{"id":25580,"date":"2013-10-14T20:26:39","date_gmt":"2013-10-14T23:26:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=25580"},"modified":"2013-10-14T20:26:39","modified_gmt":"2013-10-14T23:26:39","slug":"quando-a-tarefa-de-ensinar-vira-caso-de-policia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=25580","title":{"rendered":"Quando a tarefa de ensinar vira caso de pol\u00edcia"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_13969\" aria-describedby=\"caption-attachment-13969\" style=\"width: 265px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-13969\" title=\"Inclusive - problemas na educa\u00e7\u00e3o. A palavra educa\u00e7\u00e3o escrita com as letras invertidas e um aluno desolado em frente ao quadro negro.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/02\/inclusive_educacao.jpg\" alt=\"Inclusive - problemas na educa\u00e7\u00e3o. A palavra educa\u00e7\u00e3o escrita com as letras invertidas e um aluno desolado em frente ao quadro negro.\" width=\"265\" height=\"200\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13969\" class=\"wp-caption-text\"> <\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Dossi\u00ea elaborado pela <a href=\"http:\/\/www.apeoesp.org.br\/publicacoes\/observatorio-da-violencia\/reportagem-especial-violencia-contra-professores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">APEOESP<\/a><\/em><\/p>\n<p>O que era para ser uma simples reprimenda pela bagun\u00e7a no corredor da escola, tornou-se caso de pol\u00edcia ap\u00f3s uma aluna partir para a agress\u00e3o f\u00edsica contra a professora. Glaucia Teresinha da Silva bateu com a cabe\u00e7a no ch\u00e3o, teve traumatismo craniano, ficou 15 dias no hospital e seis meses em casa at\u00e9 se recuperar. Isso aconteceu em 2009, numa escola p\u00fablica de Porto Alegre.<\/p>\n<p>Glaucia deu a volta por cima, enfrentou o medo da sala de aula, e hoje desenvolve um projeto de alfabetiza\u00e7\u00e3o que \u00e9 exemplo no Rio Grande do Sul. Mas passados quatro anos do caso que ganhou repercuss\u00e3o nacional, a viol\u00eancia contra professores nas escolas se multiplicou.<\/p>\n<p>Segundo pesquisa divulgada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de S\u00e3o Paulo (Apeoesp) em maio deste ano, 44% dos professores da rede estadual j\u00e1 sofreram algum tipo de viol\u00eancia na escola. A agress\u00e3o verbal \u00e9 a forma mais comum de ataque, tendo atingido 39% dos docentes, seguida de ass\u00e9dio moral (10%), bullying (6%) e agress\u00e3o f\u00edsica (5%). O estudo mostra ainda que quem mais sofre viol\u00eancia escolar s\u00e3o os professores do sexo masculino que lecionam no ensino m\u00e9dio: 65% deles foram agredidos de alguma forma.<\/p>\n<p>Professores sem autoridade e desmotivados com o quadro de abandono da carreira, pais que repassam para a escola a tarefa de educar, alunos inquietos uma sala de aula que parece ter parado no tempo e governos omissos formam a bomba-rel\u00f3gio da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Para contar o drama de quem precisa conviver com a viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica, o Terra ouviu relatos de educadores de todo o Brasil. Eles j\u00e1 levaram tapas, socos, chutes, foram ofendidos por alunos e pais. Alguns superaram o trauma, outros n\u00e3o conseguem voltar para a escola. Eles n\u00e3o querem assumir o papel de v\u00edtimas, e reconhecem que a escola precisa mudar. Mas pedem respeito, e principalmente, querem ser valorizados como professores.<\/p>\n<p><strong>Agredida por pai de alunos em 2010, diretora sofre com convuls\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Cartola &#8211; Ag\u00eancia de Conte\u00fado<br \/>\nEspecial para Terra<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos a professora Maria Ladjane de Ara\u00fajo, 53 anos, toma diariamente uma medica\u00e7\u00e3o para minimizar as convuls\u00f5es que sofre em decorr\u00eancia da viol\u00eancia vivida em outubro de 2010. A gestora da Escola Modelo Infantil Santa Joana, em Caruaru (PE), atravessava a rua quando um homem avan\u00e7ou em sua dire\u00e7\u00e3o e lhe empurrou. Ela caiu de cabe\u00e7a no meio-fio, sofreu traumatismo craniano e teve um edema frontal.<\/p>\n<p>O agressor \u00e9 pai de dois alunos que estudavam na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a imprensa local noticiou que o homem estaria contrariado por ter sido chamado na escola para conversar sobre o comportamento da filha. Irritado, ele teria discutido com Maria, o que n\u00e3o \u00e9 confirmado pela professora. &#8220;N\u00e3o houve conversa, ele simplesmente chegou e me agrediu&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Maria foi levada a um hospital no Recife e passou oito dias internada. Perdeu olfato, paladar e teve a audi\u00e7\u00e3o prejudicada &#8211; hoje escuta apenas com o ouvido esquerdo.<\/p>\n<p>Com a fala arrastada, a docente conta que, desde o epis\u00f3dio, evita sair na rua e, quando sai, s\u00f3 anda acompanhada. &#8220;Meu dia acaba mais cedo. Depois das 20h, quando tomo meu rem\u00e9dio, fico dopada e n\u00e3o consigo fazer mais nada&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Na institui\u00e7\u00e3o, a educadora segue no mesmo cargo de tr\u00eas anos atr\u00e1s, mas confessa que j\u00e1 n\u00e3o consegue cumprir suas fun\u00e7\u00f5es como antes. &#8220;Eu sigo assinando pap\u00e9is, tomando algumas decis\u00f5es, mas j\u00e1 n\u00e3o tomo a frente das atividades, conto muito com minha equipe&#8221;, lamenta. Ap\u00f3s a agress\u00e3o, levou dois meses para voltar ao trabalho.<\/p>\n<p>O agressor aguarda senten\u00e7a na justi\u00e7a e cumpre uma medida que o impede de chegar a menos de 500 metros da professora. Em depoimento dado na \u00e9poca, o homem afirmou que tudo n\u00e3o passou de um acidente e que n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de machucar a professora. Maria j\u00e1 o conhecia havia oito anos, e afirma que n\u00e3o esperava v\u00ea-lo daquela forma. &#8220;Ele estava visivelmente descontrolado. Tenho 30 anos de escola e tamb\u00e9m moro aqui h\u00e1 30 anos, nunca tinha vivido uma situa\u00e7\u00e3o como essa. Caruaru inteira ficou revoltada&#8221;, complementa, lembrando que foi dif\u00edcil para o pai matricular as crian\u00e7as em outro col\u00e9gio, tal era a indigna\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. &#8220;Ele destruiu minha vida, mas destruiu a dele tamb\u00e9m. Ele sabe que a fam\u00edlia dele sofreu com essa situa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>Professora cai em depress\u00e3o e precisa mudar de casa ap\u00f3s agress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Giuliander Carpes \/ Terra<\/p>\n<p>Leila Soares tomou oito golpes \u2013 segundo o agressor de 15 anos \u2013 de um aluno da Escola Municipal Jo\u00e3o Kopke, na zona norte do Rio de Janeiro, no dia 21 de mar\u00e7o deste ano. Mas muitos outros socos continuaram ocorrendo depois da agress\u00e3o. Hoje, quase cinco meses depois de ser agredida na sala onde dirigia o col\u00e9gio, ela ainda sente os efeitos do trauma. Ainda n\u00e3o voltou a trabalhar e s\u00f3 recentemente come\u00e7ou a sair de casa sozinha.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha. Um misto de medo, raiva, vergonha. A gente n\u00e3o sabe o que as pessoas est\u00e3o pensando, falando, julgando&#8221;, diz a professora, que sentiu o segundo grande golpe depois da agress\u00e3o quando foi para a delegacia. No local, a professora cruzou com o aluno e sua m\u00e3e. Ele ria. Ela questionava que n\u00e3o havia nem marca aparente da agress\u00e3o.<\/p>\n<p>O empurr\u00e3o na escada ocorreu porque Leila havia chamado a aten\u00e7\u00e3o do aluno. Ela correu para sua sala enquanto um professor segurava o agressor, que acabou se desvencilhando e conseguindo dar os golpes embora ela tentasse se defender com as m\u00e3os sobre o rosto.<\/p>\n<p>Fraturou o nariz, les\u00e3o que demorou alguns exames para ser encontrada mesmo que ela tivesse pagado consultas num hospital particular \u2013 mais um soco. &#8220;Fiquei 15 dias com o rosto dormente. N\u00e3o conseguia dormir. Fechava os olhos e via aquele garoto me agredindo. Quando ele sa\u00eda, olhava para tr\u00e1s e ria.&#8221;.<\/p>\n<p>Moradora de regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 escola, Leila caiu em depress\u00e3o, passou a tomar rem\u00e9dios e teve de se mudar com os dois filhos para outro lugar. O garoto foi apenas transferido de escola, medida praxe da Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o. Leila foi colocada em licen\u00e7a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Perdeu parte de seu sal\u00e1rio por causa disso. Mas n\u00e3o reclama da secretaria, que sempre procurou saber como ela estava e deu apoio psicol\u00f3gico. Reclama porque o aluno n\u00e3o tomou nenhum tipo de puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Deveria juntar v\u00e1rias secretarias e formar um programa. Meus filhos, quando fazem alguma bobagem, eu deixo sem computador. O aluno tem que perder alguma coisa, mas n\u00e3o jogar num lugar onde ele vai ficar preso cultivando raiva.&#8221;.<\/p>\n<p>E teme que ocorram outros casos. &#8220;Depois da minha agress\u00e3o, soube de v\u00e1rias outras. O professor est\u00e1 cada vez numa situa\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. A gente tem cada vez mais obriga\u00e7\u00f5es e est\u00e1 mais acuado.<\/p>\n<p><strong>Carta de desabafo de uma professora agredida<\/strong><\/p>\n<p>Quantas vezes nos indignamos quando sabemos de casos de agress\u00f5es a colegas, profissionais como n\u00f3s.<br \/>\nMas n\u00e3o nos indignamos o suficiente por acharmos que ainda est\u00e1 muito distante&#8230;<br \/>\nDe repente, chega a n\u00f3s.<br \/>\nO corpo d\u00f3i. Mas a dor vai passando com gelo, analg\u00e9sico, rem\u00e9dios&#8230;<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o, este fica t\u00e3o apertado que parece que sobra espa\u00e7o em torno dele de t\u00e3o pequeno. Este espa\u00e7o \u00e9 preenchido com dor. Que n\u00e3o tem rem\u00e9dio.<br \/>\nA alma fica endurecida. Parece que sai do nosso corpo&#8230;<br \/>\nA pele d\u00f3i. O sangue circula doendo. Os membros movem-se doendo.<br \/>\nPerdemos o ch\u00e3o. N\u00e3o temos onde nos agarrar.<br \/>\nS\u00f3 o carinho dos amigos (conhecidos ou n\u00e3o) \u00e9 que nos conforta.<br \/>\nSofremos n\u00f3s, nossos parentes, nossos amigos, nossos companheiros.<br \/>\nSofre uma sociedade inteira que vive temerosa porque n\u00e3o temos quem nos proteja.<br \/>\nO agressor sai de cabe\u00e7a erguida, olhando para tr\u00e1s e rindo.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 do agredido, mas de cada um de n\u00f3s.<br \/>\nRi daquele que foi empurrado, xingado, amea\u00e7ado, chutado, socado.<br \/>\nRi daquele que o tirou e tentou mostr\u00e1-lo o erro.<br \/>\nRi do erro&#8230;<br \/>\nRi de quem n\u00e3o deveria mais permitir o erro.<br \/>\nRi da sociedade que fica ref\u00e9m enquanto ele continuar\u00e1 empurrando, xingando, amea\u00e7ando, chutando, socando&#8230;<br \/>\nRi do sangue que escorreu, do rosto que machucou, da alma que feriu.<br \/>\nApenas sai, impune, e olha para tr\u00e1s, e ri.<br \/>\nPara mais adiante deixar ref\u00e9m mais muitos.<br \/>\nQuem somos n\u00f3s, educadores?<br \/>\nPois eu sei quem somos n\u00f3s:<br \/>\nSomos aqueles de quem ri o que sai impune, olhando para tr\u00e1s e rindo.<br \/>\nSer\u00e1 que serei s\u00f3 mais uma?<br \/>\nOu a \u00faltima?<\/p>\n<p>Leila Soares de Oliveira<\/p>\n<p>Diretora agredida por um aluno na Escola Municipal Jo\u00e3o Kopke, no Rio de Janeiro, em 21 de mar\u00e7o de 2013.<br \/>\n<strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Agredida por m\u00e3e de aluno, professora tem medo de voltar a lecionar<\/strong><\/p>\n<p>Fabricio Escandiuzzi<br \/>\nEspecial para Terra<\/p>\n<p>Restando pouco mais de dois anos para se aposentar, a professora L.C.C., 51 anos, passa por um grande dilema: retornar para a atividade que escolheu como profiss\u00e3o, ou permanecer em casa, de licen\u00e7a m\u00e9dica e passando por profunda depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A educadora foi agredida por uma m\u00e3e de aluno na porta da escola onde trabalhava, na regi\u00e3o metropolitana de Florian\u00f3polis (SC). Empurrada, sofreu uma les\u00e3o no c\u00f3ccix, o que for\u00e7ou a licen\u00e7a m\u00e9dica. A les\u00e3o, bem como os arranh\u00f5es e roxos pelo corpo j\u00e1 cicatrizaram, mas o &#8220;estrago&#8221; causado pelo ato ainda deixa marcas na profissional. &#8220;Morro de vontade de voltar para a sala de aula, mas n\u00e3o queria passar por isso de novo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O caso ocorreu no final de outubro do ano passado. L. tem receio de divulgar o nome da escola e sua identidade. Lecionando para estudantes com idades entre 9 e 10 anos, ela foi cercada pela m\u00e3e e av\u00f3 de uma aluna, que n\u00e3o se conformaram com uma nota da filha. &#8220;Trabalho h\u00e1 mais de 20 anos com educa\u00e7\u00e3o e nunca tinha passado por isso. Os pais, anos atr\u00e1s, castigavam os filhos pelas notas baixas. Nunca o professor&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>O caso de L.C.C. \u00e9 considerado comum em Santa Catarina, de acordo com o Sindicato estadual dos Trabalhadores em Educa\u00e7\u00e3o (Sinte). &#8220;Recebemos entre uma ou duas den\u00fancias graves ao m\u00eas. Mas esse n\u00famero \u00e9 maior, pois muitas das professoras, agredidas verbalmente, n\u00e3o comunicam o fato&#8221;, afirma Claudete Mittmann, diretora da entidade.<\/p>\n<p>Segundo ela, n\u00e3o existem dados oficiais sobre a quantidade de agress\u00f5es sofridas pelos professores.<\/p>\n<p>Para a l\u00edder sindical, o profissional da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o vem sofrendo com diversos problemas que afetam sua sa\u00fade mental. A agress\u00e3o seria apenas \u201cum deles\u201d. &#8220;Os professores sofrem por cargas excessivas de trabalho, s\u00e3o obrigados a lecionar em escolas sem estrutura, passar por situa\u00e7\u00f5es vexat\u00f3rias e ainda ir para a rua para brigar pelo sal\u00e1rio&#8221;, completa Claudete.<br \/>\nMe sinto jogado no lixo, diz professor que largou sala de aula ap\u00f3s agress\u00e3o<\/p>\n<p>Ney Rubens<br \/>\nEspecial para Terra<\/p>\n<p>G.A.P \u00e9 professor da rede p\u00fablica do interior de Minas h\u00e1 19 anos e h\u00e1 seis est\u00e1 em ajustamento funcional por causa de agress\u00f5es dentro das escolas. O caso, que aconteceu em 2007, deixou traumas que at\u00e9 hoje n\u00e3o foram superados. O educador de 45 anos, que prefere n\u00e3o revelar o nome, contou que em um dia de trabalho um dos alunos estava sem nota e n\u00e3o queria refazer a prova. Bastou para que o professor sofresse mais do que amea\u00e7as por parte do adolescente.<\/p>\n<p>&#8220;Ele queria fazer a prova anterior que j\u00e1 estava corrigida. Quando eu falei que n\u00e3o, ele jogou a carteira em mim, a minha sorte \u00e9 que n\u00e3o pegou. Eu sa\u00ed da sala, fui relatar para diretora e ela jogou a culpa para mim&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Depois da agress\u00e3o, o professor disse que o aluno n\u00e3o sofreu nenhuma puni\u00e7\u00e3o por parte da escola, mas ainda hoje G.A.P sofre por causa desse epis\u00f3dio. Exercendo fun\u00e7\u00f5es administrativas na escola, ele revelou que faz acompanhamento anual com um psic\u00f3logo e tem s\u00edndrome do p\u00e2nico. &#8220;Todo tipo de assedio moral foi feito pra cima de mim. N\u00e3o s\u00f3 por parte dos alunos, mas tamb\u00e9m por parte da dire\u00e7\u00e3o. Morava sozinho, passei dias trancado em casa, comendo restos de comida porque eu n\u00e3o conseguia fazer mais nada&#8221;, conta.<\/p>\n<p>O professor conta que j\u00e1 viu v\u00e1rios casos semelhantes dentro das escolas e que se sente mal por ter que exercer outra fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o dar aulas por causa do ajustamento. &#8220;Eu n\u00e3o sou o \u00fanico que tem ajustamento funcional, em uma das escolas tenho tr\u00eas colegas que est\u00e3o na mesma situa\u00e7\u00e3o. Eu me sinto como se tivessem me jogado no lixo,\u201d desabafa.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o acupuntura para me desfazer do trauma, diz professora.<\/p>\n<p>Outro caso de agress\u00e3o em Minas Gerais deixa marcas dois anos depois. Em 2011, uma professora gravou v\u00eddeo do momento em que um aluno agredia com chutes a diretora de uma escola p\u00fablica em Contagem. O v\u00eddeo flagrou o momento em que o aluno saiu da sala de aula e amea\u00e7ou verbalmente a diretora: &#8220;vou matar voc\u00ea&#8221;, disse. Ap\u00f3s a amea\u00e7a, ele encontrou a diretora no corredor e deu chutes nas pernas dela.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a pedido da dire\u00e7\u00e3o da escola, a pol\u00edcia procurou o adolescente em casa, mas n\u00e3o encontrou nem o estudante nem os respons\u00e1veis. Atualmente, a educadora agredida trabalha em outra escola e disse que &#8220;ainda n\u00e3o me sinto bem em falar do ocorrido&#8221;. Ela contou apenas que tem feito acupuntura para se desfazer do trauma.<\/p>\n<p><strong>Professores se revoltam contra falta de puni\u00e7\u00e3o a agressores<\/strong><\/p>\n<p>Ney Rubens<br \/>\nEspecial para Terra<\/p>\n<p>Professora de uma escola estadual na periferia de Belo Horizonte, IFO n\u00e3o quer ser identificada por medo de repres\u00e1lias na institui\u00e7\u00e3o de ensino e de novas agress\u00f5es. Ap\u00f3s levar chutes de um estudante, passou seis meses de licen\u00e7a m\u00e9dica e agora toma antidepressivos regularmente devido ao trauma. A maior revolta \u00e9 quanto a falta de puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O aluno chegou chutando porta. Parecia que ele havia consumido drogas e estava agitado. Eu pedi para ele respeitar os colegas e ele veio pra cima de mim, me chutou, me derrubou no ch\u00e3o. Ele s\u00f3 n\u00e3o me bateu mais porque os alunos interferiram&#8221;, conta a educadora sobre a cena que prefere n\u00e3o lembrar.<\/p>\n<p>Ela desabafa ao falar que acorda v\u00e1rias noites chorando por causa da agress\u00e3o. &#8220;A gente acaba sendo m\u00e3e, pai, psiquiatra e acaba tendo que suportar essas coisas. Eu tenho muitos colegas que desistiram. Eu n\u00e3o desisto porque eu sou muito corajosa&#8221; afirmou. Segundo a educadora, nada foi feito por parte da escola para punir o aluno. Atualmente dois vigias tomam conta da institui\u00e7\u00e3o, mas nenhuma iniciativa foi tomada para tentar coibir a viol\u00eancia. &#8220;Eles vigiam o patrim\u00f4nio, mas as pessoas n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Aluno ganhou apenas advert\u00eancia<\/p>\n<p>Carol Felix, 26 anos, tamb\u00e9m enfrentou situa\u00e7\u00e3o semelhante h\u00e1 um ano e at\u00e9 agora n\u00e3o viu nenhuma medida para tentar conter a viol\u00eancia na escola onde d\u00e1 aulas em Belo Horizonte (MG). Ela conta que costumava participar das aulas de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica nas horas vagas e que um aluno que estava de castigo por ter desrespeitado as normas da escola insistiu em participar. Ela negou e foi atacada.<\/p>\n<p>&#8220;Eu vou te bater, voc\u00ea n\u00e3o manda em mim&#8221;, recorda. &#8220;E ele veio pra cima de mim. Eu segurei a m\u00e3o dele e a professora de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica segurou ele por tr\u00e1s&#8221;, disse. A dire\u00e7\u00e3o ao saber do caso deu uma advert\u00eancia para o aluno, na \u00e9poca com 13 anos, mas &#8220;n\u00e3o tomou nenhuma medida mais severa&#8221;. &#8220;N\u00e3o podia expulsa-lo da escola , ele morava em abrigo, n\u00e3o tinha pai e m\u00e3e, por isso n\u00e3o deixavam que ele fosse expulso&#8221; relata.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas anos ap\u00f3s agress\u00e3o, professora ainda teme repres\u00e1lia de aluno<\/strong><\/p>\n<p>Cartola &#8211; Ag\u00eancia de Conte\u00fado<br \/>\nEspecial para Terra<\/p>\n<p>Marina n\u00e3o \u00e9 o nome da professora agredida em 2010 em um munic\u00edpio do interior ao norte do Mato Grosso do Sul. Ao aceitar a entrevista, a professora pediu que sua identidade fosse preservada por medo de repres\u00e1lias, sentimento compartilhado pela diretora da escola que solicitou que o nome da institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o fosse publicado.<br \/>\nO agressor, um estudante de 16 anos, estava no 6\u00ba ano e era maior do que os colegas e do que a pr\u00f3pria professora. Ele mexia no celular em sala de aula, o que \u00e9 proibido por lei no Estado. Por isso, a professora de l\u00edngua portuguesa pediu que ele largasse o aparelho mas o garoto insistiu. Quando ela tomou o dispositivo, o aluno come\u00e7ou a rabiscar a mesa em protesto. A docente disse que devolveria o celular, com a condi\u00e7\u00e3o de que ele limpasse a classe. Ele saiu, irritado.<\/p>\n<p>No fim do per\u00edodo, quando Marina estava indo para o intervalo, o estudante voltou e come\u00e7ou a insult\u00e1-la aos berros no corredor, amea\u00e7ando-a. O jovem levantava a m\u00e3o para bater na professora, quando outra docente impediu, e o murro se transformou em um empurr\u00e3o. &#8220;A marca da m\u00e3o dele ficou na minha blusa branca, e meu bra\u00e7o ficou vermelho&#8221;, lembra Marina. Ela fez um boletim de ocorr\u00eancia, e o aluno foi levado pela Ronda Escolar.<\/p>\n<p>&#8220;Fui chamada para prestar depoimento apenas uma vez. Depois, tudo foi esquecido. Tenho amigos no f\u00f3rum da cidade e descobri que o processo sequer chegou l\u00e1&#8221;, relata a professora. Ela acredita que o caso tenha sido arquivado por influ\u00eancia da m\u00e3e do menino, que trabalhava em um \u00f3rg\u00e3o judicial na regi\u00e3o \u2013 a m\u00e3e, inclusive, amea\u00e7ou process\u00e1-la por coa\u00e7\u00e3o, termo jur\u00eddico para constrangimento.<\/p>\n<p>Marina conta que, depois do ocorrido, o rapaz chegou a ser suspenso, mas voltou \u00e0 escola em seguida. &#8220;Por um m\u00eas, ele ficou assistindo apenas \u00e0s minhas aulas, como forma de me desafiar, e ficou rondando minha casa&#8221;, diz a professora. Ela decidiu ignorar o comportamento do adolescente at\u00e9 que ele acabou saindo da escola.<\/p>\n<p>Hoje com 32 anos, Marina segue lecionando, mas conta que sua postura em sala de aula mudou. Por medo, a professora j\u00e1 n\u00e3o toma o celular de um aluno se o v\u00ea utilizando o aparelho. &#8220;A gente fica receosa, pois os alunos percebem que n\u00e3o h\u00e1 consequ\u00eancias. Voc\u00ea fica \u00e0 merc\u00ea de novos acontecimentos como aquele&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p><strong>Professora agredida supera trauma e vira exemplo na alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>Angela Chagas \/ Terra<\/p>\n<p>Uma simples reprimenda a uma aluna que fazia bagun\u00e7a nos corredores da Escola Estadual Bahia, em Porto Alegre (RS), transformou Glaucia Teresinha da Silva num s\u00edmbolo da viol\u00eancia contra professores em 2009. Uma aluna, na \u00e9poca com 15 anos, pegou a educadora pelos cabelos e a jogou no ch\u00e3o. Glaucia sofreu traumatismo craniano, ficou duas semanas hospitalizada e teve todo o lado esquerdo paralisado. Foram longas sess\u00f5es com fisioterapeutas, neurologistas e psic\u00f3logos at\u00e9 recuperar os movimentos e ter coragem de sair de casa.<\/p>\n<p>Seis meses depois de virar not\u00edcia em todo o Pa\u00eds por conta da agress\u00e3o, Glaucia resolveu dar a volta por cima e retomar as atividades. Contrariou os pais e o irm\u00e3o \u2013 que queriam que largasse o magist\u00e9rio \u2013 e se tornou exemplo na alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as no Rio Grande do Sul. Ela deixou a Escola Bahia e passou a se dedicar apenas \u00e0 turma do primeiro ano em outra escola p\u00fablica da capital. &#8220;Fiquei seis meses fora e meus alunos n\u00e3o se adaptaram com os outros professores. Quando voltei, era fim do ano e eles n\u00e3o estavam alfabetizados. Ent\u00e3o precisei pensar em algo diferente para mudar essa situa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A professora ent\u00e3o criou um projeto de alfabetiza\u00e7\u00e3o que envolvia a prote\u00e7\u00e3o do ambiente. Chamou os pais para ajudar e cada crian\u00e7a criou um livro contando suas hist\u00f3rias ligadas ao \u201cmundo sustent\u00e1vel&#8221;. No final do ano, foi feita uma sess\u00e3o de aut\u00f3grafos na escola. Todos estavam alfabetizados. &#8220;Em dois meses eles aprenderam a ler e escrever&#8221;, conta ela orgulhosa, ao afirmar que o apoio das crian\u00e7as ajudou a enfrentar a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. &#8220;Eles acompanharam tudo o que aconteceu comigo e at\u00e9 hoje (os alunos est\u00e3o no quinto ano na escola) me protegem&#8221;. O sucesso da iniciativa foi levada adiante e Glaucia passou a dar palestras em encontros de professores em todo o Estado.<\/p>\n<p>No entanto, a professora alegre e apaixonada pela profiss\u00e3o que recebeu o Terra em uma das salas coloridas da Carlos Rodrigues da Silva n\u00e3o conseguiu esquecer aquele dia triste de mar\u00e7o de 2009. &#8220;Por mais que a agress\u00e3o tenha acontecido h\u00e1 alguns anos, ainda me sinto incomodada. Se vejo uma pessoa parecida com ela (agressora) na rua, tenho medo. A gente nunca esquece&#8221;, afirma. Glaucia ainda recebe acompanhamento psicol\u00f3gico e faz exames neurol\u00f3gicos de seis em seis meses, j\u00e1 que desde a les\u00e3o sofre fortes dores de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Glaucia conta que nos primeiros meses ap\u00f3s o retorno o pai e o irm\u00e3o se revezavam para busca-la na escola. &#8220;Eles ficaram muito preocupados. Para a minha fam\u00edlia era muito risco voltar a dar aulas. Foi uma luta dizer que eu queria voltar, que eu n\u00e3o queria abandonar a minha profiss\u00e3o&#8221;, conta a educadora de 29 anos e que d\u00e1 aulas desde os 17, quando terminou o magist\u00e9rio. Para quem pensa em desistir do sonho de educar, ela deixa um recado: Existe uma s\u00e9rie de fatores que colaboram com a viol\u00eancia, como a desestrutura\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, e o professor n\u00e3o recebe nenhum suporte. Mas n\u00e3o podemos desistir dos nossos sonhos por causa de algo ruim&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Sou v\u00edtima do Estado, afirma professor agredido com vaso na cabe\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Angela Chagas \/ Terra<\/p>\n<p>Era setembro de 2011. Ant\u00f4nio Mario da Silva entrou na sala da sexta s\u00e9rie, fez a chamada e come\u00e7ou a aula de hist\u00f3ria para normalmente. Cerca de 40 minutos depois, um estudante atrasado bateu na porta e quis entrar. O professor n\u00e3o deixou e come\u00e7ou a ouvir sucessivos xingamentos. A m\u00e3e foi chamada at\u00e9 a escola estadual de Diadema (SP) e, durante uma conversa na sala da dire\u00e7\u00e3o, o aluno de 12 anos jogou um vaso de planta na cabe\u00e7a de M\u00e1rio. &#8220;Ele pegou um vaso de argila que tinha no meio da sala e jogou na minha cabe\u00e7a, com muita for\u00e7a. S\u00f3 n\u00e3o me matou porque o vaso estava envolvido com bastante papel&#8221;.<\/p>\n<p>O professor, hoje com 42 anos, foi parar no hospital. De l\u00e1, seguiu para a Delegacia de Pol\u00edcia. O aluno foi transferido de escola, mas Mario lamenta que nunca tenha sido chamado para prestar depoimento sobre o caso. Ele tamb\u00e9m se revolta com a atitude da m\u00e3e. Segundo Mario, ela nem sequer reprimiu o filho ap\u00f3s a agress\u00e3o. &#8220;O aluno quebrou o vaso na frente da m\u00e3e, e ela n\u00e3o fez nada&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o pior, de acordo com ele, \u00e9 a omiss\u00e3o do Estado frente aos problemas enfrentados em sala de aula. &#8220;O professor precisa lidar com v\u00e1rios problemas sociais, como a quest\u00e3o da droga, e ainda tem que dar aula para uma sala com 50 alunos dentro. Parte dessa viol\u00eancia \u00e9 culpa do Estado, que n\u00e3o d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de trabalho, me sinto como uma v\u00edtima do Estado&#8221;, afirma ao citar tamb\u00e9m os baixos sal\u00e1rios como fatores que desmotivam a categoria.<\/p>\n<p>Mario conta que at\u00e9 pensou em abandonar a profiss\u00e3o, mas que precisa do emprego. &#8220;No momento que acontece esse tipo de viol\u00eancia a gente fica pensando, mas \u00e9 profissional, n\u00e3o pode largar tudo, tem que trabalhar. E tamb\u00e9m eu gosto de ser professor, apesar de tudo&#8221;, completa.<\/p>\n<p><strong>Professor processa Estado por falta de condi\u00e7\u00f5es de trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Tiago Tufano \/ Terra<\/p>\n<p>Em alguns casos a viol\u00eancia verbal e psicol\u00f3gica de alunos contra professores causa o mesmo impacto que a agress\u00e3o f\u00edsica. Um educador da rede estadual de ensino de S\u00e3o Paulo est\u00e1 processando o governo do Estado por falta de condi\u00e7\u00f5es de trabalho para exercer sua profiss\u00e3o. Segundo o professor, que prefere n\u00e3o se identificar, seu n\u00edvel de estresse chegou a um ponto extremamente cr\u00edtico.<\/p>\n<p>&#8220;Eu adquiri problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica e psiqui\u00e1trica por conta da falta de infraestrutura do Estado. Temos problemas de salas lotadas e alunos indisciplinados. J\u00e1 n\u00e3o temos a valoriza\u00e7\u00e3o do Estado e a sociedade perdeu o respeito pela figura do professor. A gente passa a n\u00e3o ter mais voz ativa&#8221;, afirma o educador de 45 anos.<\/p>\n<p>Segundo ele, as agress\u00f5es eram di\u00e1rias na escola em que lecionava, at\u00e9 que o professor preferiu procurar a ajuda de um profissional, que atestou sua impossibilidade em permanecer trabalhando dentro da sala de aula, em contato direto com os estudantes. O educador passou ent\u00e3o a trabalhar no setor administrativo da escola estadual.<\/p>\n<p>&#8220;Sua autoestima passa a ser baixa, voc\u00ea se sente in\u00fatil e tamb\u00e9m se torna uma pessoa agressiva. Isso desencadeia um estado psicol\u00f3gico e emocional t\u00e3o ruim que tive que me afastar com o aval de um psiquiatra&#8221;, explica o docente.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a ter problemas em 2000, quando teve que sair de licen\u00e7a m\u00e9dica. Por\u00e9m, o processo foi aberto apenas cinco anos mais tarde e a primeira resposta veio em 2008. A a\u00e7\u00e3o corre na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele admitiu ainda que hoje em dia n\u00e3o tem a m\u00ednima vontade de voltar a dar aulas no sistema p\u00fablico de ensino. Para o professor, 13 anos depois de se afastar das aulas, as &#8220;coisas s\u00f3 pioraram&#8221;. &#8220;Na rede p\u00fablica n\u00e3o tenho mais vontade, porque de l\u00e1 pra c\u00e1 as coisas s\u00f3 pioraram. Hoje em dia existe uma falta de moral muito grande. Os pr\u00f3prios pais s\u00e3o sempre contra a escola e contra os professores&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p><strong>A crise de valores na escola<\/strong><\/p>\n<p>Angela Chagas \/ Terra<\/p>\n<p>Por que os professores n\u00e3o t\u00eam mais a autoridade de antigamente? \u00c9 com esse questionamento que Maria Izabel Noronha, presidente do sindicato dos educadores da rede estadual de S\u00e3o Paulo (Apeoesp) tenta compreender o fen\u00f4meno da viol\u00eancia contra os educadores. O sindicato foi respons\u00e1vel por divulgar, em maio deste ano, uma pesquisa que mostra o desalento cen\u00e1rio da viol\u00eancia em sala de aula: 44% dos educadores da rede estadual j\u00e1 sofreram algum tipo de agress\u00e3o f\u00edsica e psicol\u00f3gica. Para ela, os dados refletem uma escola que n\u00e3o mais atende aos anseios dos alunos.<\/p>\n<p>&#8220;Temos a mesma escola desde a \u00e9poca de Dom Jo\u00e3o VI. E essa escola, que n\u00e3o evolui, \u00e9 vista pelo aluno como chata e ma\u00e7ante&#8221;, diz Maria Izabel, ao afirmar que as inquieta\u00e7\u00f5es dos estudantes com aquilo que eles n\u00e3o gostam acabam sendo depositadas no professor. &#8220;O pior nesse processo \u00e9 que o professor sente-se sozinho, porque os \u00fanicos instrumentos que ele tem s\u00e3o o giz, a lousa e o apagador. Ele n\u00e3o tem amparo do governo e da fam\u00edlia&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>Doutora em psicologia da educa\u00e7\u00e3o e pesquisadora da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA), Ivany Pinto Nascimento concorda que a escola n\u00e3o atende mais \u00e0s necessidades dos alunos. &#8220;O professor deixou de ser uma figura que representa a autoridade, o poder, porque sobre ele recai a imagem da escola desinteressante&#8221;. Ela diz que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior na rede p\u00fablica, com salas superlotadas e professores mal remunerados.<\/p>\n<p>Ambas concordam que a solu\u00e7\u00e3o para a viol\u00eancia dentro da sala de aula passa pelo envolvimento da fam\u00edlia. &#8220;N\u00e3o adianta punir o estudante com suspens\u00e3o, com transfer\u00eancia de escola. Isso muitas vezes acaba se tornando uma esp\u00e9cie de pr\u00eamio para ele&#8221;, afirma Maria Izabel. Uma forma de &#8220;puni\u00e7\u00e3o&#8221; que garante resultados, segundo ela, \u00e9 conversar com os pais e pedir o apoio deles na defini\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de castigo por causa do mau comportamento \u2013 que pode ser a interrup\u00e7\u00e3o de uma atividade, como jogar videogame, assistir TV.<\/p>\n<p>O problema dessa solu\u00e7\u00e3o &#8220;ideal&#8221; \u00e9 garantir a participa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia na escola. &#8220;O pai e a m\u00e3e tiveram de sair para trabalhar fora e sobre o professor recaiu toda a tarefa de educar. Recuperar o envolvimento da fam\u00edlia com a escola \u00e9 um desafio&#8221;, afirma a professora da UFPA. Fortalecer os conselhos escolares e cobrar maior estrutura, com o fortalecimento do quadro de orientadores escolares e psic\u00f3logos, pode ajudar a reverter esse quadro.<\/p>\n<p>Angela Chagas &#8211; Terra &#8211; 15\/08\/2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dossi\u00ea elaborado pela APEOESP re\u00fane reportagens sobre viol\u00eancias perpetradas contra professores no exerc\u00edcio de sua profiss\u00e3o. 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