{"id":23519,"date":"2012-09-26T15:32:52","date_gmt":"2012-09-26T18:32:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=23519"},"modified":"2012-09-26T15:32:52","modified_gmt":"2012-09-26T18:32:52","slug":"a-favela-que-se-rendeu-a-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=23519","title":{"rendered":"A favela que se rendeu \u00e0 m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 171px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Jos\u00e9 Batista, violista: novo rumo |Foto: arquivo pessoal\" src=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/controle\/dynimages\/\/PB413%2002Heliopolis.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Batista, violista: novo rumo |Foto: arquivo pessoal\" width=\"171\" height=\"250\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Batista, violista: novo rumo |Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Paulo Hebm\u00fcller<br \/>\nna revista Problemas Brasileiros<\/em><\/p>\n<p>Entre uma m\u00fasica e outra, o maestro Edilson Ventureli vira-se para a plateia e diz, sem esconder a satisfa\u00e7\u00e3o: \u201cJ\u00e1 tocamos em v\u00e1rios lugares em Heli\u00f3polis, mas este \u00e9 o primeiro grande concerto aberto que executamos aqui. Estamos fazendo tudo isso com muito carinho e espero que voc\u00eas gostem\u201d. O \u201cvoc\u00eas\u201d era o p\u00fablico de cerca de 2 mil pessoas que ocupava o Polo Cultural da comunidade, na periferia da zona sul de S\u00e3o Paulo \u2013 e, pelas rea\u00e7\u00f5es entusiasmadas ao longo de todo o concerto, estava claro que gostavam, e muito, do que estavam vendo e ouvindo. Para boa parte do audit\u00f3rio, aquela n\u00e3o era apenas a rara oportunidade de assistir a uma orquestra tocando ao vivo, mas tamb\u00e9m a chance de aplaudir os pr\u00f3prios filhos, netos, sobrinhos e amigos, todos componentes da Orquestra Sinf\u00f4nica Heli\u00f3polis, grupo musical formado por 80 integrantes.<\/p>\n<p>Em outra pequena pausa, o regente pediu a uma senhora da primeira fila que se levantasse para ser aplaudida. Era um agradecimento pelo trabalho volunt\u00e1rio de Maria de Lourdes Vieira de S\u00e1 Correia \u2013 a dona Lurdinha. H\u00e1 16 anos, quando soava apenas como um del\u00edrio realizar um concerto de m\u00fasica erudita protagonizado por jovens de uma comunidade que concentra car\u00eancias de infraestrutura e emprego e falta de oportunidades \u2013 coisas t\u00edpicas da periferia das grandes cidades brasileiras \u2013, dona Lurdinha foi uma das primeiras a comprar a ideia do vision\u00e1rio maestro Silvio Baccarelli, o mentor de tudo aquilo. Entre o dia em que o maestro telefonou para a escola onde ela trabalhava, com o inusitado pedido de sele\u00e7\u00e3o de 35 crian\u00e7as que deveriam ser formadas em m\u00fasica, e a tarde do s\u00e1bado, 26 de maio deste ano, quando a Sinf\u00f4nica Heli\u00f3polis realizou seu primeiro grande concerto na pr\u00f3pria comunidade, milhares de crian\u00e7as e jovens passaram pelo Instituto Baccarelli \u2013 estrutura criada em torno daquele sonho \u2013, brasileiros que fizeram da m\u00fasica o\u00a0passaporte para um mundo que at\u00e9 ent\u00e3o parecia inating\u00edvel. Uma hist\u00f3ria improv\u00e1vel, mas cujos frutos concretos est\u00e3o \u00e0 vista de quem quiser enxergar.<\/p>\n<p>Frutos que estavam no palco naquela tarde, como J\u00e9ssica Maria Vicente, que aos 15 anos chegou a tocar pe\u00e7as de Beethoven na cidade natal do compositor, Bonn, na Alemanha. Era a turn\u00ea europeia da Sinf\u00f4nica Heli\u00f3polis, em 2010, que passou ainda pela Holanda e pela Inglaterra. \u201cFoi a melhor experi\u00eancia da minha vida\u201d, diz a adolescente. \u201cFomos aplaudidos de p\u00e9 e isso n\u00e3o \u00e9 comum por l\u00e1.\u201d J\u00e9ssica ascendeu precocemente ao grupo\u00a0<em>top<\/em> do Instituto Baccarelli, m\u00e9rito de seu talento e esfor\u00e7o, mas a hist\u00f3ria da garota se parece com a de muitos outros que tamb\u00e9m bateram \u00e0s portas do instituto.<\/p>\n<p>Moradora da comunidade, a menina foi inscrita aos 11 anos de idade pela m\u00e3e no coral infantil. J\u00e9ssica queria tocar violino, mas n\u00e3o havia vaga para aquele instrumento. Conheceu ent\u00e3o a trompa, fez um teste, gostou e se apaixonou. Iniciou as aulas instrumentais, mas seguiu cantando no coral. Os pr\u00f3prios professores, quando percebem que o aluno tem capacidade, convidam-no a \u201csubir\u201d aos grupos instrumentais, e assim a garota passou a integrar as orquestras infanto-juvenil e juvenil do instituto. J\u00e9ssica cresceu musicalmente com elas e logo desembarcou na sinf\u00f4nica.<\/p>\n<p>Para participar da Orquestra Sinf\u00f4nica Heli\u00f3polis, que re\u00fane os alunos avan\u00e7ados do Instituto Baccarelli, n\u00e3o basta querer. \u00c9 preciso fazer uma prova rigorosa numa banca com os maestros e seguir estudando muito, porque h\u00e1 testes semestrais para avaliar a evolu\u00e7\u00e3o e o aprendizado. J\u00e9ssica passa praticamente o dia todo no instituto, de segunda a sexta. As manh\u00e3s geralmente s\u00e3o dedicadas aos ensaios da sinf\u00f4nica, e as tardes dividem-se entre estudo e pr\u00e1tica, individual ou em grupo, em salas de aula ainda com cheiro de novas. \u00c0 noite ela vai para o col\u00e9gio, onde cursa o ensino m\u00e9dio. O instituto n\u00e3o \u201ccobra\u201d formalmente o bom rendimento escolar, mas fica de olho e eventualmente chama a fam\u00edlia para conversar caso perceba que as notas no boletim andam desafinando, mesmo que as dos ensaios estejam dentro do ritmo.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o sabia que as coisas iam acontecer t\u00e3o r\u00e1pido assim comigo. O instituto abriu muitas portas\u201d, diz J\u00e9ssica. E cita a oportunidade de passar um m\u00eas fazendo aulas, junto com uma colega, na Universidade de Bloomington, em Indiana, nos Estados Unidos. Elas viajar\u00e3o em janeiro, bancando as pr\u00f3prias despesas com o dinheiro que est\u00e3o economizando da bolsa paga pelo Baccarelli. \u00c9 mais um passo para a realiza\u00e7\u00e3o de um dos sonhos das meninas: tocar em orquestras no exterior e, quem sabe, ver seus nomes nos cr\u00e9ditos como instrumentistas das trilhas sonoras de filmes de Hollywood.<\/p>\n<p>\u201cO Baccarelli est\u00e1 descortinando outros horizontes para as pessoas da comunidade. Uma escola de m\u00fasica de qualidade, nos moldes da que temos aqui, n\u00e3o existe em nenhum outro lugar, e isso demonstra que h\u00e1 muitas maneiras de olhar para a vida\u201d, diz a garota. \u201cMesmo que a pessoa n\u00e3o siga com a m\u00fasica e v\u00e1 buscar outra coisa l\u00e1 fora, aqui ela aprende a ter gana e vontade, for\u00e7a que vai ajud\u00e1-la a crescer em qualquer \u00e1rea.\u201d<\/p>\n<p><strong>Tocando pelo mundo<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Assim como J\u00e9ssica, outros jovens que integram o projeto musical de Heli\u00f3polis tamb\u00e9m t\u00eam ido ao exterior para estudar, por exemplo na Escola de M\u00fasica Buchmann-Mehta, da Universidade de Tel Aviv, em Israel. Sim, o nome vem do famoso maestro Zubin Mehta, seu presidente honor\u00e1rio e regente titular da Filarm\u00f4nica de Israel, que tem parceria com a universidade. Em 2005, numa turn\u00ea com a filarm\u00f4nica, o regente assistiu em S\u00e3o Paulo a um ensaio em que os jovens de Heli\u00f3polis tocaram a\u00a0<em>5\u00aa Sinfonia<\/em> de Beethoven. Ainda nos primeiros acordes, um entusiasmado Mehta tirou o palet\u00f3 e pediu para reger, e fez isso com o mesmo rigor com que conduz os m\u00fasicos da pr\u00f3pria orquestra. \u201cQuando ele deu sua participa\u00e7\u00e3o por encerrada, parecia que tinha acordado de um sonho\u201d, ilustrou o maestro Silvio Baccarelli em depoimento \u00e0\u00a0<em>Revista E<\/em>, do Sesc, de agosto de 2008. Desde ent\u00e3o, Zubin Mehta tem mantido contato com a orquestra de Heli\u00f3polis, tendo inclusive se tornado seu patrono. Em agosto, ele empreendeu uma nova visita ao Instituto Baccarelli, causando uma esp\u00e9cie de frenesi entre os m\u00fasicos.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a esse feliz entrosamento, eventualmente, alunos brasileiros s\u00e3o recebidos em Israel. Est\u00e1 l\u00e1, no momento, o jovem Emerson Naz\u00e1rio, morador do bairro, que chegou ao Instituto Baccarelli em 2000, com apenas 12 anos. Ele come\u00e7ou sua carreira musical como instrumentista no \u201cbanco de reservas\u201d. J\u00e1 havia assistido a algumas aulas quando, finalmente, chegaram dois novos violoncelos ao instituto e um deles ficou com o jovem. A partir de ent\u00e3o, Naz\u00e1rio passou pelas orquestras iniciantes at\u00e9 ser \u201cpromovido\u201d \u00e0 sinf\u00f4nica. Em 2008, j\u00e1 cursando bacharelado em m\u00fasica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), teve a oportunidade de tocar para Hillel Zori, violoncelista israelense. Zori lhe ofereceu uma bolsa para estudar em Tel Aviv, onde hoje \u00e9 seu professor. Naz\u00e1rio chegou a Israel em outubro daquele ano e pretende permanecer no pa\u00eds at\u00e9 2014, quando termina o mestrado.<\/p>\n<p>\u201cMinha rotina aqui \u00e9 m\u00fasica quase o tempo inteiro\u201d, relata o\u00a0<em>cellista<\/em>, hoje com 24 anos. Al\u00e9m de estudar, os alunos da orquestra da universidade cumprem uma agenda de apresenta\u00e7\u00f5es em que, uma vez por ano, o pr\u00f3prio Zubin Mehta executa a reg\u00eancia de um concerto de gala no Hall da Filarm\u00f4nica. Os jovens tamb\u00e9m fazem excurs\u00f5es por outros pa\u00edses. Lembrando os tempos do instituto, diz Naz\u00e1rio: \u201cEle foi e continua sendo muito importante para a comunidade, oferecendo educa\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e dando uma perspectiva melhor para o futuro delas\u201d.<\/p>\n<p>Em Tel Aviv tamb\u00e9m se encontra um outro brasileiro, Jos\u00e9 Batista Junior, de 22 anos, que chegou em 2010 e deve ficar na capital israelense at\u00e9 2014 para concluir o bacharelado em m\u00fasica. Junior s\u00f3 p\u00f4de al\u00e7ar voo t\u00e3o alto porque os jovens m\u00fasicos acolhidos pelo Instituto Baccarelli n\u00e3o precisam morar em Heli\u00f3polis, ingressando diretamente na sinf\u00f4nica por meio dos testes abertos para instrumentistas de todo o Brasil e tamb\u00e9m de outros pa\u00edses. Junior come\u00e7ou a estudar viola aos 14 anos, integrando o grupo musical da Igreja Assembleia de Deus, na cidade de Osasco. Em 2007, amigos que tocavam na sinf\u00f4nica o avisaram sobre os testes; ele se preparou e passou. Dois anos depois, Junior tocou para a chefe do naipe de violas da Filarm\u00f4nica de Israel, Miriam Hartman, e foi aceito por ela como seu aluno, desembarcando em Tel Aviv no ano seguinte. Sua rotina inclui pelo menos seis horas di\u00e1rias de estudo com o instrumento.<\/p>\n<p>Para o violista de Osasco, o Instituto Baccarelli \u00e9 um lugar \u201cmaravilhoso\u201d porque oferece \u00e0s pessoas a chance de \u201cdar um rumo diferente para suas hist\u00f3rias\u201d. \u201cA porta que o instituto abriu, de podermos fazer m\u00fasica, aprender com grandes mestres e receber a bolsa mensalmente, mudou totalmente a minha vida e a de muitas pessoas\u201d, diz Junior. O jovem pretende voltar ao Brasil para ensinar o que vem aprendendo l\u00e1 fora.<\/p>\n<p><strong>\u201cCavaquinho esquisito\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Ex-seminarista, especializado em m\u00fasica sacra, o maestro Silvio Baccarelli deixou a vida sacerdotal na d\u00e9cada de 1960 e passou a dirigir grupos corais e instrumentais. Sua orquestra se tornou uma das mais bem-sucedidas do pa\u00eds, tocando em todo tipo de evento \u2013 inclusive casamentos de celebridades, como o do piloto de F\u00f3rmula 1 Felipe Massa, em 2007. O projeto de levar m\u00fasica a uma regi\u00e3o carente, que come\u00e7ou a sair do papel em 1996, vinha sendo acalentado havia anos pelo regente. As imagens de um inc\u00eandio que destruiu constru\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias em Heli\u00f3polis \u2013 uma comunidade que come\u00e7ou a se formar na periferia paulistana h\u00e1 cerca de 40 anos e onde hoje vivem, aproximadamente, 120 mil pessoas \u2013 foram fortes demais para ele. Comovido com o sofrimento daquela gente decidiu plantar ali a sua ideia.<\/p>\n<p>Baccarelli procurou ent\u00e3o uma entidade social na regi\u00e3o e acabou fazendo contato com a Escola Municipal Gonzaguinha, na Estrada das L\u00e1grimas. \u201cEu disse a ele que o projeto j\u00e1 nasceu aben\u00e7oado porque o lugar aonde ele chegou tem como patrono um m\u00fasico\u201d, diz o regente Edilson Ventureli. N\u00e3o foi f\u00e1cil, entretanto, convencer a ent\u00e3o diretora da escola a permitir que o grupo de 35 crian\u00e7as se deslocasse at\u00e9 a sede da orquestra de Baccarelli, no distante bairro de Vila Mariana, para ter as primeiras aulas. \u00c9 a\u00ed que entra o papel fundamental de lideran\u00e7as locais como dona Lurdinha, migrante nordestina como tantos outros moradores de Heli\u00f3polis \u2013 ela veio do Piau\u00ed, 27 anos atr\u00e1s, e h\u00e1 21 \u00e9 inspetora escolar do Gonzaguinha.<\/p>\n<p>Dona Lurdinha e a coordenadora da escola se responsabilizaram por levar e trazer \u2013 de \u00f4nibus \u2013 as crian\u00e7as que haviam sido previamente escolhidas, o que n\u00e3o era nada f\u00e1cil. O maestro bancava de seu bolso o dinheiro da condu\u00e7\u00e3o. Com o tempo e os primeiros patroc\u00ednios, a prefeitura cedeu um \u00f4nibus para o transporte, e foi necess\u00e1rio tamb\u00e9m alugar um outro sal\u00e3o para dar conta do n\u00famero de crian\u00e7as, que n\u00e3o parava de crescer.<\/p>\n<p>Apenas seis meses haviam se passado desde a primeira vez em que os meninos tinham visto aqueles novos instrumentos \u2013 um deles chamou o violino de \u201ccavaquinho esquisito\u201d \u2013 quando Baccarelli resolveu marcar o primeiro concerto. O plano era mostrar \u00e0 comunidade o que afinal as crian\u00e7as iam fazer naquele lugar duas vezes por semana, porque nem os pais sabiam direito. A esposa do maestro, dona Nair, comprou roupas e sapatos para os m\u00fasicos mirins, e os pais, professores e visitantes j\u00e1 estavam emocionados, muitos chorando, apenas de ver as crian\u00e7as subirem ao palco, s\u00e9rias e alinhadas. Foram poucas m\u00fasicas, mas a emo\u00e7\u00e3o traduzida em l\u00e1grimas n\u00e3o se p\u00f4de medir.<\/p>\n<p>At\u00e9 a diretora da escola Gonzaguinha, que tinha ficado com um p\u00e9 atr\u00e1s desde o in\u00edcio por n\u00e3o acreditar que o maestro conseguisse trabalhar com crian\u00e7as \u201crebeldes\u201d, teve de se render. \u201cO poder da m\u00fasica \u00e9 transformador, a m\u00fasica amansa o cora\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d, disse Baccarelli, ao lembrar o epis\u00f3dio no depoimento registrado na\u00a0<em>Revista E<\/em>. Hoje, aos 81 anos, o maestro enfrenta problemas de sa\u00fade, n\u00e3o d\u00e1 mais entrevistas e tem ido pouco a Heli\u00f3polis, ao contr\u00e1rio do que fazia no passado, desde que os meninos come\u00e7aram a tocar as primeiras notas.<\/p>\n<p><strong>Riqueza cultural<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada passada, a turma de Baccarelli ganhou uma casa mais espa\u00e7osa, um galp\u00e3o alugado de uma f\u00e1brica de sucos na pr\u00f3pria comunidade, permitindo que chegasse a mais de 500 o n\u00famero de crian\u00e7as atendidas e que novos projetos pudessem ser deslanchados. \u201cEle sempre me dizia: \u2018Dona Lurdinha, quero formar uma sinf\u00f4nica em Heli\u00f3polis\u2019, e eu respondia que ele tinha coisa demais na cabe\u00e7a\u201d, conta a moradora. \u201cEnt\u00e3o, o maestro me falava que com o poder de Deus e a ajuda do povo a gente ia chegar l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPor toda Heli\u00f3polis se ouve o som de m\u00fasica erudita. \u00c9 rara a rua que n\u00e3o tenha um instrumento tocando. Isso enriqueceu muito a comunidade\u201d, conta dona Lurdinha. Sua filha Val\u00e9ria aprendeu a tocar viola no instituto e j\u00e1 d\u00e1 aula para os mais novos. Como inspetora escolar, a moradora \u00e9 testemunha de que os alunos que participam dos projetos de m\u00fasica s\u00e3o mais atentos e prestativos e t\u00eam um envolvimento diferente com a escola e a fam\u00edlia. \u201cPrecisamos dessa riqueza cultural aqui. N\u00e3o \u00e9 porque as crian\u00e7as moram na favela que n\u00e3o podem aprender m\u00fasica erudita\u201d, diz.<\/p>\n<p>O instituto n\u00e3o parou no galp\u00e3o alugado. Para crescer ainda mais, uma sede pr\u00f3pria foi planejada em terreno cedido pela prefeitura na mesma Estrada das L\u00e1grimas. Em 2009, com recursos doados, principalmente, pela entidade Pr\u00f3-Vida, foi inaugurado um pr\u00e9dio com tr\u00eas andares e 35 salas de aula e de estudo, al\u00e9m de sal\u00f5es para ensaio das orquestras, administra\u00e7\u00e3o, acervo de instrumentos e outras instala\u00e7\u00f5es. Todas as salas de estudo e ensaio atendem a requisitos especiais para proporcionar melhor resultado ac\u00fastico.<\/p>\n<p>Um segundo pr\u00e9dio acaba de ser conclu\u00eddo, e vai permitir a instala\u00e7\u00e3o de uma biblioteca e de diversos setores e atividades. Ao lado j\u00e1 podem ser vistos os primeiros sinais da prepara\u00e7\u00e3o do terreno do novo e ambicioso projeto, para o qual ainda faltam recursos: um teatro de 600 lugares, com capacidade para receber todo tipo de produ\u00e7\u00e3o. Petrobras, Eletrobras, Volkswagen e Votorantim s\u00e3o os principais parceiros e mantenedores do instituto. O consagrado maestro Isaac Karabtchevsky \u00e9 o diretor art\u00edstico e rege a Sinf\u00f4nica Heli\u00f3polis em alguns concertos.<\/p>\n<p>Atualmente, cerca de 1,3 mil crian\u00e7as e jovens participam dos v\u00e1rios projetos do Instituto Baccarelli. Elas podem entrar nos corais infantis j\u00e1 aos 4 anos. S\u00e3o 16 grupos corais, onde as crian\u00e7as ficam at\u00e9 os 14 anos, aprendendo teoria, t\u00e9cnica vocal e express\u00e3o c\u00eanica. Se quiserem, podem se candidatar ent\u00e3o \u00e0s vagas nos grupos instrumentais. O programa Orquestra do Amanh\u00e3 re\u00fane as orquestras infantil e infanto-juvenil, de onde os jovens podem chegar \u00e0 almejada sinf\u00f4nica. J\u00e1 a partir da juvenil os alunos ganham bolsas. Quanto mais avan\u00e7ados, mais podem aumentar seu rendimento tocando em grupos menores, de c\u00e2mara, ou dando aula aos iniciantes, como fazem v\u00e1rios m\u00fasicos da sinf\u00f4nica. Entre regentes, pianistas e professores, s\u00e3o cerca de 40 profissionais orientando os alunos. O instituto cede os instrumentos no in\u00edcio, mas a bolsa serve tamb\u00e9m como incentivo para que os estudantes adquiram os seus.<\/p>\n<p><strong>\u00d3pera e rock<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>O objetivo do instituto n\u00e3o \u00e9 fazer com que todos os jovens se transformem em m\u00fasicos profissionais. \u201cA real for\u00e7a do nosso trabalho est\u00e1 em mostrar que a pessoa \u00e9 rica em dons e talentos, para que tenha autoconfian\u00e7a para ser o que quiser na vida\u201d, afirma o maestro Edilson Ventureli. Ele acredita que a m\u00fasica tem um poder de transforma\u00e7\u00e3o enorme. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o faz m\u00fasica sem disciplina, sem solidariedade, sem trabalho em equipe. O que temos ensinado a estas crian\u00e7as vai ajud\u00e1-las a ser adultos bem-sucedidos\u201d, pontifica.<\/p>\n<p>Nem todos, infelizmente, aproveitam a oportunidade de estudar m\u00fasica de alto n\u00edvel \u2013 e de gra\u00e7a. Dona Lurdinha relata o caso de um jovem que um dia avisou que estava desistindo das aulas porque arranjara emprego de vendedor de sorvete. O maestro Baccarelli ent\u00e3o perguntou quanto ele ganhava por semana e se comprometeu a lhe dar do pr\u00f3prio bolso o mesmo valor. Na quarta semana, todavia, o rapaz n\u00e3o apareceu mais.<\/p>\n<p>Entre os que agarram a chance e se decidem pela m\u00fasica como caminho de vida, h\u00e1 egressos do instituto lecionando em diversas institui\u00e7\u00f5es e tocando em orquestras pelo Brasil e mundo afora, participando de shows de m\u00fasicos brasileiros \u2013 Toquinho, Paula Lima, Luiz Melodia, por exemplo \u2013 e mesmo de estrangeiros. Crian\u00e7as dos corais estiveram no megapalco de Roger Waters no Est\u00e1dio do Morumbi, em abril deste ano, para cantar o cl\u00e1ssico\u00a0<em>Another Brick in the Wall,<\/em> ao lado do ex-baixista do Pink Floyd. A sinf\u00f4nica, al\u00e9m de apresenta\u00e7\u00f5es em teatros, como a Sala S\u00e3o Paulo, tem no curr\u00edculo uma cerim\u00f4nia com o papa Bento XVI, na Catedral da S\u00e9, em 2007.<\/p>\n<p>No palco do concerto hist\u00f3rico de maio, no cora\u00e7\u00e3o da comunidade, vivendo mais um cap\u00edtulo marcante de sua trajet\u00f3ria na m\u00fasica, um\u00a0<em>spalla <\/em>(primeiro violino, um dos postos mais importantes de uma orquestra) da Sinf\u00f4nica Heli\u00f3polis executa o repert\u00f3rio que come\u00e7a com a abertura da \u00f3pera\u00a0<em>Fosca<\/em>, de Carlos Gomes, passeia pela m\u00fasica popular brasileira e desembarca no rock com\u00a0<em>Vou Deixar<\/em>, do Skank, e\u00a0<em>Satisfaction<\/em>, dos Rolling Stones. Ele \u00e9 Jefferson Oliveira da Silva, de 26 anos, que chegou \u00e0 orquestra em 2008, depois de estudar na Escola de M\u00fasica do Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 Tom Jobim (Emesp).<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o sendo de Heli\u00f3polis, o jovem de Guarulhos sabe da import\u00e2ncia do Instituto Baccarelli para a regi\u00e3o. \u201cAs fam\u00edlias trazem as crian\u00e7as para c\u00e1, o sagu\u00e3o do pr\u00e9dio fica cheio de m\u00e3es. S\u00e3o sementes plantadas e n\u00e3o temos como prever a dimens\u00e3o disso\u201d, considera Jefferson. Na plateia, o entusiasmo dos jovens alunos emociona. Vit\u00f3ria Silv\u00e9rio, de 14 anos, que ingressou no instituto em 2007 e agora estuda violino, vibra ao lado dos colegas Adriele Piedade, Bruna Ferreira, Ronald Rocha e Gabriel Silva, tamb\u00e9m alunos de violino. \u201cEu me inspiro neles e pretendo um dia tocar l\u00e1\u201d, diz Vit\u00f3ria, apontando para o palco em que brilha a Orquestra Sinf\u00f4nica que brotou do ch\u00e3o improv\u00e1vel de Heli\u00f3polis.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/revistas_sesc\/pb\/artigo.cfm?Edicao_Id=442&amp;Artigo_ID=6708&amp;IDCategoria=7752&amp;reftype=1&amp;BreadCrumb=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Problemas brasileiros<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heli\u00f3polis destaca-se com um projeto musical que envolve crian\u00e7as e jovens da comunidade. 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