{"id":25279,"date":"2013-09-19T16:36:30","date_gmt":"2013-09-19T19:36:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=25279"},"modified":"2013-09-19T16:36:30","modified_gmt":"2013-09-19T19:36:30","slug":"o-dinheiro-sumiu-da-escola-e-a-educacao-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=25279","title":{"rendered":"O dinheiro sumiu da escola; e a educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Escola sem teto\" src=\"http:\/\/www.apublica.org\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/600x380x4_anajas_ruinas-600x380.jpg.pagespeed.ic.rcV-ScbbUr.jpg\" alt=\"Escola sem teto\" width=\"360\" height=\"228\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Da <a href=\"http:\/\/www.apublica.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">P\u00fablica &#8211; Ag\u00eancia de Reportagem e Jornalismo Investigativo<\/a><\/p>\n<p>Um aluno da 1<sup>a<\/sup> s\u00e9rie assiste \u00e0 aula encharcado. Ele caiu  do barco de madeira superlotado que faz o transporte escolar. Na mesma  cidade, funcion\u00e1rios da prefeitura circulam em lanchas enviadas pelo  Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, equipadas com colete salva-vidas.<\/p>\n<p>Um professor com problemas de sa\u00fade recorre ao INSS (Instituto  Nacional de Seguridade Social) e descobre que n\u00e3o tem direito ao  benef\u00edcio. Suas contribui\u00e7\u00f5es, descontadas mensalmente h\u00e1 15 anos na  folha de pagamento, nunca foram recolhidas pela prefeitura.<\/p>\n<p>Pais t\u00eam medo de deixar os filhos na escola. As paredes foram  pintadas por fora, mas por dentro rachaduras se estendem do teto ao  piso. Na presta\u00e7\u00e3o de contas da secretaria municipal de Educa\u00e7\u00e3o, mais  de um milh\u00e3o de reais gastos em reforma.<\/p>\n<p>Escolas fecham as portas uma hora mais cedo. A merenda, que deveria  durar todo o m\u00eas, acaba em menos de duas semanas \u2013 e os professores n\u00e3o  conseguem ensinar aos alunos com fome. Nas notas fiscais da prefeitura,  os alimentos foram comprados. Por at\u00e9 tr\u00eas vezes o pre\u00e7o do mercado  local.<\/p>\n<p>Os casos acima s\u00e3o uma amostra da s\u00e9rie de crimes cometidos contra os  estudantes do Par\u00e1. As evid\u00eancias de desvio de recursos \u2013 e as suas  consequ\u00eancias \u2013 s\u00e3o encontradas fartamente dentro das escolas. Aqui, a  rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito \u00e9 clara: quanto mais corrup\u00e7\u00e3o, pior \u00e9 o  ensino oferecido.<\/p>\n<p>Antes de chegar a essa conclus\u00e3o, a P\u00fablica coletou informa\u00e7\u00f5es sobre a <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2012\/07\/amazonia-1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">qualidade da educa\u00e7\u00e3o no norte do pa\u00eds<\/a> e fez um <a href=\"http:\/\/apublica.org\/2012\/07\/infografico-interativo-os-caminhos-da-corrupcao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">detalhado cruzamento dos dados sobre os desvios na verba<\/a> que deveria ser investida nas escolas do Par\u00e1. Depois, visitou as  escolas do Par\u00e1, estado que divide com o Amap\u00e1 o \u00faltimo lugar no ranking  em\u00a0educa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o norte, por sua vez a que oferece pior ensino no  pa\u00eds, de acordo com os novos resultados do \u00cdndice de Desenvolvimento da  Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reportagem visitou as cidades de Portel e Anaj\u00e1s, ambas na Ilha de  Maraj\u00f3. Anaj\u00e1s foi a campe\u00e3 paraense de irregularidades na educa\u00e7\u00e3o  detectadas nas fiscaliza\u00e7\u00f5es feitas pela CGU ao longo de 2010 e 2011.  Portel foi uma das cidades onde houve condena\u00e7\u00e3o do prefeito devido a  desvios da verba para as escolas. A ideia da visita era a descobrir se a  puni\u00e7\u00e3o surtiu efeito sobre o modo como o novo prefeito gere a  educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A verba para educa\u00e7\u00e3o repassada pelo governo federal representa mais  de 70% da receita dessas prefeituras, como acontece em 25% dos  munic\u00edpios brasileiros. Boa parte dela \u00e9 proveniente do Fundeb, (Fundo  de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica), que distribui os  recursos da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica em todo o pa\u00eds. Os recursos se destinam ao  pagamento de diretores, professores e coordenadores, aquisi\u00e7\u00e3o de  equipamentos e reparos. As verbas para merenda, transporte, constru\u00e7\u00e3o  de escolas e livros did\u00e1ticos vem atrav\u00e9s de conv\u00eanios diretos com o  Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC).<\/p>\n<p>Portel, 52 mil habitantes, recebeu 40,7 milh\u00f5es do Fundeb em 2011;  Anaj\u00e1s, 25 mil habitantes, recebeu 20,2 milh\u00f5es. Pelo peso que t\u00eam na  receita, as escolas deveriam oferecer o melhor servi\u00e7o p\u00fablico dessas  cidades. N\u00e3o \u00e9 o que se v\u00ea nas salas de aula.<\/p>\n<h3><strong>S\u00f3 o esqueleto<\/strong><\/h3>\n<p>De fora, a pequena escola Coquirij\u00f3, uma das 177 escolas rurais que  ficam \u00e0 beira dos rios de Anaj\u00e1s, parece bem cuidada. As telhas s\u00e3o  novas e as paredes brancas valorizam o verde bem pintado nas janelas e  no nome do col\u00e9gio. Na sala da professora Darlene Lobato, 23 anos, os  alunos da 4<sup>a<\/sup> s\u00e9rie copiam em cadernos e folhas sulfite  providenciados pela professora a li\u00e7\u00e3o sobre \u201cn\u00fameros naturais\u201d, que  enche a lousa, enquanto os meninos da 1<sup>a<\/sup> \u00e0 3<sup>a<\/sup> s\u00e9rie tentam ler juntos o papel em que a professora transcreveu a  cartilha \u00e0 caneta. \u00c9 o recurso dispon\u00edvel para alfabetiz\u00e1-los.<\/p>\n<p>No canto da sala, alguns livros empilhados na prateleira. \u201cQuem dera  pudesse trabalhar com eles, s\u00e3o muito distantes da nossa realidade\u201d, ela  diz. \u201cEsses livros t\u00eam textos dif\u00edceis, nem os alunos da 4<sup>a<\/sup> s\u00e9rie entendem. Alguns ainda n\u00e3o sabem ler\u201d.<\/p>\n<p>Observando de perto, os livros est\u00e3o sujos e comidos por insetos.  Darlene conta que foi um professor quem providenciou as prateleiras  recentemente: \u201cAntes, os livros ficavam no ch\u00e3o, amanhecia tudo  molhado\u201d.<\/p>\n<p>A escola foi entregue pela prefeitura sem acabamento. Na cozinha, n\u00e3o  h\u00e1 mesa ou prateleira. Merenda, pratos, copos e panelas ficam no ch\u00e3o.  Por um defeito da tubula\u00e7\u00e3o, a caixa d\u2019\u00e1gua n\u00e3o funciona, alunos e  professores buscam \u00e1gua do rio com um balde.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 eletricidade. \u00c0 noite, a professora e a servente, que dormem  na escola pois moram longe, na cidade, dormem de vela acesa enroladas em  redes para se proteger dos morcegos. Darlene tem planos de mandar fazer  um forro, mas \u00e9 dif\u00edcil juntar dinheiro quando ela tem que tirar do  bolso caderno, l\u00e1pis e xerox para os alunos que n\u00e3o podem pagar e n\u00e3o  recebem o que t\u00eam direito e foi repassado do MEC para a prefeitura.<\/p>\n<p>Seguindo pelo mesmo rio Anaj\u00e1s, na comunidade Marituba, encontra-se a  Escola Municipal Valdomiro Freitas, que fica em cima de um trapiche  para evitar alagamento nas \u00e9pocas de cheia. A escola foi pintada  recentemente, com o mesmo verde e branco, mas a estrutura de madeira que  cerca o trapiche para impedir quedas \u2013 ele est\u00e1 a alguns metros do ch\u00e3o  \u2013 est\u00e1 solta. A merenda \u00e9 insuficiente e os alunos bebem da \u00e1gua do  rio, sem tratamento. Como Anaj\u00e1s fica no centro da Ilha de Maraj\u00f3, e n\u00e3o  h\u00e1 estradas, os rios s\u00e3o a principal via de transporte e de escoamento  do esgoto.<\/p>\n<h3><strong>Sem escola e sem aula<\/strong><\/h3>\n<p>Al\u00e9m desses dois col\u00e9gios, a reportagem visitou mais quatro na zona  rural de Anaj\u00e1s: tr\u00eas estavam sem aula em plena quinta-feira. \u201cEssa  escola passa mais tempo fechada do que aberta\u201d, diz o lavrador\u00a0 Fabr\u00edcio  Paiva, que trabalha na frente da escola Laranjal. Ele conta que, mesmo  quando tem aula, \u00e9 comum ver os alunos saindo uma hora mais cedo. \u201cIsso  quando eles n\u00e3o ficam s\u00f3 uma hora l\u00e1 dentro\u201d, diz. \u201cTem uma conversa que  a professora foi pra Bel\u00e9m aprimorar seus conhecimentos. E o  conhecimento dos meninos, como fica?\u201d<\/p>\n<p>Na escola S\u00e3o Francisco, n\u00e3o houve aula porque o barco respons\u00e1vel  pelo transporte estava quebrado. O professor Pedro Cl\u00e9rio Sobrinho mora  ao lado da escola, ou melhor, das ru\u00ednas da escola abandonada h\u00e1 quatro  anos, quando os furos no teto e as rachaduras na parede come\u00e7aram a  assustar. Pedro levou a lousa e as carteiras para um galp\u00e3o de madeira e  teto de palha constru\u00eddo pelos moradores para festas e reuni\u00f5es \u2013 e \u00e9  ali que a escola funciona, como acontece em outras escolas do interior  de Anaj\u00e1s e de Portel.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 fizemos at\u00e9 abaixo assinado: ou conserta essa, ou faz outra. Aqui  n\u00e3o \u00e9 local de ensino\u201d. Mas n\u00e3o teve resposta. O professor tamb\u00e9m n\u00e3o  foi atendido quando pediu cadernos, l\u00e1pis, apontador e borracha esse  ano. \u201cS\u00f3 veio folha de papel\u201d.<\/p>\n<p>Pedro \u00e9 professor desde 1986 e at\u00e9 hoje \u00e9 tempor\u00e1rio. Ele j\u00e1 tentou o  concurso para se tornar efetivo tr\u00eas vezes, mas n\u00e3o passou na prova. S\u00f3  estudou at\u00e9 o antigo magist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Como ele, muitos respons\u00e1veis pelo ensino na zona rural n\u00e3o t\u00eam  ensino superior. At\u00e9 2007, professores com magist\u00e9rio podiam dar aula  para 1<sup>as<\/sup> \u00e0 4<sup>as<\/sup> s\u00e9rie. Desde que o diploma passou a  ser obrigat\u00f3rio para lecionar em todas as etapas, multiplicaram-se as  faculdades privadas que oferecem cursos de pedagogia \u00e0 dist\u00e2ncia com  dura\u00e7\u00e3o de dois anos.<\/p>\n<figure style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.apublica.org\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/600x380x1_sta_luzia-600x380.jpg.pagespeed.ic.pJvoTChXwQ.jpg\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"266\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p>Muitos professores da Ilha de Maraj\u00f3 se matricularam em faculdades,  mas nem todos podem levar a gradua\u00e7\u00e3o \u00e0 s\u00e9rio. A reportagem conversou  com uma professora da zona rural que contou, com bastante naturalidade<ins datetime=\"2012-08-27T20:07\" cite=\"mailto:Ana%20Aranha\">,<\/ins> que seu irm\u00e3o faz todas as atividades em seu nome. \u201cEle me ajuda porque  estou isolada aqui, sem computador n\u00e3o d\u00e1 para cursar\u201d. Essa  professora, que se formou no Ensino M\u00e9dio h\u00e1 tr\u00eas anos, \u00e9 respons\u00e1vel  pela forma\u00e7\u00e3o de uma turma de 30\u00a0 alunos da 1<sup>a<\/sup> \u00e0 4<sup>a<\/sup> s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Para remediar a defici\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o dos professores, o MEC  oferece \u00e0s prefeituras conv\u00eanios de capacita\u00e7\u00e3o. Em mar\u00e7o de 2006,  Anaj\u00e1s recebeu R$ 197 mil para um curso de 15 dias para cem professores  da \u00e1rea rural que seria ministrado por quatro educadores de Bel\u00e9m. O  or\u00e7amento inclu\u00eda tudo: os honor\u00e1rios dos educadores, alimenta\u00e7\u00e3o,  viagem e estadia na cidade para todos. Mas, na pr\u00e1tica, o curso durou  cinco dias e foi ministrado por uma educadora de Bel\u00e9m, a \u00fanica a ter a  viagem e hospedagem pagas. Os cem professores da zona rural viajaram e  se hospedaram na cidade por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Por meio de outro conv\u00eanio, a prefeitura recebeu ainda R$ 126.800  para a compra de materiais escolares. A ideia era que os professores da  zona rural sa\u00edssem do curso com mais de 6 mil kits para os alunos com  r\u00e9gua, borracha, apontador, cadernos e diversos tipos de papeis, l\u00e1pis e  canetas. Mas, segundo os pr\u00f3prios professores, nenhum deles recebeu o  kit.<\/p>\n<p>A den\u00fancia foi feita por meio do Sintepp, o Sindicato dos  Trabalhadores da Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica no Par\u00e1. \u201cS\u00e3o muitos os desvios de  verba, aqui a coisa \u00e9 escancarada. A gente decidiu se dedicar para  provar um caso, de ponta a ponta\u201d, diz o presidente do sindicato em  Anaj\u00e1s, Aldomir Ricardo Borges de Menezes, ou Doca, como ele \u00e9 conhecido  na cidade.<\/p>\n<h3><strong>A pasta de Doca<\/strong><\/h3>\n<p>O sindicato reuniu relatos dos professores, notas fiscais, repasses  com as descri\u00e7\u00f5es do conv\u00eanio e acionou diversas inst\u00e2ncias de  investiga\u00e7\u00e3o para provar o desvio de verbas ao menos nesse caso do curso  de capacita\u00e7\u00e3o. A C\u00e2mara dos Vereadores abriu uma Comiss\u00e3o Parlamentar  de Inqu\u00e9rito e, em agosto de 2008, cassou o mandato do prefeito Edson  Barros, ent\u00e3o do PP.<\/p>\n<p>Em sua defesa, o prefeito argumentou que o conv\u00eanio foi inteiramente  cumprido. Segundo ele, o erro da secretaria de educa\u00e7\u00e3o teria sido  meramente formal: esqueceram de passar a lista de presen\u00e7a e de fazer o  recibo para os kits e hospedagem.<\/p>\n<p>O argumento convenceu a Justi\u00e7a Estadual, que concedeu liminar para  ele voltar ao cargo \u2013 onde permanece at\u00e9 hoje. Esse ano, tenta eleger  sua vice-prefeita pelo PSD (partido criado em 2010 por Gilberto Kassab,  prefeito de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Doca vem colecionando documentos sobre desvios de verba  da educa\u00e7\u00e3o de Anaj\u00e1s \u2013 e que n\u00e3o se restringem ao epis\u00f3dio do curso.  Ele j\u00e1 tem duas pastas cheias. H\u00e1 dezenas de cartas assinadas por  professores e funcion\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Pol\u00edcia Federal e ao Minist\u00e9rio  P\u00fablico pedindo ajuda e sigilo.<\/p>\n<p>Uma das cartas denuncia o desvio de recursos no fornecimento de  alimentos \u00e0s creches municipais. Segundo os funcion\u00e1rios, as creches  Luluzinha e Bolinha nunca receberam os 3 fardos de frango, 24 ma\u00e7os de  couve-flor e 250 litros de leite que constam na planilha de presta\u00e7\u00e3o de  contas assinada pelo secret\u00e1rio de finan\u00e7as da cidade. A alimenta\u00e7\u00e3o  servida para as crian\u00e7as costuma ser macarr\u00e3o, sopa, mingau e biscoito.<\/p>\n<p>Outro documento aponta \u00a0superfaturamento da merenda para os alunos  mais velhos.\u00a0 Na planilha da prefeitura, o suco de caju vale R$ 5,20 a  unidade, enquanto no mercado local o mesmo suco custa R$ 2.<\/p>\n<p>Parte dessas den\u00fancias foram investigadas pela Controladoria Geral da  Uni\u00e3o, que enviou uma equipe para passar um pente fino nas contas  p\u00fablicas de Anaj\u00e1s em 2010. Foram 42 constata\u00e7\u00f5es de irregularidades,  que est\u00e3o sendo investigadas pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal do Par\u00e1.<\/p>\n<p>E ainda h\u00e1 den\u00fancias que ficaram de fora do relat\u00f3rio. P\u00fablica  entrevistou diversos funcion\u00e1rios que dizem que a prefeitura n\u00e3o repassa  ao INSS as contribui\u00e7\u00f5es descontadas de seus sal\u00e1rios. Pelo menos dois  professores mostraram \u00e0 reportagem suas folhas de pagamento com os  descontos mensais e o documento de consulta oficial no INSS, onde consta  que sequer existe um cadastro em seu nome.<\/p>\n<p>\u201cFui a um advogado previdenci\u00e1rio, ele disse que isso \u00e9 crime de  apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita\u201d, diz uma professora, que n\u00e3o quer se identificar.  Ela precisa do benef\u00edcio para um tratamento m\u00e9dico, mas teme sofrer  repres\u00e1lias se entrar com uma a\u00e7\u00e3o. \u201cEles me transferem para uma escola  rural a dois dias da cidade, n\u00e3o quero ficar longe dos meus filhos\u201d.<\/p>\n<p>Na pasta de Doca, h\u00e1 algumas cartas falando sobre a chegada da  fiscaliza\u00e7\u00e3o da CGU. Depois que a controladoria avisou a prefeitura que  suas contas passariam pelo pente fino, observou-se uma movimenta\u00e7\u00e3o  at\u00edpica na cidade. \u201cAssim que foi divulgado o sorteio, vimos um mutir\u00e3o  de contadores e t\u00e9cnicos em contabilidade vindo e voltando de avi\u00e3o,  trazendo documentos e levando para Bel\u00e9m. Asseguro que foram mais de 10  fretes de aeronaves nesse per\u00edodo, como tamb\u00e9m amanheciam e anoiteciam  no setor de contabilidade da prefeitura\u201d, diz uma das cartas enviadas \u00e0  Pol\u00edcia Federal sobre o epis\u00f3dio.<\/p>\n<h3><strong>Prefeitura tenta calar professores<\/strong><\/h3>\n<p>A maior parte das den\u00fancias \u00e9 an\u00f4nima pois as pessoas temem  retalia\u00e7\u00e3o. Funcion\u00e1rios dizem que sofreram coa\u00e7\u00e3o para assinar  documentos atestando a chegada de materiais que nunca viram. \u201cEm Anaj\u00e1s a  gente tem escolha, assina o recibo ou a carta de demiss\u00e3o\u201d, ironiza um  professor.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de presidente do sindicato, Doca faz parte do conselho do  Fundeb, respons\u00e1vel por fiscalizar a aplica\u00e7\u00e3o de recursos e aprovar as  contas do fundo. Mas ele diz que n\u00e3o \u00e9 convocado para uma reuni\u00e3o h\u00e1  mais de um ano. \u201cTeve uma vez que eles me esperaram sair da cidade por  uma semana para convocar uma reuni\u00e3o \u00e0s pressas. Agora estou sempre  aqui, n\u00e3o sei como est\u00e3o aprovando as contas\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cSe tem algu\u00e9m aprovando as contas de Anaj\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 o conselho\u201d, diz  outro membro do conselho que n\u00e3o quer se identificar. Essa den\u00fancia foi  encaminhada ao Tribunal de Contas do Estado, em Bel\u00e9m, h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>O prefeito e a secret\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram localizados para  responder \u00e0s den\u00fancias. Segundo o diretor de ensino da cidade, Silas de  Jesus, eles estavam viajando pelo interior, onde n\u00e3o pega celular.  Segundo Silas, o conselho n\u00e3o se re\u00fane porque os membros t\u00eam outras  atividades remuneradas e n\u00e3o v\u00e3o \u00e0s reuni\u00f5es.<\/p>\n<p>Doca, que j\u00e1 foi demitido duas vezes e est\u00e1 h\u00e1 cinco anos \u00e0 frente do  Sintepp, n\u00e3o esconde a frustra\u00e7\u00e3o. \u201cEstou desanimado. Vamos ver se  aparece outra pessoa para continuar\u201d, diz, e explica: \u201cJ\u00e1 cansamos de  enviar todas essas informa\u00e7\u00f5es para a Justi\u00e7a, Pol\u00edcia Federal,  Minist\u00e9rio P\u00fablico, Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. E nada acontece\u201d.<\/p>\n<p>Em Portel, os conselhos tamb\u00e9m n\u00e3o funcionam como deveriam. \u201cEm um  ano, n\u00e3o vimos uma presta\u00e7\u00e3o de contas\u201d, diz Roseane Gon\u00e7alves Silva,  representante dos funcion\u00e1rios no conselho do Fundeb de Portel.<\/p>\n<p>Ela leva sua c\u00e2mera fotogr\u00e1fica sempre que o grupo vai visitar as  escolas e anota todos os problemas que n\u00e3o podem ser maquiados: salas  pequenas, sem seguran\u00e7a, abafadas, escuras. \u201cNo interior \u00e9 mais dif\u00edcil,  s\u00f3 vamos quando a secretaria d\u00e1 transporte. Mesmo assim, s\u00e3o muitas  irregularidades\u201d, diz.<\/p>\n<p>Aos 26 anos, Roseane \u00e9 formada em qu\u00edmica e est\u00e1 fazendo  p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o escolar. Trabalha como auxiliar de secret\u00e1ria.  Ela sabe que dificilmente ser\u00e1 convidada pela prefeitura para um cargo  melhor, mas pretende entrar por um concurso.<\/p>\n<h3><strong>Blog dos professores<\/strong><\/h3>\n<p>Apesar das dificuldades, tanto em Portel quanto em Anaj\u00e1s h\u00e1 um grupo  de professores que segue denunciando os problemas que enxergam na  educa\u00e7\u00e3o. E que vem ganhando for\u00e7a, principalmente em Portel, a partir  do <a href=\"http:\/\/educadoresdeportel.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">blog do professor Ronaldo de Deus Machado<\/a>, que busca as ferramentas de transpar\u00eancia do governo federal para fiscalizar.<\/p>\n<p>Sempre que<a href=\"http:\/\/www.tesouro.fazenda.gov.br\/estados_municipios\/municipios.asp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> o Minist\u00e9rio da Fazenda divulga as verbas liberadas para as escolas<\/a> da cidade, Ronaldo coloca os valores no blog. \u201cMas ainda \u00e9 pouca  informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o temos os detalhes de onde esse dinheiro deveria ser  investido\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Portel tamb\u00e9m recebeu uma visita da Controladoria Geral da Uni\u00e3o, em  2004, quando a equipe de fiscais encontrou uma s\u00e9rie de ind\u00edcios de  corrup\u00e7\u00e3o com a verba da educa\u00e7\u00e3o. Entre elas, fraude de licita\u00e7\u00e3o,  superfaturamento e notas fiscais referentes a materiais n\u00e3o localizados.  Entre eles, um laptop de 3 mil reais e mais de 50 mesas e cadeiras que  nunca foram entregues.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias levaram \u00e0 abertura de investiga\u00e7\u00f5es no Minist\u00e9rio  P\u00fablico Federal e, no come\u00e7o desse ano, o ex-prefeito Elquias Nunes da  Silva Monteiro foi condenado por uma das muitas irregularidades  detectadas: desvio da verba para sal\u00e1rio dos professores. Em 2000,  quando era prefeito, ele deixou de repassar 120 mil reais para o  pagamento de professores. Foi condenado por improbidade administrativa,  teve os direitos suspensos at\u00e9 2017 e obrigado a pagar uma multa de 300  mil reais, mas n\u00e3o era mais prefeito quando foi condenado. Na elei\u00e7\u00e3o  desse ano, Elquias Monteiro, que n\u00e3o quis falar com a P\u00fablica \u2013 tenta  eleger o filho para vereador.<ins datetime=\"2012-08-27T20:15\" cite=\"mailto:Ana%20Aranha\"> <\/ins><\/p>\n<p>A condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece mesmo ter surtido efeito em Portel. O atual  prefeito demitiu 1.131 professores e funcion\u00e1rios tempor\u00e1rios em junho e  recontratou 1.024 deles no come\u00e7o de agosto. Tudo para n\u00e3o pagar as  f\u00e9rias dos tempor\u00e1rios, que representam 44% dos professores.<\/p>\n<p>\u201cFoi necess\u00e1rio para minimizar os problemas no fechamento do mandato.  Economizamos 100 mil reais\u201d, disse o secret\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o Paulo H\u00e9lio  Tavares Gomes J\u00fanior, que assumiu a pasta h\u00e1 dois meses, quando a  ex-secret\u00e1ria saiu para concorrer \u00e0 prefeitura.<\/p>\n<p>Questionado sobre o mesmo ponto, Pedro Barbosa, atual prefeito pelo  PMDB, deu uma resposta diferente: \u201cEles receberam as f\u00e9rias sim, todos  receberam. Isso \u00e9 reclama\u00e7\u00e3o de professor que n\u00e3o sabe fazer conta\u201d.<\/p>\n<h3><strong>A escola paga a conta<\/strong><\/h3>\n<p>Para manter uma estrutura m\u00ednima funcionando em Portel, os diretores e  professores t\u00eam que se virar para encontrar recursos e alternativas  para multiplic\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que a escola Abel Nunes Figueiredo construiu a estrutura que  hoje lhe rende o t\u00edtulo de melhor escola da cidade. Seus banheiros  funcionam, h\u00e1 uma quadra coberta, um laborat\u00f3rio de inform\u00e1tica e um  audit\u00f3rio climatizado que \u00e9 usado at\u00e9 pela secretaria para palestras e  eventos.<\/p>\n<p>A maior parte dessa estrutura foi constru\u00edda pela escola em  \u201cparceria\u201d com a prefeitura \u2013 o que na pr\u00e1tica significa o corpo docente  ir atr\u00e1s de conv\u00eanios diretos com o MEC, como o Programa Dinheiro  Direto na Escola (PDDE), que libera cerca de 10 mil reais por ano, e  depois que o dinheiro acaba, receber uma \u201cajuda\u201d da prefeitura. Al\u00e9m  disso, professores e funcion\u00e1rios promovem festas com os pais dos  alunos.<\/p>\n<p>Foi assim que, nos \u00faltimos tr\u00eas anos, a escola construiu a sala de  inform\u00e1tica, dois banheiros, reformou a sala dos professores, nivelou o  piso e come\u00e7ou a fazer o audit\u00f3rio. Al\u00e9m de comprar lousas novas, jogos  educativos, impressoras, mime\u00f3grafo e computadores para a secretaria.<\/p>\n<p>Quando o dinheiro acabou, a prefeitura terminou de fazer o audit\u00f3rio e pintou tudo.<\/p>\n<p>Na zona rural a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dif\u00edcil: Portel tem 9 mil  alunos na cidade e 11 mil no interior \u2013 comunidades ribeirinhas que  ficam a at\u00e9 dois dias de barco da sede.<\/p>\n<p>A uma hora de lancha da cidade, a professora Andreza dos Santos de  Azevedo, 19 anos, ainda parece uma aluna. Ela terminou o ensino m\u00e9dio no  ano passado; cursou os 8 anos do ensino fundamental na pequena sala de  poucas janelas que leva o nome de Escola Municipal Canto Alegre. Na  verdade, a maior parte do tempo Andreza passou estudando embaixo de uma  \u00e1rvore \u2013 \u00a0de t\u00e3o quente que \u00e9 a escola durante o dia, nem o professor  aguenta ficar dentro dela.<\/p>\n<p>Desde que era aluna do fundamental, ela espera que o prefeito cumpra a  promessa de construir uma escola nova na comunidade. H\u00e1 uma ano, a  ex-secret\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o foi \u00e0 comunidade e prometeu uma unidade  \u201cmodelo\u201d, com seis salas de aula, sala de inform\u00e1tica, cozinha e  alojamento para os professores.<\/p>\n<p>Com esse incentivo, o tio de Andreza, l\u00edder da comunidade, fez um  acordo com o prefeito e juntou as 40 fam\u00edlias que moram l\u00e1 para  trabalhar. Eles entraram na floresta, tiraram madeira e pagaram uma  serraria e um carpinteiro. Assim, a estrutura da futura escola ficou de  p\u00e9, a maior e mais alta da comunidade.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a esta\u00e7\u00e3o das chuvas, o tio de Andreza foi \u00e0 cidade  pedir \u00e0 prefeitura, que nada havia feito, que providenciasse as telhas  para n\u00e3o estragar as vigas de madeira. Conseguiu metade do necess\u00e1rio e,  de novo, a comunidade pagou a instala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, a esta\u00e7\u00e3o de chuvas j\u00e1 passou, est\u00e1 quase chegando de novo, e o  esqueleto da escola continua vazio. Metade coberto, metade ao relento.  \u201c\u00c0s vezes a gente se junta e corta o matinho que cresce dentro\u201d, diz  Andreza. \u201cA comunidade t\u00e1 ficando irada\u201d.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ficar mais embaixo da \u00e1rvore, os alunos estudam no espa\u00e7o  constru\u00eddo pelos moradores para festas e reuni\u00f5es. A prefeitura paga R$  200 pelo aluguel.<\/p>\n<p>Esse mesmo arranjo foi feito em ao menos cinco outras localidades  rurais. Em uma delas, a da comunidade Santa Luzia, a turma foi para um  barrac\u00e3o de madeira e teto de palha constru\u00eddo pelo pai de Idolino  Ara\u00fajo Ramos, um senhor de 75 anos, quando ele ainda era crian\u00e7a.<\/p>\n<p>A \u00fanica adapta\u00e7\u00e3o que a prefeitura fez no barrac\u00e3o foi colocar duas  divis\u00f3rias de madeira que dividem em tr\u00eas salas os 200 alunos da manh\u00e3 e  os 200 da tarde. \u201cFica t\u00e3o cheio que o barulho n\u00e3o deixa ningu\u00e9m  estudar\u201d, diz Maria do Livramento Gibson Ramos, filha de Idolino que tem  26 anos e est\u00e1 na 7<sup>a<\/sup> s\u00e9rie. Ela estuda \u00e0 tarde, quando funcionam as turmas de 5<sup>a<\/sup> \u00e0 8<sup>a<\/sup> s\u00e9rie. Nesse per\u00edodo n\u00e3o h\u00e1 livros, nem merenda. \u201cA comida \u00e9 s\u00f3 para os  pequenos, de manh\u00e3, e mesmo assim dura metade do m\u00eas. A gente s\u00f3 faz  copiar da lousa\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Maria estuda na turma dos adolescentes porque a prefeitura suspendeu o  professor que dava aula para os adultos. Sua irm\u00e3, Maria Trindade  Gibson Ramos, 34 anos, n\u00e3o pode fazer o mesmo pois ainda estava na 2<sup>a<\/sup> s\u00e9rie. \u201cA gente estudava embaixo da \u00e1rvore, s\u00f3 com o caderninho, mas  tava aprendendo. Quando comecei a ler e escrever um pouquinho, o  professor parou\u201d, diz.<ins datetime=\"2012-08-27T20:24\" cite=\"mailto:Ana%20Aranha\"><\/ins><\/p>\n<p>Nem todas as comunidades t\u00eam um espa\u00e7o para alugar \u00e0 prefeitura. A  escola Cumucuru funciona em um barrac\u00e3o que tem apenas teto e uma  parede. Quando chove, as aulas s\u00e3o suspensas. Na escola Hugo Carlos  Saboia, que est\u00e1 cheia de furos no teto e rachaduras na parede, as aulas  foram transferidas para o espa\u00e7o que a comunidade usa como igreja. Sob a  mesa do professor, h\u00e1 livros did\u00e1ticos, uma b\u00edblia e uma vela.<br \/>\n<ins datetime=\"2012-08-27T20:24\" cite=\"mailto:Ana%20Aranha\"><\/ins><\/p>\n<h3><strong>Maquiando os resultados<\/strong><\/h3>\n<p>Dentro desse cen\u00e1rio, \u00e9 dif\u00edcil falar em qualidade da educa\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o  h\u00e1 nenhuma orienta\u00e7\u00e3o ou preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece dentro  da sala de aula. Foi trabalhar, preencheu a caderneta, est\u00e1 perfeito\u201d,  diz Odineia Ferreira Correia, professora de hist\u00f3ria na zona rural. Ela  conta que, na sua escola, ningu\u00e9m nem ficou sabendo quais os resultados  do Ideb (\u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o).\u00a0O \u00edndice deveria servir  de baliza para as escolas fazerem uma auto-avalia\u00e7\u00e3o do ensino que  oferecem.<\/p>\n<p>Segundo a professora, a \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o que recebeu foi para  diminuir a repet\u00eancia dos alunos. Como o Ideb combina a avalia\u00e7\u00e3o dos  alunos em portugu\u00eas e matem\u00e1tica com a aprova\u00e7\u00e3o, muitas escolas  conseguem melhorar a nota sem mexer na qualidade, apenas aprovando os  alunos.<\/p>\n<p>Foi exatamente isso que aconteceu em Portel. O Ideb da cidade saltou  de 2,7 em 2009 para 3,8 em 2011 (em uma escala de 0 a 10). O crescimento  se deve exclusivamente ao aumento da aprova\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a nota dos  alunos em portugu\u00eas e matem\u00e1tica caiu.<\/p>\n<p>Se conseguirem vencer a corrida de obst\u00e1culos do ensino fundamental,  os 20 mil estudantes do ensino fundamental de Portel ainda tem que  contar com a sorte para conseguir uma vaga no ensino m\u00e9dio. S\u00e3o apenas  1.606 vagas para o ensino m\u00e9dio oferecido pelo Estado nas duas escolas  da cidade. Boa parte deles ficou sem aula no primeiro semestre desse ano  pois uma dessas escolas ficou seis meses em reforma.<\/p>\n<p>Em Anaj\u00e1s, o dilema se repete: s\u00e3o 8.396 estudantes de ensino  fundamental e apenas 659 vagas no ensino m\u00e9dio. O \u00fanico col\u00e9gio para os  jovens, tamb\u00e9m do Estado, est\u00e1 sem professor de l\u00edngua portuguesa,  f\u00edsica e ingl\u00eas e sem monitor de inform\u00e1tica \u2013 o que inviabiliza o uso  dos computadores.<\/p>\n<h3><strong>Sem op\u00e7\u00e3o para educar os filhos, alguns querem mudar de cidade<\/strong><\/h3>\n<p>As falhas na educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o tantas que h\u00e1 quem planeje mudar de cidade  antes dos filhos crescerem. \u00c9 o caso dos pais de Wellen Vit\u00f3ria Pacheco,  que est\u00e1 na 3<sup>a<\/sup> s\u00e9rie. Em junho desse ano, eles se deram  conta que a filha ainda n\u00e3o sabe ler todas as letras do alfabeto. A m\u00e3e,  Silvia Pantoja Pacheco, foi conversar com a professora. \u201cEla disse que  est\u00e1 ensinando conforme o padr\u00e3o\u201d, conta. Silvia lembra da filha mais  velha, que hoje trabalha com contabilidade na cidade de Osasco, em S\u00e3o  Paulo, e j\u00e1 sabia ler e escrever na 3<sup>a<\/sup> s\u00e9rie. Eles moravam em oura cidade e a filha estudava em escola particular. Em Anaj\u00e1s n\u00e3o h\u00e1 essa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pais pedem para Wellen pegar o caderno, que est\u00e1 cheio de textos  longos. A letra \u00e9 bonita, mas a menina n\u00e3o consegue ler o que est\u00e1  escrito no seu caderno.\u201cE o que a professora faz enquanto voc\u00eas copiam  da lousa, filha?\u201d , pergunta a m\u00e3e. Wellen imita uma pessoa mexendo no  celular.<\/p>\n<p>O professor Ant\u00f4nio Paix\u00e3o, que d\u00e1 aula na rede municipal de Anaj\u00e1s,  j\u00e1 est\u00e1 financiando um apartamento em Bel\u00e9m para enviar os filhos de 7 e  10 anos para estudar na capital assim que der. Como membro do conselho  municipal da educa\u00e7\u00e3o, ele acompanha as contrata\u00e7\u00f5es para a \u00e1rea, e diz  que um dos problemas da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a nomea\u00e7\u00e3o de professores e  funcion\u00e1rios por motivos \u201cpol\u00edticos\u201d. Em uma \u00fanica reuni\u00e3o realizada em  mar\u00e7o desse ano, conta, o conselho aprovou a contrata\u00e7\u00e3o de 117 novos  funcion\u00e1rios para a educa\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00famero significativo em uma rede que tem  487 professores. \u201c\u00c9 cabide de emprego\u201d, ele diz.<\/p>\n<p>Enquanto a folha de pagamento incha, falta recursos para \u00e1reas  cr\u00edticas. Em Anaj\u00e1s, muitos barqueiros, respons\u00e1veis pelo transporte  escolar, ganham R$ 450 por m\u00eas \u2013 valor que deve cobrir o sal\u00e1rio e  aluguel do barco. Quando o barco quebra, nem sempre os barqueiros podem  consert\u00e1-lo na mesma semana ou m\u00eas, per\u00edodo em que os<del datetime=\"2012-08-27T20:28\" cite=\"mailto:Ana%20Aranha\"> <\/del> alunos ficam sem ir \u00e0 escola.<\/p>\n<p>Enquanto isso, quatro lanchas enviadas pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o  est\u00e3o paradas. Segundo o diretor de ensino do munic\u00edpio, elas n\u00e3o podem  ser usadas para transporte escolar pois consomem muita gasolina. Mesma  desculpa apresentada pelo secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o de Portel, Paulo H\u00e9lio,  para justificar o n\u00e3o-uso do transporte bancado pelo MEC.<\/p>\n<p>Ali, as crian\u00e7as se queixam das condi\u00e7\u00f5es dos barcos, e dizem passar  medo no caminho\u00a0para a escola. \u201cO barco \u00e9 velho, tem t\u00e1bua solta, entra  muita \u00e1gua. Tenho medo de alagar\u201d, diz Alice Maia Lib\u00f3rio, 9 anos. \u201cTem  vez que t\u00e1 t\u00e3o cheio que n\u00e3o d\u00e1 pra sentar, a gente vai de p\u00e9, segurando  firme\u201d.<\/p>\n<p>Alice ficou impressionada ao ver, esse ano, colegas caindo do barco  em movimento. \u201cTeve um meninozinho que caiu, a\u00ed parou e puxaram ele. Ele  sentou molhado na sala\u201d.<\/p>\n<p>Mas o secret\u00e1rio Paulo H\u00e9lio prefere responsabilizar os alunos pela  falta de seguran\u00e7a no transporte escolar. \u201cJ\u00e1 vi menino deitado no toldo  do barco, sem obedecer as regras. E tem aluno que se joga na \u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>O prefeito Pedro Barbosa, faz coro, dizendo que os relatos dos alunos  n\u00e3o passam de \u201cinvencionices\u201d. \u201cEsses meninos nasceram e se criaram  dentro desses barcos. Se der problema, eles mesmo sabem consertar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00fablica foi ao Par\u00e1 em busca dos investimentos destinados \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. 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