{"id":23332,"date":"2012-09-05T14:58:03","date_gmt":"2012-09-05T17:58:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=23332"},"modified":"2012-09-05T14:58:03","modified_gmt":"2012-09-05T17:58:03","slug":"racismo-e-perverso-diz-a-primeira-doutora-quilombola-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=23332","title":{"rendered":"&#039;Racismo \u00e9 perverso&#039;, diz a primeira doutora quilombola do Brasil"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/images\/plg_imagesized\/15407-edimara_004_ok.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/images\/plg_imagesized\/15407-edimara_004_ok.jpg\" alt=\"Foto de Edinamara\" width=\"260\" height=\"188\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Edimara Gon\u00e7alves Soares viveu em um quilombo no RS at\u00e9 os 15 anos. Em tese, ela afirma que educa\u00e7\u00e3o em comunidades quilombolas \u00e9 ineficiente.<\/em><\/p>\n<p><em>Por Bibiana Dion\u00edsio<br \/>\nno G1<\/em><\/p>\n<p>A primeira doutora quilombola do Brasil acaba de tirar o t\u00edtulo, na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o, na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR). Edimara Gon\u00e7alves Soares, professora da rede estadual de ensino, defendeu a tese &#8220;Educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola: quando a pol\u00edtica p\u00fablica diferenciada \u00e9 indiferente&#8221; na ter\u00e7a-feira (28). Formada em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, Edimara Soares nasceu e viveu at\u00e9 os 15 anos em uma comunidade quilombola, criada pelos bisav\u00f3s dela, em Formigueiro, a 68 quil\u00f4metros de Santa Maria. A comunidade n\u00e3o tem nome e \u00e9 formada por, aproximadamente, 60 fam\u00edlias que vivem do que plantam e criam.<\/p>\n<p>Sempre cr\u00edtica \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o dos remanescentes de quilombos, que s\u00e3o comunidades mais afastadas criadas por escravos que fugiram dos senhores de engenho, na \u00e9poca do Brasil Colonial, os sentimentos da nova doutora se confundem. &#8220;Eu tenho orgulho, sim. Mas \u00e9 um orgulho que me faz refletir sobre o quanto a desigualdade, o preconceito, o racismo institucional s\u00e3o fen\u00f4menos perversos e que n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos, dado o mito da democracia racial. N\u00f3s vivemos em um pa\u00eds da diversidade racial, que n\u00f3s somos todos iguais&#8230; S\u00f3 que nessas diversidades, as desigualdades n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas, s\u00e3o dissolvidas&#8221;, refletiu Edimara Soares.<\/p>\n<p>Para a professora, o t\u00edtulo tem valor simb\u00f3lico e concreto para o grupo que ela pertence. &#8220;O fato de escrever uma tese sobre a educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola, a partir de algu\u00e9m que \u00e9 quilombola, que \u00e9 sujeito desta hist\u00f3ria, tem um significado singular de representa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um estrangeiro dizendo como que \u00e9 um quilombola, o que ele tem que fazer, como ele deveria ser. N\u00e3o \u00e9 o sujeito de fora narrando os nativos. \u00c9 algu\u00e9m de dentro do grupo que conta a sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria e ao contar essa hist\u00f3ria, conta tamb\u00e9m a trajet\u00f3ria de muitos estudantes de muitas pessoas quilombolas&#8221;, explicou entusiasmada.<\/p>\n<p>Edimara acredita que a dificuldade que ela teve que enfrentar para ter acesso \u00e0 escola \u00e9 a mesma vivida pelas atuais crian\u00e7as que vivem em quilombos. Ela lembrou que precisava acordar \u00e0s 4h30, caminhava em torno de uma hora at\u00e9 o ponto onde pegava o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Ela contou ainda que, em casa, precisava colher bambu e fazer uma fogueira para iluminar livros e cadernos. &#8220;A gente n\u00e3o tinha luz el\u00e9trica, eu estudava com fogo de ch\u00e3o. N\u00e3o podia ficar gastando vela ou querosene dos lampi\u00f5es, porque a gente n\u00e3o tinha tamb\u00e9m dinheiro para comprar. Toda a trajet\u00f3ria de estudo \u00e9 marcada por muita luta, muito sacrif\u00edcio, por muita garra e determina\u00e7\u00e3o&#8221;. Ela confessou que nas Exatas n\u00e3o ia muito bem e por isso precisava estudar mais. Por outro lado, nas Humanas &#8220;era tranquilo&#8221;. Foi com a ajuda de uma fam\u00edlia de Santa Maria que conseguiu completar o Ensino M\u00e9dio e ingressar na universidade.<\/p>\n<p>Edimara recordou que foi uma visita do col\u00e9gio onde estudava \u00e0 feira de cursos da UFSM que a fez decidir que queria entrar na universidade. &#8220;No segundo ano do Ensino M\u00e9dio eu tinha um norte. Queria entrar ali&#8221;.<\/p>\n<p>Casa onde Edimara Soares nasceu e viveu at\u00e9 os 15 anos, no quilombo &#8220;sem nome&#8221; em Formigueiro (RS) Depois de desenvolver uma tese de doutorado, Edimara lamenta ao perceber que os obst\u00e1culos s\u00e3o praticamente os mesmos. &#8220;A minha hist\u00f3ria, quanto estudante negra quilombola, \u00e9 semelhante e, em certas situa\u00e7\u00f5es, id\u00eantica \u00e0 hist\u00f3ria de muitas crian\u00e7as quilombolas que est\u00e3o em fase escolar&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Segundo Edimara, as dificuldades s\u00e3o quase intranspon\u00edveis. &#8220;\u00c0s vezes n\u00e3o tem um n\u00famero significativo [de alunos] para manter a escola, da\u00ed esta escola \u00e9 fechada e essas crian\u00e7as s\u00e3o enviadas para outro estabelecimento de ensino, distante da comunidade&#8221;, exemplificou. Para a professora, isso mostra que as nossas crian\u00e7as quilombolas, at\u00e9 hoje, n\u00e3o tiveram ainda acesso a educa\u00e7\u00e3o da forma que lhes \u00e9 de direito. Ela pontuou ainda que normalmente essas crian\u00e7as t\u00eam um per\u00edodo para estudar, porque chega um momento que deixam de ir ao col\u00e9gio para trabalhar, para sobreviver.<\/p>\n<p>Este e outros acontecimentos da rotina escolar das comunidades quilombolas do estado foram abordados e analisados na tese de Edimara, sob orienta\u00e7\u00e3o da professora doutora T\u00e2nia Maria Baibich.<\/p>\n<p>Ainda que o Paran\u00e1 tenha sido pioneiro na aplica\u00e7\u00e3o de medidas espec\u00edficas para este p\u00fablico, com o Departamento de Diversidade e o N\u00facleo de Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es Etnicorraciais e Afrodescend\u00eancia (NEREA), ambos da Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o foi &#8220;in\u00f3cua a despeito de todo o investimento e esfor\u00e7o que foi feito&#8221;.<\/p>\n<p>Isso significa, como explicou a professora, que n\u00e3o se atingiu plenamente os objetivos inerentes \u00e0 lei federal de 2003 que tornou obrigat\u00f3rio o ensino da Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira. Havia tamb\u00e9m o intuito de que os professores articulassem os conhecimentos tradicionais das comunidades quilombolas com o curr\u00edculo escolar. &#8220;Esse \u00e9 o princ\u00edpio fundante da educa\u00e7\u00e3o escolar quilombola&#8221;, destacou.<\/p>\n<p>No estado, existem 42 escolas que atendem comunidades quilombolas, divididas em 11 munic\u00edpios. Contudo, para que a lei fosse de fato cumprida, de acordo com Edimara, t\u00f3picos essenciais n\u00e3o foram considerados.<\/p>\n<p>&#8220;Faltou uma articula\u00e7\u00e3o, efetiva, com as universidades, com as institui\u00e7\u00f5es formadoras. Faltou uma parceria com as comunidades quilombolas e tamb\u00e9m houve uma aus\u00eancia de a\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas, de maneira sistem\u00e1tica e permanente, com os professores, no interior destas escolas. As a\u00e7\u00f5es foram pontuais, n\u00e3o foram a\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas&#8221;, explicou. Para ela tamb\u00e9m faltaram investimentos em infraestrutura e em aspectos administrativos, inclusive, recursos financeiros. &#8220;\u00c9 a fartura da falta. Faltam muitas coisas na dimens\u00e3o de infraestrutura&#8221;, complementou.<\/p>\n<p>Edimara refor\u00e7ou que a universidade n\u00e3o prepara os acad\u00eamicos, futuros professores, para trabalhar quest\u00f5es etnicorraciais e de diversidade. A doutora \u00e9 clara ao dizer que os docentes n\u00e3o podem ser culpados pela falha na aplica\u00e7\u00e3o da proposta da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m ensina, o que n\u00e3o sabe. Eles, n\u00f3s n\u00e3o tivemos acesso a esses conhecimentos na forma\u00e7\u00e3o inicial, enquanto professores, porque somos produtos de uma educa\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica, de um curr\u00edculo monocultural, e n\u00e3o foram dadas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias&#8221;.<\/p>\n<p>Para que se vislumbre um cen\u00e1rio mais adequado na educa\u00e7\u00e3o quilombola, Edimara sugere a resolu\u00e7\u00e3o das problem\u00e1ticas identificadas e a necessidade de se reconhecer que existe o racismo. &#8220;Eu preciso reconhecer a exist\u00eancia deste fen\u00f4meno, criar mecanismo para combat\u00ea-lo, porque ele est\u00e1 presente de forma muito contundente nas escolas dentro das comunidades quilombolas e nas escolas fora&#8221;, assegurou. Ela cita ainda aumento de verbas para aquisi\u00e7\u00e3o de material e para forma\u00e7\u00e3o dos docentes.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 algo que vai ser de hoje para amanh\u00e3, demanda todo um esfor\u00e7o, uma vontade pol\u00edtica e de investimento financeiro&#8221;, destacou.<\/p>\n<p>*As a\u00e7\u00f5es afirmativas*<\/p>\n<p>Edimara se diz favor\u00e1vel \u00e0 lei sancionada na quarta-feira (29) pela presidente Dilma Rousseff que determina o sistema de cotas sociais nas universidades federais. De acordo com a lei, metade das vagas oferecidas \u00e9 de ampla concorr\u00eancia, j\u00e1 a outra metade ser\u00e1 reservada por crit\u00e9rio de cor, rede de ensino e renda familiar. As universidades ter\u00e3o quatro anos para se adaptarem.<\/p>\n<p>Atualmente, n\u00e3o existe cota social em 27 das 59 universidades federais. Al\u00e9m disso, apenas 25 delas possuem reserva de vagas ou sistema de bonifica\u00e7\u00e3o para estudantes negros, pardos e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&#8220;O fato de eu ser a primeira quilombola do pa\u00eds mostra o quanto nosso pa\u00eds precisa investir no combate \u00e0s desigualdades sociais. Ainda existe um abismo, principalmente, nas quest\u00f5es relacionadas a educa\u00e7\u00e3o, ainda que os governos estadual e federal venham investindo em pol\u00edticas afirmativas e inclusivas&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Edimara acrescentou que esta desigualdade \u00e9 hist\u00f3rica e acumulada, desde 1888 quando foi abolida a escravid\u00e3o no Brasil. &#8220;A liberdade veio, por\u00e9m, sem medidas para integrar a popula\u00e7\u00e3o negra, sem que possibilitasse acesso social e educacional&#8221;, disse Edimara. Na avalia\u00e7\u00e3o dela, as cotas v\u00eam para promover a igualdade de oportunidade.<\/p>\n<p>&#8220;O objetivo maior da pol\u00edtica afirmativa \u00e9 combater e, possivelmente, eliminar o lastro de desigualdades sociais. Se tu fores fazer uma radiografia das pessoas que hoje est\u00e3o nos cursos de mais prestigio na universidade, como Medicina, Arquitetura, Engenharia, Direito, dificilmente tu vais encontrar, na mesma propor\u00e7\u00e3o, negros e brancos&#8221;, argumentou.<\/p>\n<p>Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edimara Gon\u00e7alves Soares viveu em um quilombo no RS at\u00e9 os 15 anos. Em tese, ela afirma que educa\u00e7\u00e3o em comunidades quilombolas \u00e9 ineficiente. 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