{"id":20859,"date":"2011-09-01T07:29:47","date_gmt":"2011-09-01T10:29:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=20859"},"modified":"2011-09-01T07:29:47","modified_gmt":"2011-09-01T10:29:47","slug":"quem-souber-que-conte-outra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=20859","title":{"rendered":"Quem souber que conte outra"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-20861\" title=\"Tr\u00eas crian\u00e7as l\u00eaem um livro - Leitura\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/ableitura.jpg\" alt=\"Tr\u00eas crian\u00e7as l\u00eaem um livro - Leitura\" width=\"208\" height=\"157\" \/>Por Lucio Carvalho<\/strong><\/p>\n<p>Um assalto. A banalidade da not\u00edcia de um assalto \u00e0 m\u00e3o armada. Mais um dentre tantos que fazem da rotina das cidades brasileiras de sul a norte um entediante espet\u00e1culo de viol\u00eancia que, vez ou outra, assume as manchetes por espetaculoso, desesperado ou sanguinolento que seja. Nem sempre \u00e9 assim, entretanto. Principalmente quando os envolvidos n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente os assim chamados \u201cmarginais\u201d. Um assalto como esse aconteceu em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no pen\u00faltimo fim de semana.<\/p>\n<p>O fato, desimportante se avaliado pela repercuss\u00e3o, envolveu um juiz de direito (a v\u00edtima), a pol\u00edcia, um m\u00e9dico aspirante a oficial do ex\u00e9rcito (apontado inicialmente como autor do crime), 40 suspeitos ou mais, algumas testemunhas e a imprensa. Em se tratando de uma cidade onde muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil encontrar a mera presen\u00e7a policial, o cen\u00e1rio parece ser o de uma verdadeira opera\u00e7\u00e3o de guerra, mantidas as devidas propor\u00e7\u00f5es. Esp\u00e9cie de opera\u00e7\u00e3o indispon\u00edvel, por certo, a uma v\u00edtima qualquer que fosse identificada como o muito bem conhecido \u201ccidad\u00e3o comum\u201d.<\/p>\n<p>Para certificar-se da informa\u00e7\u00e3o acima, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio sequer a presen\u00e7a ou opini\u00e3o de um expert em Direito penal. Basta que se verifique o n\u00famero de inqu\u00e9ritos abandonados por falta de indiciados nas delegacias Brasil afora ou uma simples consulta aos dados quantitativos de investiga\u00e7\u00e3o criminal que chegam a ir a julgamento resultado da a\u00e7\u00e3o judicial. Em se tratando do acontecido, tal l\u00f3gica n\u00e3o foi observada. A a\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida, suspeitos presos, tudo resolvido, pelo menos de forma aparente.<\/p>\n<p>An\u00e1lise foi desprezada pela m\u00eddia<\/p>\n<p>No caso em quest\u00e3o, a imprensa deu conta da apura\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea de pelo menos 40 suspeitos. At\u00e9 a\u00ed, nada de novo sob o c\u00e9u nacional. De acordo com o Mapa da Viol\u00eancia 2011, suspeitos s\u00e3o tomados facilmente por r\u00e1pida interpreta\u00e7\u00e3o racial e faixa et\u00e1ria, j\u00e1 que em sua maioria s\u00e3o presos jovens e negros, como se sabe. A exce\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 o fato de que o suspeito imediatamente reconhecido pela v\u00edtima do assalto n\u00e3o \u00e9 o que de modo comum se pode chamar \u201celemento\u201d, no jarg\u00e3o criminol\u00f3gico. O suspeito, tomado erroneamente pela pr\u00f3pria v\u00edtima como autor do assalto, \u00e9 um m\u00e9dico aspirante a oficial do ex\u00e9rcito que, na oportunidade de sua pris\u00e3o, sem portar identifica\u00e7\u00e3o ou credenciais, \u00e9 algemado \u201cquase a quebrar os pulsos\u201d, como ele mesmo afirma em entrevista ao jornal Zero Hora, e submetido ao que qualificou de \u201cinacredit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Experimentando o que costuma ser a regra do tratamento dispensado aos suspeitos de crimes \u2013 desde que encontrados pelas ruas, ruelas, vielas e favelas \u2013 e confundido com um criminoso comum, o caso da pris\u00e3o do m\u00e9dico virou rapidamente not\u00edcia local, pois o suspeito permaneceu preso cerca de 24 horas, tendo sofrido, inclusive, agress\u00f5es. Por menos comum e emblem\u00e1tico que pare\u00e7a, o caso n\u00e3o deixa de ser uma esp\u00e9cie de fen\u00f4meno social ou criminal, assim como outros da mesma esp\u00e9cie que est\u00e3o sempre pipocando por todo o pa\u00eds. Diz respeito \u00e0s pessoas que s\u00e3o a todo o tempo tratadas de formas diferenciada, da cidadania subdividida em categorias, da dignidade fracionada pela escala da viol\u00eancia institucional que, n\u00e3o protegendo a quem deveria pelo acordo social vigente, emerge como a face real da desigualdade que mais gera revolta e viol\u00eancia entre aqueles que s\u00e3o tratados, via de regra, como \u201cmenos gente\u201d ou, no m\u00ednimo, como gente de menor valor.<\/p>\n<p>Todo o destaque a respeito do caso da pris\u00e3o do m\u00e9dico girou em torno dos fatos mais concretos, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. As not\u00edcias e coment\u00e1rios foram todos feitos com isen\u00e7\u00e3o, distanciamento e impessoalidade. As abordagens dissonantes comentaram, no m\u00e1ximo, sobre o absurdo de um m\u00e9dico, e ainda por cima militar, ser confundido com um bandido comum. A oportunidade de uma an\u00e1lise \u2013 rasa que fosse, como esta \u2013 considerando os aspectos distintivos da situa\u00e7\u00e3o, ou pelo menos sua peculiaridade, foi solenemente desprezada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e ignorada por tantos colunistas e especialistas h\u00e1beis em dar opini\u00e3o sobre a vida cotidiana e seus fatos mais relevantes, como devem ser a rotina do tr\u00e2nsito, dos aeroportos ou os curiosos h\u00e1bitos dos animais de estima\u00e7\u00e3o e seus donos, por exemplo.<\/p>\n<p>Sinceridade no anonimato<\/p>\n<p>Com os cidad\u00e3os devolvidos \u00e0 sua paz habitual, com v\u00edtima e acusado retornando \u00e0 sua vida ordin\u00e1ria e Porto Alegre podendo ser novamente invocada como cidade m\u00e1gica que \u00e9, aqui talvez coubesse tamb\u00e9m um ponto final. E nada mais haveria a ser dito, caso uma novidade trazida pela internet aos meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o prolongasse a not\u00edcia atrav\u00e9s de coment\u00e1rios calorosos e opini\u00f5es mais arriscadas, registradas pelas m\u00e3os de leitores \u2013 em sua maioria an\u00f4nimos.<\/p>\n<p>Uma das grandes inova\u00e7\u00f5es obtidas via internet e incorporada pela m\u00eddia eletr\u00f4nica \u00e9 a abertura do campo de coment\u00e1rios que se incorporou ao corpo das not\u00edcias e reportagens de jornais e revistas que povoam o mundo online. A inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica abriu definitivamente o campo de leitura da informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica ao leitor comum e suas impress\u00f5es pessoal\u00edssimas, al\u00e9m de superar em muito o espa\u00e7o tradicionalmente reservado aos leitores nas m\u00eddias impressas, o celebrizado \u201ccarta do leitor\u201d, \u201cespa\u00e7o aberto\u201d e cong\u00eaneres.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, na atualidade, uma leitura de largo alcance dos fatos, quaisquer que sejam eles, que possa prescindir da leitura dos coment\u00e1rios que povoam os ve\u00edculos eletr\u00f4nicos. Ali se travam debates an\u00f4nimos, ou pseud\u00f4nimos, dignos de um verdadeiro pugilato de ideias. Qualquer um, enfim, que tenha algum tempo livre e vontade de registrar no et\u00e9reo universo dos bits sua opini\u00e3o, est\u00e1 livre para faz\u00ea-lo, mesmo que a censura nesses casos n\u00e3o seja infeliz e exatamente uma fantasia. Se estas opini\u00f5es s\u00e3o consideradas por algu\u00e9m ou podem ser levadas minimamente a s\u00e9rio \u2013 afinal para fazer um simples coment\u00e1rio na internet dispensa-se a apresenta\u00e7\u00e3o de diploma ou Curr\u00edculo Lattes \u2013 \u00e9 uma decis\u00e3o tamb\u00e9m pessoal de cada leitor.<\/p>\n<p>Recentemente, ningu\u00e9m mais ningu\u00e9m menos que o cantor e compositor Chico Buarque se viu aturdido ao perceber que em coment\u00e1rios, na internet, as pessoas diziam, segundo ele, \u201co que vem \u00e0 cabe\u00e7a\u201d. O caso, o de Chico, rapidamente foi celebrizado na pr\u00f3pria internet e hoje est\u00e1 entre os tantos hits online obnubilados pelas incessantes novidades, destino comum de tudo o que acontece no mundo nestes tempos digitais.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, gra\u00e7as \u00e0 possibilidade dos j\u00e1 bem conhecidos \u201ccoment\u00e1rios\u201d, o tema do assalto em quest\u00e3o ganhou contornos e nuances reveladores. Um dos coment\u00e1rios indagava se, caso o suspeito preso fosse um cidad\u00e3o comum, haveria a mesma repercuss\u00e3o de um caso assim. Outro questionava o pr\u00f3prio empenho da pol\u00edcia no caso, n\u00e3o partisse a den\u00fancia de um magistrado. Um terceiro perguntava se a humilha\u00e7\u00e3o pela qual indevidamente passara o suspeito diferia da humilha\u00e7\u00e3o por que passam as pessoas que s\u00e3o revistadas, algemadas e presas Brasil afora, diariamente. E tantos outros coment\u00e1rios abordando assuntos que est\u00e3o na mente das pessoas comuns, que dizem respeito ao seu cotidiano.<\/p>\n<p>Da\u00ed a conclus\u00e3o de que apenas um leitor pode mesmo entender outro leitor. Ou que um cidad\u00e3o comum, se n\u00e3o pode contar com interpreta\u00e7\u00e3o mais profunda do que acontece na sociedade, ainda pode contar com a compreens\u00e3o de, pelo menos, outro cidad\u00e3o, mesmo que an\u00f4nimo e igual a si mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo \u00e9 de Lucio Carvalho. &#8220;Da\u00ed a conclus\u00e3o de que apenas um leitor pode mesmo entender outro leitor. 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