{"id":24490,"date":"2013-04-30T21:01:45","date_gmt":"2013-05-01T00:01:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=24490"},"modified":"2013-04-30T21:01:45","modified_gmt":"2013-05-01T00:01:45","slug":"contornos-da-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=24490","title":{"rendered":"Contornos da (in)toler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><a rel=\"attachment wp-att-21167\" href=\"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?attachment_id=21167\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-21167\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/estadolaico_thumb.jpg\" alt=\"Ensino laico - Estado e religi\u00e3o separados por uma tesoura\" width=\"246\" height=\"210\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Brasil tem assistido ao embate p\u00fablico entre segmentos religiosos e movimentos sociais em torno da pauta dos direitos sexuais. O panorama op\u00f5e, de um lado, setores que se manifestam contr\u00e1rios, baseados em conte\u00fados doutrin\u00e1rios, \u00e0s pr\u00e1ticas e \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es sexuais e identidades de g\u00eanero n\u00e3o tradicionais, tais como a homossexualidade e os fen\u00f4menos transg\u00eaneros. O discurso tem sido direcionado n\u00e3o apenas para a perspectiva abstrata, dos valores morais, mas tamb\u00e9m para os espa\u00e7os pol\u00edticos de defini\u00e7\u00e3o de leis e pol\u00edticas p\u00fablicas, interferindo no tr\u00e2mite de projetos e no encaminhamento de a\u00e7\u00f5es governamentais. Do outro lado, movimentos de direitos humanos, apoiados por artistas e intelectuais, mobilizam-se contra o que entendem como uma articula\u00e7\u00e3o indevida: pol\u00edtica e religi\u00e3o. Em jogo, uma esp\u00e9cie de guerra cultural em que a coexist\u00eancia das diferen\u00e7as mostra-se conflituosa, jogando luz sobre os limites muitas vezes borrados entre a toler\u00e2ncia e o discurso de \u00f3dio.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os por parlamentares que representam segmentos religiosos &#8211; especialmente a bancada evang\u00e9lica &#8211; da sociedade brasileira tem sido destaque na m\u00eddia, sobretudo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o do deputado Marco Feliciano, pastor evang\u00e9lico, para a presid\u00eancia da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e Minorias da C\u00e2mara, em mar\u00e7o. O fato desatou uma onda de protestos contra afirma\u00e7\u00f5es do parlamentar a respeito de relacionamentos gays, Aids, negros e mulheres. De acordo com o congressista, em mensagens postadas h\u00e1 algum tempo na internet, \u201ca podrid\u00e3o dos sentimentos homoafetivos leva ao \u00f3dio, ao crime, \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cafricanos descendem de ancestral amaldi\u00e7oado por No\u00e9. Isso \u00e9 fato\u201d. Al\u00e9m disso, ele tamb\u00e9m tinha se manifestado associando a Aids a uma doen\u00e7a gay.<\/p>\n<p>A conjuntura pol\u00edtica atual tornou-se mais evidente ap\u00f3s a campanha presidencial de 2010, quando as articula\u00e7\u00f5es entre religi\u00e3o e pol\u00edtica foram postas em relevo como estrat\u00e9gia eleitoral. O aborto foi um tema fartamente explorado pela \u00f3tica conservadora, levando a ent\u00e3o candidata Dilma Rousseff a recuar em declara\u00e7\u00f5es em que se manifestara a favor da legaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria da candidata, a imers\u00e3o da pol\u00edtica no campo do religioso preservou-se e tem adquirido contornos mais expressivos: campanhas de preven\u00e7\u00e3o ao HIV\/Aids\u00a0<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=9212&amp;sid=4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">foram canceladas<\/a> no carnaval de 2012, e o kit anti-homofobia, apoiado pela Unesco, teve sua\u00a0<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/publique\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?UserActiveTemplate=_BR&amp;from_info_index=11&amp;infoid=8170&amp;query=simple&amp;search_by_authorname=all&amp;search_by_field=tax&amp;search_by_headline=false&amp;search_by_keywords=any&amp;search_by_priority=all&amp;search_by_section=all&amp;search_by_state=all&amp;search_text_options=all&amp;sid=7&amp;text=kit\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">distribui\u00e7\u00e3o suspensa<\/a> nas escolas em 2011.<\/p>\n<p>Estado constitucionalmente laico, o Brasil tem sido palco para um debate cada vez mais incitado: at\u00e9 que ponto o casamento entre pol\u00edtica e religi\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo, especialmente na elabora\u00e7\u00e3o de leis e pol\u00edticas p\u00fablicas? Em que medida a atividade religiosa parlamentar expressa valores que podem levar ao discurso de \u00f3dio e \u00e0 intoler\u00e2ncia? A neutralidade das esferas pol\u00edtico-institucionais ante aos discursos religiosos \u00e9 poss\u00edvel? Como, afinal, conciliar a liberdade religiosa com a universalidade dos direitos, a toler\u00e2ncia e a igualdade?<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da toler\u00e2ncia como ferramenta de organiza\u00e7\u00e3o e conv\u00edcio social envolve s\u00e9culos de reflex\u00e3o filos\u00f3fica e pol\u00edtica. O movimento iluminista (s\u00e9culo XVIII) representou uma altera\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica para as sociedades Ocidentais, conferindo \u00e0 racionalidade o papel de media\u00e7\u00e3o dos desafios que se impunham \u00e0 humanidade. O empirismo e o rigor metodol\u00f3gico tornaram-se elementos centrais para o pensamento moderno, concorrendo diretamente com os paradigmas religiosos e m\u00edticos para dar respostas e sentidos \u00e0 realidade. A ci\u00eancia, nesse sentido, surgia com a proposta de eliminar o conhecimento que n\u00e3o tivesse um fundamento verific\u00e1vel e prov\u00e1vel, visto como da ordem da supersti\u00e7\u00e3o. Surgia tamb\u00e9m como um caminho que traria a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Na esteira do movimento iluminista, surgiram os esbo\u00e7os do que viriam a ser as id\u00e9ias de direitos, igualdade e liberdade. Uma tentativa de fazer frente \u00e0s atrocidades perpetradas nos s\u00e9culos anteriores, em nome das mais variadas justificativas. A l\u00f3gica racional e cient\u00edfica, no entanto, n\u00e3o foi suficiente para que discursos e pr\u00e1ticas de afirma\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o das desigualdades surgissem, do que provam as proposi\u00e7\u00f5es do racismo cientifico (s\u00e9culo XIX), que viam na biologia um argumento para a inferioridade supostamente natural dos negros.<\/p>\n<p>A pluralidade de discursos e ideologias, de diversas ordens, \u00e9 uma marca das sociedades, em qualquer tempo. Para o fil\u00f3sofo e professor Ricardo Timm (PUC-RS), \u201ca reflex\u00e3o filos\u00f3fica se justifica, na contemporaneidade, essencialmente enquanto atividade que problematiza o v\u00e1cuo entre as promessas da Modernidade e a realidade que vivemos\u201d.<\/p>\n<p>A realidade atual, no contexto brasileiro, tem se mostrado conflituosa, em termos de discuss\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de direitos de minorias. O deputado Marco Feliciano personifica o quadro de tens\u00f5es, evidenciando os contornos religiosos da ordem social e pol\u00edtica no que tange \u00e0 toler\u00e2ncia. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de toler\u00e2ncia, destaca Ricardo Timm, \u00e9 um conceito moderno, que irrompe com vigor no contexto da tem\u00e1tica religiosa, mas que traz, para ele, um car\u00e1ter de negatividade ao evocar a no\u00e7\u00e3o de que \u201cs\u00f3 tolero o que, se pudesse escolher, n\u00e3o toleraria\u201d.<\/p>\n<p>Para Ricardo Timm, a no\u00e7\u00e3o de toler\u00e2ncia pode ser repensada \u00e0 luz das id\u00e9ias de Jacques Derrida, fil\u00f3sofo franc\u00eas que prop\u00f4s o deslocamento para o conceito da hospitalidade. De acordo com o professor da PUC-RS, a categoria da toler\u00e2ncia \u00e9 insuficiente para dar respostas aos fen\u00f4menos da viol\u00eancia que transcendem o estatuto da raz\u00e3o. \u201cA no\u00e7\u00e3o de hospitalidade n\u00e3o sugere concess\u00e3o. Ela pressup\u00f5e que a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma certeza de seguran\u00e7a ou uma formalidade, mas uma facticidade inelut\u00e1vel que deriva do viver com outras singularidades que n\u00e3o s\u00e3o m\u00f4nadas. A hospitalidade \u00e9 a virtude social positiva, ou seja, o que sucede a toler\u00e2ncia\u201d, argumenta Ricardo Timm.<\/p>\n<p>A hospitalidade tem sido uma possibilidade vi\u00e1vel, no horizonte social brasileiro? Movimentos ligados aos direitos sexuais e reprodutivos t\u00eam se confrontado com segmentos religiosos, especialmente evang\u00e9licos, em torno de diversas tem\u00e1ticas que esperam, no Congresso e no Executivo, encaminhamentos legais e administrativos. No m\u00eas de mar\u00e7o, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\u00a0<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/na-midia\/conteudo.asp?cod=10255\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">suspendeu a distribui\u00e7\u00e3o<\/a> nas escolas de kits educativos sobre o HIV\/Aids voltados para adolescentes, o que gerou protestos de movimentos sociais sobre as raz\u00f5es da medida \u2013 que estaria ligada a n\u00e3o confronta\u00e7\u00e3o com setores religiosos conservadores, j\u00e1 que a elei\u00e7\u00e3o presidencial \u00e9 no pr\u00f3ximo ano e a popula\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, especialmente, tem crescido significativamente no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tramita ainda na C\u00e2mara dos Deputados projeto de decreto legislativo que objetiva sustar resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Federal de Psicologia que pro\u00edbe que profissionais da \u00e1rea articulem e implementem terapias de \u201ccura\u201d da homossexualidade. A homossexualidade n\u00e3o \u00e9 considerada doen\u00e7a pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, organismo pol\u00edtico mundial de refer\u00eancia no campo da sa\u00fade. A Psiquiatria tamb\u00e9m n\u00e3o classifica o desejo por pessoas do mesmo sexo como uma enfermidade. As Ci\u00eancias Sociais, do mesmo modo, t\u00eam procurado demonstrar o car\u00e1ter cultural da experi\u00eancia sexual, desvinculando-a de determinismos naturalizantes.<\/p>\n<p>O caso brasileiro, no entanto, traz \u00e0 tona a opera\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e religi\u00e3o que setores dogm\u00e1ticos t\u00eam buscado realizar. Durante audi\u00eancia p\u00fablica sobre o projeto, realizada no final de 2012, o pastor Silas Malafaia, cr\u00edtico do que tem sido nomeado por tais setores como \u201cgayzismo\u201d, afirmou que \u00e9 leg\u00edtimo um profissional de Psicologia tratar algu\u00e9m que n\u00e3o se sinta bem em uma condi\u00e7\u00e3o e que, portanto, \u201ctodo paciente adulto com sa\u00fade mental tem direito a decidir sobre seu pr\u00f3prio corpo\u201d. O pastor foi defendido pelo deputado Marco Feliciano, cujo discurso tamb\u00e9m sustentou a l\u00f3gica da orienta\u00e7\u00e3o sexual como um fen\u00f4meno pass\u00edvel abordagem m\u00e9dica. Diante dos protestos na audi\u00eancia, o deputado lamentou a confus\u00e3o argumentando que a discuss\u00e3o era para um \u201cassunto cient\u00edfico\u201d que precisaria de mais entendimentos.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto \u00e9 poss\u00edvel pensar na hospitalidade diante de proposi\u00e7\u00f5es legais, baseadas em conte\u00fados religiosos, que se destinam a interferir nos direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBT? Estudo recente da advogada Rosa Oliveira mostrou que a atua\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas Poderes tem sido permeada, em boa medida, pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=10267\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">l\u00f3gica religiosa<\/a>. H\u00e1 propostas, por exemplo, com o objetivo de impedir a ado\u00e7\u00e3o por casais do mesmo sexo e de proibir a mudan\u00e7a de nome para indiv\u00edduos transexuais. A essencializa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia sexual e de g\u00eanero, pela moral religiosa, expressa uma l\u00f3gica determinista: setores religiosos orientam-se por discursos tradicionais, recortando o mundo apenas pelas suas no\u00e7\u00f5es de verdade. A defesa de categorias sociais e pressupostos inflex\u00edveis, como a ideia de homem e mulher opostos no g\u00eanero e complementares na reprodu\u00e7\u00e3o, tem pressionado o Estado brasileiro na sua tarefa de promover justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Para Ricardo Timm, \u00e9 necess\u00e1rio que se desnaturalize as diferen\u00e7as em todos os sentidos da palavra. \u201cToda naturaliza\u00e7\u00e3o tem levado ao que chamamos de \u2018folcloriza\u00e7\u00e3o\u2019 da diferen\u00e7a, \u00e0 sua domestica\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua despotencializa\u00e7\u00e3o enquanto dimens\u00e3o que, exatamente, no \u00e2mbito daquilo que o trauma da alteridade significa, cria e recria rela\u00e7\u00f5es humanas propriamente ditas\u201d, observa o fil\u00f3sofo, para quem a tem\u00e1tica da Justi\u00e7a necessita ser pensada como uma quest\u00e3o elementar que condiciona a pr\u00f3pria id\u00e9ia de racionalidade em desconstru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem sido comum a articula\u00e7\u00e3o de discursos de ordem cient\u00edfica e religiosa nas falas dos movimentos conservadores, especialmente os evang\u00e9licos. Seria essa uma maneira de buscar, atrav\u00e9s de um vocabul\u00e1rio racional, maior legitimidade para as representa\u00e7\u00f5es sobre g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual?<\/p>\n<p>De acordo com o antrop\u00f3logo Marcelo Natividade (Universidade Federal do Cear\u00e1-UFC), que tem pesquisado em sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica as interfaces entre doutrinas evang\u00e9licas e diversidade sexual, h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica de rep\u00fadio e desqualifica\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s sexualidades n\u00e3o heterossexuais e desvinculadas dos pap\u00e9is tradicionais do feminino e masculino. \u201cO movimento evang\u00e9lico \u00e9 muito plural. H\u00e1 os de vertente hist\u00f3rica, os pentecostais, os neopentecostais. No entanto, h\u00e1 uma unidade de sentido quanto \u00e0 homossexualidade. \u00c9 vista como abomin\u00e1vel, anti-natural, exclu\u00edda do campo do sagrado\u201d, afirma o antrop\u00f3logo.<\/p>\n<p>De acordo com Marcelo Natividade, a mescla entre religi\u00e3o e ci\u00eancia tem sido uma t\u00f4nica. Em sua pesquisa de mestrado, o professor da Universidade Federal do Cear\u00e1 observou casos de pessoas gays que s\u00e3o levadas para cl\u00ednicas de recupera\u00e7\u00e3o, onde s\u00e3o submetidas a uma pedagogia de g\u00eanero de modo que se possa realizar uma suposta convers\u00e3o do desejo para o sexo oposto. \u201cA quest\u00e3o da diversidade \u00e9 enquadrada no modelo hegem\u00f4nico heteroc\u00eantrico, no qual o suposto discurso cient\u00edfico muitas vezes \u00e9 usado como ferramenta pretensamente terap\u00eautica. \u00c9 nesse sentido que podemos ver o retrocesso que a proposta da cura da homossexualidade traz. Vamos voltar ao passado, quando os gays eram considerados doentes. H\u00e1 um movimento de repatologiza\u00e7\u00e3o da homossexualidade que deve ser combatido, porque nele se esconde o preconceito puro e simples, que se tenta amaciar com um verniz religioso e pseudocient\u00edfico\u201d, destaca Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o negativa da homossexualidade expressa pelos setores religiosos fala menos de religi\u00e3o, argumenta o antrop\u00f3logo, do que indica a exist\u00eancia de um p\u00e2nico moral. \u201cIsso significa dizer que interpreta\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias apontam para as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas do mesmo sexo como um perigo que amea\u00e7a outras esferas da sociedade. A fam\u00edlia, a heterossexualidade, a figura do feminino e do masculino estariam em xeque por causa dos homossexuais\u201d, argumenta o pesquisador, lembrando que a Igreja Cat\u00f3lica, atrav\u00e9s das declara\u00e7\u00f5es papais, por vezes se alinha a esses posicionamentos de rep\u00fadio.<\/p>\n<p>O destaque que a elei\u00e7\u00e3o do deputado Marco Feliciano \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e Minorias ganhou e a conseq\u00fcente onda de protestos de movimentos LGBT representam fatos que integram uma conjuntura maior. A bancada evang\u00e9lica cresceu significativamente nas elei\u00e7\u00f5es de 2010, alcan\u00e7ando o n\u00famero de 66 parlamentares (63 deputados e 3 senadores). \u00c9 um grupo que tem atuado ostensivamente no processo de reforma do C\u00f3digo Penal, que trata de temas sens\u00edveis moralmente, como aborto e homofobia. E tornou-se, para efeitos eleitorais, um eixo de composi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria relevante. De acordo com\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/1262640-dilma-foge-de-polemica-para-manter-paz-com-evangelicos.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">not\u00edcia do jornal Folha de S\u00e3o Paulo<\/a>, publicada no dia 15\/04, a presidente Dilma Rousseff pretende manter intocada as legisla\u00e7\u00f5es sobre aborto e casamento gay para n\u00e3o se indispor com a bancada evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>A bancada evang\u00e9lica, lembra Marcelo Natividade, \u00e9 um grupo com diferen\u00e7as internas. H\u00e1 posi\u00e7\u00f5es plurais, discursos que s\u00e3o negociados, como, por exemplo, na quest\u00e3o do aborto. Diferentemente da quest\u00e3o da homossexualidade, em torno da qual h\u00e1 um absoluto alinhamento quando tratada em n\u00edvel legal. \u201cO consenso \u00e9 o de barrar direitos para os gays\u201d, observa o antrop\u00f3logo, lembrando que em 1988, durante o processo da Constituinte, a express\u00e3o \u201corienta\u00e7\u00e3o sexual\u201d n\u00e3o foi inclu\u00edda no texto que tratava sobre discrimina\u00e7\u00f5es. \u201cA fala religiosa teve e tem um forte poder obstrutivo\u201d, completa Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>O enraizamento da religi\u00e3o nos espa\u00e7os pol\u00edticos \u00e9 geralmente criticado com o argumento de que o Brasil \u00e9 um estado laico. A previs\u00e3o de que o pa\u00eds n\u00e3o tenha uma religi\u00e3o oficial, posicionando-se institucionalmente de maneira neutra em rela\u00e7\u00e3o a assuntos religiosos, n\u00e3o ocorre na pr\u00e1tica. Sabe-se que o pa\u00eds tem um quadro de conflitos entre religi\u00f5es que muitas vezes se concretiza com invas\u00f5es de espa\u00e7os religiosos, especialmente em rela\u00e7\u00e3o a doutrinas afro-brasileiras. As a\u00e7\u00f5es no intuito de promover uma conviv\u00eancia pac\u00edfica, hospitaleira, enfrentam resist\u00eancias nas mais variadas institui\u00e7\u00f5es. Marcelo Natividade, que atua com projetos educativos, afirma que h\u00e1 grandes dificuldades de se tratar a escola como espa\u00e7o laico. \u201cAs propostas de levar \u00e0 tem\u00e1tica da diversidade sexual enfrentam resist\u00eancia nas dire\u00e7\u00f5es, nos corpos docentes, nos pais dos alunos. A articula\u00e7\u00e3o entre sexualidade e religi\u00e3o e mesmo entre religi\u00f5es \u00e9 muito dif\u00edcil, repleta de conting\u00eancias\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A universalidade dos direitos tem sido questionada com o argumento de que \u00e9 preciso levar em conta os valores religiosos. Para Marcelo Natividade,est\u00e1 em jogo mais do que a liberdade de culto e de express\u00e3o de valores religiosos. \u201cVejo que a luta pela preserva\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es de poder \u00e9 o objetivo. O proselitismo religioso \u00e9 apenas um pretexto. Os direitos da mulher j\u00e1 s\u00e3o reconhecidos e, embora concep\u00e7\u00f5es sexistas e mis\u00f3ginas permane\u00e7am, ningu\u00e9m mais aceita a id\u00e9ia de que os homens s\u00e3o superiores a elas. O mesmo vale para os negros no caso do racismo: apesar de existir, a id\u00e9ia de superioridade branca n\u00e3o \u00e9 mais aceita. No caso dos homossexuais, no entanto, predomina socialmente uma id\u00e9ia de inferioridade em rela\u00e7\u00e3o aos heterossexuais. Os movimentos religiosos, dos quais os evang\u00e9licos s\u00e3o ator de grande peso nos espa\u00e7os pol\u00edticos, n\u00e3o querem perder suas posi\u00e7\u00f5es e estruturas de poder. E usam a quest\u00e3o da diversidade sexual como ferramenta de preserva\u00e7\u00e3o desse status\u201d, argumenta Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>Para Marcelo Natividade, o avan\u00e7o da bancada evang\u00e9lica sobre a tem\u00e1tica dos direitos sexuais representa, inclusive, uma afronta \u00e0 liberdade religiosa dos indiv\u00edduos LGBT que s\u00e3o crist\u00e3os e pertencem a denomina\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas. \u201cH\u00e1 mecanismos de puni\u00e7\u00e3o, dentro de correntes evang\u00e9licas, que punem at\u00e9 com expuls\u00e3o o fiel que se revela homossexual. \u00c9 um grau de controle e vigil\u00e2ncia muito invasivo, desrespeitoso, como se o exerc\u00edcio da religi\u00e3o fosse monop\u00f3lio de poucos privilegiados\u201d, critica.<\/p>\n<p>Seria o tom muitas vezes utilizado, comparando, por exemplo, rela\u00e7\u00f5es gays \u00e0 malignidade, um discurso de \u00f3dio? Para Marcelo Natividade, sim. \u201cEssas falas agressivas poucas vezes falam de religi\u00e3o. S\u00e3o discursos estereotipados, que fomentam o \u00f3dio e a discrimina\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito grave um parlamentar ou autoridade qualquer se pronunciar de maneira pejorativa, de ataque\u201d, argumenta, sendo favor\u00e1vel que o projeto de lei (PL 122) que criminaliza a homofobia possa ser aplicado at\u00e9 mesmo dentro dos templos, o que tem gerado forte oposi\u00e7\u00e3o da bancada evang\u00e9lica sob a justificativa de que violaria a liberdade de culto. \u201cSe um negro se sente ofendido dentro de uma igreja, ele pode fazer queixa \u00e0 pol\u00edcia. Por que isso n\u00e3o valeria no caso dos gays?\u201d, opina Marcelo Natividade.<\/p>\n<p>A bancada evang\u00e9lica tem se posicionado de maneira resistente. O deputado Marco Feliciano, apesar de semanas sendo alvo de protestos no Congresso e na m\u00eddia, permanece na presid\u00eancia da Comiss\u00e3o. Os protestos, inclusive, serviram para que a bancada afirmasse que h\u00e1 em curso um movimento de intoler\u00e2ncia religiosa. \u201cQuando direitos est\u00e3o em jogo, as coisas adquirem propor\u00e7\u00f5es maiores. Penso que a popula\u00e7\u00e3o LGBT \u00e9 um alvo hist\u00f3rico de injusti\u00e7as que lhes retiram direitos e afetam a dignidade. As demandas s\u00e3o colocadas em pauta e fica dif\u00edcil negociar quando o advers\u00e1rio ataca por meio de argumentos desqualificantes, que inferiorizam. A bancada alega ser contra a pr\u00e1tica homossexual, mas n\u00e3o contra o gay. Nunca os ouvi se manifestar contra a pena de morte aos gays que tramita em Uganda. Que religi\u00e3o \u00e9 essa que advoga o privil\u00e9gio do tratamento diferenciado, que \u00e0s vezes embasa discursos de \u00f3dio, e que se cala diante da pena de morte?\u201d, opina Natividade.<\/p>\n<p>Apesar do panorama de fortalecimento pol\u00edtico de grupos religiosos, especialmente do evang\u00e9lico, Marcelo Natividade pontua que h\u00e1 igrejas inclusivas que buscam um respaldo b\u00edblico mais contextualizado, diante das crescentes demandas por direitos. \u201cN\u00e3o s\u00e3o movimentos, no entanto, ainda reconhecidos. N\u00e3o encontram espa\u00e7os de express\u00e3o, seja dentro do movimento evang\u00e9lico, seja nos espa\u00e7os pol\u00edticos. Mas \u00e9 um sinal de que \u00e9 poss\u00edvel dar um outro sentido \u00e0 religi\u00e3o, atrelado ao respeito e \u00e0 dignidade\u201d, afirma o professor da UFC, que lan\u00e7ar\u00e1 em maio o livro \u201cAs novas guerras sexuais: diferen\u00e7a, poder religioso e identidades LGBT no Brasil&#8221;, juntamente com o antrop\u00f3logo Leandro de Oliveira.<\/p>\n<p>O reconhecimento de identidades, desejos e comportamentos n\u00e3o convencionais tem sido um processo lento e tenso. Nenhuma mudan\u00e7a, no entanto, vem sem resist\u00eancias. Apesar da conjuntura, o pa\u00eds tem testemunhado uma discuss\u00e3o mais aberta, o que prova que a tem\u00e1tica tem adquirido legitimidade pol\u00edtica. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o estaria em pauta nos espa\u00e7os legislativos, mobilizando movimentos sociais e parte da sociedade. A situa\u00e7\u00e3o atual envolve, mais do que temas religiosos, valores culturalmente arraigados, num pa\u00eds cuja experi\u00eancia sexual e de g\u00eanero \u00e9 marcada por hierarquias, desigualdades e rela\u00e7\u00f5es de poder. Os desafios que os direitos sexuais imp\u00f5em articulam-se a costumes e discursos historicamente constitu\u00eddos. Podem tais desafios ser considerados um sinal em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de hospitalidade, que projete uma negocia\u00e7\u00e3o mais inclusiva entre religi\u00e3o e pol\u00edtica e aceite a universalidade dos direitos independente de convic\u00e7\u00f5es? Para Ricardo Timm, da PUC-RS, sim. \u201cO profetismo b\u00edblico mais remoto faz ecoar hoje seu anseio por justi\u00e7a. A \u2018loucura pela justi\u00e7a\u2019 \u2013 express\u00e3o de Derrida \u2013 nos move no mundo. \u00c9 a exterioriza\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a profunda de que a esperan\u00e7a n\u00e3o morre e que, portanto, o que desejamos n\u00e3o \u00e9 a paz dos cemit\u00e9rios, mas a paz da vida e da consci\u00eancia moral tranquila\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.clam.org.br\/destaque\/conteudo.asp?cod=10387\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CLAM<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Estado constitucionalmente laico, o Brasil tem sido palco para um debate cada vez mais incitado: at\u00e9 que ponto o casamento entre pol\u00edtica e religi\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo, especialmente na elabora\u00e7\u00e3o de leis e pol\u00edticas p\u00fablicas? Em que medida a atividade religiosa parlamentar expressa valores que podem levar ao discurso de \u00f3dio e \u00e0 intoler\u00e2ncia? 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