{"id":25845,"date":"2013-11-28T17:51:10","date_gmt":"2013-11-28T20:51:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=25845"},"modified":"2013-11-28T17:51:10","modified_gmt":"2013-11-28T20:51:10","slug":"deficiencia-e-o-graal-da-funcionalidade-total","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=25845","title":{"rendered":"Defici\u00eancia e o Graal da funcionalidade total"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-25846\" title=\"Copo de vidro\" alt=\"Copo de vidro\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/copo.jpg\" width=\"227\" height=\"170\" \/><\/p>\n<p><em>Por Lucio Carvalho *<\/em><\/p>\n<p>Um Graal est\u00e1 posto, talvez para sempre, em rela\u00e7\u00e3o a vida das pessoas que nasceram ou adquiriram ao longo da vida alguma defici\u00eancia ou limita\u00e7\u00e3o, seja f\u00edsica, sensorial ou mesmo intelectual. \u00c9 o Graal da funcionalidade total. Parece at\u00e9 nome de norma da ISO ou ABNT, mas quero crer que se trata de algo mais poderoso at\u00e9 do que isso. O Graal de que falo \u00e9 um norte, um objetivo supremo, uma meta insubstitu\u00edvel a perseguir. Est\u00e1 mais para o sentido religioso e para uma abstra\u00e7\u00e3o da vontade humana que para um objeto real, seja ele um copo ou um livro. Na hist\u00f3ria da religi\u00e3o, trata-se do c\u00e1lice no qual Cristo bebeu vinho na \u00daltima Ceia e que teria sido motivo de busca dos cavaleiros templ\u00e1rios e justificado algumas guerras bastante sanguinolentas, t\u00edpicas da Idade M\u00e9dia. Aqui neste texto ele serve apenas de met\u00e1fora da busca por algo mais ou menos inacess\u00edvel. De algo capaz de trazer consigo uma esp\u00e9cie de reden\u00e7\u00e3o final. Algo que justifique a empreitada. Uma busca que deve valer a pena.<\/p>\n<p>Desde que o bicho homem sabe-se bicho homem, tenho a impress\u00e3o de que ele vem travando essa busca hom\u00e9rica contra si mesmo. Digo hom\u00e9rica porque estou falando de uma verdadeira epopeia que come\u00e7a nos primeiros dias da vida e vai, \u00e0s vezes com algumas paradas e abastecimentos, at\u00e9 o seu final. Essa epopeia mais conhecida como \u201cvida\u201d. E digo contra porque muitas vezes se trata de um busca empreendida na raz\u00e3o inversa do pr\u00f3prio trajeto que nela se percorre. N\u00e3o, meu assunto n\u00e3o \u00e9 a busca por perfei\u00e7\u00e3o, que essa talvez nem seja da al\u00e7ada do humano. Meu assunto \u00e9 a busca aparentemente infind\u00e1vel por avalia\u00e7\u00e3o. Por exame. Por autocompreens\u00e3o. E explorar tamb\u00e9m algumas formas pelas quais isso se choca com outros valores aparentemente naturais entre as pessoas, tais como o amor, a toler\u00e2ncia e a aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto quanto uma jornada individual, a vida \u00e9 uma aventura social. Mesmo os mais microsc\u00f3picos seres (at\u00e9 mesmo os unicelulares) parecem manter algum grau de rela\u00e7\u00e3o com os demais seres biol\u00f3gicos. Algumas vezes eles precisam totalmente uns dos outros para a sobreviv\u00eancia, \u00e0s vezes nem tanto. E \u00e0s vezes, ainda, parece que n\u00e3o precisam, mas normalmente isso s\u00f3 acontece porque os estejamos observando fora de perspectiva, como num alto relevo ou como se fossem esp\u00e9cies de divindades e n\u00e3o exist\u00eancias biol\u00f3gicas. A vida biol\u00f3gica, toda ela, est\u00e1 apoiada em sistemas din\u00e2micos de rela\u00e7\u00e3o com o ambiente. Essa parece ser inclusive uma das condi\u00e7\u00f5es fundamentais para sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Jean Paul Sartre, o conhecido fil\u00f3sofo existencialista franc\u00eas, foi um dos primeiros pensadores a postular que o isolamento da mente e do indiv\u00edduo jamais poder\u00e1 explic\u00e1-lo adequadamente. Sua famosa frase \u201co inferno s\u00e3o os outros\u201d \u00e9 uma s\u00edntese dram\u00e1tica da ideia de que a liberdade individual e autonomia n\u00e3o podem prescindir da produ\u00e7\u00e3o social. A despeito disso, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar que se reproduz cada vez mais a mentalidade de que a busca pelo n\u00edvel m\u00e1ximo de independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos demais \u00e9 o que h\u00e1 de mais importante na vida. Isso quase implica que o social deixe de ser o produto de um acordo coletivo, mas o resultado de uma uni\u00e3o casual de pessoas emocionalmente desconectadas e, ao menos idealmente, supercapazes. Um tipo de acaso, n\u00e3o um pacto comum. Em se tratando de pessoas com defici\u00eancia, parece uma proposi\u00e7\u00e3o aparentemente irresist\u00edvel. Muitas pessoas, inclusive, d\u00e3o sua vida por isso. E desde a mais tenra idade.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 sedutora, principalmente do ponto de vista dos equipamentos e das responsabilidades sociais. Um ser aut\u00f4nomo seria tanto a express\u00e3o m\u00e1xima da pot\u00eancia individual quanto a demonstra\u00e7\u00e3o de que o meio social est\u00e1 plenamente apto a permitir seu tr\u00e2nsito f\u00edsico e ps\u00edquico. \u00c9 sedutora e poderosa a ideia, mas isso n\u00e3o significa que seja autossuficiente. H\u00e1 um percurso oculto na celebra\u00e7\u00e3o de cada supera\u00e7\u00e3o, no qual muitas vezes lustra-se o aspecto espetacular em detrimento de longos anos de sofrimento e prova\u00e7\u00e3o. Um exemplo cl\u00e1ssico dessa situa\u00e7\u00e3o s\u00e3o as pessoas superdotadas. Quem v\u00ea a maravilha de um prod\u00edgio musical muitas vezes n\u00e3o imagina o grau de exig\u00eancia emocional que recai sobre pessoas assim. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 defici\u00eancia, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito diferente, assim como tamb\u00e9m para quaisquer outros limites que se imp\u00f5em na vida humana, sejam de ordem f\u00edsica ou psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00c9 justo e admiss\u00edvel que as pessoas optem, em determinados momentos de sua vida, por dedicar-se a uma inclina\u00e7\u00e3o ou talento individual. Principalmente quando se trata de uma decis\u00e3o aut\u00eantica. Mas me intriga muito compreender de que forma as pessoas incorporam cren\u00e7as e tomam decis\u00f5es e o que pressup\u00f5e a ideia de que o ser humano deve esfolar-se na pr\u00f3pria carne para alcan\u00e7ar muitas vezes aquilo que est\u00e1, ou deveria estar, dispon\u00edvel socialmente.<\/p>\n<p>Em muitos e vis\u00edveis aspectos da vida social, encontramos vest\u00edgios ou at\u00e9 mesmo evid\u00eancias de que a ideia de funcionalidade tornou-se um imperativo no mundo contempor\u00e2neo. Se a pessoa \u00e9 uma crian\u00e7a, deve funcionar minimamente bem para progredir nos estudos. Se for um adolescente, deve funcionar minimante bem socialmente para n\u00e3o ser enjeitado pela comunidade. Se for um adulto, deve produzir e contribuir regularmente para o social e, finalmente, se \u00e9 um idoso, deve ter boa sa\u00fade para n\u00e3o sobrecarregar a previd\u00eancia social e a fam\u00edlia. Dentro de cada um desses est\u00e1gios, uma escala ou mais est\u00e3o dispon\u00edveis para ajustar socialmente a pessoa. Quando h\u00e1 um desajuste, h\u00e1 recursos imediatos de compensa\u00e7\u00e3o que deveriam funcionar. Quando n\u00e3o h\u00e1 estes recursos, produz-se a defici\u00eancia social, embora o sujeito possa ser convencido de que tudo \u00e9 culpa sua e do seu prec\u00e1rio engajamento ao \u201cGraal\u201d da plena funcionalidade. \u00c9 por isso que entendo que a fixa\u00e7\u00e3o em torno a este modelo ideal de existir \u00e9 altamente produtora de frustra\u00e7\u00f5es e desadapta\u00e7\u00f5es. Entend\u00ea-lo como ideal emancipat\u00f3rio preferencial (ou exclusivo) pode significar um aprisionamento sem precedentes para as possibilidades de vida das pessoas.<\/p>\n<p>Se do ponto vista social os seres e grupos humanos s\u00e3o comumente avaliados segundo crit\u00e9rios matem\u00e1ticos (demogr\u00e1ficos, estat\u00edsticos, etc.), no que diz respeito ao indiv\u00edduo cada vez mais ele tem sido verificado e analisado a partir de seu isolamento em rela\u00e7\u00e3o ao seu ethos, seu ambiente. Assim, tem-se privilegiado a parte em detrimento do todo e o sujeito, nessa perspectiva, aliena-se do social para ent\u00e3o \u201cexistir\u201d. A pessoa aparta-se de sua comunidade. Medidas de intelig\u00eancia e crit\u00e9rios diagn\u00f3sticos de doen\u00e7as parecem fixados definitivamente nessa m\u00e9trica patologizante, na qual o ser humano \u00e9 escalonado e comparado em rela\u00e7\u00e3o aos seus semelhantes e a um impreciso eixo de normalidade para ser compreendido em sua particularidade.<\/p>\n<p>Entretanto, essa ideia (vamos cham\u00e1-la assim), obedece muitas vezes a crit\u00e9rios esdr\u00faxulos, exorbitantes ou simplesmente inacess\u00edveis \u00e0s pessoas, dada a precariedade das condi\u00e7\u00f5es sociais e capital cultural que lhe est\u00e3o dispon\u00edveis. Ao mesmo tempo em que se propaga a ideia de supera\u00e7\u00e3o ou de plena express\u00e3o da autonomia individual, consolidam-se as no\u00e7\u00f5es do individualismo, do discurso da compet\u00eancia, da meritocracia e do \u201cvire-se com o seu melhor\u201d. \u00c9 uma \u00e9tica bem particular da sociedade contempor\u00e2nea que gera, aos jorros, exclus\u00f5es e viol\u00eancias.<\/p>\n<p>Por isso, compreender a extens\u00e3o pela qual uma pessoa pode expressar seu potencial humano para a realiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e social de forma isolada parece obviamente invi\u00e1vel. Entretanto, cada vez mais se utiliza como forma de an\u00e1lise das capacidades humanas o seu n\u00edvel particular de funcionalidade, adapta\u00e7\u00e3o e desempenho. No meu ponto de vista, \u00e9 uma emboscada para a qual poucos est\u00e3o preparados. O uso do exame de funcionalidade pode ser suficiente do ponto de vista do examinador, mas jamais ser\u00e1 do examinado. Por mais que se ampare em um modelo social de compreens\u00e3o, o uso da funcionalidade como escala extirpa o social da vida do indiv\u00edduo, transforma-o numa amostra, anulando a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es humanas na express\u00e3o potencial de cada pessoa.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo e fil\u00f3sofo austr\u00edaco Konrad Lorenz, em A Demoli\u00e7\u00e3o do Homem, tenta lembrar-nos que a coopera\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e o envolvimento emocional s\u00e3o mecanismos culturais de seletividade operando em favor aos seres humanos. Para ele, a compaix\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural, embora o sofrimento o seja, mas \u00e9 ela (e n\u00e3o ele) que nos capacita para o amor e o desenvolvimento afetivo. Quando observamos os fundamentos dos sistemas educacionais, a l\u00f3gica dos mercados de trabalho e at\u00e9 mesmo as din\u00e2micas s\u00f3cio-comportamentais, fica bastante claro que estamos propondo ao indiv\u00edduo um modelo de exclus\u00e3o. Estamos lhes dizendo que nesse mundo social n\u00e3o h\u00e1 coopera\u00e7\u00e3o, mas competi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 apoio m\u00fatuo, mas concorr\u00eancia. E que a oportunidade dispon\u00edvel confere apenas em um ajuste unilateral, como se um contrato no qual apenas uma das partes tenha sido consultada.<\/p>\n<p>No momento em que n\u00e3o questionamos isso e defendemos a ideia de que as pessoas fa\u00e7am de-um-tudo para ajustar-se a este tecido social h\u00e1 uma gritante fraude social em quest\u00e3o. Estamos dizendo \u00e0s pessoas que minimizem suas caracter\u00edsticas indesej\u00e1veis e submetam-se ao crit\u00e9rio da norma, da qual elas mesmas s\u00e3o essencialmente sujeitos desviantes. Se o \u201cGraal\u201d da funcionalidade total visa entregar seres mais habilitados a essa din\u00e2mica social, ent\u00e3o tanto o modelo social quanto o modelo m\u00e9dico chegaram a colapso. S\u00e3o modelos que podem at\u00e9 explicar o indiv\u00edduo e justificar o social, mas s\u00e3o insuficientes em habilitar novos valores sociais que s\u00e3o desejos de muitos e que est\u00e3o na boca de todos, com mais ou menos verdade. Palavras t\u00e3o antigas como compaix\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o, toler\u00e2ncia, apoio e solidariedade ao mesmo tempo em que nutrem a esperan\u00e7a para o outro modelo social, deflagram a fal\u00eancia do atual. Parece at\u00e9 que, quanto mais as usamos, mais longe de seu sentido estamos.<\/p>\n<p>Ao propor a \u00e9tica do reconhecimento como forma de acordo social, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Axel Honneth ergue um pressuposto inteiramente novo. Ele diz que o ser humano deve ser reconhecido em todas as suas limita\u00e7\u00f5es para ser estimado socialmente e gozar de autoestima, sem que deva ser tomado por estas. E que ele depende tanto do reconhecimento de suas habilidades quanto de suas necessidades para tal. Para ele, a no\u00e7\u00e3o de autonomia \u00e9 sempre apoiada socialmente, jamais tomada em isolamento do indiv\u00edduo. \u00c9 um pensamento que rompe muitas amarras, mas principalmente de quem se quer ver desamarrado.<\/p>\n<p>Lembro que h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s, no festival Assim Vivemos, em Porto Alegre, assisti a um filme iraniano muito tocante sobre duas irm\u00e3s, Mitra e Jamileh, que se comunicavam inteiramente pelo contato f\u00edsico e gestual. O filme chama-se \u201cQuando brilha um raio de luz\u201d. Mitra nascera com uma severa defici\u00eancia f\u00edsica e Jamileh nascera surda. Mitra \u00e9 o elo comunicativo da dupla e, a despeito de sua defici\u00eancia f\u00edsica, tem um talento especial para o desenho. Juntas, elas vivem intensamente em um ambiente social prec\u00e1rio. Sua energia \u00e9 extra\u00edda da colabora\u00e7\u00e3o. Suas vidas s\u00e3o um exemplo perfeito de que o indiv\u00edduo n\u00e3o prescinde dos demais e que mesmo a funcionalidade \u00e9 um valor relativo, que pode ser compensado (e recompensado) pelo envolvimento social.<\/p>\n<p>Que a vida n\u00e3o \u00e9 um moto-cont\u00ednuo todos n\u00f3s sabemos, de forma mais ou menos racional. Ela sup\u00f5e obten\u00e7\u00e3o e gasto de energia, ela necessita estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, mesmo que \u00e0s vezes de formas quase irreconhec\u00edveis pela intelig\u00eancia. Talvez a\u00ed esteja seu grande mist\u00e9rio ou a raz\u00e3o pela qual dependemos uns dos outros e de ambientes sociais favor\u00e1veis. Como em poucos momentos antes do atual, o ser humano parece empenhado em sua felicidade. Eu at\u00e9 penso que seja admiss\u00edvel e interessante que as pessoas busquem ao m\u00e1ximo o seu desenvolvimento, mas que esse n\u00e3o seja o \u00fanico \u201cGraal\u201d de suas vidas. Quem sabe n\u00e3o pode haver v\u00e1rios, de outros tipos e finalidades? Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode esquecer que mesmo o Graal original n\u00e3o foi utilizado na solid\u00e3o, mas no encontro de muitos. E se esse encontro faz algum sentido at\u00e9 hoje n\u00e3o \u00e9 por causa de um copo, mas pelo tempo ali compartilhado, pelas trocas feitas, pelos compromissos selados.<\/p>\n<p>__________________________________<\/p>\n<p>Jean Paul Sartre. Entre quatro paredes. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2005.<br \/>\nAxel Honneth. Luta por reconhecimento: a gram\u00e1tica moral dos conflitos sociais. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2009.<br \/>\nKonrad Lorenz. A demoli\u00e7\u00e3o do homem: cr\u00edtica \u00e0 falsa religi\u00e3o do progresso. S\u00e3o Paulo: Brasilinse, 1986.<\/p>\n<p><em>* Coordenador-Geral da Inclusive &#8211; Inclus\u00e3o e Cidadania e autor de <a href=\"http:\/\/morphopolis.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Morphopolis<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o \u201cGraal\u201d da funcionalidade total visa entregar seres mais habilitados a essa din\u00e2mica social, ent\u00e3o tanto o modelo social quanto o modelo m\u00e9dico chegaram a colapso. 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