimento motor e,  claro, com imensos  comprometimentos psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil  ser pai ou m\u00e3e, \u00e9 um papel dos mais  exigentes. Ser pai ou m\u00e3e de uma crian\u00e7a  com defici\u00eancia \u00e9  significativamente mais dif\u00edcil, exigindo desses pais dedica\u00e7\u00e3o,  tempo  dispon\u00edvel, autocontrole, energia, e muitos outros atributos que nem   sempre s\u00e3o poss\u00edveis, at\u00e9 porque n\u00e3o existe uma cartilha que possam  seguir, e a  maioria das institui\u00e7\u00f5es para pessoa com defici\u00eancia n\u00e3o  possuem programas  eficazes para orienta\u00e7\u00e3o de pais.<\/p>\n<p>A peregrina\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico  em m\u00e9dico, de cl\u00ednicas especializadas, de  Institui\u00e7\u00f5es, em busca de ajuda, de  entendimento do que est\u00e1  acontecendo com seu filho, \u00e9 constante e nem sempre  frut\u00edfera.  Na  maioria das vezes causa  grandes frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a \u00fanica sa\u00edda para  que essas crian\u00e7as tenham maiores  perspectivas, mais condi\u00e7\u00f5es de enfrentar a  vida adulta, de conseguirem  ser independentes e se sustentarem, \u00e9 a conscientiza\u00e7\u00e3o  dos pais. \u00c9 a  coragem de enterrar o \u201cfilho ideal\u201d e de aceitar o \u201cfilho real\u201d.  Com  tudo o que isso significa, inclusive e principalmente a dedica\u00e7\u00e3o que  lhes  ser\u00e1 exigida a vida inteira. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, por\u00e9m \u00e9 a \u00fanica forma de  encontrarem  alguma felicidade, quando observarem seus filhos adultos e  independentes.<\/p>\n<p>Depois que as crian\u00e7as  crescem, e chegam a idade escolar, a situa\u00e7\u00e3o  n\u00e3o fica mais f\u00e1cil. J\u00e1 come\u00e7a  pelo esfor\u00e7o da crian\u00e7a e da fam\u00edlia na  organiza\u00e7\u00e3o e na supera\u00e7\u00e3o da  inseguran\u00e7a de ir para a Escola. Depois  as dificuldades com a locomo\u00e7\u00e3o desde a  porta de sua casa at\u00e9 a porta   da  Institui\u00e7\u00e3o Escolar.  Os cadeirantes,  muletantes e cegos, muito  mais do que as Defici\u00eancias moderadas e leves, mas na  falta quase total  de acessibilidade nas cal\u00e7adas, ruas e meio de transporte, em  alguma  medida todos enfrentam grandes desafios.<\/p>\n<p>Quando conseguem chegar no  pr\u00e9dio da escola, se deparam com outros  tr\u00eas grandes obst\u00e1culos:  O primeiro \u00e9 conseguir entrar no pr\u00e9dio. Na   maioria das vezes possuem escadas, (sem rampas ou elevadores) salas  super  lotadas, com carteira fixas. Depois tem a falta de material  did\u00e1tico adaptado.  Dificilmente uma escola possui livros em Braille ou  com letras ampliadas,  computadores com ledores de telas, filmes e  document\u00e1rios com legendas, etc.,  e, por fim, os professores e  diretores, sem nenhum preparo e interesse em ter  em sala de aula uma  pessoa com Defici\u00eancia.<br \/>\n\u00c9 sempre um esfor\u00e7o sobre-humano  da pessoa com Defici\u00eancia e suas  fam\u00edlias, a conquista de uma vaga e a  aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos  escolares. Aqueles que conseguem sempre possuem  hist\u00f3rias de  desconforto, exclus\u00e3o e at\u00e9 mesmo de humilha\u00e7\u00f5es.<br \/>\nCom tantos desafios a  enfrentar, agravados pelas dificuldades  financeiras, ainda n\u00e3o \u00e9 grande o  n\u00famero de pessoas com Defici\u00eancia que  conseguem avan\u00e7ar nos estudos e chegarem  at\u00e9 a Universidade e  a P\u00f3s  Gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Lei de Cotas, (lei  8213\/91) que determina que as Empresas tenham  um percentual de pessoas com  defici\u00eancia no quadro de empregados  efetivos, trouxe um grande incentivo ao  avan\u00e7o dessas pessoas em todos  os aspectos. Provocou efeitos colaterais  important\u00edssimos no processo  de inclus\u00e3o e de respeito pelas Diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Ao conseguirem emprego e  sal\u00e1rio, a auto-estima e as condi\u00e7\u00f5es de  consumidores, os tiraram de suas casas  e os colocaram nos shoping,  cinemas, teatros, nas escolas para se  aprimorarem,  nas ruas, na vida  enfim.<\/p>\n<p>Por outro lado, as  pessoas sem Defici\u00eancia tamb\u00e9m tiveram a  oportunidade de conviverem com pessoas  com Defici\u00eancia, e os estigmas,  paradigmas, velhos conceitos, pouco a pouco v\u00e3o  se desfazendo,  transformando, desaparecendo, e dando lugar a um pensamento  inclusivo,  humano, natural.<\/p>\n<p>Ouso afirmar, que a  comunidade de pessoas com Defici\u00eancia, come\u00e7a  ter a Esperan\u00e7a de que a frase  \u201cDiversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos  somos todos n\u00f3s\u201d seja de fato Realidade.  E que a Sociedade, dentro de  pouco tempo, seja Inclusiva, \u00c9tica e Humana.<\/p>\n<p>Deise Fernandes<br \/>\nConsultora Interna de RH na  CPFL \u2013 Energia<br \/>\nRespons\u00e1vel pelo programa  de Valoriza\u00e7\u00e3o da Diversidade.<\/p>\n<p>____________________<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.planetaeducacao.com.br\">Planeta Educa\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deise Fernandes discute o cotidiano da pessoa com defici\u00eancia e seu conv\u00edvio na sociedade. 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