{"id":28462,"date":"2015-09-29T11:09:33","date_gmt":"2015-09-29T14:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=28462"},"modified":"2024-07-25T00:13:12","modified_gmt":"2024-07-25T00:13:12","slug":"28462","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=28462","title":{"rendered":"Brasil: do modelo social da defici\u00eancia ao modelo de mercado"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-28463 alignnone\" title=\"Os pictogramas da defici\u00eancia sendo despejados em um carrro de compras.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/simbolao.jpg\" alt=\"Os pictogramas da defici\u00eancia sendo despejados em um carrro de compras.\" width=\"248\" height=\"180\" \/><\/p>\n<p><strong>Por Lucio Carvalho<\/strong><\/p>\n<p>Exceto enquanto hip\u00f3tese de estudo, \u00e0s vezes penso que o assim chamado modelo social da defici\u00eancia encontra-se em fase avan\u00e7ada de esgotamento. Talvez at\u00e9 mesmo de supera\u00e7\u00e3o, para usar um termo em eterna evid\u00eancia. Algu\u00e9m que tente explicar as dificuldades do estar no mundo das pessoas com defici\u00eancia com o modelo social mas sem adentrar no &#8220;social&#8221; propriamente dito cada vez mais corre o risco, em meu ponto de vista, de cometer graves equ\u00edvocos, porque o dinamismo do &#8220;social&#8221; pouco cria exce\u00e7\u00f5es ou se conforma com facilidade em modelos estruturados.<\/p>\n<p>O &#8220;social&#8221; \u00e9 sempre um instant\u00e2neo e, as nuances das diferen\u00e7as, matizes sol\u00faveis em constante rela\u00e7\u00e3o com contextos bastante imprecisos. Esta seria uma confronta\u00e7\u00e3o bastante apressada e resumida entre o modelo social da defici\u00eancia e algumas ideias do fil\u00f3sofo polon\u00eas Zygmunt Bauman (1), expressas na sua cole\u00e7\u00e3o de livros sobre o &#8220;l\u00edquido&#8221; (Tempos L\u00edquidos, Modernidade L\u00edquida, etc.). Mesmo que sejam ideias pass\u00edveis de refuta\u00e7\u00e3o, deve-se em muito a sua populariza\u00e7\u00e3o a imers\u00e3o conceitual dos modelos materialistas cl\u00e1ssicos, justamente dos quais o &#8220;modelo social da defici\u00eancia&#8221; \u00e9 derivado.<\/p>\n<p>Pois bem, uma vez apresentada a ideia, a indaga\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel: e quem o teria esgotado? Al\u00e9m das pessoas que banalizaram seu uso sem dimension\u00e1-lo de todo, justamente o &#8220;social&#8221;, que, por sua fluidez capaz de frestar-se em qualquer modelo conceitualmente s\u00f3lido, foi quem o fez. Tamb\u00e9m contribu\u00edram para isso os processos hist\u00f3ricos, que por sua pr\u00f3pria natureza conseguem aglutinar tempos e condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento d\u00edspares em seu percurso aparentemente retil\u00edneo, atendendo e desatendendo \u00e0 diversidade humana em suas distintas condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, pol\u00edticas, \u00e9tnicas e culturais.<\/p>\n<p>Apesar de que nunca tenha se falado tanto em &#8220;inclus\u00e3o&#8221; quanto na atualidade (e o conceito se emprega desde a quest\u00e3o econ\u00f4mica at\u00e9 situa\u00e7\u00f5es particulares e afetivas), n\u00e3o existe, de fato, um &#8220;modelo inclusivo&#8221; a n\u00e3o ser em uma ideia ut\u00f3pica. E, mesmo como utopia, \u00e9 dif\u00edcil perceber de que modelo pudesse tratar-se. O que seria, ent\u00e3o, um &#8220;modelo inclusivo&#8221;? De que ideias de &#8220;social&#8221; estar\u00edamos falando ao usar o termo? Quero dizer que, tratando-se da ideia inclusiva, a utopia nem sempre \u00e9 bem vinda ou relaciona-se com ela amistosamente. Desejaram-na claramente os que pretendiam reformar o mundo, tais como os anarquistas do s\u00e9c. XIX ou at\u00e9 mesmo os socialistas que, a despeito das chances obtidas no s\u00e9c. XX, n\u00e3o puderem evitar que o &#8220;social&#8221; e o &#8220;econ\u00f4mico&#8221; acachapassem-nas, mas a ideia inclusiva n\u00e3o traduz necessariamente um desejo social por reforma nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Pelo contr\u00e1rio, ela diz mais respeito a melhorar-se as condi\u00e7\u00f5es do mundo tal como ele \u00e9. O mundo capitalista, evidentemente. O mundo dos mercados. Este mundo.<\/p>\n<p>Se no centro do modelo social da defici\u00eancia reside o conceito de desvantagem social, a ideia inclusiva pode ser interpretada, grosso modo, como a a\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica capaz de reduzir a desvantagem experimentada pelos indiv\u00edduos em suas rela\u00e7\u00f5es com o &#8220;social&#8221;. Pelo menos no que diz respeito \u00e0s pessoas com defici\u00eancia, o desejo inclusivo muitas vezes dirige-se t\u00e3o somente a promover e garantir direitos civis elementares aos indiv\u00edduos, como o direito de ir e vir e outros direitos fundamentais, al\u00e9m da equaliza\u00e7\u00e3o de oportunidades. No entanto, como o &#8220;social&#8221; n\u00e3o \u00e9 uniforme e se apresenta individualmente em condi\u00e7\u00f5es diversas, incluir-se no &#8220;social&#8221; \u00e0s vezes pode ser uma experi\u00eancia bastante distinta entre pessoas que tenham inclusive a mesma defici\u00eancia, seja ela f\u00edsica, sensorial, intelectual ou m\u00faltipla. Um modelo inclusivo uniforme, portanto, apenas seria capaz de atender \u00e0s diferentes necessidades das pessoas se aquele &#8220;social&#8221; fosse tamb\u00e9m uniforme, como supostamente ocorreria em um regime socialista, por exemplo, ou em um pleno Estado de bem-estar social. Nada do que temos em vista. Em uma sociedade cada vez mais organizada pelos mercados e pela capacidade de acesso ao consumo, um modelo \u00fanico &#8211; assim como um conjunto de demandas \u00fanicas &#8211; n\u00e3o pode ter outra caracter\u00edstica a n\u00e3o ser o de expressar um desejo hegem\u00f4nico superveniente, sem entrar no m\u00e9rito de sua representatividade pol\u00edtica, que pode atender a um contingente maior ou menor de pessoas, mas visa a princ\u00edpio os pr\u00f3prios interesses sociais.<\/p>\n<p>Via de regra, modelos resultam mais da proposi\u00e7\u00e3o<em> a priori<\/em> dos pressupostos de uma teoria do que de um diagn\u00f3stico abrangente da realidade. \u00c9 assim com os modelos propostos nas ci\u00eancias exatas, nas ci\u00eancias aplicadas, como a economia, e no ambiente social de um modo geral. Como ent\u00e3o um modelo poderia explicar situa\u00e7\u00f5es que escapam \u00e0s suas vari\u00e1veis ou de pessoas que n\u00e3o vivem em seu \u00e2mbito e <em>ethos<\/em>? A verdade \u00e9 que n\u00e3o explica. E, muitas vezes, parece que se est\u00e1 procurando explicar a trigonometria com gram\u00e1tica, ou seja, aplicar-se um modelo pode servir muito bem para reduzir ou empalidecer as caracter\u00edsticas da realidade, embot\u00e1-la ou fazer parecer ao que se quer mostrar. Se o esgotamento de modelos \u00e9 verific\u00e1vel tanto para paradigmas cient\u00edficos, para os modelos te\u00f3ricos sociol\u00f3gicos quanto para os modelos de aplica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, por que raz\u00e3o estudiosos e ativistas do movimento social de pessoas com defici\u00eancia ent\u00e3o aferram-se tanto ao modelo social?<\/p>\n<p>Analisando-se o movimento de emancipa\u00e7\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia no s\u00e9c. XX, \u00e9 poss\u00edvel perceber que o modelo social \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o recente, afirmado na d\u00e9cada de 70, nascido em uma na\u00e7\u00e3o desenvolvida como a Inglaterra (2). Antes disso, pessoas com defici\u00eancia ocupavam o espa\u00e7o p\u00fablico de maneira bastante restrita, em espa\u00e7os n\u00e3o p\u00fablicos, mas \u00e0 parte. A pessoa com defici\u00eancia, al\u00e9m de arcar com as pr\u00f3prias dificuldades, via-se na situa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o encontrar receptividade no &#8220;social&#8221;, mas de receber unicamente uma aten\u00e7\u00e3o assistencial ou at\u00e9 mesmo cl\u00ednica. Trata-se do bem conhecido modelo m\u00e9dico-assistencial, ainda hoje bastante vinculado \u00e0s institui\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas ou religiosas. O modelo social, dito resumidamente, pode ter sido mais importante por afirmar o desejo das pessoas em romper com o modelo predominante do que por surtir efeito no &#8220;social&#8221; propriamente dito, haja vista as grande dificuldades ainda presentes mesmo em na\u00e7\u00f5es desenvolvidas quanto \u00e0 acessibilidade, autodetermina\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo na dignifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida. Sua influ\u00eancia cultural consequentemente se sobressairia \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Um modelo social, portanto, que cristaliza o &#8220;social&#8221; para conform\u00e1-lo em sua metodologia anal\u00edtica, aos poucos vai desvinculando-se da realidade, porque justamente a caracter\u00edstica do &#8220;social&#8221; \u00e9 permeabilizar-se \u00e0s varia\u00e7\u00f5es da cultura, da economia e conformar-se em m\u00faltiplas e por vezes discordantes realidades. Se, como adverte a fil\u00f3sofa alem\u00e3 Hannah Arendt (3), &#8220;a condi\u00e7\u00e3o humana compreende algo mais que as condi\u00e7\u00f5es nas quais a vida foi dada ao homem&#8221; e que &#8220;os homens s\u00e3o seres condicionados, ou seja, tudo aquilo com a qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condi\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia&#8221;, \u00e9 simples concluir que uma vida que se d\u00e1 em meio a severas priva\u00e7\u00f5es, por exemplo, n\u00e3o ir\u00e1 desenvolver-se com o mesmo potencial de outra onde as car\u00eancias s\u00e3o menores ou inexistentes. Assim, embora em muitas sociedades os poderes de Estado respondam satisfatoriamente pelos equipamentos p\u00fablicos e por um sistema m\u00ednimo de garantias, cada vez mais &#8211; pelo menos nos estados liberais modernos &#8211; quem supre as demandas e servi\u00e7os de interesse p\u00fablico s\u00e3o iniciativas de mercado. E, nas sociedades modernas, como se sabe, privado e p\u00fablico nem sempre encenam uma dan\u00e7a concatenada.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, cada vez mais distantes de uma realidade onde preponderasse um modelo social baseado na presen\u00e7a do Estado, a \u00e9poca presente poderia ser caracterizada por um &#8220;social&#8221; que bem poderia ser chamado de &#8220;modelo de mercado&#8221;. As implica\u00e7\u00f5es para a vida das pessoas com defici\u00eancia de uma realidade organizada em uma sociedade de servi\u00e7os autorregulada, entretanto, n\u00e3o guarda maiores diferen\u00e7as para as demais pessoas. Ao contr\u00e1rio do \u00e0s vezes excepcionalizante modelo social, no modelo de mercado n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para exce\u00e7\u00f5es. Em sua l\u00f3gica, todos s\u00e3o consumidores. No Brasil contempor\u00e2neo, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Ainda que, analisando-se dados oficiais, perceba-se que no Brasil a maioria da popula\u00e7\u00e3o (82,8%), por exemplo, seja usu\u00e1ria da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a dist\u00e2ncia vem diminuindo na raz\u00e3o de cinco pontos percentuais a cada quatro anos, de acordo com Censo Escolar. Em rela\u00e7\u00e3o aos servi\u00e7os de sa\u00fade, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio &#8211; PNAD, o Servi\u00e7o \u00danico de Sa\u00fade &#8211; SUS, responde por cerca de 70% dos atendimentos. Mesmo no Brasil recente, onde experimentou-se um incremento na capacidade de consumo das classes m\u00e9dias e baixa, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 conflitante.<\/p>\n<p>Uma vez que seria presum\u00edvel que o governo atual fosse resguardar o investimento em setores sociais, a realidade \u00e9 que, no frigir dos ovos, cortes nos investimentos sociais, atrav\u00e9s dos or\u00e7amentos ministeriais, demonstram que a parcela da sociedade que depende dos servi\u00e7os p\u00fablicos se encontra, do ponto de vista pol\u00edtico, bastante desabrigada. Desde o in\u00edcio de 2015, com o agravamento da crise econ\u00f4mica, <a href=\"http:\/\/revistaescolapublica.com.br\/textos\/43\/artigo338982-1.asp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o foi dos que mais sofreram cortes or\u00e7ament\u00e1rios<\/a>. Al\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e verbas destinadas \u00e0s administra\u00e7\u00f5es municipais lideram cortes nos ajustes propostos, conforme divulgado e amplamente <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2015\/05\/cidades-saude-e-educacao-lideram-valor-de-cortes-no-orcamento.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">noticiado na imprensa nacional<\/a>. Evidentemente, as condi\u00e7\u00f5es dos servi\u00e7os p\u00fablicos dependem diretamente da vontade pol\u00edtica dos governantes, al\u00e9m da capacidade de investimento dos cofres p\u00fablicos. Deste modo, ao invocar-se o &#8220;social&#8221;, jamais deve-se esquecer que \u00e9 deste &#8220;social&#8221; a que se deve referir e n\u00e3o a outro, puramente te\u00f3rico.<\/p>\n<p>Se a organiza\u00e7\u00e3o do &#8220;social&#8221; tem estreita rela\u00e7\u00e3o com o Estado e em boa parte dele \u00e9 dependente, sua precariza\u00e7\u00e3o tem efeitos imediatos entre a popula\u00e7\u00e3o, especialmente entre a classe m\u00e9dia e baixa. N\u00e3o custa lembrar que na experi\u00eancia individual n\u00e3o existem hip\u00f3teses, mas realidades. Como diz o Prof. Michael Sandel (4) e todo mundo mais ou menos sabe, &#8220;numa sociedade em que tudo est\u00e1 \u00e0 venda, a vida fica mais dif\u00edcil para os que disp\u00f5em de recursos modestos&#8221;. Algu\u00e9m que necessite de tratamento m\u00e9dico n\u00e3o ir\u00e1 satisfazer sua necessidade sem esse atendimento. Da mesma forma, um aluno com defici\u00eancia apenas usufruir\u00e1 desse direito ao encontr\u00e1-lo em condi\u00e7\u00f5es minimamente dignas, no qual seja poss\u00edvel pelo menos frequent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Tratando-se das condi\u00e7\u00f5es onde desenvolver o potencial de pessoas com defici\u00eancia &#8211; estou falando obviamente da educa\u00e7\u00e3o &#8211; a situa\u00e7\u00e3o presente n\u00e3o \u00e9 nem um pouco animadora. <a href=\"http:\/\/www.qedu.org.br\/brasil\/censo-escolar?year=2014&amp;dependence=0&amp;localization=0&amp;item=\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No \u00e2mbito p\u00fablico, dados do Censo Escolar de 2014 d\u00e3o conta de que apenas 24% das escolas p\u00fablicas no Brasil oferecem condi\u00e7\u00f5es de acessibilidade para o ir e vir de alunos com defici\u00eancia<\/a>. Al\u00e9m disso, outros dados a respeito do ambiente escolar, como a car\u00eancia de recursos adaptados, servi\u00e7os e at\u00e9 mesmo equipamentos b\u00e1sicos como bibliotecas e gin\u00e1sios conformam um cen\u00e1rio preocupante, onde se desejava um servi\u00e7o p\u00fablico em melhores condi\u00e7\u00f5es. Por outro lado, a situa\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os privados n\u00e3o \u00e9 muito alentadora e, se a pol\u00edtica econ\u00f4mica presente visa oportunizar cada vez mais acesso aos servi\u00e7os privados, isto n\u00e3o significa que o mercado ter\u00e1 investido antecipadamente em qualidade, mas em organizar-se para atividade lucrativa, sua raz\u00e3o de existir. <a href=\"http:\/\/arealpires.jusbrasil.com.br\/noticias\/111904921\/planos-de-saude-estao-entre-as-principais-reclamacoes-no-procon\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que usu\u00e1rios de planos de sa\u00fade privados figuram entre os servi\u00e7os privados com maior n\u00famero de a\u00e7\u00f5es judiciais e reclama\u00e7\u00e3oes no Brasil atual<\/a>. Ao tempo em que se precariza o servi\u00e7o p\u00fablico e a parcela da popula\u00e7\u00e3o consumidora dirige-se ao mercado, o pr\u00f3prio mercado reage setorizando-se e escalonando-se, atendendo a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o com base em seus direitos, mas em sua capacidade de cr\u00e9dito e endividamento.<\/p>\n<p>Recentemente, ao vetar dispositivos da <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2015\/lei\/l13146.htm\">Lei Brasileira de Inclus\u00e3o<\/a>, instrumento legal que tramitou longamente no legislativo (cerca de quinze anos) para organizar um sistema m\u00ednimo de prote\u00e7\u00e3o de direitos das pessoas com defici\u00eancia, o governo federal deu novas amostras do quanto est\u00e1 comprometido em afastar-se de um m\u00ednimo Estado de bem estar social. Isto pode ser verificado tanto pela anula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas afirmativas, como a garantia de reserva de 10% das vagas no ingresso educacional, quanto por deixar por conta da iniciativa privada e do setor da constru\u00e7\u00e3o civil a op\u00e7\u00e3o por seguir ou n\u00e3o os princ\u00edpios do desenho universal. Quanto \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a op\u00e7\u00e3o governamental foi a de, &#8220;por contrariedade ao interesse p\u00fablico&#8221;, segundo a mensagem da Presidente Dilma Rousseff, conceder bolsas integrais dentro do \u00e2mbito do Programa Universidade para Todos &#8211; PROUNI, ou seja, na iniciativa privada.<\/p>\n<p>Este afastamento, todavia, repercute em todas as esferas sociais, uma vez que todas as pessoas dever\u00e3o adequar-se ao modelo, cada qual em suas possibilidades. Uma pol\u00edtica francamente neoliberal. Desejar-se fornecer explica\u00e7\u00f5es desde o modelo social para pessoas que a, bem da verdade, est\u00e3o subordinadas na realidade a um modelo de mercado, requer de pronto uma flexibilidade que o modelo social n\u00e3o disp\u00f5e, pois se est\u00e1 claro que ele servir\u00e1 muito bem para identificar situa\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas, de outro lado o mercado ter\u00e1 garantidas suas prerrogativas e liberdades, ainda que deva subordinar-se a um regramento legal que, se n\u00e3o fiscalizado, permitir\u00e1 que seu funcionamento se d\u00ea de forma bastante comprometida. E os efeitos disso n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de imaginar quais sejam.<\/p>\n<p>Em uma sociedade e tempo social din\u00e2micos como os atuais, est\u00e1 claro que nem toda as parcelas da sociedade disp\u00f5em de meios para fruir (ou arcar com os custos) de seus direitos e liberdades, ainda mais que ao mercado tem-se entregue a determina\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de funcionamento. Ao posicionar-se como um pa\u00eds que abre m\u00e3o de investir em servi\u00e7os p\u00fablicos de qualidade e que n\u00e3o prov\u00ea \u00e0 cidadania garantias de que os servi\u00e7os privados sejam cumpridos e fiscalizados a contento, \u00e9 bem poss\u00edvel que em muitos casos os indiv\u00edduos vejam-se na situa\u00e7\u00e3o de lidar com seus direitos como se mercadorias fossem. Quero dizer com isso que um modelo de mercado exige necessariamente um Estado vigilante, sob pena de que a popula\u00e7\u00e3o &#8211; especialmente a popula\u00e7\u00e3o mais pobre &#8211; tenha de sujeitar-se \u00e0s varia\u00e7\u00f5es inerentes ao pr\u00f3prio investimento da livre iniciativa. E o que o modelo social da defici\u00eancia pode indicar, nessa situa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de indicar que o &#8220;social&#8221; foi privatizado e os direitos civis conformados \u00e0s l\u00f3gicas do pr\u00f3prio mercado? Infelizmente, muito pouco.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3rio que, por tratar-se de um pa\u00eds continental e permeado por ampla desigualdade socioecon\u00f4mica, no Brasil contempor\u00e2neo subsistam diversos modelos de compreens\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o \u00e0 defici\u00eancia. Isso vale desde o modelo assistencial, representado pela rede filantr\u00f3pica presente em quase todo o pa\u00eds, pelo social, que \u00e9 predominante nas pol\u00edticas p\u00fablicas de diferentes esferas e nas abordagens acad\u00eamicas e, por \u00faltimo, pelo de mercado, respons\u00e1vel por dar conta da especia\u00e7\u00e3o da sociedade de servi\u00e7os e regular as rela\u00e7\u00f5es individuais na sociedade capitalista. Ocorre que, em suas rela\u00e7\u00f5es com o mercado, pessoas com defici\u00eancia provar\u00e3o de muitas dificuldades, principalmente de ordem econ\u00f4mica, como restri\u00e7\u00f5es, abusos e outra situa\u00e7\u00f5es comuns em rela\u00e7\u00f5es desiguais. Isso pode ocorrer desde em servi\u00e7os b\u00e1sicos como os educacionais ou os de sa\u00fade, bem como em rela\u00e7\u00f5es de consumo especializado. Tamb\u00e9m \u00e9 bastante poss\u00edvel que pessoas ora abrigadas no modelo assistencial e em institui\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas, ao serem dirigidas a servi\u00e7os p\u00fablicos depauperados, contribuam sensivelmente para o dissenso da ideia inclusiva como um todo, porque sua capacidade de investimento \u00e9 limitada e a aus\u00eancia de pol\u00edticas compensat\u00f3rias dificulte sua rela\u00e7\u00e3o com uma sociedade de servi\u00e7os nem um pouco acess\u00edvel.<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito da ideia inclusiva, em um mundo por um lado regulado pelo mercado e por outro conformado a servi\u00e7os p\u00fablicos insatisfat\u00f3rios \u00e9, portanto, por si s\u00f3 causadora de diversos impasses de ordem p\u00fablica. E se o Estado indica como prioridade retirar-se da esfera de servi\u00e7os p\u00fablicos e sociais, com vem fazendo h\u00e1 cerca de vinte anos no Brasil, desde a san\u00e7\u00e3o da Lei de Organiza\u00e7\u00f5es Sociais (5), em 1998, a situa\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais contradit\u00f3ria, pelo menos no que diz respeito \u00e0s pessoas com defici\u00eancia, quanto ao que pretende e reserva, uma vez que esvazia-se e encolhe dia a dia.<\/p>\n<p>A complexidade do &#8220;social&#8221; contempor\u00e2neo ou da contempor\u00e2nea &#8220;sociedade de mercado&#8221; possivelmente seja cada vez menos apreens\u00edvel em modelos estruturados e as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas cada vez menos distingu\u00edveis. Entretanto, mais do que autoaplicar ou buscar guarida em um outro modelo, as pessoas comuns continuam a necessitar de solu\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas para seus problemas cotidianos e, \u00e0 medida em que se deterioram as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o fen\u00f4meno que prospera \u00e9 o da exclus\u00e3o, da fragiliza\u00e7\u00e3o do acesso individual ao mercado, seus produtos e servi\u00e7os cada vez mais disseminados. A op\u00e7\u00e3o por agir politicamente em um modelo social, mas sem investir no &#8220;social&#8221; e prover-lhe de condi\u00e7\u00f5es concretas para atender um contingente populacional imenso \u00e9 de um risco imponder\u00e1vel, colocando-se a vida das pessoas em situa\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a social. Tampouco agir consertando o mercado \u00e9 tarefa que o Estado vigente parece desejar ou ter condi\u00e7\u00f5es de perseguir, haja vista a irrefre\u00e1vel frustra\u00e7\u00e3o decorrente das rela\u00e7\u00f5es de consumo, experi\u00eancia mais que comum e disseminada.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ent\u00e3o talvez n\u00e3o seja a de encontrar-se um modelo \u00fanico em uma sociedade notadamente multiversa, mas de evitar em tempo h\u00e1bil que o esgotamento de qualquer modelo inutilize o que nele mesmo possa haver de positivo, seja sua capacidade de diagn\u00f3stico, de assist\u00eancia social ou de conserta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Para isso, antes \u00e9 preciso compreender o tempo social de cada indiv\u00edduo e grupo social e favorecer seu &#8220;pertencer&#8221; ao tecido social de modo que a ideia inclusiva n\u00e3o se torne daqui em diante apenas um convite \u00e0 exclus\u00e3o dos mercados. Se o papel da sociedade e dos distintos grupos sociais restringir-se a apenas olhar para as pr\u00f3prias necessidades e demandas, talvez para a utopia inclusiva esteja sendo utilizado um fermento equivocado. Sem compreender o &#8220;social&#8221; e ao adotar solu\u00e7\u00f5es <em>standard<\/em>, nos tornamos de fato mais iguais. Por\u00e9m nunca \u00e9 demasiado lembrar que no Brasil (talvez no mundo inteiro) o consenso social imperativo \u00e9 o de que, pela lei, todos sejam iguais, mesmo que na pr\u00e1tica todos saibam que essa \u00e9 uma fal\u00e1cia que j\u00e1 n\u00e3o causa gra\u00e7a e o que a reprodu\u00e7\u00e3o indefinida e rediviva dessa cultura nos tem custado enquanto sociedade e na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>____________________________<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>(1) BAUMAN, Zygmunt. Tempos l\u00edquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 119 p.<\/p>\n<p>(1) BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transforma\u00e7\u00e3o das pessoas em mercadoria. S\u00e3o Paulo: Zahar, 2008. 199 p.<\/p>\n<p>(2) DINIZ, D\u00e9bora; BARBOSA, L\u00edvia; SANTOS, Wederson Rufino dos. Defici\u00eancia, direitos humanos e justi\u00e7a. S\u00e3o Paulo, Sur \u2013 Revista Internacional de Direitos Humanos, n. 11, p. 65-78<\/p>\n<p>(3) ARENDT, Hannah. A condi\u00e7\u00e3o humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2001.<\/p>\n<p>(4) SANDEL, Michael. O que o dinheiro n\u00e3o compra: os limites morais do mercado. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2013. 237 p.<\/p>\n<p>(5) GOHN, Maria da Gl\u00f3ria. Movimentos Sociais e Redes de Mobiliza\u00e7\u00f5es Civis no Brasil Contempor\u00e2neo. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como evitar que a ideia inclusiva venha a tornar-se o mais novo convite \u00e0 exclus\u00e3o dos mercados? 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