{"id":18269,"date":"2010-12-29T14:22:43","date_gmt":"2010-12-29T17:22:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=18269"},"modified":"2010-12-29T14:22:43","modified_gmt":"2010-12-29T17:22:43","slug":"uma-redescoberta-da-literatura-africana-no-brasil-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=18269","title":{"rendered":"Uma \u201credescoberta\u201d da literatura africana no Brasil"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_18234\" aria-describedby=\"caption-attachment-18234\" style=\"width: 241px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/\u00c1frica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18234\" title=\"\u00c1frica\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/\u00c1frica.jpg\" alt=\"Desenho do continente africano se confunde com ilustra\u00e7\u00e3o de rosto de mulher de perfil\" width=\"241\" height=\"265\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18234\" class=\"wp-caption-text\">Desenho do continente africano se confunde com ilustra\u00e7\u00e3o de rosto de mulher de perfil<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por Adelto Gon\u00e7alves, de Santos, S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 escritores descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas t\u00eam largo espa\u00e7o na m\u00eddia e nas universidades de Portugal e do Brasil. Racismo e saudade dos bons tempos das col\u00f4nias?<\/p>\n<p>A Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou no mercado uma nova cole\u00e7\u00e3o, Poetas de Mo\u00e7ambique, em que apresenta antologias dos maiores poetas modernos de l\u00edngua portuguesa e origem mo\u00e7ambicana. Segundo a editora, os autores escolhidos estabeleceram frequentemente di\u00e1logo com a literatura brasileira, especialmente com as obras de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cec\u00edlia Meireles (1901-1964), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os primeiros volumes s\u00e3o dedicados a Jos\u00e9 Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997).<\/p>\n<p>Craveirinha, primeiro autor africano galardoado com o Pr\u00eamio Cam\u00f5es, em 1991, \u00e9 um dos nomes fundamentais da literatura mo\u00e7ambicana. Filho de pai algarvio e m\u00e3e ronga, \u00e9 dono de uma obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas colet\u00e2neas p\u00f3stumas, al\u00e9m de dezenas de poemas espalhados em peri\u00f3dicos e antologias. Este livro re\u00fane os principais poemas do autor com nota biobibliogr\u00e1fica de Em\u00edlio Maciel.<\/p>\n<p>J\u00e1 Rui Knopfli produziu uma encorpada e original obra liter\u00e1ria durante o per\u00edodo colonial. Seus poemas selecionados estabelecem di\u00e1logo com as principais tradi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas e modernas da poesia. O livro traz posf\u00e1cio com texto cr\u00edtico e nota biobibliogr\u00e1fica de Roberto Said.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a Ateli\u00ea Editorial, em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa no Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), acaba de lan\u00e7ar Portanto&#8230; Pepetela, organizado por Rita Chaves e Tania Mac\u00eado, professoras de Literaturas Africanas de L\u00edngua Portuguesa da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). O angolano Pepetela, nascido Artur Carlos Maur\u00edcio Pestana dos Santos, ganhador do Pr\u00eamio Cam\u00f5es de 1997, \u00e9 talvez o mais importante romancista de seu pa\u00eds. Com apresenta\u00e7\u00e3o do mo\u00e7ambicano Mia Couto, o livro re\u00fane 38 artigos e ensaios de estudiosos da obra de Pepetela.<\/p>\n<p>Nada mais alvissareiro do que essa \u201credescoberta\u201d da literatura africana de express\u00e3o portuguesa. Mas desses tr\u00eas autores, apenas Jos\u00e9 Craveirinha \u00e9 resultado da mistura do sangue portugu\u00eas com africano. O que se espera \u00e9 que esse interesse n\u00e3o se restrinja apenas a autores lusodescendentes, mas seja aberto a todos os africanos que fazem literatura em l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Nada contra Pepetela, Agualusa, Mia Couto ou Luandino Vieira, nomes hoje incontest\u00e1veis no panorama da literatura africana de express\u00e3o portuguesa. O que se estranha \u00e9 por que s\u00f3 descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas t\u00eam largo espa\u00e7o nos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o de Portugal e nas universidades de Portugal e do Brasil.<br \/>\nBasta ver que o livro Portanto&#8230; Pepetela traz, ao final, uma lista de 56 teses de doutorado e disserta\u00e7\u00f5es de mestrado defendidas em universidades brasileiras sobre a obra de Pepetela. Um exagero, evidentemente, porque h\u00e1 muitos outros autores africanos de express\u00e3o portuguesa que poderiam ser estudados. E n\u00e3o o s\u00e3o. N\u00e3o se quer acreditar que seja por racismo, pois o que se espera \u00e9 que esse tipo de comportamento seja algo j\u00e1 superado, sem raz\u00e3o de existir neste come\u00e7o de s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Talvez seja ainda a &#8220;saudade do imp\u00e9rio colonial perdido&#8221;, como disse Patrick Chabal, professor de Estudos Africanos do King\u00b4s College, de Londres, para se citar aqui um nome isento destas questi\u00fanculas lus\u00f3fonas, que impe\u00e7a os acad\u00eamicos e editores portugueses de enxergar que a lusofonia \u00e9 uma fal\u00e1cia \u2013 que n\u00e3o vai chegar a lugar nenhum \u2013 enquanto eles n\u00e3o aceitarem a verdadeira dimens\u00e3o da l\u00edngua portuguesa para al\u00e9m da Europa.<\/p>\n<p>Em outras palavras: Pepetela, Agualusa, Mia Couto e Luandino Vieira fazem parte da \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de lusodescendentes que, nascidos na \u00c1frica, praticam uma literatura com viv\u00eancia africana. Dentro de 20 ou 30 anos, quando provavelmente j\u00e1 n\u00e3o estiverem mais neste mundo, quem ir\u00e1 representar a literatura africana de express\u00e3o portuguesa sen\u00e3o os aut\u00f3ctones ou um ou outro miscigenado?<\/p>\n<p>Portanto, o futuro da l\u00edngua portuguesa na \u00c1frica vai depender dos naturais desses pa\u00edses por onde os portugueses criaram ra\u00edzes \u2013 e tamb\u00e9m daquelas regi\u00f5es que, hoje, sofrem com a opress\u00e3o de vizinhos que n\u00e3o falam portugu\u00eas. \u00c9 o caso da Casamansa, prov\u00edncia do Sul do Senegal, que ainda aspira livrar-se da opress\u00e3o de Dakar para se tornar um pa\u00eds independente e membro da Comunidade dos Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa (CPLP). Ser\u00e1 que em Casamansa n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico poeta ou escritor que escreva em portugu\u00eas? Ou somos n\u00f3s que n\u00e3o queremos v\u00ea-los?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Craveirinha<br \/>\nComo diz o escritor mo\u00e7ambicano Jo\u00e3o Craveirinha, por mais que se assumam &#8220;lus\u00f3fonos&#8221;, os escritores de tez escura ser\u00e3o sempre os &#8220;outros&#8221;, os outsiders, os ex-colonizados. Entre esses, al\u00e9m de Jo\u00e3o Craveirinha, pode-se citar de uma enfiada Paulina Chiziane, Ungulani ba Ka Kossa, Nelson Sa\u00fate, No\u00e9mia de Sousa, Kalungano, Lu\u00eds Bernardo Honwana e Suleimane Cassamo, de Mo\u00e7ambique; Adriano Mixinge, Jo\u00e3o Melo, Ondjaki, Victor Kajibanga, Uanhenga Xitu, Ana Paula Tavares, Lu\u00eds Kandjimbo, de Angola; Jos\u00e9 Lu\u00eds Hopffer Almada e Germano Almeida, de Cabo Verde; Abdulai Sila, H\u00e9lder Proen\u00e7a (?-2009) e Odete Semedo, da Guin\u00e9-Bissau; Alda do Esp\u00edrito Santo e Tom\u00e1s Medeiros, de S\u00e3o Tom\u00e9 Pr\u00edncipe. E muitos outros.<\/p>\n<p>O que \u00e9 preciso dizer \u2013 e quase ningu\u00e9m o faz \u2013 \u00e9 que persistir nessa vis\u00e3o preconceituosa \u00e9 um erro, que equivale a dar um tiro no pr\u00f3prio p\u00e9, pois recusar-se a reconhecer que o futuro da l\u00edngua portuguesa na \u00c1frica depende dos naturais daqueles pa\u00edses \u00e9 conden\u00e1-la ao desaparecimento. E olhem que quem escreve isto \u00e9 um brasileiro de primeira gera\u00e7\u00e3o, de pai portugu\u00eas de Pa\u00e7os de Ferreira, Norte de Portugal, e de av\u00f3s maternos a\u00e7orianos.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Embora o desconhecimento no Brasil acerca dos assuntos africanos seja abissal, n\u00e3o se pode deixar de reconhecer que foi gra\u00e7as aos literatos brasileiros que a l\u00edngua portuguesa continuou viva nas d\u00e9cadas de 1950, 60 e 70 na \u00c1frica de express\u00e3o portuguesa, especialmente entre aquela camada mais culta, que gostava de ler Jorge Amado (1912-2001), \u00c9rico Ver\u00edssimo (1905-1975), Guimar\u00e3es Rosa (1908-1967) e outros tantos.<\/p>\n<p>Rui Knopfli mesmo \u00e9 um poeta fortemente influenciado pela literatura brasileira, al\u00e9m de suas grandes liga\u00e7\u00f5es com a poesia portuguesa moderna. De africano, s\u00f3 carrega o fato de ter nascido em Inhambane. Trata-se de um fino poeta, cuja poesia est\u00e1 entre o que de melhor se escreveu em l\u00edngua portuguesa no s\u00e9culo XX, mas que, ao contr\u00e1rio de Pepetela que permaneceu em Angola e lutou contra o colonialismo, deixou Mo\u00e7ambique t\u00e3o logo o pa\u00eds se separou de Portugal. Jamais se assumiu &#8220;mo\u00e7ambicano&#8221; no anterior e muito menos no atual contexto africano e sociopol\u00edtico do p\u00f3s-independ\u00eancia. Assumiu-se, sim, como um portugu\u00eas de Mo\u00e7ambique agastado com os &#8220;pretos&#8221; da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique (Frelimo) que queriam ser iguais aos &#8220;brancos&#8221;.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o que Knopfli tinha da \u00c1frica era euroc\u00eantrica, de um colono que pertencia a uma elite colonial intelectual que, provavelmente, sonhava com um Mo\u00e7ambique semelhante \u00e0 Rod\u00e9sia ou \u00e0 \u00c1frica do Sul sem apartheid, mas com os chamados \u201cbrancos\u201d a mandar nos &#8220;pretos&#8221;, ou seja, \u201ccada macaco no seu galho&#8221;, para se repetir aqui uma express\u00e3o politicamente nada correta que se ouve ainda neste Brasil de racismo disfar\u00e7ado. A lusitanidade europ\u00e9ia de Knopfli sempre falou mais alto.<\/p>\n<p>Quem conhece a vida mo\u00e7ambicana pr\u00e9-independ\u00eancia sabe muito bem que Knopfli atacara a arte banta do escultor Alberto Chissano e do pintor Malangatana em termos depreciativos, como a dizer que eles nunca poderiam ascender a artistas plenos em raz\u00e3o de sua origem &#8220;primitiva&#8221;, tal como os &#8220;bons selvagens&#8221; de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que seriam congenitamente limitados. Isto est\u00e1 na Revista Tempo, de Louren\u00e7o Marques (hoje Maputo), dos anos 1970-1971. Quem duvidar que consulte na Biblioteca Nacional de Lisboa a cole\u00e7\u00e3o da revista. Mas \u00e9 claro que isto ningu\u00e9m gosta de lembrar.<\/p>\n<p>Como se sabe, na \u00c1frica os conceitos n\u00e3o s\u00e3o os mesmos vigentes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa em rela\u00e7\u00e3o ao ser e estar africano. At\u00e9 porque na \u00c1frica os &#8220;nativos&#8221; n\u00e3o foram exterminados como os amer\u00edndios nas Am\u00e9ricas. E, como continuam a s\u00ea-lo no Brasil em pleno s\u00e9culo XXI. Para se ter um exemplo desse holocausto, basta ver que os tra\u00e7os ind\u00edgenas hoje s\u00e3o pouco percept\u00edveis no brasileiro m\u00e9dio, exceto talvez no homem do Centro-Oeste e do Amazonas, ao contr\u00e1rio do que se pode constatar no Chile, no Paraguai, na Bol\u00edvia, no Equador e at\u00e9 na antigamente t\u00e3o conservadora Argentina. Basta ver o que fazem, nos dias de hoje, certos fazendeiros e seus capangas com os caiow\u00e1s, em Mato Grosso do Sul, sem que as autoridades tomem qualquer provid\u00eancia mais efetiva.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica, os aut\u00f3ctones continuam a ser maioria esmagadora e isso tem um peso enorme na consci\u00eancia dos africanos, mesmo em meio a crises econ\u00f4micas. At\u00e9 mesmo porque eles estavam num est\u00e1gio de desenvolvimento superior ao dos ind\u00edgenas americanos, o que obrigou a chamada coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa a restringir-se a vilas e destacamentos litor\u00e2neos. At\u00e9 mesmo para \u201catravessar\u201d o com\u00e9rcio da escravatura, os portugueses dependiam de na\u00e7\u00f5es africanas que traziam subjugados seus inimigos para comercializ\u00e1-los nas praias. Com isso, a ocupa\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, de um modo geral, nunca conseguiu apagar no homem africano o grande sentimento de perten\u00e7a ao legado banto.<\/p>\n<p>Como tudo isso s\u00e3o \u00e1guas e ressentimentos passados, o que importa hoje \u00e9 preservar a l\u00edngua de Cam\u00f5es tamb\u00e9m na \u00c1frica. E essa preserva\u00e7\u00e3o passa por um apoio mais decisivo em favor da divulga\u00e7\u00e3o e estudo da literatura de express\u00e3o portuguesa que \u00e9 hoje praticada por africanos de todos os matizes de pele, indistintamente.<\/p>\n<p>11\/12\/2010<\/p>\n<p>Fonte: ViaPol\u00edtica\/O autor<\/p>\n<p>PORTANTO&#8230; PEPETELA, de Rita Chaves e Tania Mac\u00eado (organizadoras). S\u00e3o Paulo: Ateli\u00ea Editorial\/Fapesp, 2009, 389 p\u00e1gs., R$ 47,00.<br \/>\nANTOLOGIA PO\u00c9TICA, de Jos\u00e9 Craveirinha. Organizadora: Ana Mafalda Leite. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 198 p\u00e1gs., R$ 38,00.<br \/>\nANTOLOGIA PO\u00c9TICA, de Rui Knopfli. Organizador: Eug\u00e9nio Lisboa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 206 p\u00e1gs., R$ 38,00.<br \/>\nAdelto Gon\u00e7alves \u00e9 doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de S\u00e3o Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; S\u00e3o Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage &#8211; o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).<\/p>\n<p>E-mail: marilizadelto@uol.com.br<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.viapolitica.com.br\">Via Pol\u00edtica<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 escritores descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas t\u00eam largo espa\u00e7o na m\u00eddia e nas universidades de Portugal e do Brasil. Racismo e saudade dos bons tempos das col\u00f4nias? 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