{"id":23348,"date":"2012-09-05T15:07:25","date_gmt":"2012-09-05T18:07:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=23348"},"modified":"2012-09-05T15:07:25","modified_gmt":"2012-09-05T18:07:25","slug":"direito-no-carcere-um-projeto-que-visa-a-liberdade-dentro-da-prisao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=23348","title":{"rendered":"Direito no C\u00e1rcere: um projeto que visa \u00e0 \u201cliberdade\u201d dentro da pris\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Carmela junto com os detentos em tratamento de depend\u00eancia qu\u00edmica\" src=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/sites\/default\/files\/Direito-no-C%C3%A1rcere_interna1.gif\" alt=\"Carmela junto com os detentos em tratamento de depend\u00eancia qu\u00edmica\" width=\"400\" height=\"250\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Carmela junto com os detentos em tratamento de depend\u00eancia qu\u00edmica - Foto: Brasil de Fato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>H\u00e1 um ano, Carmela Grunes leva a cultura popular, como instrumento de educa\u00e7\u00e3o inclusiva, para presidi\u00e1rios em tratamento de depend\u00eancia qu\u00edmica no Pres\u00eddio Central de Porto Alegre (RS)<\/em><\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Francisco Neto<br \/>\nno Brasil de Fato<\/em><\/p>\n<p>Com as frases \u201co que est\u00e1 preso \u00e9 o corpo e n\u00e3o a mente\u201d e \u201ccidadania sem express\u00e3o gera opress\u00e3o\u201d, a ga\u00facha Carmela Grunes, idealizadora do projeto Direito no C\u00e1rcere e diretora do jornal Estado de Direito, busca estabelecer plataformas de express\u00e3o aos apenados do Pres\u00eddio Central de Porto Alegre (RS), por meio da cultura popular e de uma educa\u00e7\u00e3o inclusiva.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano, a ala em que trabalha com o projeto \u00e9 a galeria E-1, em que ficam os detentos em tratamento de depend\u00eancia qu\u00edmica. A iniciativa contribui, segundo ela, para o desenvolvimento de uma cultura mais plural, livre de preconceitos, resgatando a auto-estima do presidi\u00e1rio dependente para redescobrir um caminho para uma vida mais digna.<\/p>\n<p>Carmela, que em abril lan\u00e7ou dois livros &#8211; &#8220;Samba no p\u00e9 e direito na cabe\u00e7a&#8221; e &#8220;Participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 na gest\u00e3o p\u00fablica&#8221; \u2013 tamb\u00e9m discorda da pol\u00edtica de \u201ccombate \u00e0s drogas\u201d. \u201cO sistema carcer\u00e1rio brasileiro poderia ter muito menos detentos se tratasse a quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o das drogas de outra maneira.\u201d Assim como do modelo do governo de S\u00e3o Paulo de militarizar as periferias. \u201cSe houvesse uma pol\u00edtica de controle da utiliza\u00e7\u00e3o da droga, e n\u00e3o criminaliza\u00e7\u00e3o, seria diferente [&#8230;] \u00e9 caso de pol\u00edcia ou de sa\u00fade p\u00fablica? Tem que saber diferenciar\u201d, pondera.<\/p>\n<p>Em entrevista ao Brasil de Fato, Carmela conta como foi seu primeiro contato com os presidi\u00e1rios, como o problema da depend\u00eancia qu\u00edmica, ao seu ver, deveria ser tratado e os resultados positivos que geraram seu projeto neste um ano de exist\u00eancia. \u201cEles j\u00e1 produziram artigos, umas 30 m\u00fasicas, tem muito artista, inclusive h\u00e1 alguns que est\u00e3o na rua e mesmo assim ligam pra me falar que est\u00e3o bem, que buscaram outro caminho. Pra mim, esse \u00e9 o melhor reconhecimento que o projeto pode ter.\u201d<\/p>\n<p>Brasil de Fato &#8211; O que fez voc\u00ea ter essa iniciativa com o projeto Direito no C\u00e1rcere?<\/p>\n<p>Carmela Grunes &#8211; Eu sempre tive interesse em legitimar e buscar formas de sensibiliza\u00e7\u00e3o do ensino do direito. Como eu vou fazer as pessoas terem interesse em conhecer o direito, se muitas vezes elas apreendem esse conhecimento pela opress\u00e3o, pela repress\u00e3o, pelo normativismo? Ent\u00e3o, quando a gente trabalha o conhecimento, temos tamb\u00e9m que trabalhar a pr\u00e1tica junto a ele. No caso da \u00e1rea penal, eu comecei a ter o contato com os pres\u00eddios, com delegacias, com a situa\u00e7\u00e3o do sistema carcer\u00e1rio l\u00e1 no Rio de Janeiro, visitando o projeto \u201cCarcer\u00e1ria e Cidad\u00e3\u201d, que na \u00e9poca era coordenado por Orlando Zaccone e pelo Marcelo Yuka. S\u00f3 que o projeto deles era diferente, mas mesmo assim, me motivou a come\u00e7ar um di\u00e1logo dentro do sistema prisional.<\/p>\n<p>Como foi seu primeiro contato?<\/p>\n<p>Meu primeiro contato foi como estudante, numa turma que estava indo visitar o pres\u00eddio, e na oportunidade eu me identifiquei para o major, que era subdiretor da penitenci\u00e1ria na \u00e9poca. Disse que tinha vontade de fazer um projeto dentro da cadeia. O pres\u00eddio Central de Porto Alegre \u00e9 considerado o pior da Am\u00e9rica Latina, com o maior foco de tuberculose no mundo, por falta de condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, de n\u00e3o ter constru\u00e7\u00f5es adequadas, enfim, todos esses problemas que acabaram criando uma resist\u00eancia em quem administra para n\u00e3o permitir colocar um projeto l\u00e1 dentro. Comecei a visitar semanalmente o pres\u00eddio, passava o dia inteiro com os administradores, sem contato com os presidi\u00e1rios, ent\u00e3o eles come\u00e7aram a me conhecer, come\u00e7aram a ter mais confian\u00e7a e depois conheci pessoas que tamb\u00e9m trabalham l\u00e1 dentro para a melhoria do sistema prisional. Foi atrav\u00e9s de algumas reuni\u00f5es com as pessoas que administram o pres\u00eddio mais com as assistentes sociais que come\u00e7ou ent\u00e3o a projetar uma \u00e1rea livre de drogas dentro do pres\u00eddio Central. Ent\u00e3o, para essa ala teria que criar atividades. Essas pessoas que v\u00e3o pra galeria, que v\u00e3o para o tratamento da depend\u00eancia qu\u00edmica, ficam 20 dias internadas num hospital, onde fazem um tratamento de desintoxica\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o tratamento elas v\u00e3o para uma ala que \u00e9 acordado entre os presos que n\u00e3o pode haver o uso de droga. Mas, infelizmente, quem tem acesso a esse tratamento s\u00e3o apenas 60 presos, do total de 4.519 (sendo que a capacidade do pres\u00eddio \u00e9 para 2.069 detentos). \u00c9 um n\u00famero muito pequeno, mas \u00e9 uma esperan\u00e7a, um projeto piloto. Ent\u00e3o, o &#8220;Direito no C\u00e1rcere&#8221; entra nessa ideia de que o tempo do detento seja um tempo que ele possa desenvolver alguma atividade.<\/p>\n<p>Como \u00e9 o m\u00e9todo de trabalho do projeto?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a gente trabalha o di\u00e1logo: como foi a semana, como que est\u00e1 a fam\u00edlia, se est\u00e1 indo visitar [&#8230;] ent\u00e3o \u00e9 um trabalho de psicologia, de neuroci\u00eancia, de arte e de direito. O objetivo central do projeto \u00e9 trabalhar plataformas de express\u00e3o da cidadania no c\u00e1rcere, mas para chegar nesse objetivo, temos que trabalhar a pessoa, pois ela est\u00e1 oprimida, violentada, fr\u00e1gil, enfim, est\u00e1 perdida por diversos fatores: pela droga, pelo crime, pelo arrependimento, pela falta de afetividade [&#8230;] ent\u00e3o, todas essas perdas geram uma falta de estrutura. Cada um tem um tipo de perda diferente, mas todos eles sofrem algum tipo de viol\u00eancia, que acaba sendo uma viol\u00eancia social. A gente sabe que o sistema prisional fecha as portas e cont\u00e9m pessoas numa panela de press\u00e3o, mas n\u00e3o d\u00e1 conta de cuidar dessas pessoas. O que oportunizar pra que elas enxerguem outras formas, outros caminhos pra viver? Portanto, pra chegar a express\u00e3o da cidadania no c\u00e1rcere, n\u00f3s trabalhamos o lado emocional, o di\u00e1logo, a rela\u00e7\u00e3o de respeito, de afeto e de companheirismo. Ent\u00e3o fazemos isso. Delego junto com eles algumas atividades: quem \u00e9 que vai ler livro, quem \u00e9 que vai compor m\u00fasica, quem \u00e9 que vai pensar uma coisa diferente pra gente fazer, que tipo de debate a gente vai fazer. Tenho estudado o caminho da neuroci\u00eancia e do direito pra gerar outros comportamentos de apreens\u00e3o do conhecimento do direito. Ent\u00e3o, o projeto &#8220;Direito no C\u00e1rcere&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 uma experi\u00eancia para mim de como estimular para que o direito seja vivenciado diferentemente, como que a m\u00fasica, a fotografia e a arte podem fazer com que o direito seja visto de uma maneira diferente. Ent\u00e3o, se eu n\u00e3o trabalhar a pessoa, como eu vou expressar algo que ela n\u00e3o consegue se expressar?<\/p>\n<p>Por que voc\u00ea escolheu trabalhar com os dependentes qu\u00edmicos, e n\u00e3o com os outros presos? Porque foi onde me abriram a porta. Abriram uma ala com 20 ou 30 detentos, hoje est\u00e1 em 60. Abriram essa ala e disseram: aqui tu vai poder trabalhar. Ent\u00e3o quer dizer, eles tamb\u00e9m est\u00e3o me experimentando. O projeto completou um ano, eles j\u00e1 produziram artigos, umas 30 m\u00fasicas, tem muito artista, inclusive tem alguns que est\u00e3o na rua e mesmo assim ligam pra me falar que est\u00e3o bem, que buscaram outro caminho. Pra mim, esse \u00e9 o melhor reconhecimento que o projeto pode ter.<\/p>\n<p>Se houvesse maiores investimentos p\u00fablicos voltados para essa quest\u00e3o, reduziriam os casos de depend\u00eancia?<\/p>\n<p>Faltam investimentos p\u00fablicos sim. O estado marginal faz um trabalho que o estado democr\u00e1tico deveria fazer. N\u00e3o estou dizendo que eles est\u00e3o certos, mas quando a gente fala que uma pessoa foi para esse caminho, \u00e9 muito f\u00e1cil recriminar sem ver o ambiente em que ela foi criada. Se tu vais numa comunidade e o ambiente \u00e9 com arma, com apologia ao crime, a crian\u00e7a ter\u00e1 uma refer\u00eancia diferente. Ent\u00e3o, pol\u00edticas p\u00fablicas para isso significa criar refer\u00eancias.<\/p>\n<p>Quais tipos de refer\u00eancia, por exemplo?<\/p>\n<p>Criar refer\u00eancia de moradia, da cultura popular local, manifesta\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, tudo isso s\u00e3o mecanismos elementares pra gente poder fazer uma modifica\u00e7\u00e3o dessa maneira de trabalhar a droga. Eu estive em v\u00e1rias comunidades l\u00e1 no Rio de Janeiro, e quando eu estava saindo da comunidade, estava entrando o Bope (Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Policiais Especiais). Ent\u00e3o, o Estado entra pra fazer guerra contra o tr\u00e1fico, ele n\u00e3o entra para instalar uma biblioteca na comunidade e criar um centro de refer\u00eancia. N\u00e3o adianta querer contratar um fulano de tal, uma pessoa que n\u00e3o seja refer\u00eancia na comunidade, porque a partir do momento que tu contrata e mostra uma pessoa de dentro da comunidade que est\u00e1 trabalhando no local, aquilo fortalece. As prefeituras querem fazer coisas caras trazendo pessoas de fora, que v\u00e3o gerar um impacto midi\u00e1tico maior, mas se pegasse todo o dinheiro que se investiu numa pessoa s\u00f3 e aplicasse em a\u00e7\u00f5es de um ano inteiro com administra\u00e7\u00e3o estado \u2013 sociedade, com certeza teria muito mais efeito. Portanto, esse centro de refer\u00eancia e o sentimento de pertencimento est\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de um novo olhar da periferia e do c\u00e1rcere. Porque l\u00e1 (no c\u00e1rcere) voc\u00ea ouve assim: &#8220;E a\u00ed, o que tu fez bandido?\u201d. A\u00ed tu v\u00eas aquela coisa da banaliza\u00e7\u00e3o do crime. Mas qual \u00e9 a hist\u00f3ria desse cara, como ele foi criado, em que contexto ele vivia, quantas pessoas fecharam a porta pra ele quando tentou alguma coisa? A express\u00e3o do c\u00e1rcere \u00e9 um reflexo da sociedade. Quem est\u00e1 l\u00e1 dentro \u00e9 tanto igual quanto n\u00f3s. A diferen\u00e7a \u00e9 o dinheiro, a classe social. Os direitos humanos s\u00e3o iguais, mas existem as classes sociais. Esse \u00e9 o desequil\u00edbrio. Precisamos fazer com que se reduzam esses desequil\u00edbrios gerando auto-estima, elevando o potencial de express\u00e3o e de cidadania das pessoas. Todos n\u00f3s temos um potencial, mas se ele ficar parada dentro da gente, poder\u00e1 ir para o lado negativo. O governo tem que gerar pol\u00edticas p\u00fablicas de empreendedorismo social dentro e fora do pres\u00eddio. O que significa isso: uma capacidade criativa de uma coletividade de utilizar todos os seus conhecimentos intelectuais, suas potencialidades regionais pra construir e inovar um produto e um servi\u00e7o que geram retorno social, cultural, educacional ou ambiental.<\/p>\n<p>O projeto tem continuidade fora da cadeia?<\/p>\n<p>Eu fico em contato com eles, mas n\u00e3o com todos. Como \u00e9 um trabalho bra\u00e7almente sozinho, praticamente, hoje, eu n\u00e3o tenho uma ONG, uma cooperativa de presos que me ajudem a fazer isso. Tenho ideias de fazer junto com eles para dar uma orienta\u00e7\u00e3o, gerar um protagonismo fora, porque l\u00e1 dentro a gente trabalha a quest\u00e3o de ser um empreendedor social, e para ser, temos que nos descobrir. Ent\u00e3o, eles v\u00e3o se descobrindo pela arte, pela leitura, pelo desenho, pela fotografia e pela capacidade cr\u00edtica. Fora do sistema o contato que eu tenho \u00e9 familiar e tento encaminhar para um trabalho formal.<\/p>\n<p>Todos que me ligam eu tento fazer isso. Alguns me d\u00e3o retorno. O Anderson Dutra, que fez parte do tratamento, ligou pra mim e disse que est\u00e1 bem. Muitos que estavam no regime fechado, que \u00e9 onde eu trabalho, foram pro regime semi-aberto. L\u00e1, alguns me ligam, outros eu ligo pra saber. Eu dedico o m\u00e1ximo poss\u00edvel pra poder fazer isso.<\/p>\n<p>O que seria o ideal, portanto, para o projeto ter uma extens\u00e3o do lado de fora da cadeia?<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o e a cultura como maneiras de reabilita\u00e7\u00e3o dos detentos<\/p>\n<p>Tem institui\u00e7\u00f5es que atendem no regime semi-aberto para dar profissionaliza\u00e7\u00e3o e trabalho. O Patronato Lima Drummond, por exemplo. S\u00f3 que ele tem no m\u00e1ximo 80 vagas, e est\u00e1 super lotado. Ent\u00e3o, falta ter mais investimento p\u00fablico para que as pessoas tenham a profissionaliza\u00e7\u00e3o no semi-aberto e ingressem no trabalho. Mas para as pessoas investirem no c\u00e1rcere, elas precisam conhecer quem est\u00e1 l\u00e1 dentro. Para isso que veio o projeto &#8220;Direito no C\u00e1rcere&#8221;, pra mostrar \u00e0s pessoas que est\u00e3o l\u00e1 dentro a sua express\u00e3o da cidadania. Conhecer as hist\u00f3rias de vida, saber que o detento \u00e9 uma pessoa que tem tanta intelig\u00eancia ou mais do que a pessoa que est\u00e1 assistindo. Tem muitas potencialidades que precisam ser vistas, pois hoje est\u00e3o invis\u00edveis aos olhos de muitos.<\/p>\n<p>E sua opini\u00e3o sobre a criminaliza\u00e7\u00e3o das drogas?<\/p>\n<p>Esses crimes contra a vida deveriam ser tratados de maneira diferente. N\u00e3o estou dizendo que tem que tratar mal, mas eles tinham que ter outro tipo de tratamento psicossocial diferente. Essas pessoas que est\u00e3o l\u00e1 por crimes de tr\u00e1fico de drogas, que \u00e9 de 70 a 80% da demanda do pres\u00eddio central e creio que no Brasil todo seja assim, precisamter outro tratamento. O sistema carcer\u00e1rio brasileiro poderia ter muito menos detentos se tratasse a quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o das drogas de outra maneira. Se a sociedade criminaliza a droga ou o porte da pessoa com droga, dizendo que a pessoa que usa droga \u00e9 perigosa para estar presa, deveria partir de perguntas como: toda pessoa que \u00e9 presa com droga \u00e9 uma pessoa perigosa? Ela pode causar danos \u00e0 sociedade? Essas s\u00e3o as perguntas que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o parando para fazer. A m\u00eddia generaliza como se todo mundo fosse uma pessoa que gostasse de matar, que atingisse os crimes contra a vida. Quem acaba alimentando todo esse sistema n\u00e3o s\u00e3o os pobres, n\u00e3o s\u00e3o as pessoas pobres que consomem esse dinheiro. Quem acaba consumindo esse tipo de conte\u00fado \u00e9 a pessoa que tem recurso. Se houvesse uma pol\u00edtica de controle da utiliza\u00e7\u00e3o da droga, e n\u00e3o criminaliza\u00e7\u00e3o, seria diferente. N\u00e3o adianta a gente criminalizar pessoas que n\u00e3o s\u00e3o perigosas. \u00c9 caso de pol\u00edcia ou de sa\u00fade p\u00fablica? Tem que saber diferenciar. O cara est\u00e1 com cinco pedras de crack, \u00e9 caso de pol\u00edcia ou de sa\u00fade p\u00fablica?<\/p>\n<p>Como resolver esse problema, j\u00e1 que o combate as drogas n\u00e3o \u00e9 a maneira correta?<\/p>\n<p>O dependente qu\u00edmico \u00e9 um doente que acaba indo pro caminho da criminalidade, porque a doen\u00e7a gera necessidade de consumo imediato. Essa necessidade que envolve aciona o disparador no c\u00e9rebro dizendo \u201ceu preciso de droga\u201d. Ele vai fazer de tudo pra conseguir o dinheiro. O limite disso passa da racionalidade. A pol\u00edtica, portanto, deveria ser de preven\u00e7\u00e3o, tem que ser de esclarecimento a come\u00e7ar pela pior droga que n\u00f3s temos hoje: o \u00e1lcool. A gente v\u00ea, por exemplo, um jogador de futebol fazendo campanha pra consumir o \u00e1lcool em hor\u00e1rio nobre na televis\u00e3o. Teria que ser cortado isso da m\u00eddia, pois passa no hor\u00e1rio que uma crian\u00e7a est\u00e1 assistindo a TV. Deveria ter mais controle de quem consome o \u00e1lcool, pois ele na fam\u00edlia gera efeitos desastrosos: causa mortes, viol\u00eancia dom\u00e9stica, acidentes no tr\u00e2nsito [&#8230;]<\/p>\n<p>Hoje as pessoas de maneira geral n\u00e3o est\u00e3o se expressando, n\u00e3o est\u00e3o se relacionando mais, ent\u00e3o quando chega nesse ponto, qual caminho ela vai? Ela vai ou pro caminho das drogas ou do individualismo, que pode ser o poder a qualquer pre\u00e7o e passar por cima dos outros, que acaba sendo uma maneira de fuga. Ent\u00e3o, \u00e9 mais f\u00e1cil ficar dentro de casa consumindo aquilo que a tev\u00ea passa. Inclusive, saiu recentemente numa pesquisa que no or\u00e7amento da renda familiar do brasileiro aumentou o consumo de entretenimento pra ficar dentro de casa, consumindo prazer ao inv\u00e9s de ir pra livrarias, do que ir para um centro cultural. Por que? Ser\u00e1 que as pessoas n\u00e3o querem dar conta dos problemas sociais? Elas n\u00e3o querem olhar para a pessoa que est\u00e1 na cal\u00e7ada pedindo ajuda? Tudo isso \u00e9 uma maneira de a gente se isolar dos problemas sociais. Esse comportamento individualista \u00e9 gerado por uma cultura que diz que eu tenho que cuidar s\u00f3 de mim. Temos que refletir em como ser mais iguais mesmo diante das diferen\u00e7as a partir de um olhar mais humano, e n\u00e3o de um olhar de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo do estado de S\u00e3o Paulo tem uma pol\u00edtica de colocar viaturas dentro das favelas e dizer que quem usa drogas tem que ser morto pela pol\u00edcia. Esse tipo de enfrentamento, em sua opini\u00e3o, \u00e9 um enfrentamento contra a periferia?<\/p>\n<p>Isso pra mim \u00e9 a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza. Hoje tu ser pobre, preto e favelado j\u00e1 \u00e9 motivo pra ser considerado um potencial ofensivo \u00e0 sociedade. Infelizmente \u00e9 uma maneira de exterminar com a pobreza, com quem vive de uma fonte ilegal que, na verdade, \u00e9 uma pequena ponta do iceberg. Na verdade, as grandes pessoas que trazem as drogas est\u00e3o nos pal\u00e1cios por a\u00ed a fora e nem tocam nela. Quem toca \u00e9 quem est\u00e1 l\u00e1 na mis\u00e9ria. Eles est\u00e3o pegando as pessoas erradas. Teve um pol\u00edtico que disse que ia colocar ilumina\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo porque bandido n\u00e3o gosta de luz. Ele estava querendo dizer que \u201cia limpar a cidade retirando as pessoas que vivem em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria\u201d, porque o miser\u00e1vel n\u00e3o acha bonito morar na rua, ningu\u00e9m gosta de ser miser\u00e1vel. Pra mim o bandido que gosta de luz \u00e9 o pol\u00edtico, as pessoas que sonegam impostos e que est\u00e3o l\u00e1 exaltando o dinheiro do povo. S\u00e3o essas pessoas que colocam a pol\u00edcia pra dentro da favela pra matar o pequeno traficante ou o usu\u00e1rio de drogas. Se a pol\u00edcia est\u00e1 agindo assim, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa da institui\u00e7\u00e3o, pois a institui\u00e7\u00e3o \u00e9 o reflexo de uma ordem social. Parte da sociedade, que n\u00e3o quer enxergar, que fica l\u00e1 s\u00f3 vendo a televis\u00e3o, quer que as pessoas ajam dessa maneira. Essas mesmas pessoas que n\u00e3o querem sair de casa porque t\u00eam medo da seguran\u00e7a e preferem ficar em seu ninho, s\u00e3o as mesmas que estimulam e geram uma pol\u00edtica de uma pol\u00edcia violenta. Os policiais s\u00e3o o reflexo do que essa classe quer ver. A gente tem que construir uma modifica\u00e7\u00e3o do olhar, de como lidar com o problema da viol\u00eancia social que acaba gerando o c\u00e1rcere. Se a gente n\u00e3o mudar esse olhar de como tratar o sistema carcer\u00e1rio brasileiro de direito penal, vamos continuar segregando, excluindo e violentando comunidades com o terrorismo, com as guerras urbanas vistas no cotidiano de uma periferia, que \u00e9 lament\u00e1vel. Um lado quer proteger o sistema da droga e o outro quer exterminar a droga. Mas ser\u00e1 que o \u201cexterminar\u201d tem a ver com a droga ou com a pessoa? Qual \u00e9 o objetivo? Ent\u00e3o, retira-se a droga, se for o caso, mas e a pessoa, como trat\u00e1-la? A gente n\u00e3o tem pol\u00edtica de pena de morte institucionalizada na lei, mas no estado de exce\u00e7\u00e3o que hoje o Brasil vive dentro das periferias. A pol\u00edtica de exterm\u00ednio virou uma coisa comum. A pol\u00edcia est\u00e1 na boca da panela de press\u00e3o, ou seja, ela segura as broncas que o Estado n\u00e3o costura. N\u00e3o costura na educa\u00e7\u00e3o, moradia, n\u00e3o d\u00e1 sa\u00fade p\u00fablica e isso gera revolta, viol\u00eancia e outros caminhos n\u00e3o-l\u00edcitos. Quando tu n\u00e3o tratas de outro problema sobra para quem est\u00e1 na linha extrema.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/10478\">Brasil de Fato<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um ano, Carmela Grunes leva a cultura popular, como instrumento de educa\u00e7\u00e3o inclusiva, para presidi\u00e1rios em tratamento de depend\u00eancia qu\u00edmica no Pres\u00eddio Central de Porto Alegre (RS). 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