{"id":19915,"date":"2011-06-23T00:59:33","date_gmt":"2011-06-23T03:59:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=19915"},"modified":"2011-06-23T00:59:33","modified_gmt":"2011-06-23T03:59:33","slug":"violencia-sexual-contra-pessoas-com-deficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=19915","title":{"rendered":"Viol\u00eancia sexual contra pessoas com defici\u00eancia"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_20056\" aria-describedby=\"caption-attachment-20056\" style=\"width: 216px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-20056  \" title=\"no-violencia\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/no-violencia.jpg\" alt=\"Em fundo preto, impress\u00e3o de palma da m\u00e3o espalmada com tinta branca.\" width=\"216\" height=\"238\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20056\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Robert E. Longo (1) &amp; Claude Gochenour (2)<\/p>\n<p><em>Journal of Rehabilitation<\/em>, v. 47, n. 3, jul.\/set. 1981, p.24-27.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Romeu Kazumi Sassaki<strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Vis\u00e3o geral do problema<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com estat\u00edsticas nacionais, uma em cada tr\u00eas mulheres corre o risco de ser v\u00edtima de viol\u00eancia sexual durante sua vida, e a estimativa revela que uma em cada cinco crian\u00e7as, meninos ou meninas, enfrenta o mesmo risco. Estupro, molestamento de crian\u00e7as e incesto est\u00e3o aumentando em \u00edndices alarmantes em nosso pa\u00eds. Infelizmente, pessoas com defici\u00eancia intelectual e dist\u00farbio emocional s\u00e3o tamb\u00e9m suscet\u00edveis a esta experi\u00eancia degradante. Shuker (1980) relata que o estuprador com frequ\u00eancia escolhe v\u00edtimas por alguma \u201cvulnerabilidade como, por exemplo, juventude, velhice, deformidade ou defici\u00eancia f\u00edsica\u201d.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima \u00e9, muitas vezes, piorada por n\u00e3o ser levada a s\u00e9rio quando ela denuncia. No caso de pessoas com transtorno mental, o relato delas sobre uma agress\u00e3o sexual pode ser entendido como \u201cuma manifesta\u00e7\u00e3o do transtorno mental\u201d ou uma hist\u00f3ria inventada para ganhar aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 1<\/strong><\/p>\n<p>Uma senhora idosa internada em hospital p\u00fablico por causa do seu transtorno mental denunciou ter sido v\u00edtima de um estupro. Sua hist\u00f3ria foi ignorada porque pareceu que ela a inventou para satisfazer suas necessidades n\u00e3o-atendidas. Mais tr\u00eas estupros semelhantes foram denunciados naquele hospital at\u00e9 que, finalmente, as autoridades foram convencidas de que talvez houvesse alguma verdade nas den\u00fancias.<\/p>\n<p>Pessoas com defici\u00eancia f\u00edsica s\u00e3o tamb\u00e9m alvo de agress\u00f5es sexuais. Em alguns casos, as pessoas violentadas estavam ainda se recuperando do evento de uma defici\u00eancia recente. Precisamos estar alertas ao fator complicador de uma rea\u00e7\u00e3o composta ao trauma de uma pessoa com defici\u00eancia que foi estuprada (BURGESS, GROTH, HOLMSTROM &amp; SGROI, 1978):<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 2<\/strong><\/p>\n<p>Uma adolescente de 17 anos de idade, com cegueira resultante de uma les\u00e3o na inf\u00e2ncia, estava aprendendo sozinha a se familiarizar com alguns bairros da sua cidade. Certa tarde, quando andava perto de um parque, ela foi empurrada para o meio de uma vegeta\u00e7\u00e3o e, em seguida, estuprada. Houve conversa\u00e7\u00e3o durante a viol\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>Embora esta jovem tenha sido levada a s\u00e9rio quando denunciou, foi dif\u00edcil para ela provar, perante a justi\u00e7a, que a agress\u00e3o aconteceu. Mas, ela foi capaz de fazer uma identifica\u00e7\u00e3o positiva atrav\u00e9s do uso de voz gravada em fitas e o agressor foi condenado (A.W. Burgess, entrevista pessoal, janeiro de 1981). Em outros exemplos, as v\u00edtimas n\u00e3o foram capazes de oferecer evid\u00eancias suficientes para uma condena\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 3 <\/strong><\/p>\n<p>Uma senhora idosa de 84 anos de idade, que estava quase totalmente cega e surda, foi estuprada em sua casa. Incapaz de identificar o agressor visualmente ou pela voz, o caso foi encerrado como n\u00e3o-process\u00e1vel (K. Culton &amp; J. Moore, Programa de Defensoria de V\u00edtimas de Estupro, \u00f3rg\u00e3o estadual de advogados, Gainesville, Fl\u00f3rida, EUA. Entrevista pessoal, fevereiro de 1981).<\/p>\n<p>Um significativo n\u00famero de estupros (47%) ocorre em locais abertos, p\u00fablicos, e 32% dentro ou perto da casa das v\u00edtimas, como no caso cl\u00ednico 3 (MCDERMOTT, 1979). No momento do ataque, a v\u00edtima fica reduzida a um objeto que \u00e9 o foco da raiva e agressividade do agressor. A motiva\u00e7\u00e3o principal do agressor no momento do ataque consiste na satisfa\u00e7\u00e3o da sua necessidade de controle e poder e na libera\u00e7\u00e3o da raiva que se acumulou interiormente (GROTH, 1979). Apesar de haver muitas t\u00e1ticas para deter um ataque e ap\u00f3s os agressores ganharem controle da situa\u00e7\u00e3o, as v\u00edtimas ficam sem escolha e se submetem \u00e0 viol\u00eancia a fim de salvar a pr\u00f3pria vida:<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 4<\/strong><\/p>\n<p>Brian tinha 21 anos de idade quando foi preso e condenado sob acusa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia sexual. Sua v\u00edtima era uma jovem de 20 anos de idade que acabava de retornar para casa ap\u00f3s obter alta de um hospital psiqui\u00e1trico. Brian sabia que ela seria um alvo f\u00e1cil e achava que ningu\u00e9m iria acreditar nela, pois toda a vizinhan\u00e7a sabia que ela era \u2018louca\u2019. Durante a agress\u00e3o, a v\u00edtima tentou fazer com que Brian parasse, mas ele deu um soco violento no rosto dela para for\u00e7\u00e1-la a ficar quieta.<\/p>\n<p>Existem tr\u00eas ingredientes necess\u00e1rios para o agressor cometer uma viol\u00eancia sexual: (1) a iniciativa para cometer o ato, (2) a habilidade de perpetrar o ato e (3) a oportunidade. Em\u00a0 nosso trabalho com agressores, conclu\u00edmos que, na maioria dos casos, o desejo sexual n\u00e3o era a quest\u00e3o no momento da viol\u00eancia. Os agressores relatam que a v\u00edtima poderia ter sido qualquer uma e a apar\u00eancia f\u00edsica n\u00e3o era importante. Muitas vezes, o ato \u00e9 impulsivo, a oportunidade se apresenta e a v\u00edtima potencial parece ser vulner\u00e1vel:<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 5<\/strong><\/p>\n<p>Joan \u00e9 uma jovem negra de 19 anos de idade. Ele teve queimadura em mais de 80% do seu corpo como resultado de um acidente. Seu rosto ficou gravemente cicatrizado e ela perdeu quase totalmente o uso de um bra\u00e7o. Quando caminhava pr\u00f3ximo \u00e0 sua casa, ela foi agarrada por um agressor que a for\u00e7ou a entrar em seu carro e a levou a uma \u00e1rea isolada, estuprando-a em seguida (M. Varnes, Departamento de Pol\u00edcia da Universidade de Fl\u00f3rida. Entrevista pessoal, fevereiro de 1981).<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 6<\/strong><\/p>\n<p>Everett \u00e9 um homem de 32 anos de idade, com vis\u00e3o monocular. No transcurso de sua carreira militar, ele foi estuprado tr\u00eas vezes no Ex\u00e9rcito. E foi estuprado duas vezes na vida civil. Sua vitimiza\u00e7\u00e3o mais recente foi quando ele pedia carona. Para esconder seu olho sem vis\u00e3o, Everett usa \u00f3culos escuros. Em todos os ataques, os agressores eram homens (K. Culton &amp; J. Moore, Programa de Defensoria de V\u00edtimas de Estupro, \u00f3rg\u00e3o estadual de advogados, Gainesville, Fl\u00f3rida, EUA. Entrevista pessoal, fevereiro de 1981).<\/p>\n<p><strong>Quando as v\u00edtimas s\u00e3o crian\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>Muitas crian\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. Crian\u00e7a com defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. O molestador de crian\u00e7as tem uma personalidade inadequada que se volta para as crian\u00e7as para satisfazer necessidades de controle e aceita\u00e7\u00e3o e lidar com o estresse da vida. O molestador de crian\u00e7as, assim como o estuprador, procura por crian\u00e7a que seja vulner\u00e1vel. Com frequ\u00eancia, crian\u00e7as com defici\u00eancia n\u00e3o participam das atividades da vizinhan\u00e7a com outras crian\u00e7as e ficam apenas observando. Sua necessidade de aten\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o ap\u00f3s ficarem com uma defici\u00eancia pode aumentar. Em muitos casos, o agressor pode ser algu\u00e9m conhecido da fam\u00edlia e fica um bom tempo junto com a crian\u00e7a a fim de ganhar a confian\u00e7a dela:<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 7<\/strong><\/p>\n<p>Martin \u00e9 um menino negro com 10 anos de idade que frequentava uma escola especial para crian\u00e7as com defici\u00eancia intelectual. Um dia, ele foi induzido por um adolescente a ir at\u00e9 um pr\u00e9dio abandonado. L\u00e1, ele foi for\u00e7ado a tirar as cal\u00e7as e se submeter a uma rela\u00e7\u00e3o anal. O agressor era conhecido da fam\u00edlia de Martin e morava na vizinhan\u00e7a (K. Culton &amp; J. Moore, Programa de Defensoria de V\u00edtimas de Estupro, \u00f3rg\u00e3o estadual de advogados, Gainesville, Fl\u00f3rida, EUA. Entrevista pessoal, fevereiro de 1981).<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 8<\/strong><\/p>\n<p>John \u00e9 um homem solteiro, branco, de 47 anos de idade, e foi entrevistado em uma penitenci\u00e1ria. Ele contou que nunca esteve envolvido em um relacionamento no qual ele se sentisse adequado com as mulheres. Sua v\u00edtima era uma adolescente de 12 anos de idade, que tinha paralisia cerebral e grave impedimento na fala. John era o namorado da m\u00e3e da v\u00edtima e morava com elas. Pouco a pouco, ele aceitou a responsabilidade de dar banho na adolescente, vesti-la e fazer com que a v\u00edtima chegasse \u00e0 escola e de l\u00e1 retornasse em condi\u00e7\u00f5es seguras. E contou que, pelo motivo de se sentir inadequado com a m\u00e3e, ele passou a dar mais aten\u00e7\u00e3o para a adolescente. Ele come\u00e7ou acariciando a v\u00edtima durante os banhos. A partir de certo momento, ele come\u00e7ou a fazer sexo oral na sua v\u00edtima. As agress\u00f5es continuaram por mais de tr\u00eas meses, devido principalmente \u00e0 incapacidade da v\u00edtima de se comunicar com outras pessoas e \u00e0 falta de entendimento sobre o que o agressor fazia a ela. A l\u00f3gica do agressor era que, como a v\u00edtima n\u00e3o tinha contatos com pessoas da idade dela fora da escola, ele estava apenas ensinando-a sobre sexo.<\/p>\n<p>Existe um incont\u00e1vel n\u00famero de casos nos quais o atendente tinha necessidades n\u00e3o-satisfeitas e a depend\u00eancia que o paciente tinha de outras pessoas \u00e9 distorcida ou manipulada a fim de satisfazer aqueles desejos n\u00e3o-atendidos.<\/p>\n<p>Os seguintes relatos s\u00e3o tr\u00eas de tais casos:<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 9<\/strong><\/p>\n<p>Teresa tem 15 anos de idade e mora em um centro residencial para adolescentes com dist\u00farbio emocional. Art \u00e9 um dos atendentes dela. Teresa manifesta amor e carinho atrav\u00e9s de atos sexuais somente. Art n\u00e3o tem namoradas que o satisfa\u00e7am e, por isso, ele corresponde aos avan\u00e7os de Teresa. Ela se envolveu em v\u00e1rias formas de rela\u00e7\u00e3o sexual sob o entendimento de que Art era seu namorado ou amante. Ap\u00f3s diversas semanas, Art rompeu o relacionamento. Ent\u00e3o, Teresa informou os outros atendentes sobre seu relacionamento com Art. Ele foi demitido, mas nenhuma acusa\u00e7\u00e3o foi registrada, devido \u00e0 possibilidade de efeitos prejudiciais \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. Mais tarde, descobriram que Art foi demitido de dois outros empregos pelo mesmo comportamento e que agora ele est\u00e1 trabalhando em outro centro residencial sob suspeita de atividades similares, mas n\u00e3o foi flagrado cometendo tais atos.<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 10<\/strong><\/p>\n<p>Jeff, interno com 17 anos de idade, branco, foi entrevistado em um centro comunit\u00e1rio residencial para adultos com dist\u00farbio emocional ou com defici\u00eancia intelectual. Durante a entrevista, ele revelou que seu banho compulsivo e esfregamento vigoroso, no ano anterior, eram uma tentativa de sua parte para \u2018lavar\u2019 os sentimentos sujos (culpa e vergonha) por ter sido v\u00edtima de estupro anal cometido por um atendente da equipe do centro onde estava internado.<\/p>\n<p><strong>Caso cl\u00ednico 11<\/strong><\/p>\n<p>Dean tem 21 anos de idade e foi internado em uma institui\u00e7\u00e3o para pessoas com defici\u00eancia intelectual. Ele reclamou que uma enfermeira o for\u00e7ou a fazer sexo com ela. Ele contou que nunca contou isto a ningu\u00e9m, at\u00e9 depois que ela saiu do emprego, porque tinha medo do que seus pais poderiam pensar. Ele estava constrangido tamb\u00e9m e contou que seus colegas riram dele por n\u00e3o agir como homem. Por que um homem reclamaria por ter sido \u2018cantado\u2019 por uma mulher?<\/p>\n<p>Com a tend\u00eancia de as v\u00edtimas entenderem mal os atos ou inten\u00e7\u00f5es dos outros, o agressor sexual pode utilizar, e de fato utiliza, esta condi\u00e7\u00e3o como uma vantagem. Uma vez que a v\u00edtima, com frequ\u00eancia, percebe o agressor como um atendente, parece n\u00e3o ocorrer a ela a consci\u00eancia de que a viol\u00eancia \u00e9 um ato inadequado. O cliente com dist\u00farbio emocional pode j\u00e1 estar passando por muitos problemas antes de ser violentado.<\/p>\n<p>Parafraseando Douglas (1980):<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o obstante a diversidade no diagn\u00f3stico, o cliente (com dist\u00farbio emocional) apresenta geralmente os seguintes tra\u00e7os: ansiedade, elevada sensibilidade, sentimentos de inadequa\u00e7\u00e3o, problemas de comunica\u00e7\u00e3o e uma tend\u00eancia para entender mal os outros\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Estas condi\u00e7\u00f5es, em conjunto com uma viol\u00eancia sexual, tendem a intensificar e complicar mais ainda algum problema que pessoas com defici\u00eancia j\u00e1 enfrentam.<\/p>\n<p><strong>Interven\u00e7\u00e3o junto \u00e0s v\u00edtimas<\/strong><\/p>\n<p>O profissional que atua junto a clientes que tenham sido v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual precisa compreender de que forma este tipo de experi\u00eancia traum\u00e1tica pode afetar a vida deles. Como no caso de uma defici\u00eancia f\u00edsica, v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual enfrentam o estigma social do estupro e sentem raiva, culpa e trauma em consequ\u00eancia da agress\u00e3o. A crise produzida pela viol\u00eancia pode impor \u00e0 v\u00edtima uma condi\u00e7\u00e3o incapacitante, embora invis\u00edvel (CARROW, 1980).<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica das v\u00edtimas, definida por Burgess &amp; Holmstrom (1974) como \u2018s\u00edndrome do trauma do estupro\u2019, consiste de uma fase aguda na qual as v\u00edtimas ficam desorganizadas e podem ter sentimento de nega\u00e7\u00e3o do incidente. Elas precisam inicialmente lidar com as v\u00e1rias rupturas em sua vida. A segunda fase transcorre por um longo tempo; \u00e9 um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o no qual as v\u00edtimas p\u00f5em em ordem as rupturas de sua vida. E fazem grandes ajustamentos, que podem incluir mudan\u00e7a para uma nova moradia, escolha de um novo emprego e relacionamento com novos amigos. Para v\u00edtimas infantis, o apoio de seus familiares e a interven\u00e7\u00e3o profissional s\u00e3o importantes, uma vez que elas podem sentir uma enorme carga de culpa em associa\u00e7\u00e3o com o incidente. Crian\u00e7as que forem v\u00edtimas de rela\u00e7\u00f5es incestuosas podem sentir rejei\u00e7\u00e3o da parte de outros familiares (pai ou m\u00e3e ou irm\u00e3os) se a pessoa que perpetrou o incesto for retirada do ambiente dom\u00e9stico e\/ou for presa e, em seguida, colocada na cadeia. De qualquer forma, se a v\u00edtima da viol\u00eancia sexual for uma pessoa com defici\u00eancia, isto pode aumentar quaisquer sentimentos de inadequa\u00e7\u00e3o, baixa autoestima, e contribui para um autoconceito desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p>O cliente com dist\u00farbio emocional ou defici\u00eancia intelectual precisa ser informado de que, embora uma parte do ato possa ter sido fisicamente prazerosa, esse ato \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o de seus direitos (GEIST, KNUDSON &amp; SORENSON, 1979). Esta falta de conex\u00e3o entre prazer e viol\u00eancia \u00e9 totalmente aproveitada pelo agressor, com ou sem inten\u00e7\u00e3o. V\u00edtimas que n\u00e3o tenham entendimento do porqu\u00ea a viol\u00eancia ocorreu parecem intensificar seus sentimentos de culpa e confus\u00e3o: \u2018Como pode uma coisa que sinto que \u00e9 boa ser m\u00e1?\u2019. Em muitos casos, a v\u00edtima n\u00e3o entende por que o agressor est\u00e1 perpetrando estes atos e a v\u00edtima com frequ\u00eancia sente culpa por se envolver em um ato no qual ela n\u00e3o tem escolha. Isto tende a aumentar seus sentimentos de desamparo e diminui seus autoconceitos. Isto parece ser comum \u00e0 maioria das v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual (BURGESS &amp; HOLMSTROM, 1974).<\/p>\n<p>No artigo \u2018Psicoterapia com V\u00edtimas de Estupro\u2019, Forman (1980) descreve algumas t\u00e9cnicas eficazes de interven\u00e7\u00e3o durante as cinco fases de rea\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, delineadas por Rogers (1978). Estas fases s\u00e3o: inicial, nega\u00e7\u00e3o, defini\u00e7\u00e3o do sintoma, raiva e resolu\u00e7\u00e3o. Pessoas com defici\u00eancia, que forem v\u00edtimas de uma viol\u00eancia sexual, t\u00eam de lidar com este trauma e percorrer as diversas fases de rea\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de lidar com a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o da defici\u00eancia. O terapeuta precisa ser sens\u00edvel a esta situa\u00e7\u00e3o e estar preparado para lidar com ambas as \u00e1reas preocupantes da vida do cliente. Na fase inicial, as v\u00edtimas est\u00e3o em um estado de choque, mas felizes por estarem vivas. O aconselhamento de crise pode ser um processo eficaz de interven\u00e7\u00e3o nesta fase, embora n\u00e3o totalmente adequado. O terapeuta precisa tentar estabelecer confian\u00e7a e desenvolver um bom relacionamento terap\u00eautico durante esta fase. Uma falha em estabelecer relacionamentos terap\u00eauticos, enquanto ajuda o cliente a readquirir controle sobre sua vida, pode impedir intera\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas por um longo tempo. As demais fases \u2013 nega\u00e7\u00e3o, defini\u00e7\u00e3o do sintoma, raiva e resolu\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00e3o semelhantes \u00e0s fases pelas quais as pessoas com defici\u00eancia passam logo ap\u00f3s a ocorr\u00eancia da defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Burgess, Groth, Holmstrom e Sgroi (1978) sugerem diversas t\u00e9cnicas que podem ser \u00fateis no trabalho junto a pessoas com defici\u00eancia que foram v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual:<\/p>\n<p><strong>1. <\/strong><strong>Identifique a defici\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>2. <\/strong><strong>Determine se a defici\u00eancia interferir\u00e1 nas entrevistas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>3. <\/strong><strong>Avalie o impacto do estupro no comportamento da v\u00edtima.<\/strong><\/p>\n<p><strong>4. <\/strong><strong>Proceda com o protocolo de praxe, adaptando-o para atender ao n\u00edvel de estresse da v\u00edtima. Esteja preparado para usar um tempo extra com a v\u00edtima e a fam\u00edlia dela.<\/strong><\/p>\n<p><strong>5. <\/strong><strong>Esteja alerta para n\u00e3o projetar r\u00f3tulos estereotipados sobre a v\u00edtima. Cuidadosamente, observe e avalie. E, de uma forma respeitosa, converse com a v\u00edtima e a fam\u00edlia, deixando impl\u00edcito o seu reconhecimento do impacto da viol\u00eancia sobre a v\u00edtima.<\/strong><\/p>\n<p><strong>6. <\/strong><strong>Registre a entrevista em linguagem que respeite a v\u00edtima e os familiares, mas ainda assim relate objetivamente suas descobertas.<\/strong><\/p>\n<p>Pessoas com defici\u00eancia auditiva ou com impedimento na fala podem requerer aten\u00e7\u00e3o especializada, pois elas tendem a vivenciar problemas socialmente e psicologicamente, al\u00e9m de vivenciar frustra\u00e7\u00e3o com este tipo de defici\u00eancia (TORKELSON &amp; LYNCH, 1979). Como foi mencionado acima, este tipo de caso \u00e9 dif\u00edcil para se promover a\u00e7\u00e3o penal e a v\u00edtima pode vivenciar muita vergonha, dificuldade e inseguran\u00e7a tentando descrever o ato perante a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia sexual \u00e9 uma experi\u00eancia extremamente traum\u00e1tica que pode afetar as v\u00edtimas e a vida delas indefinidamente, como no caso da ocorr\u00eancia de um acidente ou uma condi\u00e7\u00e3o cong\u00eanita que resulte em uma defici\u00eancia. O profissional que atende uma pessoa com defici\u00eancia, v\u00edtima de viol\u00eancia sexual, est\u00e1 diante de uma complexa situa\u00e7\u00e3o com a qual deve lidar. Com o entendimento mais esclarecido de algumas das quest\u00f5es envolvidas na viol\u00eancia sexual, os profissionais podem oferecer servi\u00e7os mais eficazes a seus clientes.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BURGESS, A.W. &amp; HOLMSTROM, J. Rape, trauma syndrome. <em>American Journal of Psychiatry<\/em>, n. 131, p. 981-986, 1974.<\/p>\n<p>BURGESS, A.W., GROTH, A.N., HOLMSTROM, L. &amp; SGROI. <em>Sexual assault of children and adolescents<\/em>. Lexington: Lexington Books\/D.C. Heath, 1978.<\/p>\n<p>CARROW, D.M. <em>Rape: Guidelines for a community response<\/em> (Contrato n. J-LEAA-013-78). Washington,D.C.: U.S. Government Printing Office, 1980.<\/p>\n<p>DOUGLAS, R.R. Assertiveness training for emotionally disturbed clients. <em>Journal of Rehabilitation<\/em>, v. 46, n. 1, p. 46-47, 1980.<\/p>\n<p>FORMAN, B.D. Psychotherapy with rape victims. <em>Psychotherapy: Theory, Research and Practice<\/em>, v. 17, n. 3, p. 304-311, 1980.<\/p>\n<p>GEIST,C.S., KNUDSON, C. &amp; SORENSON, K. Practical sex education for the mentally retarded. <em>Journal of Applied Rehabilitation Counseling<\/em>, v. 10, n. 4, p. 186-189, 1979.<\/p>\n<p>GROTH, A.N. <em>Men who rape<\/em>. Nova York: Plenum Press, 1979.<\/p>\n<p>MCDERMOTT, J.M. <em>Rape victimization in 26 American cities<\/em>. Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1979.<\/p>\n<p>ROGERS, P.C. <em>Rape counseling manual<\/em>. Atlanta: Rape Crisis Center, Grady Memorial Hospital, 1978.<\/p>\n<p>SHUKER, P.C. Degrading and unpredictable, rape can happen to anybody. <em>New York Times<\/em>, 26\/10\/1980.<\/p>\n<p>TORKELSON, R.M. &amp; LYNCH, R.K. Rehabilitation considerations with the communicatively handicapped individual. <em>Journal of Rehabilitation<\/em>, v. 45, n. 4, p. 48-51, 1979.<\/p>\n<p><strong>Autores<\/strong><\/p>\n<p>(1)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>Robert E. Longo<\/strong> est\u00e1 trabalhando como diretor de unidade no Programa de Tratamento de Agressores Sexuais, no Centro de Avalia\u00e7\u00e3o e Tratamento do Norte da Fl\u00f3rida, em Gainesville, Fl\u00f3rida. Obteve t\u00edtulo de Mestre em Aconselhamento de Reabilita\u00e7\u00e3o, da Universidade da Fl\u00f3rida em 1976. \u00c9 fundador e presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Pesquisa em Viol\u00eancia Sexual &#8211; um grupo sem fins lucrativos dedicado a pesquisa, educa\u00e7\u00e3o e treinamento na \u00e1rea da viol\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>(2)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>Claude Gochenour<\/strong> trabalha atualmente como terapeuta de reabilita\u00e7\u00e3o no Programa de Tratamento de Agressores Sexuais, no Centro de Avalia\u00e7\u00e3o e Tratamento do Norte da Fl\u00f3rida. Obteve t\u00edtulo de Mestre em Aconselhamento de Reabilita\u00e7\u00e3o, da Universidade da Fl\u00f3rida em 1979. \u00c9 conselheiro de reabilita\u00e7\u00e3o, certificado desde outubro de 1979.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A condi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima \u00e9, muitas vezes, piorada por n\u00e3o ser levada a s\u00e9rio quando ela denuncia. 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