{"id":25506,"date":"2013-10-09T09:19:25","date_gmt":"2013-10-09T12:19:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=25506"},"modified":"2013-10-09T09:19:25","modified_gmt":"2013-10-09T12:19:25","slug":"quer-brincar-deficiencia-intelectual-e-a-interdicao-precoce-do-brincar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=25506","title":{"rendered":"Quer brincar? Defici\u00eancia intelectual e a interdi\u00e7\u00e3o precoce do brincar"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25505\" aria-describedby=\"caption-attachment-25505\" style=\"width: 277px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-25505 \" title=\"Pe\u00e7as de lego multicoloridas\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/lego.jpg\" alt=\"Pe\u00e7as de lego multicoloridas\" width=\"277\" height=\"155\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-25505\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Lucio Carvalho *<\/em><\/p>\n<p>Dizem que brincar \u00e9 como se fosse a linguagem natural das crian\u00e7as. A sua forma preferencial de intera\u00e7\u00e3o com o mundo exterior, ainda n\u00e3o fixado totalmente pela raz\u00e3o e pelo conhecimento. Se isso \u00e9 mesmo verdade, deveria ser a realidade de todas as crian\u00e7as, mas muitas delas n\u00e3o t\u00eam esse direito ou o t\u00eam frustrado (ou mesmo interditado) muito cedo na vida.<\/p>\n<p>Isso pode acontecer por muitas raz\u00f5es diferentes. Contra a sua pr\u00f3pria vontade, certamente, na grande maioria das vezes. Quem tem um filho que nasceu com defici\u00eancia intelectual, como eu, conhece bem o grau de exig\u00eancia que recai desde muito cedo sobre crian\u00e7as assim, muitas vezes impedindo-se que elas aproveitem plenamente o ato de brincar, este que funda o surgimento do ser humano no mundo social e cria as primeiras conex\u00f5es da pessoa com o mundo ao seu redor.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria das outras crian\u00e7as, sua brincadeira dever\u00e1 ser sempre de um tipo proveitoso, milimetricamente planejado de modo a suprir o que aparentemente lhe falta ou est\u00e1 indevidamente atrasado. A preponderante no\u00e7\u00e3o de que se est\u00e1 correndo contra o rel\u00f3gio e que se deve aproveitar cada possibilidade de est\u00edmulo \u00e9 um tipo de sequestro que muitos pais fazem tranquilamente com os pr\u00f3prios filhos, muitas vezes amparados e at\u00e9 estimulados &#8220;cientificamente&#8221;.<\/p>\n<p>Creem estes pais que est\u00e3o agindo pelo bem de sua prole, mas com a mesma facilidade deixam de perceber que at\u00e9 este &#8220;bem&#8221; (ou pelo menos seus par\u00e2metros) pode ser apenas uma constru\u00e7\u00e3o assimilada a partir de v\u00e1rios tipos de discursos, entre pedag\u00f3gicos, terap\u00eauticos e m\u00e9dicos. \u00c9 mesmo muito dif\u00edcil para pais com filhos que t\u00eam defici\u00eancia intelectual equilibrar est\u00edmulo e obriga\u00e7\u00e3o, divers\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma corda bamba e, como todas, implica sempre em riscos importantes.<\/p>\n<p>Mesmo que muito se tenha evolu\u00eddo da d\u00e9cada de 1960 para c\u00e1, \u00e9poca em que a estimula\u00e7\u00e3o precoce teve suas bases lan\u00e7adas, difunde-se cada vez mais a mentalidade &#8220;abilitista&#8221; (ableism, em ingl\u00eas), que diz que a pessoa tem de equiparar-se e minimizar o m\u00e1ximo poss\u00edvel as pr\u00f3prias caracter\u00edsticas de sua defici\u00eancia para ter uma vida social em tese mais satisfat\u00f3ria ou, em sua vers\u00e3o mais radical, para ser socialmente mais aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por menos que pare\u00e7a, \u00e9 uma vis\u00e3o refinada que mira preferencialmente os pontos fracos do sujeito e procura consert\u00e1-los a qualquer pre\u00e7o. O refinamento de que falo obviamente n\u00e3o reside nisso, mas na forma pela qual suas ideias subjacentes reproduzem-se no discurso e na pr\u00e1tica dos profissionais que se relacionam diretamente com a pessoa, ao ponto de naturalizar-se at\u00e9 mesmo no cotidiano familiar. No modo de viver a vida.<\/p>\n<p>Trata-se de um modo de entender a defici\u00eancia, entre outros, mas que ganha repercuss\u00e3o cient\u00edfica e confunde-se a outros modelos de compreens\u00e3o. Em sua perspectiva, pelo menos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 defici\u00eancia intelectual, a ideia b\u00e1sica que subjaz \u00e0s pr\u00e1ticas terap\u00eauticas \u00e9 a de estimular os saltos de desenvolvimento e antecipar capacidades, minimizando-se uma poss\u00edvel express\u00e3o dos d\u00e9ficits, al\u00e9m de patologizar e corrigir clinicamente comportamentos. \u00c9 a interven\u00e7\u00e3o precoce levada ao extremo, radicalmente. Ou ent\u00e3o uma tentativa de correr na frente do rel\u00f3gio, como se isso fosse mesmo poss\u00edvel. Para tanto, faz-se necess\u00e1rio viver como um &#8220;costureiro&#8221;, com um tipo de fita m\u00e9trica ao pesco\u00e7o, aferindo-se cada passo da pessoa a cada instante, a despeito inclusive de sua vontade e tendo-se em mente evitar um desajuste social decorrente da defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que se repete exaustivamente o direito da crian\u00e7a em desenvolver-se em seu pr\u00f3prio ritmo e tempo, pais e terapeutas apropriam-se cada vez mais do seu tempo biol\u00f3gico na tentativa de equipara\u00e7\u00e3o com os demais. Esse \u00e9 o tipo de investimento emocional que, <em>a priori<\/em>, desfaz da pr\u00f3pria identidade da crian\u00e7a e a coloca numa m\u00e9trica social absolutamente sem equival\u00eancia, na qual a diversidade \u00e9 apenas aparentemente festejada, mas que \u00e9 permeada por valores da sociedade ordin\u00e1ria que preponderam, como a competi\u00e7\u00e3o, a distin\u00e7\u00e3o meritocr\u00e1tica e at\u00e9 mesmo o preconceito.<\/p>\n<p>Sim, o preconceito. Embora muitas vezes o termo seja tomado como um caminho de m\u00e3o \u00fanica, o preconceito tamb\u00e9m pode ser um tipo de estatuto social ou uma esp\u00e9cie de pacto. Se voc\u00ea se submete a ele ou mesmo se vale de seus preceitos, lutar contra ele talvez fa\u00e7a pouco ou nenhum sentido. Ou ent\u00e3o talvez n\u00e3o se trate de uma luta, mas de um tipo de encena\u00e7\u00e3o. A vida social tem muito disso tamb\u00e9m, como todos j\u00e1 sentiram de um ou outro modo, cada um na sua pr\u00f3pria oportunidade.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>Num gesto de rebeldia extrema, meu filho \u00e0s vezes recusa-se a brincar de jogos pedag\u00f3gicos. Se por muito tempo me frustrei por perceber seu pouco interesse em associar algum tipo de conhecimento ao ato de brincar e associei isso \u00e0s suas dificuldades cognitivas, l\u00e1 pelas tantas compreendi o que ele queria me dizer, apesar da sua dificuldade expressiva (ele nasceu com a s\u00edndrome de Down e sua linguagem verbal ainda \u00e9 bastante limitada).<\/p>\n<p>Ele queria dizer n\u00e3o. Sim, &#8220;n\u00e3o&#8221;. E queria que eu entendesse isso com alguma pressa pelo \u00f3bvio estabelecido, o fato de que sou seu pai, n\u00e3o seu professor, que seu quarto de dormir n\u00e3o \u00e9 uma sala de aula, que nossa casa n\u00e3o \u00e9 uma escola, que ele n\u00e3o quer submeter-se a provas justamente diante de mim, ser medido e avaliado como um funcion\u00e1rio que almeja promo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Ele quer sua liberdade e, ao lutar por ela, irrompe como um sujeito poderoso, aquele que interage ativamente com seu interlocutor, que diz n\u00e3o, expressa sua vontade e recusa-se a dobrar-se \u00e0s inten\u00e7\u00f5es alheias, mesmo que elas sejam supostamente as melhores do mundo. E elas normalmente s\u00e3o mesmo, tanto as minhas como as da maioria dos pais que conhe\u00e7o. Melhores, aut\u00eanticas e ainda assim insuficientes, porque na maioria das vezes unilaterais.<\/p>\n<p>Meu filho, quando faz isso, quer dizer que brincar s\u00f3 \u00e9 mesmo uma coisa interessante, como dizia Huizinga (1) , quando interrompe o fluxo de necessidades reais e substitui a vida imediata pela liberdade plena. O pioneiro dos direitos das crian\u00e7as, o polon\u00eas Janus Korczak (2) disse mais ou menos a mesma coisa, que &#8220;o jogo n\u00e3o \u00e9 o para\u00edso infantil, mas o \u00fanico onde n\u00f3s lhe permitimos um pouco de liberdade, de iniciativa&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse af\u00e3, ele dispensa sempre todos os seus jogos pedag\u00f3gicos, geringon\u00e7as eletr\u00f4nicas programadas para a satisfa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e passa a brincar com suas roupas, justamente objetos que n\u00e3o s\u00e3o nem &#8220;brinquedos&#8221;. Por sua escolha, \u00e9 a brincadeira que lhe interessa. E se por acaso algum adulto topa brincar segundo suas regras (que nada mais s\u00e3o do que um jogo de atirar e amontoar tecidos), aquele torna-se claramente o momento mais feliz do seu dia. \u00c9 o momento em que finalmente ele \u00e9 um sujeito como outro qualquer e n\u00e3o algu\u00e9m a ser inculcado, instru\u00eddo, levado a compreender a vida e o mundo sempre atrav\u00e9s de terceiros.<\/p>\n<p>Mas viver n\u00e3o pode ser sempre assim, \u00e9 claro que n\u00e3o, embora seja bastante percept\u00edvel que ao longo da vida os adultos estejam compenetrados em tentar recuperar o gesto l\u00fadico sob muitas outras formas, talvez como forma de aplacar a saudade, quem sabe?, das brincadeiras infantis.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da educa\u00e7\u00e3o escolar, de certa forma, \u00e9 o grande marco na vida infantil depois do nascimento. Ali, as figuras paternas e maternas s\u00e3o relativizadas e a cultura dom\u00e9stica vai sendo suplantada pela cultura formal, pela instru\u00e7\u00e3o. Muitas outras coisas se ganham e se perdem na entrada da vida escolar. Na maioria das escolas, a liberdade \u00e9 a primeira a perder-se. A pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o do sentar em classe estabelece uma ordem arbitr\u00e1ria. Tamb\u00e9m a explosividade natural da crian\u00e7a e suas tend\u00eancias fantasiosas s\u00e3o sistematicamente anuladas e paulatinamente substitu\u00eddas pela regra social. Aprender a viver socialmente tem dessas coisas tamb\u00e9m. A brincadeira finalmente vai perdendo espa\u00e7o e configura-se mais tarde como um momento de aliena\u00e7\u00e3o da vida real, no qual tudo \u00e9 permitido, quase como num estado alterado de consci\u00eancia. A crian\u00e7a finalmente sublima o brincar, torna-se uma mimese forjada dos adultos, adolesce.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a com defici\u00eancia intelectual, nesse processo de aquisi\u00e7\u00e3o cultural, normalmente \u00e9 duplamente exigida. Ou mais que isso, at\u00e9. Ela deve responder \u00e0s necessidades dos outros, e isso \u00e9 comum a todas as pessoas, mas ela deve fazer isso tendo como par\u00e2metro algu\u00e9m muito diferente de si mesma. \u00c9 a pessoa ideal. Aquela que n\u00e3o existe ou, se existe, talvez possa ser at\u00e9 o produto de uma inven\u00e7\u00e3o ou da imagina\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m. Via de regra, trata-se idealmente de uma pessoa minimamente ajustada socialmente, que responde tamb\u00e9m minimamente bem a testes padr\u00f5es e ao conv\u00edvio social. Fora desse padr\u00e3o, seria uma pessoa sem lugar. \u00c9 um cidad\u00e3o exilado. \u00c9 uma promessa n\u00e3o cumprida de socializa\u00e7\u00e3o, de inclus\u00e3o, porque baseada em um desejo que sequer lhe pertence, mas que \u00e9 compartilhado socialmente como o \u00fanico desej\u00e1vel no sistema social cultural ou, pior ainda, como o \u00fanico toler\u00e1vel.<\/p>\n<p>O trajeto que uma pessoa com defici\u00eancia intelectual faz at\u00e9 sua inclus\u00e3o ou sua exclus\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 anteposto a ningu\u00e9m, mas ainda assim \u00e9 algo mais ou menos previs\u00edvel. S\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da fam\u00edlia a determinar grande parte dos fatores que influem a\u00ed. \u00c9 o acesso a est\u00edmulos indispens\u00e1veis ao desenvolvimento social e cognitivo. Mas tamb\u00e9m, e penso que principalmente, uma esp\u00e9cie de ideologia que perpassa o seu crescimento, atrav\u00e9s de suas viv\u00eancias pessoais, come\u00e7ando pela vida em casa, pela escola, pelos relacionamentos e assim por diante.<\/p>\n<p>Mesmo que n\u00e3o sejamos simp\u00e1ticos a ele, o abilitismo j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, a nossa disposi\u00e7\u00e3o, e de v\u00e1rias maneiras. Seja na forma de psicof\u00e1rmacos que visam amortecer &#8220;sintomas&#8221; indesej\u00e1veis, seja em modelos educacionais voltados \u00e0 padroniza\u00e7\u00e3o e serializa\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo na maneira pela qual os pais de crian\u00e7as com defici\u00eancia intelectual s\u00e3o orientados a interagir com seus filhos. Recolocar a pessoa como um sujeito protagonista da pr\u00f3pria vida, como titular de seu desejo e busca pela felicidade certamente n\u00e3o \u00e9 algo que se possa conseguir isoladamente, mas pelo acordo social. Todavia \u00e0s vezes ser\u00e1 necess\u00e1rio pensar que esp\u00e9cie de acordo \u00e9 esse a que estamos submetendo-nos e submetendo nossos filhos.<\/p>\n<p>Ultrapassar o pr\u00f3prio reconhecimento da pessoa que est\u00e1 ali, sob nossa (da fam\u00edlia, da escola, etc.) responsabilidade, n\u00e3o faz sentido se nossa vis\u00e3o de mundo estiver sedimentada em valores que recusam a sua humanidade inata. Como ao Narciso grego, a imagem de nossas idealiza\u00e7\u00f5es deve servir prioritariamente a n\u00f3s mesmos. Nossos filhos t\u00eam o direito de estar fora disso e construir sua pr\u00f3pria vida, certamente com nosso apoio, mas igualmente certo que com o m\u00ednimo de respeito a sua liberdade e individualidade.<\/p>\n<p>(1) John Huizinga. Homo ludens. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1980.<br \/>\n(2) Janus Korczak. Como amar uma crian\u00e7a. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.<br \/>\n<em>* Coordenador-Geral da Inclusive &#8211; Inclus\u00e3o e Cidadania e autor de Morphopolis (<a href=\"http:\/\/www.morphopolis.wordpress.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.morphopolis.wordpress.com<\/a>) <\/em><\/p>\n<p>\/p<\/p>\n<p>\/p<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se brincar \u00e9 como se fosse a linguagem natural das crian\u00e7as, deveria ser a realidade de todas, mas muita delas n\u00e3o t\u00eam esse direito ou o t\u00eam frustrado (ou mesmo interditado) muito cedo na vida. 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