{"id":20823,"date":"2011-09-01T07:21:27","date_gmt":"2011-09-01T10:21:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=20823"},"modified":"2011-09-01T07:21:27","modified_gmt":"2011-09-01T10:21:27","slug":"historias-de-professores-de-linguas-e-experiencias-com-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=20823","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de professores de l\u00ednguas e experi\u00eancias com racismo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_18488\" aria-describedby=\"caption-attachment-18488\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18488 \" title=\"Ao fundo pe\u00e7as brancas de jogo de xadrez, em primeiro plano, um pe\u00e3o preto.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/racismo.jpg\" alt=\"Ao fundo pe\u00e7as brancas de jogo de xadrez, em primeiro plano, um pe\u00e3o preto.\" width=\"250\" height=\"168\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-18488\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Hist\u00f3rias de professores de l\u00ednguas e experi\u00eancias com racismo: uma reflex\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o de professores, por Aparecida de Jesus Ferreira. Especulo, Revista de Estudios Literarios. Universidad Complutense de Madrid, n. 42, jul.\/set. 2009<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ucm.es\/info\/especulo\/numero42\/racismo.html\">Link para download.<\/a><\/p>\n<p>RESUMO\/ABSTRACT<\/p>\n<p>O presente artigo reflete sobre o discurso que considera que  n\u00e3o h\u00e1 racismo no Brasil, ou sobre o discurso de que vivemos em um pa\u00eds  em que h\u00e1 uma democracia racial, discursos que v\u00eam sendo desconstru\u00eddos  continuamente atrav\u00e9s de pesquisas. No artigo, discuto quest\u00f5es acerca  de como alguns professores negros e brancos passaram por experi\u00eancias  relacionadas \u00e0s quest\u00f5es de ra\u00e7a\/etnia. Dessa forma, o artigo tem como  objetivo demonstrar que h\u00e1 uma necessidade latente de estarmos  discutindo sobre comportamentos racistas na nossa sociedade. E, para  fazer esta discuss\u00e3o, os pressupostos te\u00f3ricos utilizados s\u00e3o advindos  da Teoria Racial Cr\u00edtica (Critical Race Theory &#8211; CRT), que ser\u00e1 a base  para an\u00e1lise dos dados (LADSON-BILLINGS, 1998, 1999, LADSON-BILLINGS  &amp; TATE, 1995). A metodologia utilizada para a coleta de dados foi a  de entrevistas com professores de l\u00ednguas consideradas como narrativas  (CLANDININ &amp; CONNELLY, 1998). Os resultados da pesquisa demonstraram  que as experi\u00eancias racistas permeiam as escolas de uma forma impl\u00edcita  e expl\u00edcita e, por essa raz\u00e3o, precisam ser desafiadas. A conclus\u00e3o a  que se chega atrav\u00e9s das narrativas das professoras \u00e9 a de que, se as  escolas (professores, equipe de ensino) n\u00e3o estiverem preparadas  adequadamente, ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de desconstru\u00edrem as atitudes racistas,  acabam por refor\u00e7\u00e1-las.<\/p>\n<p><strong>Palabras-clave: Narrativas\/hist\u00f3ria, Racismo, Forma\u00e7\u00e3o de professores, Identidade<\/strong><\/p>\n<p>Abstract: This article reflects on the discourse that considers that  there is no racism in Brazil, or the discourse that we live in a country  where there is a racial democracy; discourses that are being  deconstructed continuously through research. In the article, I discuss  how some black and white teachers went through experiences related to  the issues of race\/ethnicity. In this way the article aims to  demonstrate that there is an emergent need to talk about racist  behaviour in our society. The theoretical framework that is used to  discuss this issue is derived from Critical Race Theory &#8211; CRT, which is  also the basis for the data analysis (LADSON-BILLINGS, 1998, 1999,  LADSON-BILLINGS &amp; TATE, 1995). The methodology used was interviews  with language teachers considered as narratives (CLANDININ &amp;  CONNELLY, 1998). The results showed that experiences of racism permeate  schools in an implicit and explicit way and therefore need to be  challenged. The conclusion reached through the teachers&#8217; narratives is  that if schools (teachers\/team teaching) are not adequately prepared  then racist attitudes will ultimately be reinforced rather than  deconstructed.<\/p>\n<p><strong>Key-words: Narratives\/history, Racism, Teacher education, Identity<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O presente artigo traz v\u00e1rias hist\u00f3rias de experi\u00eancias vividas de  professores de l\u00ednguas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o ra\u00e7a\/etnia. A hist\u00f3ria de  cada professor com as experi\u00eancias com racismo \u00e9 importante para  entendermos o quanto a quest\u00e3o da ra\u00e7a\/etnia faz parte de nosso  cotidiano e como se relaciona com as identidades dos professores e que  podem ter desdobramentos em sala de aula, por conta das experi\u00eancias  vividas. Antes de iniciar a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, vou explicar algumas  das denomina\u00e7\u00f5es que utilizarei, como, por exemplo, &#8220;racismo&#8221;,  &#8220;preconceito&#8221; e &#8220;discrimina\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com Giddens (1989), &#8220;preconceito refere-se a atitudes ou  opini\u00f5es detidos por um grupo sobre outro [&#8230;]. Preconceito envolve  explora\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es preconcebidas sobre um indiv\u00edduo ou grupo&#8221; (p.  247). Giddens (1989) afirma que: &#8220;A discrimina\u00e7\u00e3o refere-se a atividades  que servem para desqualificar os membros de um agrupamento de  oportunidades abertas para outros&#8221; (p. 247). Em outras palavras, a  discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 o &#8220;comportamento real frente a eles&#8221; (p. 247).<\/p>\n<p>Se, no entanto, considerarmos o ponto de vista de Gillborn, o racismo  \u00e9 muito mais forte do que simplesmente preconceito ou discrimina\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>[&#8230;] &#8220;preconceito&#8221; e &#8220;discrimina\u00e7\u00e3o&#8221; s\u00e3o definidos em termos de uma  rea\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a, enquanto o racismo, como uma caracter\u00edstica  persistente que reflete e recria a desigual distribui\u00e7\u00e3o de poder na  sociedade. (Gillborn, 1995, p 136).<\/p>\n<p>A palavra &#8220;racismo&#8221; traria um conceito muito mais poderoso, se  considerada a perspectiva de Gillborn. A palavra racismo teria, ent\u00e3o,  outras implica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o seja apenas preconceito ou discrimina\u00e7\u00e3o. \u00c9 o  poder que o racismo tem de excluir as pessoas que \u00e9 significativo,  incluindo o racismo institucional.<\/p>\n<p>O significado dos conceitos discutidos neste artigo \u00e9 crucial para o  entendimento do que ser\u00e1 abordado a seguir. Se a quest\u00e3o de ra\u00e7a\/etnia \u00e9  para ser discutida, ent\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, que a discuss\u00e3o deva incluir  uma an\u00e1lise da &#8220;ra\u00e7a&#8221;. \u00c9 essencial que todos os termos escolhidos sejam  claramente identificados e esclarecidos, para assegurar uma discuss\u00e3o  pertinente. Concordo que a quest\u00e3o da ra\u00e7a\/etnia \u00e9 muito sens\u00edvel, no  entanto o conceito de &#8220;ra\u00e7a&#8221; que utilizo no presente artigo se relaciona  \u00e0 constru\u00e7\u00e3o social, cultural e hist\u00f3rica do termo &#8220;ra\u00e7a&#8221; e, por esta  raz\u00e3o, o utilizo. O termo &#8220;etnia&#8221; se refere aos aspectos culturais  adquiridos por pessoas que dividem as mesmas identidades do ponto de  vista de lingu\u00edstico, religioso e ou hist\u00f3rico. O argumento principal  deste artigo \u00e9 o de que as experi\u00eancias que os professores tiveram ao  longo das suas vidas podem tanto colaborar para a compreens\u00e3o das  quest\u00f5es sobre ra\u00e7a\/etnia em sala de aula, quanto podem refor\u00e7ar  experi\u00eancias de preconceito, dependendo da experi\u00eancia vivida e do  preparo do professor para tratar das quest\u00f5es. Sendo assim, \u00e9 importante  considerar a cita\u00e7\u00e3o de Apple (1999, p. 9), que menciona &#8220;somente  percebendo ra\u00e7a \u00e9 que podemos desafi\u00e1-la.&#8221;<\/p>\n<p>Em primeiro lugar apresento o contexto da pesquisa. Em segundo lugar,  apresento as hist\u00f3rias vividas pelos professores negros e os temas  relacionados com as experi\u00eancias dos professores. Em terceiro lugar,  apresento as hist\u00f3rias vividas pelos professores brancos e os temas  relacionados com as experi\u00eancias dos professores. Em quarto lugar, trago  considera\u00e7\u00f5es acerca de como as vozes de professores negros e brancos  diferem e, finalmente, apresento as considera\u00e7\u00f5es finais.<\/p>\n<p><strong>Contexto e referencial para an\u00e1lise das hist\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p>As narrativas foram coletadas em um Curso de Forma\u00e7\u00e3o de Professores  de L\u00ednguas e Diversidade \u00c9tnico-Racial. As narrativas dos professores  t\u00eam o objetivo de mostrar como as hist\u00f3rias trazidas pelos professores  t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o cotidiano escolar, bem como mostram tamb\u00e9m as  identidades sociais dos professores no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o racial  e \u00e9tnica. As narrativas dos professores perpassam as experi\u00eancias  vividas em sala de aula, no ambiente familiar e no ambiente social.  Foram seis professores de escolas p\u00fablicas que colaboraram na pesquisa  atrav\u00e9s de entrevistas. Os participantes s\u00e3o tr\u00eas professores negros e  tr\u00eas professores brancos. Por uma quest\u00e3o de \u00e9tica, os nomes dos  professores apresentados neste artigo s\u00e3o fict\u00edcios.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias trazidas no presente artigo s\u00e3o importantes para  entender a necessidade do preparo dos professores de l\u00ednguas para  trabalhar as quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais, n\u00e3o somente em sala de aula, mas  tamb\u00e9m em todo o ambiente escolar.<\/p>\n<p>V\u00e1rios t\u00eam sido os exemplos de pesquisas feitas recentemente em  v\u00e1rios pa\u00edses (CLANDININ; CONNELLY, 1998; DENZIN; LINCOLN, 1998, ERBEN,  1998; ROBERTS, 2002; VAN DIJK, 1993) e no Brasil (TELLES, 2002), que  demonstram a import\u00e2ncia das pesquisas narrativas,  biogr\u00e1ficas\/autobiogr\u00e1ficas no campo educacional. Clandinin &amp;  Connelly (1998) mencionam que, &#8220;[&#8230;] na constru\u00e7\u00e3o das narrativas de  experi\u00eancias, h\u00e1 um rela\u00e7\u00e3o reflexiva entre viver uma hist\u00f3ria de vida,  contar uma hist\u00f3ria de vida, recontar uma hist\u00f3ria de vida e reviver uma  hist\u00f3ria de vida&#8221; (p. 160). Por conta disto, n\u00f3s, pesquisadores,  estamos sempre engajados em viver, contar, reviver e recontar nossas  pr\u00f3prias, como tamb\u00e9m recontamos as hist\u00f3rias escutadas,  transformando-as em narrativas, para recontar e para dar significado ao  que nos foi contado nas pesquisas e assim tentando narrar o significado  que o evento teve para o participante (CLANDININ &amp; CONNELLY, 1998).<\/p>\n<p>Ainda Clandinin &amp; Connelly (1998) mencionam que a narrativa \u00e9  vista como um espa\u00e7o tridimensional. Nesse espa\u00e7o tridimensional, em  primeiro lugar vem a dimens\u00e3o da &#8220;temporalidade&#8221;, ou seja, as  coordenadas de passado, presente e futuro. Em segundo lugar v\u00eam as  intera\u00e7\u00f5es &#8220;pessoais e sociais&#8221;. E, em terceiro lugar, \u00e9 considerado o  &#8220;lugar&#8221; (situa\u00e7\u00e3o\/posi\u00e7\u00e3o), o local\/situa\u00e7\u00e3o em que acontece a situa\u00e7\u00e3o a  ser narrada. Foi pensando nesta perspectiva que decidi contar as  historias atrav\u00e9s dessas narrativas dos professores. Essas narrativas,  descritas e analisadas na pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o, mostram as experi\u00eancias vividas  pelos professores com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es raciais e \u00e9tnicas.<\/p>\n<p>Para a an\u00e1lise dos dados estarei utilizando a Teoria Racial Cr\u00edtica  (Critical Race Theory &#8211; CRT) como referencial de an\u00e1lise das hist\u00f3rias  narradas pelas professoras. Assim, \u00e9 importante entender o que a Teoria  Racial Cr\u00edtica entende por hist\u00f3rias. De acordo com a Teoria Racial  Cr\u00edtica, contar hist\u00f3rias pode ser entendido nos termos das cita\u00e7\u00f5es  abaixo:<\/p>\n<p>Um dos princ\u00edpios da teoria racial cr\u00edtica \u00e9 que as narrativas e  hist\u00f3rias das pessoas s\u00e3o importantes para entender verdadeiramente suas  experi\u00eancias e como estas experi\u00eancias podem confirmar ou  contra-afirmar o modo de como a sociedade funciona. (LADSON-BILLINGS,  1999, p. 219).<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias de que n\u00f3s falamos, sobre ra\u00e7a e racismo, utilizam e  refletem o que \u00e9 constru\u00eddo culturalmente e historicamente, temas estes  que reconstroem, freq\u00fcentemente inconscientemente, em indiv\u00edduos  lembran\u00e7as individuais. (BELL, 2003, p. 4).<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias (experi\u00eancias de vida) coletadas das professoras,  hist\u00f3rias que foram transformadas em narrativas neste artigo, ser\u00e3o  analisadas dentro de uma perspectiva racial e \u00e9tnica. Van Dijk (1993),  pesquisador da \u00e1rea de an\u00e1lise de discurso, colabora com esta discuss\u00e3o  no momento em que ele afirma que:<\/p>\n<p>Se o racismo \u00e9 reproduzido atrav\u00e9s do discurso e comunica\u00e7\u00e3o, n\u00f3s  podemos esperar tamb\u00e9m que seja o caso das hist\u00f3rias e o contar  hist\u00f3rias nas conversas di\u00e1rias, conversas institucionais, e nas  narrativas de novelas, filmes, como as est\u00f3rias contadas pelos meios de  comunica\u00e7\u00e3o em forma de not\u00edcia. (p. 123).<\/p>\n<p>Considerando as quest\u00f5es apontadas acima sobre hist\u00f3rias de vida,  passo agora para os professores e suas hist\u00f3rias transformadas em  narrativas.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria dos professores negros<\/strong><\/p>\n<p>[&#8230;] a voz das pessoas de cor \u00e9 exigida para uma profunda compreens\u00e3o do sistema educacional. (Ladson-Billings, 1998, p. 14).<\/p>\n<p>As pessoas de cor mais freq\u00fcentemente entendem sua experi\u00eancia  atrav\u00e9s de uma consci\u00eancia de discrimina\u00e7\u00e3o passada e cont\u00ednua que afeta  todo aspecto de suas vidas nesta sociedade. As pessoas v\u00eaem a hist\u00f3ria  se repetindo continuamente atrav\u00e9s da oscila\u00e7\u00e3o de ciclos de progresso e  retirada em assuntos raciais. (BELL, 2003, p. 4).<\/p>\n<p>Ao ensinar sobre o assunto de ra\u00e7a\/etnia em uma sala de aula diversa e  multi\u00e9tnica, isto pode trazer algum sentimento escondido e sutil para  fora. Isto exigir\u00e1 que os professores tenham uma compreens\u00e3o sofisticada  do assunto para possibilitar que eles possam lidar com qualquer assunto  que possa vir \u00e0 tona nas discuss\u00f5es sobre essa tem\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Xingamentos<\/strong><\/p>\n<p>O exemplo fornecido por C\u00e1rmen descreve como ela, quando era uma estudante, enfrentou racismo dentro da sala de aula:<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha horror ao dia 13 de maio[2], porque eu sabia que os  professores falariam sobre mim. Os professores costumavam dizer: &#8216;Os  negros n\u00e3o s\u00e3o bonitos, mas isto n\u00e3o \u00e9 o caso da C\u00e1rmen. A C\u00e1rmen s\u00f3 tem  alguns aspectos das pessoas pretas&#8217;. C\u00e1rmen reflete dizendo que os  professores pensavam que eles estavam me dando elogios.&#8221; (C\u00e1rmen,  professora negra)<\/p>\n<p>Parece que a experi\u00eancia da C\u00e1rmen como estudante \u00e9 semelhante ao que  Cashmore (1984, p. 145) refere como sendo a &#8220;opera\u00e7\u00e3o an\u00f4nima de  discrimina\u00e7\u00e3o&#8221;. Embora parecesse que a professora da C\u00e1rmen a estivesse  elogiando, C\u00e1rmen mostra que ela estava ciente de que estava  demonstrando um comportamento racista. O exemplo de C\u00e1rmen pode tamb\u00e9m  ser chamado de xingamento e de insulto racial. Guimar\u00e3es (2003), em sua  pesquisa intitulada &#8220;Insulto Racial no Brasil&#8221;, identificou v\u00e1rios modos  que brasileiros costumam usar para insultar uma pessoa negra. Seus  dados foram coletados nos registros policiais em que as pessoas negras  eram denunciantes. Guimar\u00e3es declara que os insultos raciais usados para  as pessoas negras eram planejados para institucionalizar a  inferioridade racial. Para ele:<\/p>\n<p>A atribui\u00e7\u00e3o de inferioridade consiste em justaposi\u00e7\u00e3o de uma marca  com a cor, como tamb\u00e9m rela\u00e7\u00e3o de qualidades ou propriedades negativas e  com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica, moral, organiza\u00e7\u00e3o social, h\u00e1bitos  de higiene, e humanidade, para certo grupo de pessoas consideradas  &#8220;negras&#8221; ou &#8220;pretas&#8221;&#8216;. (GUIMAR\u00c3ES, 2003, p. 148).<\/p>\n<p>O exemplo de C\u00e1rmen demonstra claramente as atitudes racistas que  ocorrem publicamente. O racismo expl\u00edcito \u00e9 facilmente identificado  porque a pessoa que perpetra o ato faz isto claramente vis\u00edvel (ver  TROYNA &amp; HATCHER, 1992; CONNOLLY, 1998).<\/p>\n<p>Um exemplo semelhante foi encontrado na pesquisa feita por Pole  (2001, ver tamb\u00e9m GOMES, 2003), em que ele investigou &#8220;professores  negros: curr\u00edculo e carreira&#8221;. Em seu estudo, ele apresenta a hist\u00f3ria  de vida de uma professora negra chamada Carol. Ela recorda uma  experi\u00eancia que ela teve em sua sala de aula de Geografia:<\/p>\n<p>Tinha uma unidade em que n\u00f3s est\u00e1vamos discutindo sobre o tr\u00e1fico  escravo, o tri\u00e2ngulo de escravo, eu estava sentando atr\u00e1s na sala de  aula porque eu n\u00e3o tinha a minha caneta de cartografia ou algo que eu  tinha esquecido. Eu pensei que a minha professora tivesse me olhado por  causa disso, mas ela pediu a mim que levantasse e eu pensei: &#8220;Bem que eu  vou ter que admitir que eu n\u00e3o trouxe a minha caneta de cartografia  novamente&#8221;. E ela disse: &#8220;N\u00f3s temos um grande exemplo de algu\u00e9m nesta  sala de aula que devia saber muito sobre este assunto, porque n\u00f3s  est\u00e1vamos discutindo sobre o tr\u00e1fico de escravos&#8221;. E ent\u00e3o ela escreveu  meu nome em letras mai\u00fasculas em todo o quadro e ent\u00e3o sublinhou, e  continuou me perguntando de onde meu nome se originou [&#8230;]. Ent\u00e3o, de  qualquer maneira, a aula ficou pior e pior e mais dolorosa com a  professora desenhando o tri\u00e2ngulo e exibindo como meus antepassados  teriam sido tirados da \u00c1frica para o Caribe [&#8230;]. (POLE, 2001, p. 355).<\/p>\n<p>Embora este exemplo de pesquisa tenha acontecido no Reino Unido, pode  ser visto como uma replica\u00e7\u00e3o do que aconteceu com C\u00e1rmen. O exemplo  mostra que os dois professores ainda se lembram, anos mais tarde do  acontecido, da experi\u00eancia dolorosa do tempo de estudantes. O que  aconteceu com ambos os professores parece estar de acordo com a  afirma\u00e7\u00e3o de Gillborn: &#8220;A educa\u00e7\u00e3o pode ser uma for\u00e7a para libera\u00e7\u00e3o e  anti-racismo; mas, muito freq\u00fcentemente, o pr\u00f3prio sistema de ensino  adiciona para os problemas j\u00e1 existentes&#8221; (GILLBORN, 2002, p. 1).<\/p>\n<p>Os exemplos citados questionam tamb\u00e9m assuntos relacionados \u00e0  sensibilidade do tema da prepara\u00e7\u00e3o dos professores para lidar com  assuntos como ra\u00e7a\/etnia.<\/p>\n<p><strong>Embranquecimento<\/strong><\/p>\n<p>Elisa fornece um exemplo de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de ensinar o assunto de ra\u00e7a\/etnia:<\/p>\n<p>&#8220;Eu ensinei o assunto de ra\u00e7a\/etnia em v\u00e1rios momentos principalmente  sobre cor de pele. Os estudantes fizeram muitas piadas (xingamentos),  mas finalmente eles entenderam. N\u00f3s estudamos nossa \u00e1rvore familiar e  n\u00f3s descobrimos que os estudantes n\u00e3o eram totalmente brancos (risos).&#8221;  (Elisa, professora negra)<\/p>\n<p>O ponto que Elisa levanta aqui \u00e9 importante porque ela toca no  assunto de cor de pele, e como a cor de pele pode trazer com ela  privil\u00e9gios no conv\u00edvio social e esses privil\u00e9gios est\u00e3o ligados ao  processo de &#8220;embranquecimento&#8221;. O riso da Elisa na transcri\u00e7\u00e3o acima  indica reflex\u00e3o sobre o processo de embranquecimento, por\u00e9m existe uma  necessidade para entender como esse processo pode trazer vantagens para  alguns estudantes. Hooks (1984) destaca a experi\u00eancia vivida no momento  em que estava falando em sala de aula sobre &#8220;ra\u00e7a&#8221;:<\/p>\n<p>Uma mulher jovem descendente de Mexicanos que podia passar por branca  era uma das estudantes da sala de aula. N\u00f3s tivemos uma discuss\u00e3o que  ficou mais fervorosa quando eu demonstrei a ela que a possibilidade de  passar por branca deu a ela uma perspectiva de ra\u00e7a totalmente diferente  daquela de outras pessoas que t\u00eam a pele mais escura. Eu assinalei que  qualquer pessoa que a encontrasse sem saber da suas ra\u00edzes \u00e9tnicas  provavelmente assumiria que ela \u00e9 branca e se relacionar\u00e1 com ela  conseq\u00fcentemente como uma branca. (HOOKS, 1984, p. 66).<\/p>\n<p>O elencado acima pode ser comparado ao processo de &#8220;embranquecimento&#8221;  que existe no Brasil. Na pesquisa de Gomes (1995), intitulada &#8220;A Mulher  Negra que Vi de Perto: o processo de constru\u00e7\u00e3o de identidade racial de  professores negros&#8221;, ela assinala que as crian\u00e7as mesti\u00e7as [crian\u00e7as de  casamento inter-racial] est\u00e3o sempre em um constante conflito. O fato  de uma crian\u00e7a ser de um casamento inter-racial pode trazer vantagens  sociais para uma pessoa que &#8220;podia passar por branco&#8221; para que assim  pudesse ser aceita socialmente. Esta \u00e9 uma estrat\u00e9gia usada por mesti\u00e7os  para se aproximarem da origem branca e evitar que sua etnia seja  associada a sua origem negra e ou ind\u00edgena (GOMES, 1995, p. 80). O  assunto sobre embranquecimento demonstra a import\u00e2ncia de discutir  assuntos como identidade e pertencimento com estudantes e professores.  Esta discuss\u00e3o pode trazer uma consci\u00eancia de identifica\u00e7\u00e3o com o grupo  \u00e9tnico a que a pessoa pertence. Esta quest\u00e3o sobre pertencimento racial  nos mostra que h\u00e1 problemas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como \u00e9 feita a  classifica\u00e7\u00e3o de pertencimento no Brasil. No Brasil, quando algu\u00e9m tem  que se classificar com rela\u00e7\u00e3o a seu grupo \u00e9tnico, est\u00e1 fazendo uma  rela\u00e7\u00e3o com a cor de pele e n\u00e3o com seu grupo \u00e9tnico.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de xingamentos e de piadas racistas que Elisa descreve no extrato acima tamb\u00e9m se repete no extrato de Daniel, abaixo:<\/p>\n<p>&#8220;Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ra\u00e7a\/etnia, o que eu posso dizer \u00e9 que eu ensino o  assunto de uma forma impl\u00edcita, [&#8230;]. Na realidade, n\u00f3s temos  estudantes que v\u00eam de uma sociedade preconceituosa. Eu ensinei um pouco,  mas eu n\u00e3o pude ver resultados [&#8230;]. Na quest\u00e3o de ra\u00e7a\/etnia, o que  acontece algumas vezes \u00e9 relacionado com o comportamento dos alunos com  racismo e o problema origina na fam\u00edlia. Desta forma, h\u00e1 algu\u00e9m que  xinga (provoca), e algu\u00e9m que \u00e9 sempre perseguido. Eu acho que os alunos  negros aceitam muito os xingamentos na sala de aula. Estudantes tratam  tudo como brincadeira. Eles n\u00e3o v\u00eaem que aquela brincadeira pode estar  errada. Algu\u00e9m pode ser ofendido at\u00e9 um determinado momento, ou eles n\u00e3o  mostram que est\u00e3o ofendidos. Eu pessoalmente tamb\u00e9m tive este problema  na sala de aula e fora da sala de aula.&#8221; (Daniel, professor negro)<\/p>\n<p>Os coment\u00e1rios de Daniel mostram que \u00e9 poss\u00edvel ajudar os alunos no  sentido de explorar assuntos acerca de ra\u00e7a\/etnia. Na opini\u00e3o de Daniel,  professores poderiam falar de assuntos de racismo no ambiente escolar e  ele acredita que os comportamentos que os alunos adquirem podem ter  origem no ambiente familiar, comportamentos que ent\u00e3o podem ser trazidos  para a escola. Na vis\u00e3o dele, a sociedade \u00e9 preconceituosa, e os  professores, mesmo focando seu trabalho em sala de aula com o tema  ra\u00e7a\/etnia, ainda n\u00e3o atingem nenhuma forma de aprimoramento nesse  contexto. H\u00e1 provoca\u00e7\u00f5es de xingamento e insultos raciais na sala de  aula no que se refere \u00e0 cor da pele, e ainda h\u00e1 uma aceitabilidade dos  alunos negros em serem provocados. Os coment\u00e1rios de Daniel parecem  sugerir uma reflex\u00e3o sobre o papel da escola em discutir assuntos  relacionados \u00e0 ra\u00e7a\/etnia. De acordo com Nascimento (2001, p. 119), as  crian\u00e7as negras do Brasil s\u00e3o encorajadas por pais e professores a n\u00e3o  reagir quando s\u00e3o agredidas com apelidos racistas e xingamentos. O  encorajamento a atitudes racistas acontece porque crian\u00e7as que t\u00eam tal  atitude n\u00e3o s\u00e3o punidas e suas atitudes agressivas s\u00e3o, frequentemente,  vistas como &#8220;brincadeiras&#8221;. Connolly &amp; Keenan (2002), que pesquisam  sobre quest\u00f5es raciais no contexto do Reino Unido, afirmam que &#8220;[&#8230;]  certos comportamentos podem simplesmente ser sem prop\u00f3sito ou mesmo  motivados por boas inten\u00e7\u00f5es. Entretanto, seus efeitos podem ainda levar  aqueles que s\u00e3o afetados a sentirem-se vulner\u00e1veis e expostos, e ainda  perseguidos&#8221; (p, 346). Daniel tamb\u00e9m aponta que as fam\u00edlias dos  estudantes s\u00e3o respons\u00e1veis, em alguns casos, pelas atitudes racistas  dos alunos. Tatum (1994), em seu estudo &#8220;Ensinando Alunos Brancos sobre  Racismo&#8221;, aponta que &#8220;Muitos alunos brancos tiveram a experi\u00eancia que  mais influenciou o modelo de adultos, seus pais, como sendo o exemplo de  express\u00e3o de preconceito racial declarado.&#8221;<\/p>\n<p>Daniel tamb\u00e9m indica que teve o mesmo problema de estudantes fazendo  brincadeiras racistas com ele. Jones et alii (1997, p. 142) perceberam  que os professores em forma\u00e7\u00e3o t\u00eam que aceitar o que ocorre no ambiente  escolar mesmo quando eles se sentem desconfort\u00e1veis, pois &#8220;[&#8230;] para  professores negros em forma\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o pode estar vinculado \u00e0 quest\u00e3o  de ra\u00e7a&#8221; (Jones et alii, 1997, p. 143). Isto significa ter que adotar  estrat\u00e9gias para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de tentar mud\u00e1-la. Apesar  de o exemplo ser de uma pesquisa na Inglaterra em um curso de forma\u00e7\u00e3o  de professores, este exemplo pode refletir a realidade de professores  negros em exerc\u00edcio no Brasil. No coment\u00e1rio de Daniel, \u00e9 poss\u00edvel  perceber indica\u00e7\u00f5es de que talvez o comportamento citado seja aceito  como &#8220;natural&#8221; e que ningu\u00e9m deve escutar sua vis\u00e3o de desconforto ou  daqueles alunos das escolas no Brasil. Davis (2000) tamb\u00e9m confirma que  brincadeiras e mau tratamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ra\u00e7a\/etnia s\u00e3o vistos como  naturais na sociedade brasileira (p. 99).<\/p>\n<p>O exemplo de Daniel demonstra atitudes racistas declaradas. Racismo  declarado \u00e9 facilmente identificado porque a pessoa que o faz, faz isto  visivelmente (ver Troyna &amp; Hatcher, 1992; Connolly, 1998; Connolly  &amp; Keenan, 2002). Na pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o apresento exemplos de experi\u00eancias  de professores brancos.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rias dos professores brancos<\/strong><\/p>\n<p>[&#8230;] a maioria de brancos n\u00e3o v\u00ea ra\u00e7a ou racismo como uma  preocupa\u00e7\u00e3o e a maioria das pessoas de cor asseguram uma vis\u00e3o  advers\u00e1ria. (Johnson-Bailey, 2001, p. 91)<\/p>\n<p><strong>Nomenclatura<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma varia\u00e7\u00e3o nas respostas das professoras negras e brancas  que entrevistei. No extrato abaixo, B\u00e1rbara descreve o que aconteceu em  sua pr\u00f3pria sala de aula durante o per\u00edodo em que ela estava ensinando  uma li\u00e7\u00e3o. A professora mostra para os demais alunos como as palavras  &#8220;nego&#8221; e &#8220;negro&#8221;&#8216; podem ser endere\u00e7adas a uma pessoa negra. No Brasil,  pessoas usam, frequentemente, as palavras &#8220;negro&#8221; ou &#8220;preto&#8221; para  descrever pessoas afro-descendentes. As pessoas que pertencem ao  movimento negro, e aqueles que est\u00e3o cientes da nomenclatura, preferem  ser chamadas de &#8220;negro&#8221; e, nos \u00faltimos anos, existe uma forte propens\u00e3o  do uso do termo &#8220;&#8216;afro-brasileiro e\/ou afro-descendente&#8221;, porque o termo  se relaciona \u00e0 ascend\u00eancia africana e n\u00e3o \u00e0 cor de pele. Ocorre, no  entanto, que a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira usa as palavras &#8220;negro&#8221; e  &#8220;preto&#8221; indistintamente.<\/p>\n<p>Embora as palavras &#8220;nego&#8221; e &#8220;negro&#8221; possam ser consideradas com o  mesmo significado para identificar uma pessoa afro-brasileira, &#8220;nego&#8221; \u00e9  utilizado como uma forma mal pronunciada ou mal escrita e quer dizer  &#8220;negro&#8221;. Ainda algumas pessoas usam como um apelido afetivo para aqueles  de que gostam no contexto brasileiro. O outro modo de usar &#8220;nego&#8221; \u00e9,  como a professora sugere, fazendo associa\u00e7\u00f5es com \u00eanfases negativas. A  palavra \u00e9, frequentemente, usada com este significado no Brasil:<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez, na sala de aula n\u00f3s est\u00e1vamos discutindo um texto em  portugu\u00eas em que o texto se referiu a algo para relacionar a &#8216;negros &#8216;  como sujos. Um estudante preto perguntou para mim se eu estava falando  alguma coisa ruim sobre ele. Mas eu n\u00e3o entendi por que ele disse isto.  Ent\u00e3o eu expliquei para ele sobre &#8216;nego&#8217; e &#8216;negro&#8217;, disse que &#8216;nego&#8217; \u00e9  &#8216;pejorativo&#8217; e qualquer pessoa pode ser. Mas &#8216;negro&#8217; \u00e9 uma &#8216;ra\u00e7a&#8217;.&#8221;  (B\u00e1rbara, professora branca)<\/p>\n<p>Embora B\u00e1rbara pudesse n\u00e3o estar com inten\u00e7\u00e3o de ter comportamento  racista, isto ilustra claramente que as suas &#8220;constru\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a est\u00e3o  submergidas e escondidas&#8221; (Ladson-Billings, 1998, p. 9). O exemplo da  B\u00e1rbara mostra tamb\u00e9m como o que \u00e9 dito em sala de aula pode empreender  outra dimens\u00e3o, &#8220;[&#8230;] din\u00e2mica racial pode operar de um modo sutil e  poderoso at\u00e9 mesmo quando n\u00e3o estiver sendo feito de forma proposital na  mente das pessoas envolvidas&#8221; (Apple, 1999, p. 10).<\/p>\n<p>Por exemplo, na sociedade brasileira existem alguns prov\u00e9rbios que  refletem vis\u00f5es das pessoas sobre as pessoas negras, como, por exemplo,  &#8220;Se um negro n\u00e3o fizer algo errado na entrada, far\u00e1 na sa\u00edda&#8221;; &#8220;Um bom  negro nasce morto&#8221;; &#8220;negro de alma branca&#8221; (GOMES, 1995). A \u00eanfase na  cor &#8220;negra, preta&#8221; est\u00e1, frequentemente, associada com aspectos  pejorativos e negativos que demonstram como a negritude \u00e9 constru\u00edda. Os  coment\u00e1rios da B\u00e1rbara podiam ser vistos como um exemplo do modo como o  racismo pode operar, e o poder que escolas t\u00eam de excluir e de serem  violentas para com as pessoas negras (ROM\u00c3O, 2001, p. 166). Embora o  exemplo dado por B\u00e1rbara tenha acontecido em uma escola durante o tempo  de sua aula quando ela estava ensinando para uns 35 estudantes, ela  provavelmente n\u00e3o consideraria seu comportamento como sendo racista.  Este exemplo mostra tamb\u00e9m como o racismo pode ser poderoso porque ele  comunica aos alunos negros que eles n\u00e3o t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada no  ambiente da escola, nem na sociedade como um todo. Comunica tamb\u00e9m que  os alunos n\u00e3o negros podem usar a mesma estrat\u00e9gia da professora contra  os alunos negros. Esta atitude refor\u00e7a o fato de que os estudantes n\u00e3o  negros sabem, onde e quando quer que estejam, quem \u00e9 que ter\u00e1 os  privil\u00e9gios, por exemplo, na escola, em suas vidas profissionais, em  qualquer lugar, em qualquer situa\u00e7\u00e3o. Ladson-Billings (1999, p. 225)  declara que:<\/p>\n<p>A maioria dos professores n\u00e3o s\u00e3o racistas no sentido de que eles  discriminam e oprimem as pessoas de cor. Ao contr\u00e1rio, o tipo de racismo  que os estudantes encontram nos professores est\u00e1 mais relacionado ao  que Wellman&#8217;s (1977) define de racismo como &#8220;cren\u00e7as culturalmente  sancionadas que, independente das inten\u00e7\u00f5es envolvidas, defendem as  vantagens que os brancos t\u00eam por causa das posi\u00e7\u00f5es subordinadas das  minorias raciais&#8221; (xviii). (p. 225).<\/p>\n<p>A experi\u00eancia que B\u00e1rbara traz se relaciona a de um professor que  est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de autoridade e que usa seu poder como professor,  enfatizando o preconceito e o racismo em seu pr\u00f3prio lugar de trabalho  (escola). Por um lado, parece que ela n\u00e3o estava ciente de estar sendo  racista, no entanto, por outro lado, o exemplo que ela forneceu reflete  claramente o modo como racismo e preconceito podem operar. A professora  B\u00e1rbara viu a atitude dela como perfeitamente natural, utilizando a  express\u00e3o &#8220;nego&#8221; de uma forma pejorativa na frente de uma sala de aula  com uns 35 estudantes. Outro aspecto para se considerar \u00e9 que, durante  minha entrevista, ela n\u00e3o refletiu criticamente sobre o que disse em  sala de aula.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia e preconceito<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa que segue, de Ame, deixou claro que o ambiente familiar pode gerar o preconceito:<\/p>\n<p>&#8220;Eu venho de uma fam\u00edlia muito preconceituosa, minhas av\u00f3s v\u00eam da  Su\u00ed\u00e7a. Sim, minhas av\u00f3s v\u00eam diretamente da Su\u00ed\u00e7a. [&#8230;] Um filho que se  casou com algu\u00e9m que era um pouco moreninha teve que sair de casa.  Existiam tias que ficaram gr\u00e1vidas e n\u00e3o puderam ter o beb\u00ea porque o  homem, o pai do beb\u00ea, era moreno. Existiam situa\u00e7\u00f5es horr\u00edveis que  aconteceram quando eu era ainda uma crian\u00e7a. Eu n\u00e3o estava ciente do que  era certo ou errado. Eu aprendi sobre o preconceito sozinha quando eu  cresci. Quando eu me tornei uma adulta eu pude notar a diferen\u00e7a, e  percebi que n\u00e3o era correta a postura dos meus av\u00f3s.&#8221; (Ame, professora  branca)<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Ame parece refor\u00e7ar a ideia de que a constru\u00e7\u00e3o de  racismo e de preconceito come\u00e7ou tamb\u00e9m bem antes de ela ir para escola  como aluna, ou mesmo, do processo de ser educada para ser uma  professora. Conceitos dos professores sobre o assunto de ra\u00e7a\/etnia  podem ser trazidos para o ambiente profissional, como discutido por  Gomes &amp; Silva (2002, p. 16). Troyna &amp; Hatcher (1992, p. 131)  afirmam que &#8220;ambos, racismo e sentimentos anti-racistas, derivem de  v\u00e1rias fontes de experi\u00eancia como: da fam\u00edlia, na televis\u00e3o e nas  comunidades locais&#8221;. No caso dos pais de Ame, parece evidente que sua  fam\u00edlia estava preocupada em como manter a fam\u00edlia branca. Tatum (1994),  no seu estudo sobre &#8220;ensinando estudantes brancos sobre racismo&#8221;,  assinala que &#8220;Muitos estudantes brancos confirmam que experienciaram  como modelos mais influentes, seus pais, como tendo sido a fonte  expressa de preconceito racial&#8221; (p. 465).<\/p>\n<p><strong>Evitar falar sobre o assunto<\/strong><\/p>\n<p>Quando F\u00e1bia recontou a sua experi\u00eancia como professora, ela deu exemplos de pessoas que t\u00eam preconceito racial:<\/p>\n<p>&#8220;Na realidade, as pessoas ainda t\u00eam preconceito, mas elas n\u00e3o admitem  isso. \u00c9 dif\u00edcil admitir. Portanto, elas t\u00eam medo [&#8230;] e falam  superficialmente sobre o assunto ra\u00e7a\/etnia, sem grande intera\u00e7\u00e3o, que \u00e9  o que deve acontecer.&#8221; (F\u00e1bia, professora branca)<\/p>\n<p>Embora F\u00e1bia afirme que a quest\u00e3o deve ser discutida, ela reconhece  que n\u00e3o se fala com profundidade sobre a quest\u00e3o. De acordo com F\u00e1bia,  as pessoas preferem adotar uma estrat\u00e9gia de n\u00e3o encarar o problema, ou  seja, de n\u00e3o interagir ou falar sobre o assunto. A estrat\u00e9gia de n\u00e3o  encarar a quest\u00e3o tem outros desdobramentos, pois parece que os  professores deixam de compreender como a ideia de racismo \u00e9 constru\u00edda e  quem se beneficia com o racismo.<\/p>\n<p>Vozes dos professores negros e brancos: como elas diferem<\/p>\n<p>Nesta se\u00e7\u00e3o, usando as ideias sugeridas por estudiosos da Teoria  Racial Cr\u00edtica, farei uma tentativa de refletir sobre as vozes de  professores negros e brancos e como elas tendem a diferir. Espero que,  usando as ideias da Teoria Racial Cr\u00edtica, possa ser poss\u00edvel chegar a  uma melhor compreens\u00e3o da interse\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a\/etnia e cursos de  forma\u00e7\u00e3o de professores. Usarei exemplos dos coment\u00e1rios que os  professores fizeram na se\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de C\u00e1rmen, Daniel e Elisa (que se autoidentificaram  como negros) e suas hist\u00f3rias propiciaram formas de entender como esses  professores negros tendem a enfrentar o racismo em suas vidas  (profissional, nas escolas, e em suas vidas di\u00e1rias). Ficou evidente que  suas experi\u00eancias propiciaram formas de eles mesmos compreenderem que  pertencem a grupos que sofrem preconceito racial e eles podem  &#8220;internalizar as imagens estereotipadas&#8221; que ficaram evidentes nas  narrativas. Suas falas tamb\u00e9m demonstraram algumas formas como o racismo  \u00e9 constru\u00eddo. Isto fica evidente pela maneira como esses professores  (Daniel, Elisa e C\u00e1rmen) usam suas hist\u00f3rias para descrever suas  experi\u00eancias com o racismo. As experi\u00eancias dos professores negros  tamb\u00e9m parecem ser diferentes das experi\u00eancias dos professores brancos  porque eles experienciaram as quest\u00f5es de ra\u00e7a e racismo diferentemente.  As experi\u00eancias diferem porque os professores veem o mundo atrav\u00e9s das  experi\u00eancias que eles tiveram, experi\u00eancias que s\u00e3o definidas de acordo  com sua pr\u00f3pria etnia, algo que os professores brancos tendem a n\u00e3o  experienciar.<\/p>\n<p>Finalmente, as experi\u00eancias propiciadas pelas professoras B\u00e1rbara,  Ame e F\u00e1bia (que se autodefiniram como brancas) parecem confirmar que &#8220;A  maioria da opress\u00e3o parece n\u00e3o ser opress\u00e3o por aquele que propicia&#8221;  (Ladson-Billings &amp; Tate, 1995, p. 57, citando Delgado, 1989). Apesar  de me referir aqui a professores brancos, eles n\u00e3o t\u00eam todos a mesma  posi\u00e7\u00e3o. F\u00e1bia, por exemplo, reconheceu que &#8220;as pessoas ainda t\u00eam  preconceito, mas elas n\u00e3o admitem isto&#8221;. Entretanto, as falas de todas  as professoras brancas a que eu me referi tendem a n\u00e3o refletir a forma  como a opress\u00e3o branca pode afetar a vida dos n\u00e3o brancos.<\/p>\n<p>Os exemplos propiciados acima refor\u00e7am algumas das principais  quest\u00f5es contidas na Teoria Racial Cr\u00edtica. De acordo com Lynn (1999, p.  615, ver tamb\u00e9m, FERREIRA, 2004; 2008), estas quest\u00f5es s\u00e3o: de natureza  end\u00eamica do racismo (exemplo: racismo no ambiente escolar, social e  familiar) e a import\u00e2ncia da identidade cultural (exemplo: o processo de  branqueamento, xingamentos). Na pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o discutirei a quest\u00e3o da  branquid\u00e3o referindo-me \u00e0s falas das professoras.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o da branquid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da diversidade das pessoas no mundo em geral bem como os  grupos minorit\u00e1rios na sociedade do oeste em particular, freq\u00fcentemente  tem sido contada pela perspectiva historiogr\u00e1fica dos brancos. Estes  relatos apagam os valores, conhecimentos e o sistema de cren\u00e7as que  fundamenta as pr\u00e1ticas culturais da diversidade das pessoas. (Kincheloe  &amp; Steinberg, 1997, p. 211).<\/p>\n<p>No livro &#8220;A Experi\u00eancia da Branquitude diante de Conflitos Raciais:  estudos de realidades brasileiras e estadunidenses&#8221;, Rossato &amp;  Gesser (2001) explicam como eles experienciaram a branquitude. Rossato,  que \u00e9 brasileiro (ele morou entre italianos, alem\u00e3es e poloneses em  Santa Catarina, Sul do Brasil), expressa a forma como a branquid\u00e3o era  parte integrante de sua vida. Ele reconta a hist\u00f3ria que aconteceu com  ele durante o tempo em que ele estava estudando como graduando. Um amigo  afro-brasileiro algumas vezes costumava contar a ele sobre as  experi\u00eancias com o racismo que ele tinha na universidade onde os dois  estudavam. De acordo com Rossato, ele tinha dificuldade em acreditar nas  experi\u00eancias do seu amigo e dizia para ele que talvez tivesse  acontecido algum tipo de mal-entendido. Em sua reflex\u00e3o sobre esses  eventos, Rossato atribu\u00eda sua limita\u00e7\u00e3o de compreens\u00e3o a sua forma\u00e7\u00e3o  hegem\u00f4nica, que era influenciada pela branquitude. Ladson-Billings  (1999, p. 16) reconta a seguinte hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>Uma mulher branca dividiu uma experi\u00eancia pessoal de ir ao  supermercado na vizinhan\u00e7a onde morava, e quando chegou ao caixa, e  descobriu que n\u00e3o tinha levando com ela o seu tal\u00e3o de cheques. A caixa  disse para ela que ela podia levar as mercadorias e trazer o cheque mais  tarde. Quando ela contou esta hist\u00f3ria para um amigo homem  afro-estadunidense, ele disse que era um exemplo de privil\u00e9gio que ela  podia desfrutar porque ela era branca. Sua propriedade branca era  garantia subsidi\u00e1ria para o carrinho cheio de mercadorias. Ela insistiu  que aquele supermercado era uma loja que tinha boa pol\u00edtica de  vizinhan\u00e7a, e a mesma coisa teria acontecido com ele. Determinado a  mostrar a sua amiga que suas experi\u00eancias de vidas eram qualitativamente  diferentes, o jovem homem foi ao mesmo supermercado dias depois e  fingiu que deixou o seu cheque em casa. A amiga dele estava em p\u00e9 do  lado de fora observando a intera\u00e7\u00e3o. O mesmo caixa, que tinha atendido a  amiga dele, disse para o jovem afro-estadunidense que ele poderia  deixar os itens que ele comprou do lado do caixa enquanto ele fosse  buscar o seu tal\u00e3o de cheques. A mulher branca ficou chocada enquanto o  homem afro-estadunidense olhou para ela com um olhar de EU N\u00c3O DISSE!!  (Ladson-Billings, 1998, p. 16).<\/p>\n<p>Os dois exemplos mostrados por Rossato &amp; Gesser (2001) e  Ladson-Billings (1998) relatam o privil\u00e9gio de ser branco e apresentam a  ideia de branquid\u00e3o. De acordo com Ladson-Billings &amp; Tate (1995, p.  59), a ideia de branquid\u00e3o \u00e9 que, sendo branco, isso, por si s\u00f3, pode  ser visto como tendo propriedade intelectual. Ladson-Billings &amp; Tate  (1995, p. 59-60) tamb\u00e9m descrevem a forma como brancos podem ser vistos  como tendo propriedade intelectual e como isto pode ser usado no  sistema educacional.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias e narrativas ou as hist\u00f3rias contadas por professores  brancos tamb\u00e9m podem explicar como eles geralmente tendem a n\u00e3o  entender seu pr\u00f3prio privil\u00e9gio de serem brancos e a posi\u00e7\u00e3o  privilegiada de seus alunos brancos em sala de aula. Neste artigo, isto  pode ser demonstrado na narrativa de F\u00e1bia, quando ela afirma que &#8220;as  pessoas falam superficialmente sobre o assunto&#8221;. Isto pode tamb\u00e9m  evidenciar os estere\u00f3tipos constru\u00eddos pelos pais de Ame e a atitude de  B\u00e1rbara com a palavra &#8220;nego&#8221;. Os coment\u00e1rios de B\u00e1rbara se relacionam  com o que Ladson-Billings chama de negritude. Na vis\u00e3o de  Ladson-Billings (1998), n\u00f3s moramos em uma &#8220;sociedade racializada onde a  branquitude \u00e9 posicionada como normativa&#8221; (p. 9).<\/p>\n<p>O que seria necess\u00e1rio para todos os professores desenvolverem uma compreens\u00e3o mais sofisticada sobre ra\u00e7a\/etnia?<\/p>\n<p>[&#8230;] branquid\u00e3o, \u00e9 historicamente fraturado em sua compreens\u00e3o da  forma\u00e7\u00e3o racial. Para &#8220;ver&#8221; a forma\u00e7\u00e3o por inteiro, brancos t\u00eam que  mobilizar a perspectiva que come\u00e7a com o privil\u00e9gio racial como unidade  central de an\u00e1lise. Desde que come\u00e7ando por este ponto, significaria  engajar brancos na compreens\u00e3o hist\u00f3rica profunda de &#8220;como eles vieram a  ser&#8221; a posi\u00e7\u00e3o de poder. A maioria dos brancos resiste a tal  compreens\u00e3o e, ao inv\u00e9s, focalizam no m\u00e9rito individual,  excepcionalismo, ou esfor\u00e7ar-se no trabalho. (LEONARDO, 2002, p. 37).<\/p>\n<p>De acordo com Leonardo, branquid\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social que  deveria ser discutida para que as pessoas tivessem a possibilidade de  entender a forma como isso foi constru\u00eddo. No caso do Brasil, pode ser  que seja ainda mais dif\u00edcil discutir esse assunto porque, como Leonardo  aponta, &#8220;No Brasil, o discurso de n\u00e3o ver cor desabilita a possibilidade  de a na\u00e7\u00e3o localizar o privil\u00e9gio branco e trocar por um para\u00edso racial  imagin\u00e1rio de mistura, combina\u00e7\u00e3o, e miscigena\u00e7\u00e3o&#8221; (p. 35). Embora o  discurso de &#8220;n\u00e3o ver cor&#8221; e o &#8220;mito da democracia racial&#8221; sejam comuns  no Brasil, os resultados demonstrados na sociedade brasileira figuram de  uma forma muito diferente (ver Gomes, 1995). De acordo com Lovell  (2000), &#8220;Hoje, o debate p\u00fablico vigoroso sobre a imagem do Brasil como  uma democracia racial tem deslocado a ideologia da democracia racial. A  grande quantidade de evid\u00eancias torna vis\u00edvel que desigualdade racial,  preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o s\u00e3o parte da realidade social brasileira&#8221;  (p. 89). Isto \u00e9 evidente pelos n\u00fameros de desist\u00eancias de alunos negros  do ensino fundamental, e pelos limites de acesso dos negros \u00e0  universidade, bem como v\u00e1rias outras estat\u00edsticas que evidenciam as  diferen\u00e7as de acessos (a moradia, a emprego, a ambientes sociais) entre  brancos e negros. De acordo com Ladson-Billings:<\/p>\n<p>A teoria racial cr\u00edtica torna-se uma importante ferramenta  intelectual e social para desconstru\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o, e constru\u00e7\u00e3o:  desconstru\u00e7\u00e3o da estrutura e discurso opressivo, reconstru\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia  humana, e constru\u00e7\u00e3o de igualdade e rela\u00e7\u00f5es sociais de poder justas.  (1998, p. 9).<\/p>\n<p>Considerando o extrato de Ladson-Billings, branquid\u00e3o \u00e9 um assunto  que necessita ser considerado em cursos de forma\u00e7\u00e3o de professores para  que o que \u00e9 constru\u00eddo em nome do poder possa ser desconstru\u00eddo e  discutido em nome da igualdade e da justi\u00e7a social, como \u00e9 advogado pela  Teoria Racial Cr\u00edtica. A pesquisa de Marx &amp; Pennington (2003) sobre  branquid\u00e3o examinou alunos brancos no curso de forma\u00e7\u00e3o de professores  em pr\u00e9-servi\u00e7o (em forma\u00e7\u00e3o) para explorar o assunto sobre branquid\u00e3o e  racismo branco com seus alunos brancos para &#8220;ajud\u00e1-los a tornarem-se  mais conscientes das vantagens e preconceitos herdados nas suas posi\u00e7\u00f5es  como professores brancos&#8221; (Marx &amp; Pennington, 2003, p. 91). Farei  uma tentativa de discutir como o estudo de branquid\u00e3o pode ajudar todos  os professores a entender a complexidade do racismo. Trarei os exemplos  das falas dos professores propiciadas anteriormente. Ficou evidente que  essas falas mostraram que havia um falta de reflex\u00e3o profunda nas  complexidades do racismo na forma que Leonardo (2002) descreveu. Ao  chegar neste ponto, quero enfatizar a necessidade de professores terem  uma melhor compreens\u00e3o das complexidades do racismo.<\/p>\n<p>Marx &amp; Pennington (2003) trazem o seguinte resultado de pesquisa  em rela\u00e7\u00e3o aos professores em pr\u00e9-servi\u00e7o (em forma\u00e7\u00e3o) discutindo os  t\u00f3picos de branquid\u00e3o e de racismo branco.<\/p>\n<p>[&#8230;] quase todos os professores estavam muito interessados em  dividir suas vis\u00f5es sobre o que normalmente \u00e9 visto como assunto tabu,  quando as discuss\u00f5es acontecem em um ambiente que d\u00e1 suporte, confian\u00e7a e  \u00e9 dialogal. (Marx &amp; Pennington, 2003, p. 104).<\/p>\n<p>Estes resultados se relacionam com a forma como a professora Ame  narra acima a experi\u00eancia de racismo que ela teve em seu processo de  crescimento em seu ambiente familiar. O segundo resultado de pesquisa de  Marx &amp; Pennington afirma que:<\/p>\n<p>Os estudantes (professores em forma\u00e7\u00e3o) estavam aptos a falar sobre o  assunto de racismo em uma forma descontra\u00edda, e de uma maneira fluente,  porque eles se tornaram mais cr\u00edticos sobre o assunto. (Marx &amp;  Pennington, 2003).<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o de Marx &amp; Pennington ilumina sobre o que \u00e9 necess\u00e1rio  para que todos os professores entendam a quest\u00e3o do racismo. Os  professores precisam discutir o t\u00f3pico abertamente e reconhecer que,  atrav\u00e9s do di\u00e1logo, eles podem entender melhor e discutir a maneira como  o racismo \u00e9 constru\u00eddo. Em sua fala, F\u00e1bia revela que &#8220;as pessoas t\u00eam  preconceito, mas elas n\u00e3o admitem isso, \u00e9 dif\u00edcil admitir&#8221;. A discuss\u00e3o  aberta desses assuntos pode ser uma forma de dividir vis\u00f5es e,  consequentemente, tornarem-se mais cr\u00edticos sobre o assunto acerca do  racismo. F\u00e1bia tamb\u00e9m afirma que &#8220;eles t\u00eam medo [&#8230;] eles falam  superficialmente sobre o assunto de ra\u00e7a\/etnia&#8221;. A forma como F\u00e1bia  descreve o medo que eles t\u00eam de falar sobre o assunto \u00e9 um exemplo de  que \u00e9 necess\u00e1rio construir uma atmosfera de confian\u00e7a dentro dos cursos  de forma\u00e7\u00e3o de professores. O ponto principal de tornar a discuss\u00e3o  poss\u00edvel \u00e9 falar abertamente sobre o assunto. O terceiro resultado de  pesquisa de Marx &amp; Pennington \u00e9 demonstrado como segue:<\/p>\n<p>[&#8230;] atrav\u00e9s desta nova linguagem do, e compreens\u00e3o do racismo  branco e branquid\u00e3o, alunos\/participantes finalmente come\u00e7am a ver as  formas como os seus racismos afetam as crian\u00e7as negras com quem eles  trabalham. (Marx &amp; Pennington, 2003, p. 105).<\/p>\n<p>Este terceiro resultado de pesquisa mencionado por Marx &amp;  Pennington se relaciona com a forma como B\u00e1rbara (narrativa acima)  falou, em entender o uso da palavra &#8220;nego&#8221; de uma forma pejorativa.  Apesar de que ela usou a palavra sem querer ofender, foi, por\u00e9m, de uma  maneira racista e pode ter afetado os alunos n\u00e3o brancos com quem ela  trabalhou. Afetou tamb\u00e9m alunos brancos, pois pode ter impedido a boa  conviv\u00eancia entre as identidades raciais existentes no ambiente escolar.  O resultado final da pesquisa de Marx &amp; Pennington foi que:<\/p>\n<p>[&#8230;] nossos alunos\/participantes tenderam a associar bondade com  identidades n\u00e3o racistas. [&#8230;] Porque eles viam bondade e racismo como  uma dicotomia, suas primeiras impress\u00f5es dos seus pr\u00f3prios racismos os  conduziram para a conclus\u00e3o de que eles devem ser pessoas horr\u00edveis.  [&#8230;] No entanto, apesar dos seus cora\u00e7\u00f5es altru\u00edstas e seus esfor\u00e7os  para &#8220;esconder&#8221; seus racismos, \u00e9 ainda poss\u00edvel que seus racismos  machuquem as crian\u00e7as que eles ensinam. (Marx &amp; Pennington, 2003, p.  105)<\/p>\n<p>Ame, que revelou que ela veio de uma fam\u00edlia com muito preconceito,  explica as dif\u00edceis situa\u00e7\u00f5es que ela encontrou quando crian\u00e7a. Ame  tamb\u00e9m relata que n\u00e3o foi &#8220;correto&#8221; ter um sentimento de preconceito. Eu  argumentaria que isto sugere que o sentimento de Ame de n\u00e3o achar  &#8220;correto&#8221; ser preconceituosa pode estar relacionado ao sentimento de  &#8220;ser bom&#8221;.<\/p>\n<p>As similaridades que eu tentei ilustrar entre as hist\u00f3rias contadas  pelos professores de l\u00ednguas e os do estudo feito por Marx &amp;  Pennington (2003) demonstram algumas a\u00e7\u00f5es que os cursos de forma\u00e7\u00e3o de  professores podem fazer. Essas sugest\u00f5es de a\u00e7\u00f5es podem permitir que  educadores trabalhem em favor de uma melhor compreens\u00e3o de como o  racismo \u00e9 constru\u00eddo, para que todos os professores estejam mais  conscientes das formas como eles podem perpetuar, ainda que sem  inten\u00e7\u00e3o, o racismo e o preconceito na sala de aula. O estudo de Marx  &amp; Pennington (2003) tamb\u00e9m mostra como os professores podem  tornar-se mais cr\u00edticos depois de discutir assuntos como branquid\u00e3o e  racismo, para que &#8220;os professores possam iniciar um longo processo de  desaprender o racismo&#8221; (Kailim, 1999, p. 746). Nesse processo de se  tornarem cr\u00edticos, \u00e9 essencial considerar assuntos de branquid\u00e3o,  porque, de acordo com Gillborn:<\/p>\n<p>\u00c9 somente recentemente que os acad\u00eamicos come\u00e7aram a prestar aten\u00e7\u00e3o  s\u00e9ria para a constru\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia da etnicidade branca no ambiente  multi\u00e9tnico [&#8230;]. Isto \u00e9 um desenvolvimento vital desde que a maioria  concorda que estrat\u00e9gias anti-racistas n\u00e3o podem gozar da difus\u00e3o de  sucesso sem o ativo envolvimento das pessoas brancas. (Gillborn, 2001,  p. 1507).<\/p>\n<p><strong>Algumas reflex\u00f5es sobre racismo institucional<\/strong><\/p>\n<p>Nas narrativas proporcionadas pelos professores negros e brancos foi  poss\u00edvel perceber duas vezes o racismo institucionalizado, uma  evidenciada na fala da professora C\u00e1rmen (negra) que sofreu racismo na  escola e ou evidenciada na fala da professora B\u00e1rbara (branca), que, sem  saber, ou sem ter sido intencional, teve uma atitude que pode ser  considerada racista. As outras formas, tanto do racismo impl\u00edcito bem  como racismo institucional, podem ser muito sutis:<\/p>\n<p>&#8220;O racismo institucional&#8221; consiste no fracasso coletivo de uma  organiza\u00e7\u00e3o de fornecer um servi\u00e7o apropriado e profissional para as  pessoas por causa de sua cor, cultura, ou origem de \u00e9tnico. Isto pode  ser visto ou descoberto em processos, atitudes e comportamento que  totalizam em discrimina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de preconceito inconsciente,  ignor\u00e2ncia, neglig\u00eancia e estere\u00f3tipos racistas que colocam em  desvantagem as minorias \u00e9tnicas. (Macpherson, 1999, p. 321).<\/p>\n<p>Um dos caminhos para identificar racismo institucional no sistema  escolar \u00e9 atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o cuidadosa de resultados dos estudantes  por etnia. L\u00f3pez (2003), um teorista racial cr\u00edtico, explica:<\/p>\n<p>Quando racismo se torna &#8220;invis\u00edvel&#8221;, indiv\u00edduos come\u00e7am a pensar que \u00e9  meramente uma coisa do passado e\/ou s\u00f3 se relaciona com atos  espec\u00edficos. Raramente o racismo \u00e9 visto como algo que est\u00e1 sempre  presente na nossa sociedade e nas nossas vidas di\u00e1rias [&#8230;]. (L\u00f3pez,  2003, p. 69-70).<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de L\u00f3pez demonstra claramente que atos de racismo deviam  ser discutidos a fim de dar &#8220;voz&#8221; para aquelas pessoas que s\u00e3o  oprimidas e que sentem que suas vozes n\u00e3o s\u00e3o ouvidas. Como assinalado  anteriormente neste artigo, Nascimento (2001, p. 119) mostrou as  crian\u00e7as negras no Brasil s\u00e3o, por\u00e9m, encorajadas pelos pais e pelos  professores a n\u00e3o reagirem com agress\u00f5es quando elas recebem xingamentos  e apelidos racistas. De acordo com Ladson-Billings (1998), &#8220;A &#8216;voz&#8217;,  componente importante da teoria racial cr\u00edtica, proporciona um caminho  para comunicar a experi\u00eancia e realidades dos oprimidos, no entanto um  dos primeiros passos \u00e9 entender a complexidade do racismo [&#8230;]&#8221; (p.  14). Antes, por\u00e9m, professores, equipe pedag\u00f3gica, estudantes e a  comunidade teriam que aprender juntos como trabalhar colaborativamente  de uma forma que seja poss\u00edvel acontecerem discuss\u00f5es em prol de uma  educa\u00e7\u00e3o antirracista. (FERREIRA, 2006; 2009).<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>Conforme demonstrado nas narrativas acima, \u00e9 poss\u00edvel perceber que a  etnia dos professores \u00e9 um fator que pode colaborar para que os  professores compreendam a complexidade das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais por  causa da experi\u00eancia vivida. Nesta pesquisa foi poss\u00edvel perceber v\u00e1rios  resultados, como, por exemplo, que a etnia dos professores \u00e9 um fator  que pode colaborar na compreens\u00e3o do tema. Isto ficou claro nas  experi\u00eancias de C\u00e1rmen e de Elisa, que s\u00e3o negras e parecem ter  experimentado manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de racismo devido a sua etnia. Pelo  fato de serem professores negros, eles tamb\u00e9m s\u00e3o mais sens\u00edveis aos  assuntos de ra\u00e7a\/etnia.<\/p>\n<p>No caso das professoras Ame e B\u00e1rbara, o que ficou claro \u00e9 que Ame  percebe o quanto a fam\u00edlia foi preconceituosa em seu processo de  desenvolvimento, no entanto o mesmo processo n\u00e3o aconteceu com B\u00e1rbara,  que, em sua sala de aulas, propiciou exemplos que colocam seus alunos  afro-brasileiros em uma situa\u00e7\u00e3o de desvantagem e passando uma mensagem  preconceituosa para os demais alunos. Ocorre, por\u00e9m, que, na an\u00e1lise que  fa\u00e7o (e existem estudos que demonstram isso), uma vez preparados,  professores negros e brancos podem ensinar sobre o assunto, desde que,  repetindo, estejam de fato preparados para tal. Caso contr\u00e1rio, como  percebemos atrav\u00e9s das narrativas acima apresentadas, se n\u00e3o estiverem  preparados adequadamente, ao inv\u00e9s de desconstru\u00edrem atitudes racistas,  eles as refor\u00e7ar\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Este artigo \u00e9 uma vers\u00e3o ampliada do que foi apresentado no VI  Semin\u00e1rio Nacional de Literatura Hist\u00f3ria e Mem\u00f3ria Narrativas da  Mem\u00f3ria: O discurso feminino. Unioeste em 2006. O artigo foi publicado  como cap\u00edtulo de livro em uma vers\u00e3o reduzida. Dados do Livro: FERREIRA,  Aparecida de Jesus (Org.). Forma\u00e7\u00e3o de Professores de L\u00ednguas:  Hist\u00f3rias de Professoras Negras e Brancas de Ingl\u00eas e suas experi\u00eancias  com Racismo. In: FERREIRA, Aparecida de Jesus. Forma\u00e7\u00e3o de Professores  de L\u00ednguas: Investiga\u00e7\u00f5es e Interven\u00e7\u00f5es. Cascavel: Edunioeste. 2009, p.  67-82.<\/p>\n<p>[2] Dia da liberta\u00e7\u00e3o dos Escravos no Brasil que ocorreu em 13 de  maio de 1888. No Brasil, atualmente, \u00e9 considerado um dia de protesto  contra a escravid\u00e3o. No entanto, no dia 20 de novembro, dia da morte de  Zumbi dos Palmares (l\u00edder negro que criou o Quilombo dos Palmares,  movimento de resist\u00eancia contra escravid\u00e3o), \u00e9 um dia comemorado como o  dia da Consci\u00eancia Negra. Em muitos Estados do Brasil, o dia 20 de  novembro \u00e9 feriado em nome da Consci\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>APPLE, Michael W. The absent presence of race in educational reform. 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Professora  da gradua\u00e7\u00e3o no Curso de Letras e do Curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o do Programa  de Mestrado em Letras da Universidade Estadual do Oeste do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.ucm.es\/info\/especulo\/numero42\/racismo.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No artigo, discuto quest\u00f5es acerca de como alguns professores negros e brancos passaram por experi\u00eancias relacionadas \u00e0s quest\u00f5es de ra\u00e7a\/etnia (produ\u00e7\u00e3o 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