{"id":26680,"date":"2014-07-16T07:40:07","date_gmt":"2014-07-16T10:40:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=26680"},"modified":"2014-07-16T07:40:07","modified_gmt":"2014-07-16T10:40:07","slug":"uma-experiencia-com-audiodescricao-para-pessoas-com-baixo-letramento-no-cmet-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=26680","title":{"rendered":"Uma experi\u00eancia com audiodescri\u00e7\u00e3o para pessoas com baixo letramento no CMET, em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-20182 \" alt=\"S\u00edmbolo da \u00e1udio-descri\u00e7\u00e3o - Letras A e D brancas, em caixa alta, sobre fundo preto, e tr\u00eas par\u00eanteses ap\u00f3s o D.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/audiodescricao.jpg\" width=\"166\" height=\"116\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><em>Por Ana Maria Lima Cruz, Let\u00edcia Schwartz e Marilena Assis<a title=\"\" href=\"#_edn1\">[i]<\/a><\/em><\/p>\n<p>O relato a seguir \u00e9 resultado do trabalho de conclus\u00e3o da disciplina Inclus\u00e3o Cultural das Pessoas com Defici\u00eancia e os Diferentes P\u00fablicos da Audiodescri\u00e7\u00e3o, ministrada pelas Professoras Marta Gil e Cristiana Cerchiari, do I Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Audiodescri\u00e7\u00e3o promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em parceria com a Secretaria Nacional de Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos da Pessoa com Defici\u00eancia, sob coordena\u00e7\u00e3o da Prof.\u00aa Dr.\u00aa Eliana L\u00facia Ferreira e da Dr.\u00aa L\u00edvia Maria Villela de Mello Motta.<\/p>\n<p>A tarefa em quest\u00e3o consistia em realizar uma sess\u00e3o de cinema com audiodescri\u00e7\u00e3o para espectadores videntes<a title=\"\" href=\"#_edn2\">[ii]<\/a>, contemplando um segmento de p\u00fablico que pudesse ser beneficiado pela audiodescri\u00e7\u00e3o. A atividade, realizada no Centro Municipal de Educa\u00e7\u00e3o Paulo Freire (CMET), na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, foi dirigida a um grupo de quatorze alunos das Totalidades Iniciais, na faixa et\u00e1ria dos 23 aos 82 anos. O grupo era composto, majoritariamente, por idosos, e inclu\u00eda jovens com defici\u00eancia intelectual, todos em processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Foram utilizados tr\u00eas curtas-metragens de anima\u00e7\u00e3o, com dura\u00e7\u00e3o m\u00e1xima a 10 minutos, a fim de promover espa\u00e7os de discuss\u00e3o entre um e outro e favorecer a constru\u00e7\u00e3o de conhecimento no decorrer da atividade. Nosso objetivo era verificar de que maneira o recurso da audiodescri\u00e7\u00e3o poderia beneficiar uma plateia cuja particularidade \u00e9 o baixo letramento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>SEGUNDA-FEIRA, 05 DE MAIO DE 2014<\/b><\/p>\n<p>Maria da Paz, 82 anos, aguarda ansiosamente pela aula de m\u00fasica da segunda-feira. Dona de um vozeir\u00e3o de contralto e de uma vitalidade de causar inveja, tem uma rotina intensa, que inclui as aulas do CMET, um curso de dan\u00e7a e apresenta\u00e7\u00f5es com o coral da escola, sem descuidar da fam\u00edlia e da vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No dia 05 de maio, por\u00e9m, Maria da Paz foi pega de surpresa. As cadeiras da sala, normalmente dispostas em c\u00edrculo, formavam uma plateia. Em frente ao quadro branco, um projetor ligado. Cinema? E a aula de m\u00fasica, cad\u00ea?<\/p>\n<p>Mas a anima\u00e7\u00e3o de Maria da Paz n\u00e3o \u00e9 de se apagar por coisa pouca! E uma atividade diferente assim, para come\u00e7ar a semana, logo mereceu um sorriso aberto.<\/p>\n<p>A bem da verdade, tamb\u00e9m n\u00f3s fomos pegas de surpresa. Fazia duas semanas que hav\u00edamos combinado com a professora e com a dire\u00e7\u00e3o todos os detalhes sobre a sess\u00e3o com audiodescri\u00e7\u00e3o. A atividade aconteceria no hor\u00e1rio da aula da professora Daisy Erig e contaria com 20 a 30 alunos em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Em uma reuni\u00e3o posterior, por\u00e9m, ficou decidido que a manh\u00e3 de segunda-feira \u2013 da nossa segunda-feira \u2013 seria dedicada a uma importante assembleia de alunos. Em meio a decis\u00f5es de \u00faltima hora, a sess\u00e3o de cinema foi esquecida. Nossa chegada \u00e0 escola, cheias de empolga\u00e7\u00e3o, gerou uma situa\u00e7\u00e3o um pouco constrangedora. Bem pouco, pois o diretor do CMET logo se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para encontrarmos um meio de salvar a situa\u00e7\u00e3o. O apoio da professora e do diretor, sempre simp\u00e1ticos e participativos, foi fundamental para o bom andamento da atividade.<\/p>\n<p>Em vez de 30 alunos, tivemos 10. Isso no in\u00edcio da sess\u00e3o, pois ao final da assembleia chegamos a uma plateia de 14 alunos, al\u00e9m da professora Daisy, que acompanhou toda a atividade. O n\u00famero reduzido terminou por se mostrar favor\u00e1vel, oportunizando um bate-papo mais participativo. O grupo era acolhedor e extremamente animado. O fato de serem colegas de classe facilitou bastante nosso trabalho, pois havia desde o in\u00edcio uma excelente intera\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p>O grupo era formado por idosos entre 66 e 82 anos, al\u00e9m de dois adultos (de 23 e 32 anos) com defici\u00eancia intelectual, todos alunos das Totalidades Iniciais, equivalente aos primeiros anos do ensino fundamental. Pessoas de baixa renda, com car\u00eancia n\u00e3o apenas de recursos materiais, mas tamb\u00e9m sociais e culturais. Esses fatores levaram-nos \u00e0 primeira de muitas reflex\u00f5es: o analfabetismo, funcional ou n\u00e3o, tem sempre sua raz\u00e3o de ser. A idade avan\u00e7ada, a defici\u00eancia intelectual e a necessidade de abandonar os estudos para trabalhar s\u00e3o apenas alguns exemplos. Percebemos que n\u00e3o seria poss\u00edvel avaliar o p\u00fablico com baixo letramento apenas sob essa \u00f3tica, uma vez que esses espectadores se enquadravam tamb\u00e9m em outros grupos potencialmente beneficiados pela audiodescri\u00e7\u00e3o. Seria necess\u00e1rio, ent\u00e3o, adequar nosso planejamento inicial, a fim de melhor atendermos \u00e0 diversidade do p\u00fablico.<\/p>\n<p>De certa forma, est\u00e1vamos preparadas para isso. Apesar de termos estudado os textos sugeridos pelas professoras, do compartilhamento de viv\u00eancias e experi\u00eancias regado a caf\u00e9 com biscoitos, de um planejamento concreto e bem estruturado, sab\u00edamos que nada, nunca, acontece conforme o esperado. Est\u00e1vamos certas de que toda a prepara\u00e7\u00e3o tinha por objetivo, apenas, nos deixar mais seguras para lidar com tudo aquilo que pudesse surgir de inesperado. Animadas com a atividade, dividimos fun\u00e7\u00f5es como quem divide doce: cada uma querendo ficar com a por\u00e7\u00e3o maior. A Marilena, que conhecia a turma, ficou respons\u00e1vel por puxar conversa; \u00e0 Ana Maria coube a grava\u00e7\u00e3o e a edi\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo; e Let\u00edcia assumiu a reda\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Chegamos cedo, para dar tempo de lidar com qualquer eventualidade (tal como uma assembleia de alunos programada para o mesmo hor\u00e1rio da atividade). Al\u00e9m disso, quer\u00edamos ter tempo dispon\u00edvel para observar um pouco o p\u00fablico durante o hor\u00e1rio do lanche e aproveitar a oportunidade para uma aproxima\u00e7\u00e3o mais informal.<\/p>\n<p>Como ter\u00edamos apenas duas horas para a atividade, conclu\u00edmos que um longa-metragem n\u00e3o seria a melhor alternativa. O grupo teria melhores condi\u00e7\u00f5es de concentra\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o se utiliz\u00e1ssemos filmes curtos. Al\u00e9m disso, um filme de 90 minutos ou mais nos deixaria sem tempo para conversar com os espectadores. E como quer\u00edamos conversar com os espectadores!<\/p>\n<p>Optamos pela apresenta\u00e7\u00e3o de tr\u00eas curtas-metragens, com consentimento das professoras Marta e Cristiana: <i>A Improv\u00e1vel Todavia Aut\u00eantica Hist\u00f3ria do An\u00e3o que Virou Gigante<\/i>, <i>Imagine uma menina com cabelos de Brasil<\/i> e <i>Os Olhos do Pianista<\/i>.<a title=\"\" href=\"#_edn3\">[iii]<\/a> A sele\u00e7\u00e3o obedeceu a dois crit\u00e9rios diferentes: o conte\u00fado social, que poderia provocar a reflex\u00e3o e alimentar o debate, e a adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta da professora Daisy, que desenvolve com os alunos o projeto \u201cCorpo e Som\u201d.<\/p>\n<p>Para uma avalia\u00e7\u00e3o mais precisa dos resultados, decidimos inserir um momento de conversa informal ao final de cada um dos curtas. Esse recurso possibilitaria, ainda, uma aproxima\u00e7\u00e3o gradual do p\u00fablico com a audiodescri\u00e7\u00e3o e, consequentemente, uma compreens\u00e3o mais ampla do conceito e dos benef\u00edcios proporcionados por essa ferramenta.<\/p>\n<p><b>V\u00cdDEO 1: A IMPROV\u00c1VEL TODAVIA AUT\u00caNTICA HIST\u00d3RIA DO AN\u00c3O QUE VIROU GIGANTE<\/b><\/p>\n<p>Come\u00e7amos por <i>A Improv\u00e1vel Todavia Aut\u00eantica Hist\u00f3ria do An\u00e3o que Virou Gigante<\/i>. A anima\u00e7\u00e3o, baseada em um caso real, conta a hist\u00f3ria de um rapaz de 1,20 de altura que, aos 20 anos de idade, come\u00e7a a crescer at\u00e9 tornar-se um gigante. O curta mostra as dificuldades pelas quais o personagem passa nas duas etapas de sua vida e evidencia o preconceito sofrido por aquele que \u00e9 diferente dos demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o mencionamos a audiodescri\u00e7\u00e3o. Nossa inten\u00e7\u00e3o era observar se os espectadores identificariam ou n\u00e3o a presen\u00e7a dessa narra\u00e7\u00e3o adicional, se estranhariam ou aceitariam com naturalidade.<\/p>\n<p>O grupo assistiu em sil\u00eancio. Um sil\u00eancio que tinha diferentes significados, decifr\u00e1veis apenas pela express\u00e3o de cada um. Alguns pareciam cansados. Outros, educados, apenas. A maioria, por\u00e9m, demonstrava aten\u00e7\u00e3o e interesse.<\/p>\n<p>Iniciamos nossa abordagem buscando verificar a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria e as possibilidades de rela\u00e7\u00e3o com o cotidiano do grupo. Perguntamos sobre os percal\u00e7os de ser an\u00e3o ou gigante. O assunto despertou o interesse de Terezinha, 73 anos, que mostrou-se surpresa por jamais ter parado para pensar nas dificuldades que uma pessoa com nanismo enfrenta em seu dia a dia. Ela tamb\u00e9m falou sobre um vizinho com 2,30 metros de altura e relatou as situa\u00e7\u00f5es de preconceito pelas quais ele passava, \u201cporque quando ele trabalhava no porto, ele era a \u00fanica criatura assim\u201d. Segundo ela, a situa\u00e7\u00e3o seria melhor hoje em dia, pois \u201choje os jogadores de basquete s\u00e3o o m\u00e1ximo\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de fazer parte do grupo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 faixa et\u00e1ria e ao baixo letramento, Terezinha evidencia um n\u00edvel sociocultural diferenciado. Seus coment\u00e1rios, ao longo de toda a atividade, demonstraram profunda compreens\u00e3o, capacidade de interpreta\u00e7\u00e3o e habilidade para fazer rela\u00e7\u00f5es entre os filmes apresentados e a realidade. Terezinha era a \u00fanica participante com baixa vis\u00e3o e acreditamos que a audiodescri\u00e7\u00e3o tenha sido um fator decisivo para que ela chegasse a tal n\u00edvel de compreens\u00e3o sobre essa e as demais anima\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>DESCOBRINDO A AUDIODESCRI\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>Em seguida passamos a averiguar a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico sobre a audiodescri\u00e7\u00e3o. Perguntamos se haviam percebido \u201calguma coisa diferente\u201d no filme, mas o grupo n\u00e3o conseguiu responder. Ent\u00e3o, apresentamos um pequeno trecho do filme sem e com audiodescri\u00e7\u00e3o, para que pudessem comparar. Ainda assim, tiveram alguma dificuldade. Foi preciso que cham\u00e1ssemos a aten\u00e7\u00e3o deles para o fato de que, na primeira vers\u00e3o, t\u00ednhamos apenas a voz do personagem, enquanto que na segunda havia sido acrescida uma voz feminina. O grupo acreditou que fosse a voz de algum personagem. Insistimos, pausando o filme ao longo de uma descri\u00e7\u00e3o mais longa para que tivessem tempo de vincular cada trecho do discurso \u00e0 imagem que aparecia na tela. A empolga\u00e7\u00e3o era crescente, era poss\u00edvel ver nos olhos de cada um o momento em que percebiam a fun\u00e7\u00e3o da \u201cvoz\u201d. Foi Terezinha quem conseguiu colocar em palavras: \u201ca voz da mulher vai descrevendo o que est\u00e1 acontecendo!\u201d.<\/p>\n<p>A partir da compreens\u00e3o do conceito, Marilena p\u00f4de relatar para o grupo a import\u00e2ncia da audiodescri\u00e7\u00e3o para quem tem defici\u00eancia visual. O fato dessa informa\u00e7\u00e3o partir de uma professora cega teve grande efeito sobre os alunos, pois imediatamente conseguiram vincular o recurso a colegas com quem convivem no pr\u00f3prio CEMET.<\/p>\n<p>Chamou a aten\u00e7\u00e3o o fato de reagirem mais intensamente ao trecho sem audiodescri\u00e7\u00e3o. Riam nos momentos oportunos e teciam breves coment\u00e1rios acerca da situa\u00e7\u00e3o do personagem. Atribu\u00edmos isso ao fato de estarem assistindo pela segunda vez e de termos discutido o filme juntos. Al\u00e9m disso, a vers\u00e3o sem audiodescri\u00e7\u00e3o deixava espa\u00e7os de sil\u00eancio, que bem podem ser qualificados como \u201crespiros\u201d. Esses momentos favorecem a reflex\u00e3o, ainda que breve, e possibilitam uma r\u00e1pida troca de ideias entre os participantes, o que funciona como um suporte \u00e0 compreens\u00e3o. Nesse sentido, percebemos que a audiodescri\u00e7\u00e3o pode ser recebida por esse p\u00fablico como um agente poluidor da mensagem. Cabe observar que Terezinha, devido \u00e0 baixa vis\u00e3o, permaneceu alheia aos risos e aos coment\u00e1rios durante a exibi\u00e7\u00e3o sem audiodescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>V\u00cdDEO 2: IMAGINE UMA MENINA COM CABELOS DE BRASIL<\/b><\/p>\n<p>Para introduzir o segundo curta-metragem e consolidar a compreens\u00e3o sobre a audiodescri\u00e7\u00e3o, projetamos um quadro de <i>Imagine uma menina com cabelos de Brasil<\/i> e pedimos que o grupo o descrevesse, para que Marilena pudesse ter acesso \u00e0 imagem. Todos foram muito participativos. Conclu\u00edram, num primeiro momento, que se tratava de uma mulher com o cabelo \u201ctodo em p\u00e9\u201d e que dava a impress\u00e3o de que atr\u00e1s dela havia um mapa do Brasil. A partir dos nossos questionamentos, Gregory, que tem defici\u00eancia intelectual, arriscou que o mapa estivesse na cabe\u00e7a da personagem e que fosse constitu\u00eddo de cabelos. A grande controv\u00e9rsia ficou por conta de um pequeno objeto depositado sobre a mesa, \u00e0 frente da personagem. Seria uma escova? Um bal\u00e3o? Uma raquete? Uma bolsinha?<\/p>\n<p>O resultado dessa aproxima\u00e7\u00e3o com o filme apareceu j\u00e1 na primeira imagem. A leitura do t\u00edtulo (Uma menina com cabelos de Brasil) foi suficiente para provocar uma rea\u00e7\u00e3o imediata, pois confirmava o que haviam conclu\u00eddo pela observa\u00e7\u00e3o atenta da imagem. J\u00e1 na primeira cena, a menina faz uso do tal objeto controverso \u2013 um espelhinho de m\u00e3o -, mantendo os alunos concentrados na resposta \u00e0 charada.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia desse processo, a proje\u00e7\u00e3o contou com um p\u00fablico ainda mais atento e envolvido. Come\u00e7avam a relaxar e a efetivamente aproveitar a sess\u00e3o. A concentra\u00e7\u00e3o dos alunos foi fundamental nesse momento, pois a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante exigente. Ela retrata a rela\u00e7\u00e3o do Brasil com outros pa\u00edses atrav\u00e9s de um grupo de meninas cujos cabelos t\u00eam a configura\u00e7\u00e3o dos mapas. O desprezo dos pa\u00edses do G8, a amizade da \u00cdndia e da \u00c1frica e o descontentamento do Brasil com sua pr\u00f3pria cabeleira s\u00e3o algumas das quest\u00f5es levantadas pelo filme. Aqui, a descri\u00e7\u00e3o das imagens ganha uma import\u00e2ncia ainda maior, pois a identifica\u00e7\u00e3o dos diferentes mapas \u00e9 imprescind\u00edvel para a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mais uma vez, foi Terezinha quem saiu na frente: \u201cEu achei uma coisa fant\u00e1stica, a pessoa ter a ideia de fazer uma coisa assim, formar os mapas nas cabe\u00e7as, com os cabelos das pessoas&#8230; E mostrar o preconceito que tem uns com os outros.\u201d<\/p>\n<p>Ainda com a inten\u00e7\u00e3o de verificar a import\u00e2ncia da audiodescri\u00e7\u00e3o, perguntamos a Gregory o que cada uma das meninas comia na hora do recreio. A imagem em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia e a audiodescri\u00e7\u00e3o identifica aquilo que s\u00f3 um olhar treinado conseguiria perceber. Para ajudar, reprisamos a cena. Com isso, Gregory teve bastante facilidade em responder.<\/p>\n<p>Os participantes aprofundaram a discuss\u00e3o sobre o filme relacionando-o ao momento atual, com a proximidade da Copa do Mundo e a aguardada visita das sele\u00e7\u00f5es de outros pa\u00edses. Demonstraram estranhamento sobre a rela\u00e7\u00e3o de amizade entre Brasil e \u00cdndia (\u201cA \u00cdndia eu nem sabia que tinha grandes contatos, uns com os outros.\u00a0 Se bem que agora v\u00e3o trazer carros da \u00cdndia pro Brasil\u201d, diz Terezinha, muit\u00edssimo bem informada sobre os rumos da importa\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p>Reconheceram, ainda, que o curta poderia ter uso pedag\u00f3gico para o ensino de Geografia e Hist\u00f3ria, assim como para pr\u00e1ticas sobre intera\u00e7\u00e3o, sociabiliza\u00e7\u00e3o e conv\u00edvio sem preconceitos.<\/p>\n<p>Marilena relacionou o projeto da professora Daisy, \u201cCorpo e Som\u201d, com o \u00e1udio do filme apresentado, onde efeitos sonoros desenham imagens para o espectador cego: um fio de cabelo da menina Brasil que se empina fazendo \u201ct\u00f3in\u201d, a imita\u00e7\u00e3o de macaco feita pela menina Estados Unidos, a tagarelice das colegas do G8, o choro contido da menina \u00c1frica. Isso deixou os alunos mais atentos \u00e0 presen\u00e7a de informa\u00e7\u00f5es sonoras nos filmes.<\/p>\n<p><b>A AUDIODESCRI\u00c7\u00c3O E A AQUISI\u00c7\u00c3O DE VOCABUL\u00c1RIO<\/b><\/p>\n<p>Quer\u00edamos verificar, ainda, se a audiodescri\u00e7\u00e3o poderia servir como ferramenta para aquisi\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio. Ent\u00e3o pedimos que todos colocassem um bra\u00e7o na vertical. Nenhum dos participantes pareceu entender o comando (com exce\u00e7\u00e3o de Terezinha, que teve as m\u00e3os contidas por Marilena para n\u00e3o entregar a resposta). Voltamos a projetar a cena em que a menina Brasil segura uma escova de cabelos junto ao corpo, na vertical, fato que \u00e9 mencionado pela audiodescri\u00e7\u00e3o. Relacionando imagem e discurso, al\u00e9m da ajuda da professora Daisy, tr\u00eas alunos conseguiram posicionar o bra\u00e7o conforme solicitado.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre imagem e palavra pode favorecer a aprendizagem, uma vez que promove a compreens\u00e3o de conceitos e significados. A tradu\u00e7\u00e3o de imagens em palavras \u00e9 respons\u00e1vel por nomear aquilo que descreve, permitindo a incorpora\u00e7\u00e3o de novos termos ao universo lingu\u00edstico dos espectadores. Assim, a audiodescri\u00e7\u00e3o revela-se um instrumento facilitador da aquisi\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio, beneficiando, nesse sentido, um p\u00fablico bastante amplo, que inclui pessoas com defici\u00eancia visual ou intelectual, adultos com baixo letramento e estudantes do portugu\u00eas como segundo idioma. Reiteramos a import\u00e2ncia desse recurso, uma vez que o dom\u00ednio da l\u00edngua aumenta em muito as possibilidades de inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p><b>V\u00cdDEO 3: OS OLHOS DO PIANISTA<\/b><\/p>\n<p>Para encerrar a programa\u00e7\u00e3o, exibimos <i>Os Olhos do Pianista<\/i>. Na anima\u00e7\u00e3o, uma menina \u00e9 respons\u00e1vel por orientar um velho pianista de cinema. Ele \u00e9 cego e \u00e9 ela quem acompanha as imagens do filme, comunicando cada mudan\u00e7a de cena atrav\u00e9s de diferentes toques no corpo do pianista.<\/p>\n<p>Com a chegada de novos espectadores \u00e0 sess\u00e3o, resolvemos retomar o conceito da audiodescri\u00e7\u00e3o. Dessa vez, n\u00e3o foi dif\u00edcil perceberem que havia \u201cuma pessoa narrando\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, come\u00e7amos a conversar sobre o filme. A atenta Terezinha foi a primeira a se manifestar: \u201cO pianista era cego, n\u00e9?\u201d. Os colegas, no entanto, n\u00e3o haviam identificado essa caracter\u00edstica do personagem, fundamental para a compreens\u00e3o do enredo. Podemos questionar a efic\u00e1cia da audiodescri\u00e7\u00e3o nesse sentido. A audiodescri\u00e7\u00e3o menciona que a menina estende a m\u00e3o para o pianista cada vez que chegam a algum lugar, mas n\u00e3o \u201centrega\u201d a inten\u00e7\u00e3o de gui\u00e1-lo (o pr\u00f3prio filme n\u00e3o deixa isso evidente). \u00c9 dito, tamb\u00e9m, que o homem usa \u00f3culos escuros dentro do cinema e que \u00e9 a menina que mant\u00e9m os olhos fixos na tela. Trata-se de descri\u00e7\u00f5es objetivas, que traduzem precisamente o que aparece na tela e deixam qualquer conclus\u00e3o por conta do espectador. Com pessoas que apresentam dificuldade de aprendizado ou defici\u00eancia intelectual, teria sido importante acrescentar breves coment\u00e1rios que orientassem a compreens\u00e3o propriamente dita. Parece-nos que esse grupo de espectadores exigiria uma audiodescri\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter mais informativo, que estimulasse n\u00e3o apenas a compreens\u00e3o das imagens, mas a contextualiza\u00e7\u00e3o das mesmas para entendimento da obra como um todo.<\/p>\n<p>A professora Daisy relacionou a anima\u00e7\u00e3o aos filmes de Charles Chaplin para que os alunos identificassem as caracter\u00edsticas do cinema mudo e acrescentou a informa\u00e7\u00e3o, nova para eles, de que essas sess\u00f5es contavam com um pianista que executava a trilha sonora ao vivo. Os alunos ainda tiveram alguma dificuldade em perceber a import\u00e2ncia da vis\u00e3o para que o pianista acompanhasse o andamento do filme. Repetimos o trecho em que a menina tocava no pianista para orient\u00e1-lo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 trilha, a fim de que identificassem com maior clareza o c\u00f3digo atrav\u00e9s do qual ela comunicava cada cena ao pianista.<\/p>\n<p>Aproveitamos a anima\u00e7\u00e3o para, mais uma vez, explorar o vocabul\u00e1rio. Na \u00faltima cena, a audiodescri\u00e7\u00e3o afirma que a menina fica <i>ruborizada<\/i>. Foi o termo que escolhemos para verificar se o casamento entre imagem e discurso poderia promover a aquisi\u00e7\u00e3o de novos conceitos. Os alunos responderam de maneira favor\u00e1vel, identificando que a menina havia ficado vermelha.<\/p>\n<p>Sugerimos ainda uma din\u00e2mica que tinha por objetivo avaliar a compreens\u00e3o do filme, agregando \u00e0 atividade conceitos de \u201ccorpo e som\u201d propostos pela professora Daisy e vinculando a brincadeira ao processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Pedimos que formassem uma corrente humana, \u00e0 semelhan\u00e7a daquela que aparece na anima\u00e7\u00e3o. Definimos um c\u00f3digo, onde diferentes toques eram relacionados a cada uma das vogais (topo da cabe\u00e7a = A; ombro = E; cotovelo = I; pulso = O; dedos da m\u00e3o = U). \u00a0O primeiro participante deveria tocar no colega ao lado, que reproduzia o movimento at\u00e9 chegar ao \u00faltimo da fila, respons\u00e1vel por verbalizar a vogal. A atividade foi bem recebida pelos alunos, mas foi necess\u00e1rio partir do n\u00edvel mais b\u00e1sico de compreens\u00e3o, preservando a ordem das vogais.<\/p>\n<p>Ao final, a professora Daisy abordou a import\u00e2ncia do saber se relacionar com o outro, independentemente de qualquer dificuldade f\u00edsica ou sensorial. Falou sobre a import\u00e2ncia da audiodescri\u00e7\u00e3o para quem tem dificuldade de leitura, seja por baixo letramento ou idade avan\u00e7ada, uma vez que a audiodescri\u00e7\u00e3o mencionar\u00e1 tudo o que estiver escrito na tela. Mencionou, tamb\u00e9m, a necessidade de que a escola perceba as necessidades de cada um de seus alunos e professores, pois todos s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>Nesses instantes finais, foi Ana quem colocou em palavras aquilo que n\u00f3s mesmas est\u00e1vamos sentindo: \u201cEu acho que isso a\u00ed tem que passar mais vezes.\u201d<\/p>\n<p>E como todo grande evento merece um <i>grand finale<\/i>, o grupo nos presenteou com uma apresenta\u00e7\u00e3o do Hino do CMET. O hino, que foi composto pelos pr\u00f3prios alunos e tem por tema a inclus\u00e3o e o respeito a todos, \u00e9 motivo de orgulho para cada um deles. Para n\u00f3s, a trilha sonora fechava com chave de ouro um processo que teve in\u00edcio em meados de abril.<\/p>\n<p><b>ALGUMAS CONCLUS\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>Nossa sess\u00e3o de cinema demonstrou que o p\u00fablico em quest\u00e3o \u2013 formado por pessoas com baixo letramento, idosos e pessoas com defici\u00eancia intelectual \u2013 n\u00e3o reagiu de forma entusi\u00e1stica \u00e0 audiodescri\u00e7\u00e3o. Restringiram-se a observar que o recurso \u201cn\u00e3o atrapalha\u201d a compreens\u00e3o e identificaram a import\u00e2ncia da ferramenta para pessoas com defici\u00eancia visual, ainda que n\u00e3o percebessem os benef\u00edcios que poderia trazer para si pr\u00f3prios. No entanto, a partir das respostas aos questionamentos e atividades propostos, avaliamos que a audiodescri\u00e7\u00e3o serviu, sim, como suporte \u00e0 compreens\u00e3o, ainda que isso n\u00e3o tenha sido percebido pelos espectadores de maneira consciente.<\/p>\n<p>O grupo evidenciou grande alegria com a atividade e chegou a reflex\u00f5es bastante profundas, tendo sempre por foco o conte\u00fado das anima\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o a audiodescri\u00e7\u00e3o. Acreditamos que o recurso tenha atuado como est\u00edmulo, mas ressaltamos a import\u00e2ncia da condu\u00e7\u00e3o das atividades por parte das autoras e da professora Daisy Erig para que os alunos chegassem \u00e0quele n\u00edvel de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>A audiodescri\u00e7\u00e3o pode servir como apoio para conduzir o olhar de espectadores com baixo letramento e\/ou defici\u00eancia intelectual, ajudando-os a mergulhar na obra, dando suporte \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio e conhecimento, acompanhando-os em seu mergulho nas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o modelo atual de audiodescri\u00e7\u00e3o, que t\u00e3o bem atende \u00e0s necessidades das pessoas cegas e com baixa vis\u00e3o, n\u00e3o nos parece inteiramente eficaz para o p\u00fablico pesquisado. A audiodescri\u00e7\u00e3o tem por objetivo a tradu\u00e7\u00e3o visual, evitando, sempre que poss\u00edvel, a interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos. Para pessoas com dificuldade de compreens\u00e3o (seja devida ao analfabetismo, \u00e0 defici\u00eancia intelectual ou a qualquer outra condi\u00e7\u00e3o), talvez fosse interessante desenvolver um tipo de tradu\u00e7\u00e3o que servisse de apoio, justamente, \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O presente relato n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de definir regras ou par\u00e2metros para a produ\u00e7\u00e3o da audiodescri\u00e7\u00e3o, ou mesmo oferecer argumentos a favor de um servi\u00e7o espec\u00edfico para um p\u00fablico caracterizado pela dificuldade de compreens\u00e3o. Nossa atividade foi dirigida a um grupo restrito e seus resultados n\u00e3o representam conclus\u00f5es definitivas, tendo, apenas, um valor de amostragem Nosso objetivo \u00e9 t\u00e3o somente propor a experimenta\u00e7\u00e3o e a troca de experi\u00eancias adquiridas pela pr\u00e1tica e apontar para a necessidade de investiga\u00e7\u00f5es mais amplas e mais profundas no sentido de melhor atender a todos os benefici\u00e1rios da audiodescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref1\">[i]<\/a> Ana Maria Lima Cruz \u00e9 professora do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, Mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFMA e Doutoranda em Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Marilena Assis \u00e9 professora especialista na \u00e1rea da defici\u00eancia visual nas redes municipal e estadual do Rio Grande do Sul, Mestre em Gest\u00e3o e Pol\u00edtica da Educa\u00e7\u00e3o e consultora em audiodescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Let\u00edcia Schwartz \u00e9 audiodescritora-roteirista e narradora da empresa Mil Palavras.<\/p>\n<p>As autoras s\u00e3o p\u00f3s-graduandas do Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Audiodescri\u00e7\u00e3o pela UFJF.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref2\">[ii]<\/a> Pessoa dotada da capacidade de vis\u00e3o (em oposi\u00e7\u00e3o a <em>cego<\/em>), conforme defini\u00e7\u00e3o do Dicion\u00e1rio Aulete.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref3\">[iii]<\/a> As anima\u00e7\u00f5es utilizadas para a atividade est\u00e3o dispon\u00edveis no You Tube e podem ser acessados a partir dos seguintes links: <a href=\"http:\/\/youtu.be\/DzeeVPGN--Q\">http:\/\/youtu.be\/DzeeVPGN&#8211;Q<\/a>, <a href=\"http:\/\/youtu.be\/KC19s0WGsFQ\">http:\/\/youtu.be\/KC19s0WGsFQ<\/a> e <a 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