{"id":22877,"date":"2012-07-04T15:31:17","date_gmt":"2012-07-04T18:31:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=22877"},"modified":"2012-07-04T15:31:17","modified_gmt":"2012-07-04T18:31:17","slug":"crack-por-uma-politica-mais-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=22877","title":{"rendered":"Crack: por uma pol\u00edtica mais humana"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.canalibase.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/3210073161_dfac7d9667-300x199.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" title=\"Cachimbo de fumar crack\" src=\"http:\/\/www.canalibase.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/3210073161_dfac7d9667-300x199.jpg\" alt=\"Cachimbo de fumar crack\" width=\"300\" height=\"199\" \/><br \/>\n<\/a><\/p>\n<p><em>Por Pedro Vicente Bittencourt<br \/>\nna Democracia Viva<\/em><\/p>\n<p>Hoje em dia, quando se fala em drogas no Brasil, uma onomatopeia nos vem \u00e0 cabe\u00e7a: crack. Poderia ser crack!, com um ponto de exclama\u00e7\u00e3o. Tudo para dar o toque de urg\u00eancia que acompanha qualquer discuss\u00e3o, p\u00fablica ou n\u00e3o, sobre o tema. Pela frequ\u00eancia com que esse psicoativo aparece nas manchetes de jornais, mat\u00e9rias televisivas e debates acalorados entre membros do governo e profissionais de variadas forma\u00e7\u00f5es, era de se esperar que o conhecimento sobre esse derivado da coca\u00edna fosse mais difundido. Ledo engano: o desconhecimento \u00e9 generalizado.<\/p>\n<p>Como surgiu o crack? De onde vem? Como funciona no organismo? Por que, de uma hora para outra, se alastrou com tanta velocidade pelo Brasil, inclusive em cidades do interior? E, a pergunta de um milh\u00e3o de reais: como fazer para que a droga deixe de cobrar o alto pre\u00e7o em vidas, atualmente a sua marca tr\u00e1gica?<\/p>\n<p>Se todas essas respostas estivessem dando sopa por a\u00ed, provavelmente sequer estar\u00edamos falando do assunto. J\u00e1 que aqui estamos, vamos ver at\u00e9 onde chegamos com essas perguntas. Afinal, o m\u00e9todo socr\u00e1tico sempre trouxe bons resultados na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>*Perguntas e respostas*<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias n\u00e3o intencionais (embora \u00f3bvia) da guerra \u00e0s drogas e, especificamente, da criminaliza\u00e7\u00e3o delas \u00e9 que toda e qualquer atividade que as envolve ocorrer\u00e1 ao resguardo dos olhares p\u00fablicos. Ningu\u00e9m vai arriscar pagar as duras penas que a lei imp\u00f5e por &#8220;trazer consigo&#8221; essas subst\u00e2ncias. Assim, fica dif\u00edcil conhecer a hist\u00f3ria das drogas ilegais, inclu\u00eddo a\u00ed o crack.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que ocorreram nos Estados Unidos os primeiros registros da nova droga. O nome crack \u00e9 uma refer\u00eancia ao som das pedras estalando ao queimarem em cachimbos. Uma onomatopeia. O relato mais sensato e veross\u00edmil \u00e9 que, durante os anos 1980, a pol\u00edtica de interdi\u00e7\u00e3o aos entorpecentes nos EUA teve como resultado o aumento do pre\u00e7o da coca\u00edna nas ruas. Buscava-se, mediante a escassez da oferta, tornar o pre\u00e7o dos psicoativos il\u00edcitos alto demais e, assim, diminuir seu consumo. Resultado: o sempre \u00e1gil mercado do il\u00edcito teve de recorrer \u00e0 criatividade para manter nas ruas um produto &#8220;bom&#8221; e barato. Com as tradicionais armas do capitalismo e do mercado, o crack se tornou um rotundo sucesso. Para desespero da sociedade.<\/p>\n<p>A coca\u00edna chama-se, em termos t\u00e9cnicos, cloridrato de coca\u00edna, um alcaloide, um sal, que requer para a sua produ\u00e7\u00e3o uma variedade de outras subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, algumas caras e raras, portanto relativamente f\u00e1ceis de controlar, e outras t\u00e3o simples e baratas quanto a gasolina, cal e solventes. Com esses produtos, extrai-se da inofensiva folha da coca o princ\u00edpio ativo psicotr\u00f3pico. O custo de tal produ\u00e7\u00e3o \u00e9 alto, n\u00e3o apenas pelo pre\u00e7o dos insumos necess\u00e1rios ao processamento, mas tamb\u00e9m porque muitos deles s\u00e3o inflam\u00e1veis, o que ami\u00fade provoca acidentes e preju\u00edzos. Em vez de seguir toda a cadeia de rea\u00e7\u00f5es at\u00e9 chegar ao cloridrato de coca\u00edna, porque n\u00e3o parar no meio do caminho, quando j\u00e1 houver uma boa concentra\u00e7\u00e3o do principio ativo da droga?<\/p>\n<p>O crack \u00e9 justamente o resultado dessa filosofia de mercado: um produto mais barato, que pode ser produzido em cozinhas dom\u00e9sticas, a partir da pasta base, que nada mais \u00e9 do que o entorpecente ainda em estado bruto e mais prop\u00edcio para o transporte em grandes quantidades. Qual a diferen\u00e7a mais importante entre o crack e a coca\u00edna? Em vez de ser aspirado, o crack \u00e9 fumado. Isso causa uma diferen\u00e7a essencial na forma com que a droga age em nosso organismo.<\/p>\n<p>Aspirada, a coca\u00edna percorre o nosso corpo de maneira difusa. Apenas parte da subst\u00e2ncia vai para o c\u00e9rebro, onde come\u00e7a a fazer efeito. Na pr\u00e1tica, isso significa que o efeito da droga leva mais tempo para come\u00e7ar, demora mais para terminar e \u00e9 mais ameno. Se a mesma dose do princ\u00edpio ativo for consumida na forma de crack, o percurso no organismo ser\u00e1 outro. Ao ser fumada, a droga entra pelo pulm\u00e3o, um \u00f3rg\u00e3o muito vascularizado e com grande superf\u00edcie de contato. De uma s\u00f3 vez, uma quantidade enorme entra na corrente sangu\u00ednea. Do pulm\u00e3o, a subst\u00e2ncia ser\u00e1 bombeada diretamente para o c\u00e9rebro. O efeito come\u00e7ar\u00e1 mais rapidamente, durar\u00e1 menos tempo e ser\u00e1 mais intenso. Por isso que acredita-se que o crack \u00e9 t\u00e3o viciante.<\/p>\n<p>Essas informa\u00e7\u00f5es ajudam a compreender um pouco melhor o crack. Contudo, n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia em si da droga que causa danos, mas o seu uso. Mais especificamente, o seu uso e as suas consequ\u00eancias. A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 trivial, porque define, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a forma de lidar com o problema.<\/p>\n<p>*Pol\u00edticas para o crack*<\/p>\n<p>Desde 2010, o governo federal divisou dois projetos voltados para lidar com as drogas em geral e com o crack, em particular. Encomendou-se \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, a Fiocruz, um mapeamento das &#8220;cenas de uso de crack&#8221;. Especificamente no munic\u00edpio do Rio de Janeiro, o secret\u00e1rio de Assist\u00eancia Social, depois de ocupar a Secretaria de Ordem P\u00fablica e l\u00e1 desenvolver as opera\u00e7\u00f5es Choque de Ordem, parece ter importado de uma pasta para a outra a mesma filosofia de ataque aos problemas.<\/p>\n<p>Eis que agora a popula\u00e7\u00e3o carioca convive com o novo termo &#8220;acolhimento compuls\u00f3rio&#8221;. Custa-nos compreend\u00ea-lo, pois nunca foi devidamente esclarecido. Note- se que o acolhimento compuls\u00f3rio refere-se apenas aos casos com menores de idade, pois, afirmam as autoridades, pode-se inferir que, j\u00e1 que esses meninos e meninas est\u00e3o nas ruas fumando crack, a fam\u00edlia n\u00e3o cuida deles. No caso de maiores de idade, \u00e9 mais dif\u00edcil restringir o direito constitucional de ir e vir de uma pessoa em pleno gozo dos seus direitos civis.<\/p>\n<p>No dia 11 de abril de 2012, o jornal O Globo publicou uma grande mat\u00e9ria sobre o crack. O jornal pediu \u00e0 Secretaria Municipal de Assist\u00eancia Social que fizesse um &#8220;mapeamento informal&#8221; do problema. A express\u00e3o incomoda. Informalmente, o jornal informa haver cerca de 3.000 usu\u00e1rios e usu\u00e1rias circulando pelas chamadas &#8220;cracol\u00e2ndias&#8221;, dos quais 20% seriam menores de idade. A objetividade desses dados \u00e9 altamente question\u00e1vel, mas vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Segundo o jornal, seria o caso dizer que, no munic\u00edpio do Rio de Janeiro, 20% das pessoas que usam crack poderiam ser inclu\u00eddas na pol\u00edtica de acolhimento compuls\u00f3rio. Uma vez &#8220;acolhidos&#8221;, os menores seriam encaminhados a abrigos e centros de tratamento. \u00c0 primeira vista, pode parecer uma solu\u00e7\u00e3o interessante, mas ser\u00e1 mesmo assim? O objetivo da pol\u00edtica \u00e9 resolver o problema do uso abusivo de uma subst\u00e2ncia psicoativa, ou apenas retirar das ruas quem traz consigo chagas da mis\u00e9ria, das quais o consumo de crack \u00e9 apenas mais uma?<\/p>\n<p>Se o objetivo for o primeiro, e esperemos que assim seja, parece boa ideia compreender as causas que levaram cidad\u00e3os e cidad\u00e3s brasileiros a dedicar parcela t\u00e3o significativa de suas energias para alimentar a adi\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 o consumo do crack competido com quais outras alternativas de engajamento social? Houve escolha poss\u00edvel entre esporte, cultura, educa\u00e7\u00e3o, fam\u00edlia acolhedora, de um lado, e o crack e o mercado il\u00edcito, de outro?<\/p>\n<p>A rigor, faltam ainda estudos para poder ser taxativo ao responder as perguntas acima. H\u00e1, contudo, alguns ind\u00edcios do que anda ocorrendo. Em dezembro de 2009, a Secretaria Municipal de Assist\u00eancia Social inaugurou um programa piloto chamado Embaixada da Liberdade, em Manguinhos. Tratava-se de um espa\u00e7o de acolhimento de jovens de at\u00e9 17 anos e 11 meses, no qual, se ofereciam dormit\u00f3rios, alimenta\u00e7\u00e3o e atividades l\u00fadicas e culturais, para atrair a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel ao crack. Em parceria com os servi\u00e7os locais de sa\u00fade, acompanhava-se o tratamento dos usu\u00e1rios e o reingresso na escola ou no trabalho. A casa vivia cheia, beirando o limite de sua capacidade. Desde o final de 2010, a Embaixada n\u00e3o funciona mais.<\/p>\n<p>*Imbr\u00f3glio*<\/p>\n<p>Hoje, se observa na pol\u00edtica da cidade do Rio de Janeiro com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s drogas duas tend\u00eancias. Em primeiro lugar, o impulso \u00e0s j\u00e1 famosas UPPs. Em segundo lugar, as rondas da Secretaria Municipal de Assist\u00eancia Social, que gerencia o tal acolhimento compuls\u00f3rio.<\/p>\n<p>Sobre o primeiro caso, pragmaticamente, nos resta pressionar o governo e torcer pelo melhor. Essa pol\u00edtica n\u00e3o deve ser revertida. Ela traz valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis no entorno das UPPs, contribui para a imagem de um Rio de Janeiro calmo e pac\u00edfico, al\u00e9m de ter reduzido, de fato, os \u00edndices de criminalidade violenta nas comunidades pacificadas. Isso n\u00e3o quer dizer que a Pol\u00edcia Militar do Rio esteja isenta de cr\u00edticas ou que o governo do Estado n\u00e3o deva ser impelido a levar a cidadania plena \u00e0s \u00e1reas antes dominadas pelas armas do tr\u00e1fico e pelo tr\u00e1fico de armas. Cr\u00edticas \u00e0 aus\u00eancia das secretarias de Esporte e Lazer, de projetos de educa\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o profissional e de maior articula\u00e7\u00e3o com a sociedade civil s\u00e3o pertinentes e necess\u00e1rias. Devemos consertar o que j\u00e1 foi feito. Trocar o pneu com o carro em movimento.<\/p>\n<p>J\u00e1 no que se refere \u00e0 aten\u00e7\u00e3o ao crack e, mais especificamente, a quem o consome, \u00e9 preciso, sim, questionar o que os governos federal, estaduais e as prefeituras est\u00e3o pensando para a solu\u00e7\u00e3o desse imbr\u00f3glio. Talvez seja uma boa ideia buscar o que tem sido feito em outras cidades mundo afora. Se tivermos de passar por experi\u00eancias mal-sucedidas, uma por uma, at\u00e9 encontrar aquela que satisfa\u00e7a as demandas de uma sociedade democr\u00e1tica, algu\u00e9m vai pagar um alto pre\u00e7o por isso. E n\u00e3o ser\u00e3o os pol\u00edticos.<\/p>\n<p>*Outros pa\u00edses*<\/p>\n<p>Portugal descriminalizou todas as drogas em 2001. J\u00e1 h\u00e1 dados que corroboram a tese de que a mudan\u00e7a de foco para uma abordagem concentrada na sa\u00fade foi um sucesso estrondoso, desde a redu\u00e7\u00e3o do consumo, inclusive entre jovens, at\u00e9 o desafogamento do Judici\u00e1rio e do sistema carcer\u00e1rio. Experi\u00eancias mais ousadas, como a implementa\u00e7\u00e3o de salas de consumo seguro na Su\u00ed\u00e7a e no Canad\u00e1, s\u00e3o exemplos promissores, embora n\u00e3o tenham, ainda, o escopo necess\u00e1rio para impactar as estat\u00edsticas dos seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>Apesar desses exemplos, os ind\u00edcios no Brasil n\u00e3o s\u00e3o encorajadores. Na esfera federal, a Secretaria Nacional de Pol\u00edticas sobre Drogas (Senad) foi transferida do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional, comandado por militares, para o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. \u00c9 um passo na dire\u00e7\u00e3o certa, embora ainda n\u00e3o suficiente para quem compreende o tema como multidisciplinar, portanto, mais apropriado para as pastas de Sa\u00fade e Desenvolvimento Social.<\/p>\n<p>A demiss\u00e3o rel\u00e2mpago de Pedro Abramovay, em janeiro de 2011, do governo federal, justamente quando ia liderar a Senad, depois de entrevista na qual sinalizou um caminho mais progressista para a pol\u00edtica nacional de drogas, foi um gesto contradit\u00f3rio. Houve progresso, pero no mucho&#8230;<\/p>\n<p>*E as outras drogas?*<\/p>\n<p>Por fim, uma \u00faltima quest\u00e3o \u00e9 importante para nos aproximarmos de um sistema que d\u00ea aten\u00e7\u00e3o aos usu\u00e1rios e usu\u00e1rias de drogas de forma mais humana e eficaz. Ser\u00e1 mesmo que o crack deve ser o foco dos esfor\u00e7os do governo, centro da pol\u00edtica p\u00fablica no trato com as drogas? Ou ser\u00e1 ele apenas mais uma das subst\u00e2ncias sobre as quais se deve trabalhar? Segundo dados do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, o SUS, o \u00e1lcool \u00e9 a droga que mais danos causa a nossa sa\u00fade. Proibi-lo n\u00e3o faz sentido ou n\u00e3o teria resultado, mas por que n\u00e3o se concebe um plano nacional para a consci\u00eancia sobre o \u00e1lcool?<\/p>\n<p>Fazendo uma an\u00e1lise fria dos dados, a aten\u00e7\u00e3o quase exclusiva dedicada ao crack definitivamente n\u00e3o se justifica. O sistema de sa\u00fade precisa, sim, preparar-se melhor para acolher quem usa drogas. O problema n\u00e3o ser\u00e1 resolvido por completo sem mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o vigente e, principalmente, sem outro paradigma de pol\u00edticas p\u00fablicas para lidar com o problema. Esse deve ser o foco principal dos futuros debates.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.canalibase.org.br\/por-uma-politica-mais-humana\/\">Ibase<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela frequ\u00eancia com que esse psicoativo aparece nas manchetes de jornais, mat\u00e9rias televisivas e debates acalorados entre membros do governo e profissionais de variadas forma\u00e7\u00f5es, era de se esperar que o conhecimento sobre esse derivado da coca\u00edna fosse mais difundido. Ledo engano: o desconhecimento \u00e9 generalizado. 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