{"id":28107,"date":"2015-05-29T01:58:19","date_gmt":"2015-05-29T04:58:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=28107"},"modified":"2015-05-29T01:58:19","modified_gmt":"2015-05-29T04:58:19","slug":"politicamente-correto-uma-defesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=28107","title":{"rendered":"Politicamente correto, uma defesa"},"content":{"rendered":"<div>\n<div>\n<article>\n<header>Porque as pessoas desprivilegiadas podem nomear a si mesmas.<\/header>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/autores\/alex-castro#artigos\"><img decoding=\"async\" alt=\"Por claudia regina 6jul13 1 1024x682\" src=\"http:\/\/images.papodehomem.com.br\/media\/W1siZiIsIjIwMTUvMDEvMDcvMTQvMDEvMjIvNDkxL3Bvcl9jbGF1ZGlhX3JlZ2luYV82anVsMTNfMV8xMDI0eDY4Mi5qcGciXSxbInAiLCJ0aHVtYiIsIjIwMHgyMDAjIl1d\/por-claudia-regina-6jul13-1-1024x682.jpg?sha=760651d542f56d98\" \/><\/a><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/autores\/alex-castro#artigos\">Alex Castro<\/a><\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/colecoes\/prisoes\">Pris\u00f5es<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/colecoes\/relacoes\">Rela\u00e7\u00f5es<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/colecoes\/atitude\">Mente e atitude<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<ul data-article-url=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/politicamente-correto-uma-defesa\" data-component=\"social\">\n<li><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/politicamente-correto-uma-defesa#\"><b>5110<\/b>likes&nbsp;\n<p><\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/politicamente-correto-uma-defesa#\"><b>23<\/b>tweets&nbsp;\n<p><\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/politicamente-correto-uma-defesa#disqus_thread\"><b>247<\/b>coment\u00e1rios&nbsp;\n<p><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<ul>\n<li>Nossos atuais Mecenas:<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/colecoes\/dafiti\"><img decoding=\"async\" alt=\"130x25\" src=\"http:\/\/images.papodehomem.com.br\/media\/W1siZiIsIjIwMTUvMDUvMTQvMjAvNDYvMzcvNzM2LzEzMHgyNS5qcGciXSxbInAiLCJ0aHVtYiIsIjEzMHgyNSMiXV0\/130x25.jpg?sha=b58aea44991ece0c\" \/><\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/colecoes\/consul\">\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/ia.nspmotion.com\/tracking\/?p=223426&amp;sc=29004&amp;r=[timestamp]\" width=\"1\" height=\"1\" border=\"0\" \/><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"130x25\" src=\"http:\/\/images.papodehomem.com.br\/media\/W1siZiIsIjIwMTUvMDUvMDYvMTkvMzUvMDUvNTU3LzEzMHgyNS5qcGciXSxbInAiLCJ0aHVtYiIsIjEzMHgyNSMiXV0\/130x25.jpg?sha=16ca0efb40b59c91\" \/><\/p>\n<p><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<article>Nosso uso da l\u00edngua \u00e9 e sempre foi pol\u00edtico. N\u00e3o existe, nem poderia existir, linguagem neutra.O politicamente correto serve para destruir essa ilus\u00e3o: seu grande m\u00e9rito \u00e9 escancaradamente politizar a palavra.<\/p>\n<h3>Escancarando a vida pol\u00edtica das palavras<\/h3>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, uma pessoa brasileira desatenta poderia at\u00e9 pensar que a palavra &#8220;presidente&#8221; era neutra.<\/p>\n<p>(N\u00e3o \u00e9, nem nunca foi. Barack Obama \u00e9 t\u00e3o presidente dos EUA quanto Raul Castro de Cuba, mas grande parte da imprensa brasileira chama o primeiro de &#8220;<i>presidente<\/i>&#8221; e o segundo, de &#8220;<i>ditador<\/i>&#8220;, como se o uso da palavra &#8220;<i>presidente<\/i>&#8221; conferisse alguma legitimidade que querem negar ao cubano.)<\/p>\n<p>Em 2010, entretanto, elegemos uma mulher para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica e ela manifestou seu desejo de ser chamada de &#8220;presidenta&#8221;, palavra dicionarizada em nossa l\u00edngua <a href=\"http:\/\/revistalingua.com.br\/textos\/62\/artigo248988-1.asp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desde o s\u00e9culo XIX.<\/a>\u00a0Algumas pessoas aceitaram, outras se recusaram.<\/p>\n<p>Hoje, ningu\u00e9m mais pode se enganar que escrever &#8220;<i>a president<\/i><b><i>e<\/i><\/b><i> Dilma<\/i>&#8221; ou &#8220;<i>a president<\/i><b><i>a<\/i><\/b><i> Dilma<\/i>&#8221; \u00e9 uma mera quest\u00e3o de escolha de palavras.<\/p>\n<p>\u00c9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Como, ali\u00e1s, sempre foi.<\/p>\n<p>Agora, \u00e0s claras.<\/p>\n<h3>Nossa l\u00edngua \u00e9 a hist\u00f3ria dos nossos crimes<\/h3>\n<p>Uma marciana perceptiva conseguiria deduzir toda a hist\u00f3ria de machismo, racismo, homofobia (ou seja, <a href=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/outrofobia\/sobre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">outrofobia<\/a>) da cultura lusobrasileira simplesmente lendo algumas poucas p\u00e1ginas escritas em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Ela encontraria express\u00f5es como &#8220;<i>n\u00e3o seja <\/i><b><i>xiita<\/i><\/b><i>&#8220;, &#8220;p\u00e1ra de <\/i><b><i>judiar<\/i><\/b><i> do gato&#8221; <\/i>e<i> &#8220;n\u00e3o passa um <\/i><b><i>crist\u00e3o<\/i><\/b><i> aqui essa hora&#8221;<\/i> e se perguntaria: por que as pessoas membros de uma religi\u00e3o viraram sin\u00f4nimos de intransig\u00eancia, de outra de maldade, e, de uma terceira, de pessoa humana gen\u00e9rica? <i>(Ningu\u00e9m precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual \u00e9 a religi\u00e3o dominante dessa cultura.)<\/i><\/p>\n<p>Nossa marciana perceberia que quase todos os xingamentos feitos contra homens se referem a uma suposta homossexualidade (<i>&#8220;mariquinha&#8221;, &#8220;viadinho&#8221;, &#8220;puto&#8221;<\/i>), como se ser homossexual fosse a pior coisa que um homem pudesse ser. <i>(Ningu\u00e9m precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o sexual dominante nessa sociedade.)<\/i><\/p>\n<p>Nossa marciana perceberia que quase todos os xingamentos feitos contra mulheres se referem a um suposto excesso de sexualidade (<i>&#8220;puta&#8221;, &#8220;galinha&#8221;, &#8220;vadia&#8221;<\/i>), como se dispor livremente de seu corpo fosse a pior coisa que uma mulher pudesse fazer. Mais ainda, ela perceberia que muitas e muitas palavras que s\u00e3o neutras no masculino significam varia\u00e7\u00f5es pejorativas de mulher-que-faz-sexo-demais quando no feminino: <i>aventureira<\/i>, <i>pistoleira<\/i>,<i>cachorra<\/i>. <i>(Ningu\u00e9m precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual \u00e9 o g\u00eanero dominante nessa sociedade.)<\/i><\/p>\n<p>Nossa marciana perceberia que quase todas as varia\u00e7\u00f5es de &#8220;negro&#8221; e &#8220;preto&#8221; (&#8220;<i>enegrecer<\/i>&#8220;, &#8220;<i>empretecer<\/i>&#8221; etc) s\u00e3o negativas e, de branco, positivas. Se estivesse lendo textos cariocas, talvez se deparasse com a express\u00e3o &#8220;<i>neguinho<\/i>&#8221; e, a princ\u00edpio, talvez, pensasse que \u00e9 um sin\u00f4nimo de &#8220;<i>pessoa gen\u00e9rica<\/i>&#8220;, at\u00e9 perceber que quase sempre \u00e9 &#8220;<i>neguinho s\u00f3 faz merda<\/i>&#8221; e quase nunca &#8220;<i><a href=\"http:\/\/johnnynababilonia.blogspot.com.br\/2009\/02\/o-uso-do-nego-e-do-neguinho-racismo-ou.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">neguinho tem uma casa linda em B\u00fazios<\/a><\/i>&#8220;.\u00a0<i>(Ningu\u00e9m precisaria contar para a nossa perceptiva marciana qual \u00e9 a cor dominante nessa sociedade.)<\/i><\/p>\n<p>Nossa Hist\u00f3ria n\u00e3o acabou: ela vive e pulsa e se reproduz nas entrelinhas da nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>Mas a Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 uma pris\u00e3o, nem um destino: ela \u00e9 uma pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Que pode e deve ser mudada. No nosso dia-a-dia. Uma palavra de cada vez.<\/p>\n<h3>Um pouco de hist\u00f3ria do politicamente correto<\/h3>\n<p>Durante muito tempo, a esquerda se definiu por um certo economicismo, que via nas quest\u00f5es econ\u00f4micas, como desigualdade social e luta de classes, a contradi\u00e7\u00e3o principal da sociedade capitalista e fonte de todos os seus conflitos.<\/p>\n<p>Ao longo das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, v\u00e1rios movimentos identit\u00e1rios dentro da esquerda come\u00e7aram a adquirir mais visibilidade e relev\u00e2ncia, politizando quest\u00f5es antes vistas como apol\u00edticas <i>(ra\u00e7a, g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, curr\u00edculo escolar, literatura infantil, comida, moda, etc) <\/i>e trazendo-as para a arena privada, para os cen\u00e1rios do dia-a-dia, para a esfera da intera\u00e7\u00e3o social. Como dizia o novo slogan feminista, &#8220;<i>o pessoal \u00e9 pol\u00edtico<\/i>&#8220;. N\u00e3o apenas os &#8220;prolet\u00e1rios do mundo&#8221;, mas tamb\u00e9m pessoas negras, gays, feministas, etc, estavam se unindo politicamente em torno de suas identidades sociais compartilhadas.<\/p>\n<p>Com a queda do Muro de Berlim e o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, enquanto a direita festejava sua <i>(aparente)<\/i> vit\u00f3ria e a esquerda fazia uma autocr\u00edtica de algumas de suas premissas econ\u00f4micas, houve uma mudan\u00e7a de paradigma dentro da pr\u00f3pria esquerda, onde as quest\u00f5es econ\u00f4micas, apesar de sempre fundamentais, perderam terreno para essas novas &#8220;pol\u00edticas de identidade&#8221;, cada vez mais proeminentes.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, a vit\u00f3ria dessa tend\u00eancia foi t\u00e3o completa que \u00e9 f\u00e1cil esquecer que muitas pessoas de esquerda criticavam essas preocupa\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias como triviais e irrelevantes<i> (especialmente quando comparadas \u00e0s &#8220;verdadeiras quest\u00f5es da esquerda&#8221;, como pobreza, desigualdade, luta de classes) <\/i>e que foram essas pessoas que inventaram o termo &#8220;politicamente correto&#8221;, para fazer pouco do que enxergavam como um zelo exagerado nas militantes das causas identit\u00e1rias.<\/p>\n<h3>O que \u00e9 ent\u00e3o o &#8220;politicamente correto?&#8221;<\/h3>\n<p>Se quisermos saber quem s\u00e3o os socialistas, podemos come\u00e7ar lendo o que escrevem as pessoas que se dizem socialistas, como agem na esfera pol\u00edtica os partidos ditos socialistas, como se definem as organiza\u00e7\u00f5es ditas socialistas.<\/p>\n<p>Mas como definir um movimento que n\u00e3o existe de forma concreta, que n\u00e3o tem textos ou c\u00e2nones que lhe definam, que n\u00e3o possui autoproclamadas l\u00edderes ou defensoras?<\/p>\n<p>Na falta dessas pessoas, s\u00f3 quem pode definir o politicamente correto s\u00e3o suas inimigas, mas elas tamb\u00e9m nem tentam.<\/p>\n<p>O jornalista Leandro Narloch, em suas <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2013\/08\/1327620-opiniao-trabalho-e-tao-ideologico-quanto-a-ideologia-que-quer-combater.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">hist\u00f3rias politicamente incorretas<\/a>, escritas explicitamente para<i> &#8220;jogar tomate na historiografia politicamente correta&#8221;<\/i>, nunca se preocupa em definir politicamente correto e parece simplesmente equacionar &#8220;politicamente correto&#8221; com &#8220;esquerda&#8221;. Paradoxalmente, ele ainda enfatiza que est\u00e1 se referindo a uma esquerda que enxergaria tudo pelo lado econ\u00f4mico:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;nessa estrutura simplista [do politicamente correto], o \u00fanico aspecto que importa \u00e9 o econ\u00f4mico.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas, como vimos, ironia das ironias, foram justamente os defensores dessa esquerda <i>&#8220;que enxerga tudo pelo lado econ\u00f4mico&#8221;<\/i> que inventaram o termo &#8220;politicamente correto&#8221; para fazer pouco da esquerda <i>&#8220;que enxerga tudo pelo lado da identidade&#8221;<\/i>.<\/p>\n<p>At\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s, ainda circulavam pelo Brasil representantes dessa esp\u00e9cie dinoss\u00e1urica, o esquerdista politicamente incorreto, mas, ironia das ironias de novo, foi o sucesso dos livros de Narloch, ao fortalecer a associa\u00e7\u00e3o entre &#8220;politicamente incorreto&#8221; e &#8220;direita&#8221;, que causou sua extin\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>Hoje, aos nossos ouvidos, uma pessoa de esquerda se afirmando &#8220;politicamente incorreta&#8221; parece uma contradi\u00e7\u00e3o em termos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Como o politicamente correto \u00e9 aquilo que as pessoas que odeiam o politicamente correto dizem que ele \u00e9, sua defini\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre falha, parcial e pejorativa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma primeira defini\u00e7\u00e3o pode ser: politicamente correto \u00e9 o nome daquele desconforto que tanto incomoda as pessoas que se dizem &#8220;politicamente incorretas&#8221;.<\/p>\n<p>E o que incomoda essas pessoas?<\/p>\n<p>Sua principal cr\u00edtica parece ser em rela\u00e7\u00e3o a uma pretensa &#8220;patrulha&#8221; que lhes impede de falar algumas coisas que estavam acostumadas a dizer.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o politicamente correto \u00e9 isso? Uma censura? Um atentado \u00e0 liberdade de express\u00e3o?<\/p>\n<h3>Mudando o mundo, uma piada de cada vez<\/h3>\n<p>Um dia, um amigo me perguntou:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Alex, meu tio sempre fez piadas homof\u00f3bicas e racistas. Sempre. Agora, depois de levar umas broncas da chefa no escrit\u00f3rio, ele parou. Quer dizer, parou l\u00e1. Em casa, ele continua fazendo as mesmas piadas e agora reclamando dessa patrulha do politicamente correto. Mas, s\u00e9rio, de que adianta? Meu tio continua o mesmo racista homof\u00f3bico que ele sempre foi. O que mudou?&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>E eu respondo que mudou tudo.<\/p>\n<p>O seu tio \u00e9 um adulto que gosta de contar piadas homof\u00f3bicas e racistas porque ele cresceu e se formou em um mundo, em uma sociedade, em uma fam\u00edlia, onde contar piadas homof\u00f3bicas e racistas era aceit\u00e1vel e esperado. Esse comportamento, al\u00e9m de n\u00e3o ter custo social algum, ainda trazia v\u00e1rios benef\u00edcios, como ser percebido como uma pessoa divertida, bem-humorada, etc.<\/p>\n<p>J\u00e1 o filho dele est\u00e1 crescendo em um mundo radicalmente novo.<\/p>\n<p>Na melhor das hip\u00f3teses, o filho concorda com a chefa do pai que piadas racistas e homof\u00f3bicas s\u00e3o inaceit\u00e1veis, est\u00e1 feliz do pai n\u00e3o estar mais contando esse tipo de piada e, naturalmente, quando tiver suas pr\u00f3prias filhas e filhos, n\u00e3o vai lhes contar essas piadas, quebrando assim a corrente de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pior das hip\u00f3teses, mesmo que esteja revoltado do pobre pai estar sendo oprimido pela patrulha do politicamente correto, esse filho tamb\u00e9m est\u00e1 crescendo no mundo radicalmente novo onde essas piadas n\u00e3o s\u00e3o aceit\u00e1veis nem esperadas nem recompensadas, mas sim tem um custo social real. Por mais que esse filho ache que contar piada homof\u00f3bica n\u00e3o tem nada demais, amanh\u00e3, quando estiver no primeiro dia de trabalho em uma nova empresa, n\u00e3o vai contar uma piada homof\u00f3bica <i>(como talvez o pai fizesse sem nem pensar vinte anos antes)<\/i>, porque, mesmo se nenhum colega for homossexual, ele pode estar se queimando severamente no escrit\u00f3rio. A corrente de transmiss\u00e3o n\u00e3o se quebra, mas se enfraquece.<\/p>\n<p>Essa pequena diferen\u00e7a, acontecendo milh\u00f5es e milh\u00f5es de vezes todos os dias, \u00e9 o que muda o mundo.<\/p>\n<h3>Hospedeiras, n\u00e3o vetores<\/h3>\n<p>O racismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, o capacitismo, a intoler\u00e2ncia, e todas as vertentes poss\u00edveis e imagin\u00e1veis da outrofobia, n\u00e3o t\u00eam exist\u00eancia concreta.<\/p>\n<p>A outrofobia precisa da nossa cumplicidade para existir.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Somos todos crias da mesma sociedade outrof\u00f3bica.<\/p>\n<p>J\u00e1 &#8220;sabemos&#8221; que ser homossexual \u00e9 pecado, que pessoas negras t\u00eam &#8220;cabelo ruim&#8221;, que mulheres foram feitas para a maternidade, muito antes de sentirmos em n\u00f3s mesmas os primeiros desejos homossexuais ou de termos qualquer no\u00e7\u00e3o de nossa identidade negra ou feminina.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nada mais natural do que existirem pessoas negras racistas, homossexuais homof\u00f3bicas, mulheres machistas: elas n\u00e3o s\u00e3o <i>bugs<\/i> do sistema, mas sim <i>features<\/i>. Quando uma pessoa escuta por toda a sua vida que o seu &#8220;cabelo \u00e9 ruim&#8221;, nada mais compreens\u00edvel que ela acredite e nada mais \u00e1rduo do que vencer essa programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Somos todas hospedeiras da cultura outrof\u00f3bica. Trazemos dentro de n\u00f3s todos os xingamentos homof\u00f3bicos, todas as piadas racistas, todos os lugares-comuns machistas. <i>(Por isso tamb\u00e9m ningu\u00e9m est\u00e1 livre, nem mesmo a mais politizada militante, de escorregar e deixar escapar uma atitude ou fala outrof\u00f3bica.)<\/i><\/p>\n<p>Mas, se n\u00e3o temos escolha de sermos hospedeiras da cultura outrof\u00f3bica, temos escolha sim de sermos vetores.<\/p>\n<p>A escolha de passar adiante esses horrores do passado \u00e9 s\u00f3 nossa.<\/p>\n<p>A homofobia \u00e9 um conceito abstrato. Ela n\u00e3o tem exist\u00eancia concreta. O que existe s\u00e3o pessoas que contam piadas homof\u00f3bicas.<\/p>\n<p>E eu posso escolher n\u00e3o ser uma delas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Talvez o meu amigo Grafite realmente n\u00e3o se importe de ser o Grafite em um escrit\u00f3rio de Cl\u00e1udios e Felipes. Talvez o Grafite considere que, para seus objetivos profissionais, \u00e9 melhor n\u00e3o virar &#8220;o chato do escrit\u00f3rio&#8221; <i>(\u201cP\u00f4, Grafite, voc\u00ea v\u00ea racismo em tudo!\u201d)<\/i> e decidiu lutar outras batalhas. N\u00e3o cabe a mim julg\u00e1-lo, ainda mais que nunca vou saber a press\u00e3o e o preconceito que sofrem um homem negro no Brasil.<\/p>\n<p>Mas eu posso escolher n\u00e3o cham\u00e1-lo de Grafite.<\/p>\n<p>Pra mim, ele \u00e9 o Paulo Roberto.<\/p>\n<h3>O poder da palavra<\/h3>\n<blockquote><p><i>&#8220;A palavra tem o poder: de nos tornar empoderadas ou indefesas, de ser fonte de certeza ou de dor. Algu\u00e9m que age como se n\u00e3o pud\u00e9ssemos falar por n\u00f3s mesmas ou se refere a n\u00f3s por um nome que n\u00e3o reconhecemos est\u00e1 usando a palavra para nos machucar, para roubar nossa subjetividade, para apagar nossa exist\u00eancia. Ent\u00e3o, para continuar existindo, respondemos, interpelamos, machucamos. Usar a palavra \u00e9 negociar os termos de nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia.&#8221;<\/i> (<a href=\"http:\/\/www.gnovisjournal.org\/2011\/11\/10\/do-i-need-to-say-it\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alicia Dillon<\/a>)<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma das principais li\u00e7\u00f5es que a filosofia nos ensinou no s\u00e9culo XX \u00e9 que a palavra molda o mundo.<\/p>\n<p>Nomear \u00e9 poder. Nossa rela\u00e7\u00e3o com a realidade \u00e9 sempre mediada pela palavra: todas as rela\u00e7\u00f5es de poder passam, em algum momento, pela palavra. Quem nomeia d\u00e1 o tom, dita as regras, efetiva a posse.<\/p>\n<p><i>(N\u00e3o foi \u00e0 toa que os navegantes portugueses do s\u00e9culo XVI subiram e desceram a costa brasileira colocando nome de santo em cada acidente geogr\u00e1fico de uma terra onde mal tinham pisad0.)<\/i><\/p>\n<p>Por isso, quando uma pessoa trans* se apresenta socialmente com um nome e um g\u00eanero em oposi\u00e7\u00e3o aos seus documentos, o que ela est\u00e1 fazendo \u00e9 tomar posse de sua identidade: ela est\u00e1 nos dizendo que sabe mais sobre quem ela \u00e9 do que qualquer outra pessoa, inclusive seus pr\u00f3prios documentos.<\/p>\n<p>Faz sentido ser contra? Quem teria o direito de lhe brandir o dedo na cara e dizer, <i>&#8220;voc\u00ea \u00e9 Carlos Eduardo que eu sei!&#8221;?<\/i><\/p>\n<p>Muitas pessoas sentiam-se insultadas e diminu\u00eddas ao serem chamadas de &#8220;deficientes&#8221;, uma defini\u00e7\u00e3o baseada em um diagn\u00f3stico m\u00e9dico. <i>(Seria como chamar algu\u00e9m de &#8220;canceroso&#8221; ao inv\u00e9s de simplesmente dizer que &#8220;ela tem c\u00e2ncer&#8221;.)<\/i> O movimento <i>&#8220;people first&#8221;<\/i> (<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/People-first_language\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pessoas primeiro<\/a>) defende que se coloque as pessoas antes das doen\u00e7as e que se descreva o que elas <i>t\u00eam<\/i> e n\u00e3o o que <i>s\u00e3o<\/i>. Por isso, hoje, o termo mais usado \u00e9 &#8220;pessoa com defici\u00eancia&#8221;. O site governamental <a href=\"http:\/\/pessoacomdeficiencia.gov.br\/\"><i>pessoacomdeficiencia.gov.br<\/i><\/a> apresenta inclusive um <a href=\"http:\/\/www.pessoacomdeficiencia.gov.br\/app\/acessibilidade\/manual-de-orientacao-e-apoio-para-atendimento-pessoas-com-deficiencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">manual muito interessante para orientar o apoio e o atendimento a essas pessoas<\/a>.<\/p>\n<p>Faz sentido ser contra? Quem teria o direito de exigir cham\u00e1-las de &#8220;deficientes&#8221;, &#8220;cadeirantes&#8221; ou o que seja?<\/p>\n<p><i>(E, ali\u00e1s, como as pessoas com defici\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o um bloco homog\u00eaneo de opini\u00f5es un\u00e2nimes, tamb\u00e9m existem algumas que criticam essa express\u00e3o e prop\u00f5em outras.)<\/i><\/p>\n<p>Respeitar o modo como as pessoas querem ser tratadas deveria ser uma simples quest\u00e3o de empatia, quando n\u00e3o de boas maneiras: \u00e9 triste precisar ser um movimento pol\u00edtico, e pol\u00eamico ainda por cima<\/p>\n<p>Se podemos falar dos &#8220;princ\u00edpios&#8221; de algo que nem existe, como o politicamente correto, um deles seguramente seria: nomear a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, como as pessoas privilegiadas sempre foram donas do discurso e se autonomearam, na pr\u00e1tica estamos falando de estender esse direito tamb\u00e9m \u00e0s minorias marginalizadas e desprivilegiadas.<\/p>\n<p>Ou seja, de tirar das pessoas privilegiadas esse poder de nomear o Outro e garantir \u00e0s pessoas desprivilegiadas o poder de nomear a si mesmas.<\/p>\n<p>Portanto, quando as pessoas privilegiadas reclamam da &#8220;patrulha politicamente correta&#8221; est\u00e3o reclamando da perda desse privil\u00e9gio nomeador.<\/p>\n<h3>Uma verdadeira liberdade de express\u00e3o<\/h3>\n<p>O politicamente correto n\u00e3o oprime, nem patrulha.<\/p>\n<p>Se oprimisse e patrulhasse, teria que ter constitui\u00e7\u00f5es, leis, c\u00f3digos, tribunais, inquisi\u00e7\u00f5es, index, for\u00e7as policiais e militares; algum poder oficial teria a tarefa de legislar e implementar essas leis; alguma for\u00e7a policial ou militar teria um c\u00f3digo para regulamentar as patrulhas nas quais oprimiria a popula\u00e7\u00e3o, aplicando multas, penas, castigos.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 a estrutura opressora do politicamente correto?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&#8220;Patrulha&#8221; s\u00e3o soldados armados por um governo que lhes d\u00e1 poder de matar. &#8220;Opress\u00e3o&#8221; \u00e9 quando institui\u00e7\u00f5es, p\u00fablicas ou privadas, imp\u00f5em suas regras sobre pessoas comuns.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem tem poder de oprimir e patrulhar s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es, o estado, as grandes empresas.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem tem poder de oprimir e patrulhar s\u00e3o as ideologias hegem\u00f4nicas: o racismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, o capacitismo, a intoler\u00e2ncia religiosa; enfim, todas as vertentes da outrofobia.<\/p>\n<p>Como pode ser &#8220;opressor&#8221; e &#8220;patrulhador&#8221; algo t\u00e3o abstrato, t\u00e3o minorit\u00e1rio, t\u00e3o fraco quanto o politicamente correto?<\/p>\n<p>Como pode ser &#8220;opressora&#8221; e &#8220;patrulhadora&#8221; uma gota de discurso homoafetivo em um mar cultural de homofobia, um punhado de pessoas trans* autoidentificando seus g\u00eaneros em um mundo quase completamente cisg\u00eanero, algumas poucas ateias militantes em oposi\u00e7\u00e3o a todos os padres e pastores, rabinos e im\u00e3s?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O politicamente correto \u00e9 uma nova \u00e9tica, resultado de uma maior participa\u00e7\u00e3o social de minorias at\u00e9 ent\u00e3o silenciadas; um c\u00f3digo de conduta n\u00e3o-escrito, autodefinido por cada uma de n\u00f3s, pessoas comuns que n\u00e3o t\u00eam poder de impor suas vontades \u00e0s outras, atrav\u00e9s do qual tentamos agir e falar da forma que nos parece mais emp\u00e1tica e mais generosa.<\/p>\n<p>O politicamente correto somos todas n\u00f3s decidindo n\u00e3o assistir mais o comediante que faz piada de estuprar gr\u00e1vida, n\u00e3o dar mais \u00e0s nossas crian\u00e7as os livros infantis do autor racista, n\u00e3o mais chamar uma minoria pela palavra que ela acha ofensiva.<\/p>\n<p>Como podem acusar esse processo de opress\u00e3o, patrulha, censura?<\/p>\n<p>Um comediante ter a liberdade <i>(assegurada na constitui\u00e7\u00e3o)<\/i> de fazer piada de estupro e n\u00f3s, pessoas comuns, termos a liberdade<i> (assegurada na constitui\u00e7\u00e3o) <\/i>de escrever textos criticando-o e propondo boicotes ao seu show&#8230; \u00e9 a ess\u00eancia da liberdade de express\u00e3o em uma sociedade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o isso, o que queriam? Poder falar o que quiserem e nunca ser criticados?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o seria liberdade de express\u00e3o, seria privil\u00e9gio: o privil\u00e9gio do qual sempre desfrutaram as classes dominantes, o privil\u00e9gio que o politicamente correto \u2014 ao defender uma verdadeira liberdade de express\u00e3o, uma liberdade de express\u00e3o aberta a todas as pessoas, privilegiadas ou n\u00e3o \u2014 lhes tirou.<\/p>\n<p>Nada poderia ser mais anti-censura, anti-patrulha, anti-opress\u00e3o do que isso.<\/p>\n<p><i>(Sobre humoristas e politicamente correto, leiam a minha carta aberta <a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/carta-aberta-aos-humoristas-do-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e0s humoristas do Brasil<\/a>.<\/i><i>)<\/i><\/p>\n<h3>Em qual time queremos estar?<\/h3>\n<p>Sim, as militantes de causas identit\u00e1rias s\u00e3o muitas vezes radicais e cometem excessos. Mas \u00e9 porque est\u00e3o na vanguarda.<\/p>\n<p>Quase sempre, s\u00f3 as pessoas mais radicais, aquelas que veem o mundo em branco-e-preto, s\u00e3o as que conseguem efetivamente romper a in\u00e9rcia dos tempos e tomar as atitudes que mudam o mundo, enquanto as pessoas acomodadas olham de longe, balan\u00e7am a cabe\u00e7a, fazem &#8220;tsc tsc&#8221; e t\u00eam filhas que v\u00e3o colher os frutos desse radicalismo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, apesar de todas as ferozes brigas internas, apesar dos <i>(pretensos)<\/i> radicalismos e dos <i>(ditos) <\/i>excessos, quando as balas de borracha come\u00e7am a voar, precisamos decidir se estamos com quem defende respeito e dignidade para as pessoas trans* ou com quem exige o direito de fazer &#8220;piada de travesti&#8221;.<\/p>\n<p>Se o segundo grupo orgulhosamente se autoproclama &#8220;politicamente incorreto&#8221;, ent\u00e3o n\u00e3o faz sentido as pessoas do primeiro fugirem da pecha de politicamente corretas.<\/p>\n<p>Proponho tomarmos para n\u00f3s, tamb\u00e9m com orgulho, esse termo.<\/p>\n<p>Pois eu tenho orgulho de estar do lado oposto dessa gente.<\/p>\n<h3>Ressignificando o politicamente correto<\/h3>\n<p>H\u00e1 muito tempo, nos Estados Unidos, as pessoas homossexuais eram chamadas pejorativamente de <i>&#8220;queer&#8221;<\/i>, um adjetivo que significa <i>&#8220;estranho&#8221;<\/i>. Em um dado momento, a comunidade homossexual tomou o termo para si, criou slogans como <i>&#8220;I&#8217;m queer and proud of it&#8221;<\/i> (<i>&#8220;Sou estranho e tenho orgulho disso!&#8221;<\/i>) e, em poucos anos, conseguiu ressignificar a palavra. Hoje, <i>&#8220;queer&#8221;<\/i> n\u00e3o \u00e9 mais um termo pejorativo: ele pertence \u00e0 comunidade homossexual.<\/p>\n<p>O termo <i>&#8220;politicamente correto&#8221;<\/i> hoje \u00e9 usado pela direita para fazer pouco das prioridades lingu\u00edsticas e pol\u00edticas de uma parte da esquerda \u2014 como, por exemplo, utilizar o termo &#8220;pessoas com defici\u00eancias&#8221; e n\u00e3o &#8220;deficientes&#8221; \u2014 mas n\u00e3o existe um movimento &#8220;politicamente correto&#8221;, ningu\u00e9m bate no peito pra se dizer &#8220;politicamente correta&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto, se voc\u00ea acha, como eu, que faz todo o sentido do mundo chamar as &#8220;pessoas com defici\u00eancias&#8221; pela express\u00e3o que lhes deixa mais confort\u00e1veis, ent\u00e3o talvez seja a hora de cooptarmos para n\u00f3s a express\u00e3o &#8220;politicamente correto&#8221;.<\/p>\n<p>Se ser &#8220;politicamente correta&#8221; \u00e9 se importar com o efeito que nossas palavras t\u00eam nas outras pessoas, em especial nas pessoas marginalizadas, ent\u00e3o, sim, talvez dev\u00eassemos bater no peito e nos afirmar &#8220;politicamente corretas&#8221;.<\/p>\n<h3>E a liberdade de express\u00e3o?<\/h3>\n<p>N\u00e3o tem como falar de politicamente correto sem falar de liberdade de express\u00e3o. Afinal, a principal acusa\u00e7\u00e3o de seus detratores \u00e9 que o politicamente correto \u00e9 inimigo da liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente, o assunto \u00e9 vasto e n\u00e3o cabia aqui. Esse texto continua em\u00a0<i><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/elogio-a-liberdade-de-expressao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Elogio \u00e0 liberdade de express\u00e3o<\/a><\/i>.<\/p>\n<p>J\u00e1 deixo uma cita\u00e7\u00e3o que j\u00e1 resume tudo:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Em v\u00e1rios casos, o princ\u00edpio liberal da liberdade de express\u00e3o, que \u00e9 uma ideia de \u201cmais liberdade \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o se aplica. Um conceito importante diz respeito ao <b>efeito silenciador do discurso<\/b>.<br \/>\nUm bom exemplo \u00e9 o caso da discrimina\u00e7\u00e3o contra a mulher. Discursos sexistas, por exemplo, colocam as mulheres em posi\u00e7\u00e3o de tamanha inferioridade que provocam seu sil\u00eancio, desqualificando sua express\u00e3o.<br \/>\nNesse caso, uma interven\u00e7\u00e3o do Estado contra o discurso sexista, ao contr\u00e1rio de limitar a liberdade dos que disseminam o preconceito, garante a express\u00e3o daqueles que n\u00e3o conseguiriam se manifestar de outra forma.&#8221;<i>(<a href=\"https:\/\/www.ufmg.br\/online\/arquivos\/027702.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fonte<\/a><\/i><i>)<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>* * *<\/p>\n<p><i>O texto \u201cPoliticamente correto, uma defesa\u201d e sua sequ\u00eancia, \u201c<a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/elogio-a-liberdade-de-expressao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Elogio \u00e0 liberdade de express\u00e3o<\/a>\u201d, fazem parte da Pris\u00e3o Privil\u00e9gio, a ser publicada aqui no PapodeHomem no m\u00eas que vem.<\/i><\/p>\n<h3>Notas de leitura<\/h3>\n<p>Esse texto se beneficiou muito da leitura de <i>It&#8217;s a PC world. <a href=\"http:\/\/www.theweek.co.uk\/25123\/%E2%80%98political-correctness%E2%80%99-lies-are-mad-%E2%80%93-and-dangerous\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">What it means to live in a land gone politically correct<\/a><\/i>, do jornalista brit\u00e2nico Edward Stourton, de 2008. As observa\u00e7\u00f5es da subse\u00e7\u00e3o &#8220;Um pouco de hist\u00f3ria do politicamente correto&#8221; s\u00e3o do pensador brit\u00e2nico Stuart Hall, em seu artigo &#8220;<a href=\"http:\/\/www.ram-wan.net\/restrepo\/hall\/some%20politically%20incorrect%20pathways.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Some politically incorrect pathways through PC<\/a>&#8220;, de 1994. A cita\u00e7\u00e3o de Alicia Dillon \u00e9 uma par\u00e1frase de um post no seu blog: &#8220;<a href=\"http:\/\/www.gnovisjournal.org\/2011\/11\/10\/do-i-need-to-say-it\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Do I need to say it?<\/a>&#8221;\u00a0A fil\u00f3sofa norte-americana <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Judith_Butler\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Judith Butler<\/a>, uma das pensadoras mais importantes da nossa era, fala de &#8220;ressignifica\u00e7\u00e3o&#8221; em <i>Problemas de g\u00eanero<\/i> (1990) e <i>Excitable Speech<\/i> (1997), entre outros.<\/p>\n<h3>Tr\u00eas avisos importantes sobre meus textos<\/h3>\n<p>Eles falam sempre <b>sobre e para as pessoas privilegiadas<\/b>, justamente para tentar faz\u00ea-las ter consci\u00eancia de seus enormes privil\u00e9gios. <i>(Leia tamb\u00e9m <\/i><a href=\"http:\/\/papodehomem.com.br\/privilegiadas\/\"><i>Carta aberta \u00e0s pessoas privilegiadas<\/i><\/a><i> e <\/i><a href=\"http:\/\/papodehomem.com.br\/acao-de-gracas\/\"><i>A\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pelos privil\u00e9gios recebidos<\/i><\/a><i>)<\/i>;<\/p>\n<p>Buscam sempre usar uma <b>linguagem de g\u00eanero neutra<\/b> <i>(Para mais detalhes, confira meu <\/i><a href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/sexismo\/\"><i>mini-manual pessoal para uso n\u00e3o sexista da l\u00edngua<\/i><\/a><i>);<\/i><\/p>\n<p>E s\u00e3o sempre todos <b>rigorosamente ficcionais<\/b>. <i>(Ou n\u00e3o: <\/i><a href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/alex-castro-nao-existe\/\"><i>Alex Castro n\u00e3o existe<\/i><\/a><i>, <\/i><a href=\"http:\/\/papodehomem.com.br\/so-o-texto-importa\/\"><i>s\u00f3 o texto importa.<\/i><\/a><i> Em caso de d\u00favida, consulte <\/i><a href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/bio\/\"><i>minha biografia do meu site pessoal<\/i><\/a><i>.)<\/i><\/p>\n<h3>O encontro \u201cAs Pris\u00f5es\u201d<\/h3>\n<p>H\u00e1 doze anos, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pr\u00e9-concebidas, as tradi\u00e7\u00f5es mal-explicadas, os costumes sem-sentido.<\/p>\n<p>Agora, estou conduzindo o encontro &#8220;<a href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/encontros\/\">As Pris\u00f5es<\/a>&#8221; no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. O p\u00fablico-alvo s\u00e3o ovelhas negras em busca de interlocutores. O encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando hist\u00f3rias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. Ao final, n\u00f3s, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. Confusas, atarantadas, chacoalhadas.<\/p>\n<p>O encontro &#8220;<a href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/encontros\/\">As Pris\u00f5es<\/a>&#8221; \u00e9 independente por ideologia. N\u00e3o possui v\u00ednculo institucional algum. \u00c9 divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, pra\u00e7as. Oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almo\u00e7o. Come\u00e7a sempre \u00e0s nove da manh\u00e3 de s\u00e1bado ou de domingo e termina na hora que terminar. Muitas vezes, a qu\u00edmica \u00e9 tanta que n\u00e3o queremos ir embora: o encontro mais longo durou 15 horas.<\/p>\n<p>O encontro \u00e9 pago. Mas negar uma pessoa s\u00f3 porque ela n\u00e3o pode pagar seria dar import\u00e2ncia demais a essa conven\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria que chamamos dinheiro. Portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras n\u00e3o pagam. Na pr\u00e1tica, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que n\u00e3o pagam. Nada poderia ser mais solid\u00e1rio do que isso. <i>(Para saber mais, consulte a <\/i><a href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/encontros\/gratuidades\/\"><i>pol\u00edtica de gratuidades.<\/i><i>)<\/i><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 auto-ajuda, terapia, coaching. N\u00e3o \u00e9 palestra, aula, exposi\u00e7\u00e3o de conte\u00fado. N\u00e3o tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. N\u00e3o oferece respostas, solu\u00e7\u00f5es, rem\u00e9dios. N\u00e3o promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.<\/p>\n<p>N\u00e3o ajuda em nada. Pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 atrapalha. \u00c0s vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. Afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa pr\u00f3pria canalhice.<\/p>\n<p>Durante os anos de 2013 e 2014, levei o encontro &#8220;<a href=\"http:\/\/www.alexcastro.com.br\/encontros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">As Pris\u00f5es<\/a>&#8221; para as cinco regi\u00f5es do Brasil. Em 2015, o encontro ser\u00e1 realizado apenas no <a href=\"http:\/\/www.alexcastro.com.br\/encontros\/rj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rio de Janeiro<\/a> e em <a href=\"http:\/\/www.alexcastro.com.br\/encontros\/sp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p>Para mais detalhes, v\u00eddeos, depoimentos, calend\u00e1rio completo, tudo isso, <a href=\"http:\/\/www.alexcastro.com.br\/encontros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos textos da s\u00e9rie As Pris\u00f5es ser\u00e3o enviadas primeiro, com exclusividade, \u00e0s pessoas assinantes do meu <a href=\"http:\/\/www.alexcastro.com.br\/assine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">newsletter<\/a> e, ent\u00e3o, publicadas aqui no PapodeHomem. <a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/colecoes\/prisoes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Confira as que j\u00e1 foram publicadas<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><i>publicado em 19 de Maio de 2015, 12:00<\/i><\/p>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<section>\n<div>\n<div><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/autores\/alex-castro#artigos\"><img decoding=\"async\" alt=\"Por claudia regina 6jul13 1 1024x682\" src=\"http:\/\/images.papodehomem.com.br\/media\/W1siZiIsIjIwMTUvMDEvMDcvMTQvMDEvMjIvNDkxL3Bvcl9jbGF1ZGlhX3JlZ2luYV82anVsMTNfMV8xMDI0eDY4Mi5qcGciXSxbInAiLCJ0aHVtYiIsIjIwMHgyMDAjIl1d\/por-claudia-regina-6jul13-1-1024x682.jpg?sha=760651d542f56d98\" \/><\/a><\/div>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www.papodehomem.com.br\/autores\/alex-castro#artigos\">Alex Castro<\/a><\/p>\n<p>alex castro \u00e9. por enquanto. em breve, nem isso. \/\/ esse \u00e9 um texto de fic\u00e7\u00e3o. \/\/ se gostou, <a title=\"alex castro\" href=\"http:\/\/alexcastro.com.br\/assine\">assine minha newsletter<\/a> e receba meus novos textos por email.<\/p>\n<p>Fonte: <a 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