{"id":21441,"date":"2011-11-03T06:16:41","date_gmt":"2011-11-03T09:16:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=21441"},"modified":"2011-11-03T06:16:41","modified_gmt":"2011-11-03T09:16:41","slug":"a-forca-da-palavra-a-palavra-da-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=21441","title":{"rendered":"A for\u00e7a da palavra, a palavra da for\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-14676\" title=\"Pomba, preenchida com o quadro de Picasso Guernica, representando os Direitos Humanos\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/direitos-humanos.jpg\" alt=\"Pomba, preenchida com o quadro de Picasso Guernica, representando os Direitos Humanos\" width=\"230\" height=\"191\" \/>Por Luiz Cl\u00e1udio Cunha<br \/>\nno Observat\u00f3rio da Imprensa<\/strong><\/p>\n<p><em>Palestra de encerramento do XIV Congresso Internacional de Humanidades realizado na Universidade de Bras\u00edlia (19-21\/10\/2011), tamb\u00e9m publicado na revista Interc\u00e2mbio, da UnB<\/em><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o \u00e0 Prof. Dra. Elga P\u00e9rez Laborde o convite para falar neste Congresso Internacional de Humanidades cujo tema maior \u00e9 \u201cPalavra e cultura na Am\u00e9rica Latina: heran\u00e7as e desafios\u201d, com o foco espec\u00edfico na \u201cDimens\u00e3o espacial e temporal da linguagem e da cultura nos contextos latino-americanos\u201d.<\/p>\n<p>Eu tento aqui ligar os dois temas mostrando que a dimens\u00e3o espacial de uma cultura latino-americana passa pela dimens\u00e3o temporal da palavra usada nesse contexto. N\u00e3o fa\u00e7o aqui uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, apenas uma narrativa jornal\u00edstica, contrapondo a resist\u00eancia da palavra \u00e0 trucul\u00eancia da for\u00e7a. Ou, a for\u00e7a da palavra contra a palavra da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Enfoco neste texto epis\u00f3dios ocorridos na Am\u00e9rica do Sul, particularmente na regi\u00e3o do Cone Sul. Nos epis\u00f3dios narrados, identifico a deturpa\u00e7\u00e3o, a omiss\u00e3o, a censura ou o completo silenciamento da palavra diante da for\u00e7a bruta sob a ditadura em cinco pa\u00edses da regi\u00e3o \u2013 Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai \u2013 durante a segunda metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Inicio minha narrativa n\u00e3o com uma palavra, mas com um palavr\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Me cago en Dios!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m conhece o nome do jovem estudante que pronunciou a blasf\u00eamia. Nem mesmo quem ouviu a frase, o jornalista uruguaio Rodolfo Porley Corbo. Ambos estavam lado a lado, mas encapuzados, pendurados como gado numa cela do Comando Geral do Ex\u00e9rcito, em Montevid\u00e9u, num dia qualquer de 1977. O que impressionou o jornalista de 31 anos n\u00e3o foi o desabafo angustiado do jovem, mas a indignada rea\u00e7\u00e3o do militar que comandava a tortura:<\/p>\n<p>\u2013 Respete las ideas ajenas, mocito!<\/p>\n<p>Seria c\u00f4mico, se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico. A cena \u00e9 talvez a lembran\u00e7a mais marcante e surreal dos tr\u00eas anos e meio que Porley passou encarcerado em quatro estabelecimentos militares do pa\u00eds, somando 325 dias de pris\u00e3o incomunic\u00e1vel, 149 deles vendado, paralisado pela dor, destro\u00e7ado pela viol\u00eancia. Ao desembarcar na Su\u00e9cia como asilado, em 1979, o jornalista foi recebido como \u201cum embaixador perigoso dos vivos e dos mortos no c\u00e1rcere\u201d. Sua primeira entrevista em Estocolmo escancarou o perigo:<\/p>\n<p>\u2013 En mi pa\u00eds gobierna el poder de la locura ciega. Son los brutos, asesinos y verdugos quienes gobiernan. Las c\u00e1rceles de mi pa\u00eds est\u00e1n llenas. Lo que vemos ahora es la deformaci\u00f3n de la propia vida.<\/p>\n<p><strong>Frase final<\/strong><\/p>\n<p>Porley deixara para tr\u00e1s o Uruguai, o segundo menor pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul, com menos de tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes e cerca de 40 mil detidos em pris\u00f5es e quart\u00e9is. Um uruguaio de cada 100 era v\u00edtima de torturas. No Brasil de hoje seria uma multid\u00e3o de quase 2 milh\u00f5es de torturados, o suficiente para lotar 25 est\u00e1dios como o Maracan\u00e3. Aquele era o Uruguai que devia respeitar as ideias alheias, na c\u00ednica frase do torturador de Porley e seu companheiro de cela.<\/p>\n<p>N\u00e3o era um drama particular do pa\u00eds que tinha o melhor padr\u00e3o de prosperidade econ\u00f4mica da regi\u00e3o, o maior n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o do continente. Era uma trag\u00e9dia coletiva, transnacional, das ditaduras que em apenas uma ou duas d\u00e9cadas rebaixaram, em absurda ordem unida, os cinco pa\u00edses do Cone Sul na segunda metade do S\u00e9culo 20. Eram as na\u00e7\u00f5es de maior express\u00e3o pol\u00edtica e for\u00e7a econ\u00f4mica da regi\u00e3o, onde hoje vivem mais de 250 milh\u00f5es de pessoas, duas vezes e meia a popula\u00e7\u00e3o dos outros oito pa\u00edses e tr\u00eas territ\u00f3rios da Am\u00e9rica do Sul. Ondas sucessivas de governos militares afogaram a democracia e a raz\u00e3o durante quase um s\u00e9culo de arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>Foram exatos 92 anos somados de ditaduras que eram de um e eram de todos: Paraguai (1954-89), Brasil (1964-85), Chile (1973-90), Uruguai (1973-85) e Argentina (1976-83).<\/p>\n<p>Na quimera do combate ao pensamento, as ditaduras ca\u00e7aram o suspeito de sempre: a palavra \u2013 express\u00e3o das vozes, territ\u00f3rio da cultura, p\u00e1tria da liberdade. A palavra \u00e9 sempre perigosa, porque alarga as fronteiras, os idiomas, as ideias, hasta las ideas ajenas. A palavra ensina, mostra, revela, e por isso precisa ser escondida, aprisionada, silenciada. Em nome de sua santa cruzada contra a subvers\u00e3o, militares do Cone Sul conseguiram contrariar a l\u00f3gica, inverter o pensamento, confundir a raz\u00e3o, subverter a palavra. A for\u00e7a da palavra, de repente, ficou encarcerada pela palavra da for\u00e7a. A for\u00e7a das ditaduras no Chile e no Uruguai conseguiu deformar pelo absurdo o significado de dois \u00edcones da civiliza\u00e7\u00e3o: dignidade e liberdade.<\/p>\n<p>Dignidad era o nome de uma col\u00f4nia agr\u00edcola, 300 km ao sul de Santiago do Chile, fundada nos anos 1960 por um ex-enfermeiro da Luftwaffe nazista, acusado de abuso sexual contra crian\u00e7as. Ali, o Ex\u00e9rcito de Pinochet fabricava g\u00e1s sarin e a repress\u00e3o treinava agentes em t\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio e tortura.<\/p>\n<p>Libertad era o maior pres\u00eddio masculino do Uruguai, 50 km a oeste de Montevid\u00e9u, um dep\u00f3sito de gente onde mofavam 600 presos pol\u00edticos espremidos num pr\u00e9dio l\u00fagubre de cinco andares povoados por gritos, medo, sofrimento, dor.<\/p>\n<p>A ditadura daqueles tempos conseguiu a proeza de transformar Dignidad em sin\u00f4nimo de tortura no Chile, conseguiu a fa\u00e7anha de tornar Libertad um endere\u00e7o de pris\u00e3o no Uruguai. Naqueles tempos, naqueles lugares, Dignidad e Libertad machucavam a carne, sangravam a alma. A ditadura, s\u00f3 a ditadura, tem a for\u00e7a para deturpar a palavra, para inverter o sentido moral das coisas, para converter o nexo das ideias no seu avesso.<\/p>\n<p>Era \u201co avesso do avesso do avesso do avesso\u201d, como cantava Caetano Veloso no verso final de Sampa, a mais completa tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, onde \u201calguma coisa acontece no cora\u00e7\u00e3o\/&#8230; s\u00f3 quando cruza a Ipiranga e a avenida S\u00e3o Jo\u00e3o\u201d. Quatro quil\u00f4metros ao sul da mais popular esquina paulistana estava o cruzamento das ruas Tom\u00e1s Carvalhal e Tut\u00f3ia, endere\u00e7o do pr\u00e9dio mais sinistro da maior cidade do continente, a sede do DOI-CODI do II Ex\u00e9rcito, o mais not\u00f3rio centro de torturas do Brasil. O verso de Caetano capta o melhor retrato daquele antro: \u201cQuando eu te encarei frente a frente n\u00e3o vi o meu rosto \/Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto\u201d. Ali sucumbiam os homens e as palavras diante do \u201chorror, o horror!\u201d, como na frase final de Kurz, a personagem de Joseph Conrad em Cora\u00e7\u00e3o das Trevas.<\/p>\n<p><strong>Perguntas e respostas<\/strong><\/p>\n<p>O DOI-CODI da rua Tut\u00f3ia foi criado e administrado por um major de Ex\u00e9rcito oculto pelo codinome de \u201cmajor Tibiri\u00e7\u00e1\u201d, o nome mais temido da repress\u00e3o militar brasileira.<\/p>\n<p>Nos 40 meses em que comandou aquele lugar, s\u00edmbolo mais sangrento dos anos de chumbo do Governo M\u00e9dici, o ent\u00e3o major Carlos Alberto Brilhante Ustra amargou 502 den\u00fancias de tortura, uma a cada 60 horas, e lamentou 40 mortes de presos pol\u00edticos, uma por m\u00eas. Apesar disso, hoje aposentado e ref\u00e9m de seu passado, o coronel da reserva Ustra continua livre, solto, impune.<\/p>\n<p>Na Argentina, um companheiro de farda de Ustra teve menor sorte. O general Jorge Rafael Videla, que come\u00e7ou em 1976 a ditadura de sete anos que eliminou pela for\u00e7a a palavra e a vida de 30 mil argentinos, foi destitu\u00eddo de sua patente militar e condenado em 2010 \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua por crimes de lesa-humanidade, o que inclui a responsabilidade direta pelo fim de 31 pessoas \u2013 nove mortes menos do que as ocorridas na reparti\u00e7\u00e3o de trabalho do major brasileiro.<\/p>\n<p>A for\u00e7a mata pessoas e palavras, mas tamb\u00e9m inventa um novo l\u00e9xico para tentar abarcar a dura realidade que ela produz. No Chile de Pinochet, emergiu uma nova palavra no dicion\u00e1rio da repress\u00e3o, j\u00e1 coalhado de presos e mortos. Surgiu a figura intermedi\u00e1ria e angustiante do \u201cdesaparecido\u201d \u2013 que quase sempre era uma coisa e outra, preso ou morto, sequ\u00eancia e consequ\u00eancia um do outro, e que tinha sobre eles a vantagem de isentar o Estado de explica\u00e7\u00f5es e justificativas.<\/p>\n<p>Um \u201cdesaparecido\u201d era uma d\u00favida, quem sabe um equ\u00edvoco, talvez uma fatalidade, sempre um mist\u00e9rio que n\u00e3o incriminava ningu\u00e9m e absolvia a todos \u2013 com exce\u00e7\u00e3o dos familiares da v\u00edtima, condenados ao desespero, subjugados pelo luto iminente, esmagados pela dor incessante. Um \u201cdesaparecido\u201d s\u00f3 levantava suspeitas e mais perguntas, sem a garantia de certezas ou poss\u00edveis respostas. O \u201cdesaparecido\u201d disseminava o medo. Do medo brotava o terror \u2013 e novas palavras.<\/p>\n<p>O dicion\u00e1rio do terror fabricava uma palavra ainda mais assustadora, mais aflita: os no-nombrados, os N.N., cad\u00e1veres sem nome, sem cara, sem hist\u00f3ria, exumados por um regime de for\u00e7a sem coragem, sem car\u00e1ter, sem futuro, sem passado. As pessoas com nomes desapareciam separadamente e, de repente, emergiam do solo covas coletivas apinhadas de mortos sem nome. No auge de seu poder, em 1979, Videla fez uma contorcida exegese do que seria esta estranha cria\u00e7\u00e3o do regime dos generais:<\/p>\n<p>\u2013 O que \u00e9 um desaparecido? Como tal, o desaparecido \u00e9 uma inc\u00f3gnita&#8230; Enquanto desaparecido, n\u00e3o pode ter nenhum tratamento especial: \u00e9 uma inc\u00f3gnita, \u00e9 um desaparecido, n\u00e3o tem identidade. N\u00e3o est\u00e1 nem morto, nem vivo. Est\u00e1 desaparecido&#8230;<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas depois, j\u00e1 no ostracismo, o general Videla foi menos herm\u00e9tico com as palavras que tentavam disfar\u00e7ar a for\u00e7a bruta, est\u00fapida, assassina. Confessou o general:<\/p>\n<p>\u2013 No, no se podia fusilar. \u00adN\u00e3o haviaoutra maneira. \u00c9 o que ensinavam os manuais da repress\u00e3o na Arg\u00e9lia, no Vietn\u00e3. Est\u00e1vamos todos de acordo. Dar a conhecer onde est\u00e3o os restos mortais? Mas, o que \u00e9 que poder\u00edamos apontar? O mar, o rio da Prata, o Riachuelo? Pensamos, em dado momento, informar sobre a lista [de mortos]. Mas, a\u00ed, se os damos por mortos, em seguida vir\u00e3o as perguntas que n\u00e3o se podem responder. Quem matou? Onde? Como?<\/p>\n<p>O general mostrou que esse \u00e9 o drama maior das ditaduras: agem e fazem coisas que geram perguntas para as quais n\u00e3o existem respostas, que n\u00e3o permitem explica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o resistem a d\u00favidas, que n\u00e3o admitem palavras.<\/p>\n<p><strong>Neologismo afrontoso<\/strong><\/p>\n<p>Em junho de 1977, em plena ditadura brasileira, o MDB, o partido da oposi\u00e7\u00e3o, teve espa\u00e7o para um programa institucional em rede nacional de TV. Alencar Furtado, o l\u00edder da bancada na C\u00e2mara dos Deputados, desenterrou os no-nombrados dosBrasil num dos mais pungentes discursos da hist\u00f3ria brasileira, mostrando com palavras as perguntas sem respostas que a for\u00e7a do regime produzia. Com coragem, emo\u00e7\u00e3o e lirismo, disse o l\u00edder:<\/p>\n<p>\u2013 Hoje, menos que ontem, ainda se denunciam pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, puni\u00e7\u00f5es injustas e desaparecimento de cidad\u00e3os. O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que n\u00e3o haja lares em prantos; filhos \u00f3rf\u00e3os de pais vivos \u2013 quem sabe?; mortos? \u2013 talvez. \u00d3rf\u00e3os do talvez e do quem sabe. Para que n\u00e3o haja esposas que envi\u00favem com maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Vi\u00favas do quem sabe e do talvez.<\/p>\n<p>A ditadura respondeu horas depois \u00e0s perguntas do l\u00edder do MDB, cassando o mandato do deputado Alencar Furtado \u2013 apenas um dos 4.862 pol\u00edticos cassados no Brasil por usar palavras que a ditadura n\u00e3o queria ouvir ou por fazer perguntas que a ditadura n\u00e3o podia responder.<\/p>\n<p>A ditadura brasileira fez isso, e fez muito mais. Investigou 500 mil cidad\u00e3os, deteve 200 mil por suspeita de subvers\u00e3o, prendeu 50 mil s\u00f3 nos primeiros cinco meses do golpe de mar\u00e7o de 1964. Acusou 11 mil civis nos tribunais militares, condenou quase a metade deles. Torturou 10 mil pessoas s\u00f3 no DOI-CODI da rua Tut\u00f3ia, exilou outro tanto, aposentou funcion\u00e1rios p\u00fablicos insubmissos, expulsou professores inconvenientes, baniu estudantes indom\u00e1veis, reformou militares dissidentes, colocou interventores em 1.200 sindicatos insubordinados, expurgou 49 ju\u00edzes dos tribunais e afastou tr\u00eas ministros rebeldes da Suprema Corte brasileira. Fechou o Parlamento por tr\u00eas vezes, colocou sete Assembleias estaduais em recesso, matou 400 opositores na tortura e legou ao pa\u00eds o fantasma de 144 pessoas que ainda hoje s\u00e3o uma inc\u00f3gnita, seres que n\u00e3o t\u00eam identidade, n\u00e3o est\u00e3o mortos, nem vivos, est\u00e3o apenas \u201cdesaparecidos\u201d.<\/p>\n<p>A incapacidade para responder \u00e0s perguntas leva ao cinismo, um atalho r\u00e1pido para a mentira, o embuste, a fraude \u2013 que deturpam as palavras para camuflar a for\u00e7a que as silencia.<\/p>\n<p>Um documento revelado pelo jornal O Globo \u00adem mar\u00e7o passado mostra que os atuais comandantes militares do Brasil da democracia continuam se enrolando com as palavras necess\u00e1rias para definir o Brasil da ditadura. Protestando contra o projeto do pr\u00f3prio governo para a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, destinada a investigar viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, os chefes do Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica escreveram: \u201cPassaram-se quase 30 anos do fim do governo chamado militar&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Fizeram, desfizeram, cometeram tudo aquilo e os oficiais-generais brasileiros, 30 anos depois do fim do arb\u00edtrio, ainda simulam uma d\u00favida existencial sobre o que seria um governo chamado militar.<\/p>\n<p>Como o amor de Oscar Wilde que \u201cn\u00e3o ousa dizer o seu nome\u201d, os c\u00ednicos herdeiros do regime de for\u00e7a imposto ao pa\u00eds por longos 21 anos n\u00e3o ousam dizer o nome que o define por sua correta acep\u00e7\u00e3o: ditadura. Um Brasil que n\u00e3o tem a coragem de cumprir esse rito de passagem n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es, nem palavras, para fazer a travessia da hist\u00f3ria, deixando a for\u00e7a para tr\u00e1s at\u00e9 alcan\u00e7ar a margem segura da verdade.<\/p>\n<p>Um grave sintoma desse cinismo aflorou em 2009, justamente em quem tem o compromisso de zelar pelas palavras e o dever de combater a mentira: a imprensa. Num inusitado editorial, o jornal Folha de S.Paulo abrandou o vern\u00e1culo e torturou a verdade carimbando a ditadura brasileira com um afrontoso neologismo: \u201cditabranda\u201d.<\/p>\n<p>O editorialista se esqueceu de dizer que, no auge da repress\u00e3o, a empresa emprestava as caminhonetes que distribu\u00edam o jornal para gentilmente transportar presos pol\u00edticos at\u00e9 a reparti\u00e7\u00e3o nada branda do DOI-CODI do major Ustra.<\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00f5es monitorados<\/strong><\/p>\n<p>A palavra perde for\u00e7a e se perde pela for\u00e7a do poder, n\u00e3o pela roupa ou pelo uniforme de quem a pronuncia. Um militar pode subverter a verdade com o mau uso da palavra, mas tamb\u00e9m pode resgat\u00e1-la pela estrita obedi\u00eancia aos fatos e pela firme imposi\u00e7\u00e3o sobre a mentira.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu na hist\u00f3rica noite de 25 de abril de 1995, quando um general de uniforme, porte altivo, voz serena e cabelos brancos aos 61 anos, foi \u00e0 TV para uma rara entrevista ao vivo.<\/p>\n<p>Ao final, antes das despedidas, tirou um papel do bolso e acrescentou uma inesperada declara\u00e7\u00e3o, que eletrizou o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Estas foram as palavras do general:<\/p>\n<p>\u2013 Nosso pa\u00eds viveu a d\u00e9cada de 70, uma d\u00e9cada assinalada pela viol\u00eancia, pelo messianismo e pela ideologia. Sem buscar palavras inovadoras, mas apelando aos velhos regulamentos militares, aproveito esta oportunidade para ordenar uma vez mais ao Ex\u00e9rcito, na presen\u00e7a de toda a sociedade: ningu\u00e9m est\u00e1 obrigado a cumprir uma ordem imoral ou que se afaste das leis e dos regulamentos militares. Quem o fizer incorre em uma conduta viciosa, digna da san\u00e7\u00e3o que sua gravidade requeira.<\/p>\n<p>E continuou o general:<\/p>\n<p>\u2013 Sem eufemismos, digo claramente: delinque quem vulnera a Constitui\u00e7\u00e3o nacional. Delinque quem emite ordens imorais. Delinque quem cumpre ordens imorais. Delinque quem, para cumprir um fim que cr\u00ea justo, emprega meios injustos e imorais. A compreens\u00e3o desses aspectos essenciais faz a vida republicana de um Estado.<\/p>\n<p>E refor\u00e7ou o general:<\/p>\n<p>\u2013 Se n\u00e3o pudermos elaborar a dor e cicatrizar as feridas, n\u00e3o teremos futuro. N\u00e3o devemos mais negar o horror vivido, e assim poder pensar em nossa vida como sociedade que avan\u00e7a, superando a pena e o sofrimento. Em nome da luta contra a subvers\u00e3o, o Ex\u00e9rcito derrubou o governo constitucional e se instalou no poder em forma ileg\u00edtima, num golpe de Estado. Venho pedir perd\u00e3o por isso e assumir a responsabilidade pol\u00edtica pelo desatino cometido no passado. No poder, o Ex\u00e9rcito cometeu ainda outros delitos. O Ex\u00e9rcito prendeu, sequestrou, torturou e assassinou \u2013 tal qual o fizeram os delinquentes subversivos \u2013 e muitos de seus membros viraram delinquentes como eles.<\/p>\n<p>O espantoso ato de contri\u00e7\u00e3o do general s\u00f3 n\u00e3o emocionou o Brasil porque, infelizmente, n\u00e3o aconteceu aqui. E o general, evidentemente, n\u00e3o era brasileiro.<\/p>\n<p>O autor dessas palavras era o comandante supremo do Ex\u00e9rcito argentino, Mart\u00edn Ant\u00f3nio Balza, entrevistado pelo jornalista Bernardo Neustadt no mais importante programa de TV da Argentina, o Tiempo Nuevo. A fala firme, l\u00edmpida do general Balza impressionou sobretudo por acontecer justamente no pa\u00eds que mais sangrou no turbulento Cone Sul da d\u00e9cada de 1970, com seus 30 mil desaparecidos.<\/p>\n<p>O pronunciamento de f\u00e9 democr\u00e1tica do comandante argentino numa regi\u00e3o marcada pelos pronunciamientos militaresgolpistas prova que a boa, justa palavra n\u00e3o \u00e9 uma prerrogativa de civis ou militares, mas um apan\u00e1gio dos homens de bem, de bom car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Ao longo do tempo, a palavra no Cone Sul foi acossada pela hipocrisia \u2013 para proteger a fronteira do arb\u00edtrio \u2013 e foi resgatada pela coragem \u2013 para ampliar os limites da resist\u00eancia. Este imemorial confronto entre a for\u00e7a da palavra e a palavra da for\u00e7a assinala os avan\u00e7os e os retrocessos da democracia em nosso continente.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico brasileiro Carlos Lacerda (1914-1977), um visceral conspirador contra a democracia, n\u00e3o economizou palavras e inten\u00e7\u00f5es para externar seu \u00edmpeto golpista nos idos de 1950, quando ficou claro que Get\u00falio Vargas, o ditador deposto do Estado Novo, tentaria voltar ao poder pelo voto popular. Lacerda deu sua palavra:<\/p>\n<p>\u2013 O sr. Get\u00falio Vargas (&#8230;) n\u00e3o deve ser candidato \u00e0 presid\u00eancia. Candidato, n\u00e3o deve ser eleito. Eleito, n\u00e3o deve tomar posse. Empossado, deveremos recorrer \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o para impedi-lo de governar.<\/p>\n<p>O general argentino Ib\u00e9rico Saint Jean foi ainda mais cortante, empregando apenas 25 palavras para montar o mais rombudo obelisco \u00e0 barb\u00e1rie e \u00e0 bo\u00e7alidade pol\u00edtica. Em maio de 1976, dois meses ap\u00f3s o golpe que o nomeou interventor no governo da prov\u00edncia de Buenos Aires, o general trovejou:<\/p>\n<p>\u2013 Primeiro, mataremos todos os subversivos. Depois, seus colaboradores. Mais tarde, os seus simpatizantes. Ent\u00e3o, mataremos os que permanecerem indiferentes. E, finalmente, vamos matar os indecisos.<\/p>\n<p>Aqui, longe de ser c\u00ednico, o militar usa a palavra dura, crua e nua n\u00e3o para esconder, mas para escancarar a doutrina de um serial killer fardado que n\u00e3o respeita las ideas ajenas. Para quem ainda tinha d\u00favidas, Saint Jean aproveitou uma confer\u00eancia em 2008 sobre \u201cDemocracia e \u00c9tica\u201d, no Rotary Club de Mar del Plata, para reafirmar sua desp\u00f3tica vis\u00e3o do mundo com uma desconcertante, transtornada aritm\u00e9tica. Este foi o c\u00e1lculo do general:<\/p>\n<p>\u2013 O voto serve para impor a ditadura da maioria. Assim, quando os tiranos s\u00e3o muitos pode ser muito pior do que quando \u00e9 apenas um.<\/p>\n<p>Ainda em 2008, aos 86 anos, Saint Jean foi preso para responder a processo por pris\u00f5es ilegais, sequestros, tortura e desaparecimento for\u00e7ado. Seu crime mais famoso foi o sequestro em 1977 do jornalista Jacobo Timerman, fundador do jornal mais cr\u00edtico e influente do pa\u00eds, o La Opini\u00f3n. Fichado nos arquivos de intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito argentino como \u201cun jud\u00edo muy peligroso\u201d,Timerman ficou detido durante dois anos. Visitado na pris\u00e3o por congressistas norte-americanos, o jornalista descreveu alguns momentos que padeceu na unidade policial de La Plata, sob jurisdi\u00e7\u00e3o de Saint Jean. Contou o jornalista:<\/p>\n<p>\u2013 Fui torturado e atado a uma cama, todo encharcado de \u00e1gua, para receber choques el\u00e9tricos pelo corpo. \u00c9 imposs\u00edvel descrever o efeito devastador da picana el\u00e9trica. Eles usavam um modulador para reduzir o choque de 220 volts, para evitar que os prisioneiros morressem instantaneamente. Dois m\u00e9dicos participavam para monitorar o cora\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas \u2013 lembrou Timerman.<\/p>\n<p><strong>\u00daltima publica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Opini\u00e3o tem a for\u00e7a de uma palavra maldita, que sempre amedronta os regimes que se sustentam na palavra da for\u00e7a e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>La Opini\u00f3n incomodava na Argentina, o jornal Opini\u00e3o perturbava no Brasil.<\/p>\n<p>O simples an\u00fancio do lan\u00e7amento do seman\u00e1rio, em novembro de 1972, assustou a ditadura em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>O editor do jornal, Fernando Gasparian, foi preventivamente convocado \u00e0 sede da Pol\u00edcia Federal, no Rio. Medindo as palavras para camuflar o constrangimento, o major Braga falou:<\/p>\n<p>\u2013 Eu quero avisar ao Sr. que aqui no Brasil n\u00e3o existe censura pr\u00e9via, a n\u00e3o ser por problemas morais. O Sr. pode publicar o que quiser.<\/p>\n<p>Em seguida, o major tirou da gaveta uma lista com 210 assuntos que Gasparian e toda a imprensa n\u00e3o podiam publicar \u2013 mesmo que quisessem.<\/p>\n<p>O editor pediu uma c\u00f3pia para conhecer a lista, mas ela lhe foi negada.<\/p>\n<p>\u2013 A lista \u00e9 secreta \u2013 explicou o major, com os termos exatos para definir o absurdo da situa\u00e7\u00e3o. Era o arb\u00edtrio negando a censura e, ao mesmo tempo, recusando a lista que provava sua exist\u00eancia. Era a palavra da for\u00e7a que temia a for\u00e7a da palavra.<\/p>\n<p>O major Braga era o bruto que faltava na manada de rinocerontes de Ionesco.<\/p>\n<p>E assim, secretamente, o regime asfixiou o Opin\u00e3o a partir do oitavo n\u00famero. Primeiro, mandando recados. Depois, com o censor dentro da reda\u00e7\u00e3o. Por fim, exigindo a remessa do jornal impresso para Bras\u00edlia, antes de liberar a venda nas bancas. Em quatro anos e meio, Opini\u00e3o sofreu amea\u00e7as, pris\u00f5es, apreens\u00f5es de edi\u00e7\u00f5es inteiras, processos judiciais, o lan\u00e7amento de uma bomba na reda\u00e7\u00e3o e um decreto presidencial, baseado num ato de for\u00e7a \u2013 o AI-5 \u2013, ratificando a censura pr\u00e9via que o jornal tinha derrubado, como ilegal, no Tribunal Federal de Recursos. O seman\u00e1rio publicou 5.796 p\u00e1ginas, mas teve que produzir quase o dobro \u2013 10.548 p\u00e1ginas \u2013 para suprir a falta do material vetado pela censura que n\u00e3o existia, pela lista que ningu\u00e9m conhecia.<\/p>\n<p>Gasparian cansou da censura e, em 8 de abril de 1977, mandou para as bancas uma edi\u00e7\u00e3o diferente da que enviara a Bras\u00edlia para revis\u00e3o da pol\u00edcia. Corajosamente, abaixo do t\u00edtulo de Opini\u00e3o, o jornal trazia um carimbo desafiante, retumbante, triunfante: \u201cLivre\u201d.<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o de Opini\u00e3o sem censura foi apreendida. O jornal nunca mais voltou \u00e0s bancas. A palavra final do regime de for\u00e7a matou o jornal que ousou ser, pela primeira vez, o Opini\u00e3o liberado, libertado pela for\u00e7a das palavras.<\/p>\n<p>O Uruguai, o algod\u00e3o incrustado entre os cristais cortantes de Brasil e Argentina, pensou na palavra antes de se pensar como pa\u00eds. O decreto que garantia a liberdade de escrever nasceu em outubro de 1811, 14 anos antes do Uruguai se declarar independente pela insurrei\u00e7\u00e3o libertadora dos Treinta y tr\u00eas orientales, 19 anos antes de sua primeira Constitui\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que o advogado Gabriel Terra, eleito presidente em 1931, dois anos depois jogou no ch\u00e3o esta bela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1933, com o apoio do Corpo de Bombeiros (!) e da Pol\u00edcia, dirigida por seu cunhado, Terra instaurou a sua ditadura.<\/p>\n<p>Seu primeiro ato de for\u00e7a foi um decreto que reconhecia a for\u00e7a das palavras. Dizia:<\/p>\n<p>Decretase la censura previa de los \u00f3rganos de publicidad que hayan atribuido o atribuyan prop\u00f3sitos dictatoriales al Presidente de la Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Quarenta anos depois, quase as mesmas palavras ressuscitaram para escancarar a mesma for\u00e7a bruta:<\/p>\n<p>\u201cPro\u00edbe-se a divulga\u00e7\u00e3o pela imprensa oral, escrita ou televisionada, de todo tipo de informa\u00e7\u00e3o, coment\u00e1rio ou grava\u00e7\u00e3o (&#8230;) atribuindo prop\u00f3sitos ditatoriais ao Poder Executivo\u201d.<\/p>\n<p>Era o Art. 3\u00ba do decreto 467 de 27 de junho de 1973, o dia do golpe civil-militar na terra de Gabriel Terra, que j\u00e1 n\u00e3o era a na\u00e7\u00e3o livre sonhada pelos 33 Orientales e pelo libertador Artigas.<\/p>\n<p>At\u00e9 as palavras da meteorologia assustavam a ditadura. O locutor da r\u00e1dio j\u00e1 n\u00e3o podia falar sobre o inverno mais rigoroso no pa\u00eds. A censura proibia a palavra correta sobre a previs\u00e3o do tempo \u2013 \u201cmucho frio\u201d\u2013,ignorando a inclem\u00eancia da esta\u00e7\u00e3o e reafirmando a impenit\u00eancia dos quart\u00e9is. Os militares mandavam dizer assim:<\/p>\n<p>\u2013 Hace frio, pero no mucho. Hay pa\u00edses que est\u00e1n peores\u2026<\/p>\n<p>Em apenas cinco meses de 1973, entre julho e novembro, o Uruguai fechou 23 jornais, 273 edi\u00e7\u00f5es foram confiscadas nas bancas. Foi pior no ano seguinte, 1974: 96 reda\u00e7\u00f5es destru\u00eddas, 8 por m\u00eas, duas por semana, uma a cada 3 dias. Na v\u00e9spera do r\u00e9veillon de 1975, foi invadida a \u00faltima publica\u00e7\u00e3o, a revista de um padre jesu\u00edta, Andr\u00e9s Assandri, intitulada Perspectivas de Di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Nada estranho empastelar uma revista com palavras t\u00e3o provocativas.<\/p>\n<p>Afinal, perspectivas, n\u00e3o havia: di\u00e1logo, muito menos.<\/p>\n<p><strong>Etiqueta macabra<\/strong><\/p>\n<p>A falta de comunica\u00e7\u00e3o estava expresso no encontro improv\u00e1vel de 1977 entre um dos maiores rinocerontes da repress\u00e3o no Uruguai e um dos maiores virtuoses da m\u00fasica na Argentina.<\/p>\n<p>Miguel \u00c1ngel nem existia quando seus av\u00f3s chegaram do Oriente M\u00e9dio. O funcion\u00e1rio da Imigra\u00e7\u00e3o de Buenos Aires perguntou seu nome v\u00e1rias vezes, mas o av\u00f4 n\u00e3o entendia bem o espanhol. Limitou-se a apontar para o c\u00e9u, sem dizer uma palavra. O funcion\u00e1rio, irritado, mandou anotar no documento:<\/p>\n<p>\u2013 P\u00f3ngale Estrella a estos turcos de mierda!<\/p>\n<p>Sem querer, ele tinha acertado: Najmah, em \u00e1rabe, significa estrela. Anos depois, em 1940, nascia em Tucum\u00e1n o neto predestinado pela harmonia do cosmos: Miguel \u00c1ngel Estrella, encantado pela m\u00fasica de Chopin, come\u00e7ou aos 12 anos a estudar o piano que o transformaria numa estrela da m\u00fasica cl\u00e1ssica no mundo.<\/p>\n<p>Artista consagrado, alternava seus espet\u00e1culos entre a plateia elegante das maiores salas de concerto do mundo e os shows gratuitos para o p\u00fablico humilde das favelas e dos povoados do interior que n\u00e3o tinham m\u00fasica em suas vidas miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ele estava em Montevid\u00e9u, em dezembro de 1977, quando caiu nas m\u00e3os da maior estrela da repress\u00e3o uruguaia, o major Jos\u00e9 Nino Gavazzo.<\/p>\n<p>Preso sob a falsa acusa\u00e7\u00e3o de ser um guerrilheiro montonero, Estrella foi levado para uma casa clandestina de interrogat\u00f3rio, pr\u00f3xima ao aeroporto de Carrasco, onde foi torturado com choques el\u00e9tricos, suspenso do solo por uma roldana.<\/p>\n<p>Durante seis dias seguidos, teve suas m\u00e3os delicadas atadas \u00e0s costas, enquanto seus algozes simulavam cortar seus dedos com uma serra el\u00e9trica. A tortura fez com que o pianista perdesse a sensibilidade nos bra\u00e7os e nas m\u00e3os por 11 meses. O major Gavazzo, racista e prepotente, explicou o motivo de tanta viol\u00eancia:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um guerrilheiro. \u00c9 algo pior: com um piano e um sorriso voc\u00ea p\u00f5e a negrada no bolso e faz os negros acreditarem que podem escutar Beethoven. Formaram voc\u00ea para tocar para n\u00f3s e agora voc\u00ea prefere tocar para a negrada!<\/p>\n<p>Estrella ouvia a amea\u00e7a do major:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o te matamos porque n\u00e3o podemos, mas vamos te destruir totalmente. Nunca mais ser\u00e1s o pai de teus filhos. Nunca mais ser\u00e1s amante de uma mulher. Nunca mais tocar\u00e1s piano. Temos m\u00e9todos muitos sofisticados. Se daqui a 18 anos, que \u00e9 o tempo que vamos te prender aqui, ainda continuares com esse sorriso, vamos te matar. Porque \u00e9s uma pessoa que tem f\u00e9 e essa f\u00e9 n\u00f3s vamos arrancar.<\/p>\n<p>Estrella e sua arte s\u00f3 sobreviveram pela for\u00e7a de um movimento internacional que exigiu a liberta\u00e7\u00e3o do pianista, em 1980.<\/p>\n<p>Aos 71 anos, Miguel \u00c1ngel ainda \u00e9 uma estrela que brilha, fulgurante, com a mesma f\u00e9 que a tortura n\u00e3o conseguiu arrancar, com o mesmo sorriso que a for\u00e7a bruta n\u00e3o p\u00f4de matar.<\/p>\n<p>Aos 72 anos, o major Gavazzo n\u00e3o pode nem mesmo sorrir. \u00c9 um dos primeiros militares processados por crimes de direitos humanos na ditadura e est\u00e1 preso em Montevid\u00e9u, condenado desde 2010 a 25 anos de pris\u00e3o pela morte de 28 uruguaios, sequestrados em Buenos Aires um ano antes da pris\u00e3o de Estrella.<\/p>\n<p>Os profissionais da for\u00e7a t\u00eam s\u00e9rios problemas com as palavras e uma patol\u00f3gica obsess\u00e3o com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Isso ficou claro um dia depois do bombardeio do Pal\u00e1cio de La Moneda, onde sucumbiram o presidente Salvador Allende e a dem0cracia. Em 12 de setembro de 1973, no gin\u00e1sio fechado do Est\u00e1dio Chile, foram detidos 600 estudantes e professores da Universidad T\u00e9cnica del Estado (UTE). Entre eles estava Victor Jara, que aos 40 anos usava as m\u00e3os e a voz para dar for\u00e7a e l\u00f3gica \u00e0s palavras.<\/p>\n<p>No seu testamento musical, Manifiesto, no disco p\u00f3stumo Tiempos que Cambian (de 1974), Jara apregoava:<\/p>\n<p>\u201cYo no canto por cantar\/ ni por tener buena voz,\/ Canto porque la guitarra\/ tiene sentido y raz\u00f3n.\u201d<\/p>\n<p>Jara vivia das palavras, como professor de jornalismo, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, m\u00fasico e ativista pol\u00edtico. Tinha todos os pecados, portanto, para ser odiado pelas palavras de for\u00e7a que iriam ca\u00e7ar e silenciar a for\u00e7a das palavras. No Chile de Pinochet, Victor Jara tinha o mesmo e \u00fanico progn\u00f3stico de Federico Garc\u00eda Lorca na Espanha de Franco: a morte<\/p>\n<p>O oficial que reconhece Jara na multid\u00e3o de presos o ataca com pontap\u00e9s, chutando as costas, a cabe\u00e7a, o corpo todo. Jogado num corredor, Jara resiste com a arma que lhe resta, que sempre ser\u00e1 sua: a palavra. Pede l\u00e1pis e papel e, superando o sangue e a dor, escreve os \u00faltimos versos de sua vida breve:<\/p>\n<p>Canto que mal que sales\/ Cuando tengo que cantar espanto\/ Espanto como el que vivo\/ Espanto como el que muero.<\/p>\n<p>Jara ainda tem tempo de repassar o poema a um companheiro, antes que dois soldados o arrastem para nova se\u00e7\u00e3o de golpes, ainda mais brutais. Um oficial da For\u00e7a A\u00e9rea pergunta ao preso estirado no ch\u00e3o se ele fuma. Jara nega, o oficial insiste: \u201cPois agora vais fumar!\u201d. E lhe joga um cigarro aceso. Tremendo, Jara estende o bra\u00e7o para pegar a bagana. O militar ergue o p\u00e9 e esmaga a m\u00e3o do artista com o seu coturno. A palavra amaldi\u00e7oada explica a viol\u00eancia:<\/p>\n<p>\u2013 Ahora, vamos a ver si a\u00fan tocas la guitarra, comunista de mierda! \u2013 grita o oficial.<\/p>\n<p>No quinto dia ap\u00f3s o golpe, Jara foi trucidado com 44 disparos e seu corpo jogado num matagal pr\u00f3ximo ao Cemit\u00e9rio Metropolitano, \u00e0s margens de uma rodovia.<\/p>\n<p>O mais conhecido cantor do pa\u00eds foi levado para o dep\u00f3sito de cad\u00e1veres e ganhou a etiqueta macabra daqueles tempos sinistros: N.N, mais um no-nombrado. Jara s\u00f3 perdeu o anonimato quando teve seus restos reconhecidos pela vi\u00fava.<\/p>\n<p><strong>Palavra que fala<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m era varrido por aquela estranha sanha assassina contra as m\u00e3os. No in\u00edcio dos anos 1960, o jornalista Ant\u00f4nio Maria (1921-1964) era um art\u00edfice das palavras, o maior cronista do Rio de Janeiro. Escrevia no jornal getulista \u00daltima Hora, advers\u00e1rio direto da Tribuna da Imprensa, do eterno conspirador Carlos Lacerda.<\/p>\n<p>Irritados com os constantes ataques de Maria ao seu chefe, capangas de Lacerda atacaram o jornalista e lhe quebraram os dedos das duas m\u00e3os. No dia seguinte, para surpresa de todos, Maria voltou com outro artigo impiedoso, que n\u00e3o falava do espancamento.<\/p>\n<p>Na \u00faltima linha, por\u00e9m, o cronista escreveu:<\/p>\n<p>\u2013 Que tolos! Eles pensam que os jornalistas escrevem com as m\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>Os tolos de todos os lugares, de todas as eras, imaginam que os homens e mulheres produzem com as m\u00e3os, ou s\u00f3 com as m\u00e3os, as maravilhas do pensamento e os monumentos das artes que marcam o processo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Censurando a imprensa, reprimindo as artes, silenciando os dissidentes, disseminando o medo e o terror de Estado, tentaram esmagar o homem e seus direitos. A partir de meados dos anos 1980, as ditaduras foram expostas nas suas entranhas, desabando uma a uma num efeito domin\u00f3 que resgatou a esperan\u00e7a e a dignidade no extremo sul do continente.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o vazia e triunfalista da hist\u00f3ria oficial no Cone Sul, que deturpava a palavra pela for\u00e7a, foi confrontada pela palavra liberta e liberada de quem antes se calara pela for\u00e7a da viol\u00eancia, do medo.<\/p>\n<p>Surgia o outro lado da hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria do outro lado.<\/p>\n<p>Na palavra do jornalista, do historiador, do pol\u00edtico, do escritor, do poeta, do m\u00fasico, um novo continente de ideias e de verdade aflorou na Am\u00e9rica, livre dos simbolismos, das met\u00e1foras, das alegorias, dos subtextos, das codifica\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas de letras e m\u00fasicas que recuperaram sua capacidade de contar livremente o desafio da vida.<\/p>\n<p>As novas narrativas da Am\u00e9rica Latina das d\u00e9cadas de 60 a 80 do s\u00e9culo passado surgem, agora, com o testemunho que preenche lacunas e desfaz lendas do poder.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a alentadora heran\u00e7a que fica: qualquer que seja o desafio imposto pela for\u00e7a, pelo sil\u00eancio, pelo arb\u00edtrio, sempre restar\u00e1 a palavra que redime, a palavra que honra, a palavra que fala.<\/p>\n<p>Cedo ou tarde, lembramos e contamos.<\/p>\n<p>Palavra por palavra.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/_a_forca_da_palavra_a_palavra_da_forca\">Observat\u00f3rio da Imprensa<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palestra de encerramento do XIV Congresso Internacional de Humanidades realizado na Universidade de Bras\u00edlia (19-21\/10\/2011), tamb\u00e9m publicado na revista Interc\u00e2mbio, da 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