{"id":20196,"date":"2011-07-06T23:54:32","date_gmt":"2011-07-07T02:54:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=20196"},"modified":"2011-07-06T23:54:32","modified_gmt":"2011-07-07T02:54:32","slug":"conviver-com-pessoa-com-deficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=20196","title":{"rendered":"Conviver com pessoa com defici\u00eancia"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_13677\" aria-describedby=\"caption-attachment-13677\" style=\"width: 270px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a rel=\"attachment wp-att-13677\" href=\"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?attachment_id=13677\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-13677 \" title=\"Inclusive - diversidade - palma de m\u00e3o aberta com um dedo de cada cor\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/diversidade2-270x300.jpg\" alt=\"Inclusive - diversidade - palma de m\u00e3o aberta com um dedo de cada cor\" width=\"270\" height=\"300\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13677\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Como diz Reinaldo Bulgarelli, \u201c<strong>Diversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos somos todos n\u00f3s<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Todos acreditamos na frase acima, ningu\u00e9m duvida que somos todos  diferentes, com caracter\u00edsticas f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas, e culturais muito  diferentes, e quando pensamos na hist\u00f3ria mais e maiores diferen\u00e7as  encontramos. Todavia, quando pensamos em uma pessoa com defici\u00eancia,  essas diferen\u00e7as v\u00e3o al\u00e9m. As diferen\u00e7as de uma pessoa com defici\u00eancia  v\u00eam carregadas de significados, de interpreta\u00e7\u00f5es, que levam a  constru\u00e7\u00e3o de imagens, que por sua vez tamb\u00e9m est\u00e3o carregadas de emo\u00e7\u00e3o  impregnadas das viv\u00eancias ou n\u00e3o, com uma pessoa com defici\u00eancia. Isso  sem falar do medo que todos temos de adquirir uma defici\u00eancia ao longo  da vida.<\/p>\n<p>Muitos foram os que tentaram eliminar a incoer\u00eancia dos conceitos, mas a palavra <strong>\u201cdeficiente<\/strong>\u201d tem um significado muito forte. Freq\u00fcentemente \u00e9 confundido \u201c<strong>deficiente<\/strong>\u201d  como ant\u00f4nimo de \u201ceficiente\u201d, que por sua vez leva \u00e0 id\u00e9ia de  \u201cincapaz\u201d. Id\u00e9ia que se fortalece, quando n\u00e3o existe viv\u00eancia com uma  pessoa com defici\u00eancia, ou se a viv\u00eancia for com uma pessoa cuja  defici\u00eancia seja de fato limitante e incapacitante.<\/p>\n<p>E aqui outra quest\u00e3o aparece: \u201cgeneraliza\u00e7\u00e3o\u201d. De novo, a frase  \u201cDiversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, Diversos somos todos n\u00f3s\u201d, n\u00e3o \u00e9 aplicada  para a pessoa com defici\u00eancia.  O simples fato de ter uma defici\u00eancia  semelhante ao outro, j\u00e1 \u00e9 determinante que seja igual. As diferen\u00e7as  individuais, familiares, socioecon\u00f4micas, psicol\u00f3gicas, n\u00e3o s\u00e3o levadas  em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sociedade constr\u00f3i seus valores culturais, se organiza conforme  eles, e se expressam atrav\u00e9s das palavras. Portanto, o primeiro grande  desafio das pessoas com defici\u00eancia \u00e9 superar o significado e a imagem  que lhes \u00e9 imposta pela palavra \u201c<strong>deficiente<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>Seu desafio come\u00e7a na fam\u00edlia, que n\u00e3o espera e nem quer ter um filho  com defici\u00eancia, depois na escola, na sociedade, e por fim na empresa.  Outro valor cultuado pela sociedade \u00e9 o sucesso, que define que para se  ter sucesso \u00e9 necess\u00e1rio ser perfeito, completo, forte, ter tudo em  ordem, portanto, aquele que n\u00e3o tem alguma parte do seu corpo, n\u00e3o pode  conseguir o sucesso, a ordem, o progresso, e leva o estigma de  dependente, com necessidade de tutela.<\/p>\n<p>No fundo, a frase \u201cDiversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos somos todos  n\u00f3s\u201d \u00e9 muito mais frase de desejo do que de realidade, na medida em que a  sociedade reconhece e valoriza os iguais, homog\u00eaneos, aqueles que de  todas as formas atendam suas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>O mais cruel \u00e9 que a sociedade cria suas regras, e mesmo que essas  sejam incoerentes ou injustas, todos acreditam e as seguem. Mesmo  aqueles que s\u00e3o os estigmatizados acreditam que de fato s\u00e3o inferiores,  menores, menos. E as pessoas com defici\u00eancia tamb\u00e9m trazem dentro de si  os conceitos impostos pela cultura, e precisam superar os sentimentos de  inferioridade e incapacidade.<\/p>\n<p>Este artigo tem o objetivo de trazer essas quest\u00f5es para serem  debatidas pelas pessoas, por ser necess\u00e1rio que se reconstruam esses  valores, tanto da pessoa com defici\u00eancia, como da sem defici\u00eancia,  porque as imagens constru\u00eddas est\u00e3o na cabe\u00e7a dos dois lados, e de  muitas formas se alimentam, impedindo que se estabele\u00e7am relacionamentos  maduros  e sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Para escrever essas reflex\u00f5es, li e reli in\u00fameros textos, de diversos  autores, sens\u00edveis, interessados na quest\u00e3o da pessoa com defici\u00eancia.  Apesar de reconhecer a riqueza de informa\u00e7\u00f5es e a dedica\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o  desses autores em definir e conceituar o que \u00e9 ser pessoa com  defici\u00eancia e o que \u00e9 inclu\u00ed-las na sociedade, devo confessar que  pouqu\u00edssimas vezes me senti representada, e raramente reconheci minha  vida e meu jeito de ver as coisas nos relatos que li.<\/p>\n<p>Sou cega desde os 15 anos, em conseq\u00fc\u00eancia de um deslocamento de  retina, que teve como causa alta miopia. Talvez exatamente por ter  perdido a vis\u00e3o aos 15 anos, tenha outro jeito de enxergar as coisas,  mas um caso como o meu n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. Conhe\u00e7o muitos colegas com  defici\u00eancia visual que adquiriram a cegueira depois de adultos, e n\u00e3o s\u00f3  a defici\u00eancia visual como todas as outras, por conta de doen\u00e7as ou  principalmente acidentes de tr\u00e2nsito e de trabalho. Portanto, somos  muitos que n\u00e3o nos sentimos retratados pelos estudiosos e pesquisadores  do tema \u201cInclus\u00e3o das Pessoas com Defici\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero falar em nome das pessoas com defici\u00eancia, nem ao menos dos  visuais, n\u00e3o fiz nenhuma pesquisa e n\u00e3o tenho autoriza\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m  para falar em nome do grupo. Tudo que estou escrevendo s\u00e3o minhas  pr\u00f3prias reflex\u00f5es e que eventualmente possam refletir o jeito de viver  de v\u00e1rias dessas pessoas.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, n\u00e3o podemos esquecer que estamos no Brasil e que  temos car\u00eancia de quase tudo, e que a desigualdade entre as pessoas no  nosso pa\u00eds \u00e9 um aspecto mundialmente conhecido e que muito nos  envergonha como brasileiros. O ideal de uma sociedade verdadeiramente  inclusiva est\u00e1 na cabe\u00e7a de poucos, e ainda temos muito que avan\u00e7ar para  termos uma sociedade com igualdade e respeito a todos.<\/p>\n<p>Percebemos as dificuldades do Brasil na falta de escolas, que \u00e9  sentida n\u00e3o s\u00f3 pelas pessoas com defici\u00eancia, mas por muitas crian\u00e7as  que, em idade escolar, n\u00e3o encontram vagas para estudar; no sistema de  sa\u00fade, que n\u00e3o previne e nem cuida de todos os nossos doentes; nas  poucas vagas e postos de trabalho para os brasileiros em idade  economicamente ativa; na realidade de que nem todos possuem casa  pr\u00f3pria, e que muitos vivem em condi\u00e7\u00f5es subumanas, e assim por diante.  Com esse cen\u00e1rio brasileiro, n\u00e3o podemos e nem devemos esperar que  especificamente as pessoas com defici\u00eancia tenham tudo o que grande  parte dos brasileiros n\u00e3o possui. N\u00e3o podemos cobrar dos governos,  empresas, escolas, e mesmo fam\u00edlias, o que ainda n\u00e3o sabem e nem podem  oferecer. O Brasil est\u00e1 em plena constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade democr\u00e1tica  e justa. E nessa constru\u00e7\u00e3o precisa de todos trabalhando juntos de  forma compartilhada e cooperativa, para sermos uma na\u00e7\u00e3o forte e  sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sermos brasileiros e vivermos nessa realidade, antes de  sermos deficientes, somos pessoas, com tudo o que isso significa.  Sonhos, medos, hist\u00f3ria de vida, oportunidades, tend\u00eancias, voca\u00e7\u00f5es, e  tudo mais. \u00c9 comum em minhas palestras eu pedir que as pessoas fechem os  olhos e que percebam que continuam sentindo, pensando, desejando as  mesmas coisas de quando com os olhos abertos. A defici\u00eancia \u00e9 quase como  uma caracter\u00edstica pessoal, como cor de cabelo, altura, cor dos olhos.<\/p>\n<p>Desde que nascemos, ou algum tempo depois de adquirirmos uma  defici\u00eancia, incorporamos suas caracter\u00edsticas, suas limita\u00e7\u00f5es, como  qualquer outra caracter\u00edstica f\u00edsica. Todos n\u00f3s somos acostumados com a  nossa altura, por exemplo, e nos adaptamos \u00e0s suas particularidades e \u00e0s  vezes at\u00e9 mesmo nos aproveitamos de suas vantagens. Assim tamb\u00e9m  acontece com a defici\u00eancia. A rotina, o sentimento de sobreviv\u00eancia e a  repeti\u00e7\u00e3o das atividades fazem com que aprendamos a lidar com as  limita\u00e7\u00f5es e superar as dificuldades, valorizando e explorando ao m\u00e1ximo  as facilidades e possibilidades. Existem in\u00fameros exemplos de pessoas  com defici\u00eancia que fizeram e fazem coisas que ningu\u00e9m acreditava ser  poss\u00edvel. Mas eles conseguiram porque convivem consigo mesmos o tempo  todo e sabem o que, como, onde e quando devem avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Durante um tempo, e esse tempo depende de cada pessoa, a defici\u00eancia  causa algum desconforto.  A falta de institui\u00e7\u00f5es capacitadas, as  dificuldades da fam\u00edlia na aceita\u00e7\u00e3o e no apoio que precisamos e as  barreiras arquitet\u00f4nicas nos causam inseguran\u00e7a e algumas vezes  impot\u00eancia para superar as dificuldades, mas a vida, com sua for\u00e7a  extraordin\u00e1ria, nos impulsiona para o desafio de crescer, de se  desenvolver, de avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>A defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a, a defici\u00eancia n\u00e3o d\u00f3i, portanto nossa  vontade, alegria, coragem continuam dentro de n\u00f3s, e chega um momento  que n\u00e3o suportamos a clausura e sa\u00edmos para a vida. Sair para a vida,  n\u00e3o significa que sabemos o que queremos, nem sempre sabemos ao menos  onde estamos, o que somos, quantos somos. Queremos sair para fazer a  nossa hist\u00f3ria, do nosso jeito, de algum jeito.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as fazem birra, gritam, exigem, querem porque querem ir \u00e0  escola, sair, brincar. J\u00e1 presenciei in\u00fameras cenas assim, por um lado a  crian\u00e7a tem fome e necessidade de vida, pelo outro os familiares  seguram, impedem, pro\u00edbem, por medo, por desinforma\u00e7\u00e3o, por  superprote\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei a medida certa. N\u00e3o tenho receitas prontas, mas  sei que falta di\u00e1logo entre pais e filhos. N\u00e3o s\u00f3 das fam\u00edlias com  pessoa com defici\u00eancia,, mas nesse caso, infelizmente, existe um  componente a mais. Cada defici\u00eancia tem seus cuidados espec\u00edficos. E  aqui come\u00e7am as confus\u00f5es. O que precisa de cuidados espec\u00edficos s\u00e3o as  defici\u00eancias, e n\u00e3o as pessoas.  Em algum momento essas duas coisas se  cruzam, mas na maioria das vezes deveriam ser tratadas em planos  diferentes.<\/p>\n<p>Em um primeiro plano, a pessoa com defici\u00eancia, de nascen\u00e7a ou  adquirida, precisa de informa\u00e7\u00f5es, de capacita\u00e7\u00e3o, de formas e t\u00e9cnicas  de como desenvolver os outros sentidos ou \u00f3rg\u00e3os para superar e  compensar ao que foi perdido. \u00c0s pessoas com defici\u00eancia visual \u00e9  necess\u00e1rio aprender o uso da bengala, a escrita Braille, a coordena\u00e7\u00e3o  motora, a no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, o desenvolvimento do olfato, do ver com os  ouvidos. \u00c0s pessoas com defici\u00eancia f\u00edsica, o desenvolvimento e  fortalecimento do membro n\u00e3o afetado e principalmente a explora\u00e7\u00e3o do  membro deficiente, para que fa\u00e7a o m\u00e1ximo que puder.  \u00c0s auditivas, como  fazer leitura dos l\u00e1bios, como aprender a falar (a grande maioria dos  deficientes auditivos possuem as cordas vocais perfeitas), aprender  LIBRAS (Linguagem Brasileira de Sinais), precisam aprender a se  comunicar de alguma forma. \u00c0s pessoas com defici\u00eancia intelectual, a se  comunicar com clareza, a fazer as atividades da vida di\u00e1ria com  facilidade, e \u00e0s m\u00faltiplas aquilo que precisarem e puderem aprender para  se tornarem o mais independente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Algumas vezes esses aprendizados parecem muito esfor\u00e7o e at\u00e9  crueldade para uma crian\u00e7a, ou mesmo um adulto que adquiriu uma  defici\u00eancia e ter\u00e1 que reaprender muitas coisas. Mas na verdade, cruel \u00e9  n\u00e3o incentiv\u00e1-los, apoi\u00e1-los, empurr\u00e1-los, para que aprendam a fazer  tudo o que for poss\u00edvel e um pouco mais.<\/p>\n<p>Cruel e desumano \u00e9 fazer que a defici\u00eancia seja motivo da  depend\u00eancia, da submiss\u00e3o, de sua descaracteriza\u00e7\u00e3o.  \u00c9 fazer essas  pessoas mais limitadas do que a pr\u00f3pria defici\u00eancia j\u00e1 o faz. Cuidar do  aprendizado espec\u00edfico para cada defici\u00eancia \u00e9 ser respons\u00e1vel e humano.<\/p>\n<p>Em outro plano encontramos as pessoas que desde o nascimento ou  depois de adultos adquiriam uma defici\u00eancia. E aqui os cuidados s\u00e3o  outros.  Alguns aceitam rapidamente e partem para recuperar o que  perderam, outros, no entanto, ficam paralisados, sem saber por onde  come\u00e7ar. Respeitar o tempo de luto de cada um \u00e9 fundamental.  Ensin\u00e1-los  as coisas mais pr\u00e1ticas ajuda muito. Como escovar os dentes, tomar  banho, pentear os cabelos. Na medida em que percebem que conseguem  resolver suas necessidades prim\u00e1rias, a mente, o psicol\u00f3gico, vai  ousando avan\u00e7ar em outros campos da vida.<\/p>\n<p>Importante entender que as defici\u00eancias simplesmente trazem as  limita\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de sua natureza, nada mais.  A cegueira apenas  traz \u00e0 pessoa a limita\u00e7\u00e3o de n\u00e3o enxergar, a surdez de n\u00e3o ouvir, a  paraplegia de n\u00e3o andar, e assim por diante, portanto \u00e9 incorreto pensar  que a defici\u00eancia determina o jeito de ser da pessoa que a possui.<\/p>\n<p>A pessoa \u00e9 a somat\u00f3ria de suas experi\u00eancias, oportunidades, sua  forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, sua maturidade espiritual.  Por isso \u00e9 comum  encontrarmos pessoas com a mesma defici\u00eancia, por\u00e9m com trajet\u00f3rias de  vida muito diferentes. Esse \u00e9 outro conceito importante: as pessoas com  defici\u00eancia, apesar das semelhan\u00e7as de suas limita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00e3o de forma  nenhuma iguais. A generaliza\u00e7\u00e3o, muito comum na cabe\u00e7a das pessoas, n\u00e3o  tem fundamentos s\u00f3lidos e nem l\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o santas, e nem  diab\u00f3licas. N\u00e3o s\u00e3o absolutamente corajosas, e nem covardes. Nem  felizes, nem sofredoras. N\u00e3o necessariamente ajudam a motiva\u00e7\u00e3o no  ambiente de trabalho, nem prejudicam. As pessoas com defici\u00eancia s\u00e3o  antes de tudo pessoas, com tudo o que isso significa, somado a um  esfor\u00e7o diferente, que \u00e9 aprender a viver, apesar de sua limita\u00e7\u00e3o  f\u00edsica, sensorial ou intelectual.<\/p>\n<p>Pessoas com defici\u00eancia trazem consigo medos, inseguran\u00e7as,  des\u00e2nimos, pregui\u00e7a, comodismo, rebeldia, tanto como coragem,  determina\u00e7\u00e3o, alegria, vontade, intelig\u00eancia, bom senso. Como, ali\u00e1s,  todas as pessoas que est\u00e3o vivendo e que precisam levantar todos os dias  de manh\u00e3 e ir \u00e0 luta, que muitas vezes gostariam de ficar deitadas, que  outras tantas se sentem desvalorizadas, cansadas e tristes, e em outros  dias, est\u00e3o absolutamente felizes, realizadas, esperan\u00e7osas.<\/p>\n<p>Ser pessoa \u00e9 uma mistura de todos os sentimentos, \u00e9 ter que enfrentar  as limita\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o apenas aquelas oficialmente consideradas  defici\u00eancias, mas todas as outras, como ser loira, ser obesa, ser  baiana, ser magra demais, ser mais lenta, ter necessidade de pensar um  pouco mais antes de decidir, e assim por diante. Na verdade, \u201cdiversos  n\u00e3o s\u00e3o os outros. Diversos somos todos n\u00f3s\u201d.  E em alguma medida, todos  precisamos ser aceitos, inclu\u00eddos, reconhecidos e valorizados.<\/p>\n<p>Relatos como o de Guga Dorea, logo abaixo, s\u00e3o mais comuns do que  deveriam. A maioria das fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e1 preparada para receber um novo  ser com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Eram 12h30 da tarde. Algo de novo estava preste a acontecer  em minha exist\u00eancia. O primeiro filho. Sensa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas percorriam o  meu corpo naquele instante quando, de repente, experimentei o  inesperado, que se instalou em meu organismo \u2013 fortemente marcado por  cargas estigmatizadas \u2013 como se fosse um pontiagudo aguilh\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>As horas j\u00e1 haviam se passado. No momento m\u00e1gico do nascimento,  quando aquela nova vida j\u00e1 fazia parte de minha subjetividade, a  enfermeira se postou em minha frente, com uma fisionomia de desalento e  de quase perplexidade. Thiago estava em seus bra\u00e7os quando ela disse:  \u2018olhe a testa de seu filho\u2019. Sem compreender o porqu\u00ea, olhei e, em  fun\u00e7\u00e3o da requisi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria enfermeira, fui levado a confirmar que  realmente aquele n\u00e3o compreens\u00edvel olhar havia se concretizado.<\/p>\n<p>Logo em seguida, a pr\u00f3pria enfermeira apontou o corredor ao lado da  sala de parto e me chamou para informar, da pior maneira poss\u00edvel, que  meu filho poderia ter nascido com alguma \u2018anomalia\u2019 gen\u00e9tica, mas era  para que eu voltasse ao lado da m\u00e3e e n\u00e3o transmitisse nenhuma  fisionomia contr\u00e1ria \u00e0quele momento de habitual alegria e de incont\u00e1vel  realiza\u00e7\u00e3o. Afinal, a sua barriga ainda estava aberta.<\/p>\n<p>Nesse instante, e n\u00e3o poderia ter sido diferente, a minha vida  parecia haver desabado, o que significou, na pr\u00e1tica, a sa\u00edda  instant\u00e2nea de um mundo aparentemente seguro e confort\u00e1vel, repleto de  opini\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es supostamente formadas, para um universo  desesperador do caos, da incerteza, da f\u00faria, do \u00f3dio, enfim, a minha  impress\u00e3o era de que toda uma exist\u00eancia havia se quebrado, sem chances  de retorno a um mar calmo, a um porto seguro.<\/p>\n<p>\u00c9 como se eu estivesse sendo sugado, exatamente naquele segundo, por  um mar extremamente bravio, surgido do nada, que havia me lan\u00e7ado para  outro mundo, preocupadamente intoler\u00e1vel e enigm\u00e1tico. O meu corpo n\u00e3o  se reconhecia mais naquele \u2018eu\u2019, que havia se transformado em outro  corpo, uma outra subjetividade, em suma, estava assustadoramente no  limiar de um outro mundo em que meus projetos de futuro n\u00e3o caberiam  mais.\u201d (Guga Dorea).<\/p>\n<p>As fam\u00edlias n\u00e3o est\u00e3o preparadas, principalmente, porque receberam  toda carga ideol\u00f3gica que reina no interior de nossa cultura. Deste  modo, as rea\u00e7\u00f5es podem ser as mais variadas: rejei\u00e7\u00e3o, simula\u00e7\u00e3o,  segrega\u00e7\u00e3o, superprote\u00e7\u00e3o, paternalismo exacerbado, ou mesmo piedade.<\/p>\n<p>Em geral, um casal nunca tem a id\u00e9ia de que um dia poder\u00e1 ter um  filho que nas\u00e7a com qualquer tipo de diferen\u00e7a e Uma fam\u00edlia n\u00e3o tem a  no\u00e7\u00e3o de que um membro poder\u00e1 um dia sofrer um acidente que o fa\u00e7a uma  pessoa assim. A palavra \u201cdeficiente\u201d adquire uma conota\u00e7\u00e3o negativa.  Deficiente ser\u00e1 aquele membro que dar\u00e1 sempre muito trabalho, que viver\u00e1  encostado \u00e0 custa da fam\u00edlia. Outra ang\u00fastia \u00e9 a culpa que a maioria  dos pais, particularmente as m\u00e3es, sente em rela\u00e7\u00e3o a um filho com  defici\u00eancia. Sempre encontram falhas, equ\u00edvocos, esquecimentos, que  imaginam ter sido a causa do<br \/>\nque ocorreu com o filho. Tamb\u00e9m existem os casais  que se culpam. \u00c9  muito comum, os casais se separarem depois do nascimento do filho com  defici\u00eancia, o que s\u00f3 aumenta ainda mais a culpa e o desconforto deles.<\/p>\n<p>Alguns pais procuram centros de reabilita\u00e7\u00e3o, ou cl\u00ednicas para um  acompanhamento, o que, ali\u00e1s, \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio, sob pena do  agravamento da limita\u00e7\u00e3o se isso n\u00e3o for feito em tempo certo. Mas  infelizmente, n\u00e3o s\u00e3o todos os pais que podem ou  t\u00eam a consci\u00eancia   desse dever, e negligenciam os cuidados consigo mesmos, com o filho, e  com as necessidades da defici\u00eancia.  O resultado \u00e9, na maioria das  vezes, deprimente e cruel, porque traz seq\u00fcelas a todos da fam\u00edlia, n\u00e3o  s\u00f3 para a pessoa com defici\u00eancia, mas para todos, e muitas delas  limitadoras e traum\u00e1ticas at\u00e9 mesmo para aqueles que n\u00e3o possuem nenhuma  defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesse ambiente de restri\u00e7\u00f5es, incompreens\u00f5es, as crian\u00e7as com  defici\u00eancia v\u00e3o se desenvolvendo como podem, com as dificuldades de  qualquer crian\u00e7a, acrescidas das dificuldades da sua defici\u00eancia, porque  n\u00e3o possuem par\u00e2metros de compara\u00e7\u00e3o (em geral, nas fam\u00edlias, existe  uma \u00fanica pessoa com defici\u00eancia). Como essas crian\u00e7as s\u00e3o mantidas  dentro de casa, at\u00e9 por conta da preocupa\u00e7\u00e3o com sua seguran\u00e7a, ou pelos  constrangimentos que trazem, ou mesmo pelo trabalho que d\u00e3o, n\u00e3o  conseguem ter grandes viv\u00eancias ou experi\u00eancia, que sabemos serem  fundamentais no desenvolvimento infantil. Assim, temos outro problema  sendo constru\u00eddo. Al\u00e9m das limita\u00e7\u00f5es da defici\u00eancia, encontramos, com  bastante freq\u00fc\u00eancia, pessoas com defici\u00eancia com dificuldades  cognitivas, de desenvolvimento motor e, claro, com imensos  comprometimentos psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil ser pai ou m\u00e3e, \u00e9 um papel dos mais exigentes.  Ser pai ou m\u00e3e de uma crian\u00e7a com defici\u00eancia \u00e9 significativamente mais  dif\u00edcil, exigindo desses pais dedica\u00e7\u00e3o, tempo dispon\u00edvel,  autocontrole, energia, e muitos outros atributos que nem sempre s\u00e3o  poss\u00edveis, at\u00e9 porque n\u00e3o existe uma cartilha que possam seguir, e a  maioria das institui\u00e7\u00f5es para pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o possuem  programas eficazes para orienta\u00e7\u00e3o de pais.<\/p>\n<p>A peregrina\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico em m\u00e9dico, de cl\u00ednicas especializadas, de  Institui\u00e7\u00f5es, em busca de ajuda, de entendimento do que est\u00e1 acontecendo  com seu filho, \u00e9 constante e nem sempre frut\u00edfera.  Na maioria das  vezes causa grandes frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a \u00fanica sa\u00edda para que essas crian\u00e7as tenham maiores  perspectivas, mais condi\u00e7\u00f5es de enfrentar a vida adulta, de conseguirem  ser independentes e se sustentarem, \u00e9 a conscientiza\u00e7\u00e3o dos pais. \u00c9 a  coragem de enterrar o \u201cfilho ideal\u201d e de aceitar o \u201cfilho real\u201d, com  tudo o que isso significa, inclusive e principalmente a dedica\u00e7\u00e3o que  lhes ser\u00e1 exigida a vida inteira. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, por\u00e9m \u00e9 a \u00fanica forma de  encontrarem alguma felicidade quando observarem seus filhos adultos e  independentes.<\/p>\n<p>Depois que as crian\u00e7as crescem, e chegam a idade escolar, a situa\u00e7\u00e3o  n\u00e3o fica mais f\u00e1cil. J\u00e1 come\u00e7a pelo esfor\u00e7o da crian\u00e7a e da fam\u00edlia na  organiza\u00e7\u00e3o e na supera\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a de ir para a Escola. Depois  nas dificuldades com a locomo\u00e7\u00e3o desde a porta de sua casa at\u00e9 a porta   da Institui\u00e7\u00e3o Escolar.  Os cadeirantes, muletantes e cegos, muito mais  do que as Defici\u00eancias moderadas e leves, sentem a falta quase total de  acessibilidade nas cal\u00e7adas, ruas e meio de transporte. Todos enfrentam  grandes desafios.<\/p>\n<p>Quando conseguem chegar no pr\u00e9dio da escola, se deparam com outros  tr\u00eas grandes obst\u00e1culos:  O primeiro \u00e9 conseguir entrar no pr\u00e9dio. Na  maioria das vezes possuem escadas, (sem rampas ou elevadores) salas  super lotadas, com carteira fixas. Depois tem a falta de material  did\u00e1tico adaptado. Dificilmente uma escola possui livros em Braille ou  com letras ampliadas, computadores com ledores de telas, filmes e  document\u00e1rios com legendas, etc., e, por fim, os professores e  diretores, sem nenhum preparo e interesse em ter em sala de aula uma  pessoa diferente do que seja considerado comum.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre um esfor\u00e7o sobre-humano da pessoa com Defici\u00eancia e suas  fam\u00edlias, a conquista de uma vaga e a aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos  escolares. Aqueles que conseguem sempre possuem hist\u00f3rias de  desconforto, exclus\u00e3o e at\u00e9 mesmo de humilha\u00e7\u00f5es.<br \/>\nCom tantos desafios a enfrentar, agravados pelas dificuldades  financeiras, ainda n\u00e3o \u00e9 grande o n\u00famero de pessoas com Defici\u00eancia que  conseguem avan\u00e7ar nos estudos e chegarem at\u00e9 a Universidade e  a P\u00f3s  Gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Lei de Cotas, (lei 8213\/91) que determina que as Empresas tenham um  percentual de pessoas com defici\u00eancia no quadro de empregados efetivos,  trouxe um grande incentivo ao avan\u00e7o dessas pessoas em todos os  aspectos. Provocou efeitos colaterais important\u00edssimos no processo de  inclus\u00e3o e de respeito pelas Diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Ao conseguirem emprego e sal\u00e1rio, a auto-estima e as condi\u00e7\u00f5es de  consumidores, os tiraram de suas casas e os colocaram nos shopping,  cinemas, teatros, nas escolas para se aprimorarem,  nas ruas, na vida  enfim.<\/p>\n<p>Por outro lado, as pessoas sem Defici\u00eancia tamb\u00e9m tiveram a  oportunidade de conviver com pessoas com Defici\u00eancia, e os estigmas,  paradigmas, velhos conceitos, pouco a pouco v\u00e3o se desfazendo,  transformando, desaparecendo, e dando lugar a um pensamento inclusivo,  humano, natural.<\/p>\n<p>Ouso afirmar, que a comunidade de pessoas com Defici\u00eancia, come\u00e7a ter  a Esperan\u00e7a de que a frase \u201cDiversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos somos  todos n\u00f3s\u201d seja de fato Realidade. E que a Sociedade, dentro de pouco  tempo, seja Inclusiva, \u00c9tica e Humana.<\/p>\n<p>Deise Fernandes.<br \/>\nConsultora Interna de RH na CPFL \u2013 Energia.<br \/>\nRespons\u00e1vel pelo programa de Valoriza\u00e7\u00e3o da Diversidade.<\/p>\n<p>Fonte:<a href=\" http:\/\/www.bengalalegal.com\/conviver-com-pcd\"> Bengala Lega<\/a>l<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Como diz Reinaldo Bulgarelli, &#8216;Diversos n\u00e3o s\u00e3o os outros, diversos somos todos n\u00f3s&#8217;. Todos acreditamos na frase acima, ningu\u00e9m duvida que somos todos diferentes, com caracter\u00edsticas f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas, e culturais muito diferentes, e quando pensamos na hist\u00f3ria mais e maiores diferen\u00e7as encontramos. Todavia, quando pensamos em uma pessoa com defici\u00eancia, essas diferen\u00e7as v\u00e3o al\u00e9m. 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Todos acreditamos na frase acima, ningu\u00e9m duvida que somos todos diferentes, com caracter\u00edsticas f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas, e culturais muito diferentes, e quando pensamos na hist\u00f3ria mais e maiores diferen\u00e7as encontramos. Todavia, quando pensamos em uma pessoa com defici\u00eancia, essas diferen\u00e7as v\u00e3o al\u00e9m. 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