{"id":29319,"date":"2016-05-10T21:14:19","date_gmt":"2016-05-11T00:14:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=29319"},"modified":"2016-05-10T21:14:19","modified_gmt":"2016-05-11T00:14:19","slug":"equalizacao-inclusiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=29319","title":{"rendered":"Equaliza\u00e7\u00e3o inclusiva"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-29320\" title=\"Um equalizador de bot\u00f5es.\" alt=\"Um equalizador de bot\u00f5es.\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/eequalizador.jpg\" width=\"314\" height=\"154\" \/><\/p>\n<p><em>Por Lucio Carvalho<br \/>\nda Inclusive<\/em><\/p>\n<p>Volta e meia me perguntam, entre pessoas pr\u00f3ximas e n\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximas, se &#8220;afinal&#8221; a inclus\u00e3o &#8220;funciona&#8221;. Se funciona &#8220;de verdade&#8221;. A educa\u00e7\u00e3o inclusiva, no caso. E pedem que eu diga &#8220;com sinceridade&#8221;, como se eu alguma vez tivesse escondido alguma coisa ou vendido irresponsavelmente uma fantasia (a troco de qu\u00ea eu faria uma coisa assim?).<\/p>\n<p>Pergunta complicad\u00edssima, porque a impress\u00e3o que fica \u00e9 que tenho algo a delatar contra o processo ou salv\u00e1-lo de qualquer cr\u00edtica. Bom, n\u00e3o se trata de uma coisa nem de outra. Ou, pelo menos, penso que isso n\u00e3o \u00e9 tudo o que importa. Isso porque, na minha vis\u00e3o pessoal, h\u00e1 muitas coisas aparentemente desimportantes na inclus\u00e3o que \u00e0s vezes importam muito mais que os resultados comumente esperados do processo educacional: aprova\u00e7\u00e3o e progress\u00e3o.<\/p>\n<p>Importa muito, para mim, se os alunos est\u00e3o felizes, por exemplo. E este \u00e9 um &#8220;indicador&#8221; que ningu\u00e9m avalia, nem gestores, nem governos, nem UNESCO e a\u00ed falando com aquela &#8220;sinceridade&#8221; solicitada, nem mesmo muitas fam\u00edlias. Quest\u00e3o de prioridades, prefer\u00eancia e expectativas pessoais. Todos atributos inquestion\u00e1veis do ponto de vista pessoal, diga-se de passagem. E garanto que n\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o aqui pes\u00e1-los ou compar\u00e1-los, mas apenas fazer algumas pondera\u00e7\u00f5es sobre a pergunta que me foi feita e que muita gente se faz, inclusive os diretamente envolvidos no assunto. \u00c9 justo que se fa\u00e7a a pergunta e mais justo ainda questionar-se. \u00c9 um sinal de honestidade para com o assunto, nada aqu\u00e9m nem al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m penso que importa muito se os alunos t\u00eam uma boa rela\u00e7\u00e3o entre si e com os professores e me parece bastante relevante que isso aconte\u00e7a de verdade, para que qualquer coisa &#8220;funcione&#8221; bem no ambiente escolar. E outras coisas dessa mesma ordem eu penso que, sim, t\u00eam muita import\u00e2ncia, embora respeite integralmente pensamentos discordantes. Coisas que, para muitos, s\u00e3o dispens\u00e1veis ou estranhas ao processo educacional, eu penso que n\u00e3o deveriam ser entendidas dessa forma e n\u00e3o apenas porque facilitam a atividade educacional propriamente dita, mas porque tamb\u00e9m lhe d\u00e3o significado. E isso diariamente.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que minha resposta a essa quest\u00e3o espec\u00edfica nos \u00faltimos tempos tem se tornado cada vez mais evasiva. Digo apenas &#8220;depende&#8221;. E esse &#8220;depende&#8221; &#8220;depende&#8221; principalmente do que se quer dizer com &#8220;funciona&#8221;. \u00c9 essa a resposta que tenho. \u00c9 a \u00fanica que me parece poss\u00edvel e honesta, a depender da expectativa do fregu\u00eas e tamb\u00e9m de outras expectativas.<\/p>\n<p>Do desencontro de expectativas \u00e9 que, ali\u00e1s, penso que decorram a maioria dos problemas educacionais e isto n\u00e3o se refere especialmente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o inclusiva. Em qualquer situa\u00e7\u00e3o envolvendo mais de duas partes interessadas, h\u00e1 que se fazer uma equaliza\u00e7\u00e3o de expectativas e, antes disso, h\u00e1 que se convencer todos os interessados de que \u00e9 necess\u00e1rio proceder assim para, al\u00e9m de dirimir d\u00favidas e conflitos, come\u00e7ar a pensar na constru\u00e7\u00e3o de uma perspectiva verdadeiramente inclusiva, ou seja, uma em que todos sejam considerados. E que isso aconte\u00e7a sempre, de forma perene. E que se consolide como uma pr\u00e1tica, ainda que \u00e0s vezes imperfeita e conflituosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mesmo f\u00e1cil e \u00e0s vezes, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel atender integralmente \u00e0s expectativas de todos no que diz respeito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. A institui\u00e7\u00e3o &#8220;escola&#8221;, inclusive, nem sempre costuma perceber-se nessa fun\u00e7\u00e3o, ainda que seja dela que cada vez mais se esperem respostas nesse sentido. \u00c0s vezes at\u00e9 inadequadamente, seja por falta de di\u00e1logo, compreens\u00e3o m\u00fatua, planejamento ou ainda outras situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso pensar igualmente nas expectativas dos alunos que, como se sabe, v\u00e3o \u00e0 escola com dezenas ou centenas ou milhares de expectativas diferentes. Os alunos tamb\u00e9m intimamente parecem fazer essa equaliza\u00e7\u00e3o de expectativas e por isso dirigem-se aos seus port\u00f5es em busca de muitas coisas, al\u00e9m do aprendizado e do conhecimento, fun\u00e7\u00f5es seculares dos estabelecimentos de ensino. V\u00e3o para socializar-se. Muitos v\u00e3o para encontrar, conhecer, educar-se e deseducar-se pelos seus iguais. Para brincar. Para namorar. Para divertir-se e por a\u00ed vai, numa mir\u00edade intermin\u00e1vel de anseios particulares nem sempre (compreensivelmente) coincidentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 a escola, em fun\u00e7\u00e3o da desocupa\u00e7\u00e3o humana do espa\u00e7o p\u00fablico, cada vez mais resume e concentra a vida social dos alunos. E por certo com os alunos &#8220;inclu\u00eddos&#8221; n\u00e3o \u00e9 diferente. \u00c9 por isso que \u00e9 bastante normal que, na vis\u00e3o de um professor, por exemplo, a inclus\u00e3o possa n\u00e3o &#8220;funcionar&#8221;. E para o aluno &#8220;funcione&#8221; sim, e muito bem. E para os pais do indiv\u00edduo, &#8220;funcione&#8221; apenas mais ou menos. Trata-se de uma quest\u00e3o de expectativas e perspectivas. Trata-se, portanto, de equaliz\u00e1-las para que atinjam uma frequ\u00eancia que atenda e d\u00ea voz e espa\u00e7o a todos.<\/p>\n<p>Diante disso, a \u00fanica resposta poss\u00edvel que eu tenho encontrado \u00e9 mesmo aquele &#8220;depende&#8221; e, embora eu pense que seja necess\u00e1rio realmente a todos fazer a equaliza\u00e7\u00e3o de expectativas, na pr\u00e1tica as coisas nem sempre s\u00e3o bem assim. No esquema de empoderamento das escolas, pelo menos na maioria delas (talvez possa excluir-se deste grupo aquelas mais experimentais ou alternativas), h\u00e1 o predom\u00ednio de um ordenamento unidirecional e isso decorre de um modelo que, ao menos em tese, vem &#8220;funcionando&#8221; dessa forma pelo menos desde meados do s\u00e9c. XX. Nesse prot\u00f3tipo de &#8220;equalizador&#8221;, vamos cham\u00e1-la assim, funciona bem apenas o que est\u00e1 programado para funcionar. Fora disso, usando dessa mesma terminologia, o resto lamentavelmente \u00e9 apenas disfuncionalidade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso e n\u00e3o por outra raz\u00e3o que t\u00eam prosperado em todo o pa\u00eds a no\u00e7\u00e3o de que alunos inclu\u00eddos com defici\u00eancia intelectual, principalmente estes, funcionam bem apenas atrav\u00e9s de uma media\u00e7\u00e3o individualizada. Nessa perspectiva espec\u00edfica, a escola n\u00e3o precisa fazer nada em absoluto para sair da sua zona de conforto pedag\u00f3gica. Basta criar-se bolhas cognitivas em torno dos alunos, neutraliz\u00e1-los enquanto sujeitos de desejo e garantir que a conviv\u00eancia aconte\u00e7a em n\u00edveis socialmente toler\u00e1veis. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, essa \u00e9 uma ideia que ganha amparo e ades\u00e3o de muitos pais. Mas ser\u00e1 mesmo o suficiente?<\/p>\n<p>N\u00e3o me atrevo nem me outorgo ao direito de responder por ningu\u00e9m, mas quero cogitar que, dessa forma, talvez funcione, e muito bem, para as pr\u00f3prias escolas, que assim desincumbem-se de repensar a si pr\u00f3prias e modificar condutas. Talvez tamb\u00e9m funcione bem para algumas fam\u00edlias que acreditam ser essa a \u00fanica forma de salvaguardar o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos filhos, chancelando a conduta. J\u00e1 a perspectiva dos alunos, afinal s\u00e3o filhos e clientes nesse mesmo ambiente, por sua vez talvez seja solenemente ignorada, embora sejam eles o objeto e interessados finais no processo. \u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o que um projeto inovador como o da inclus\u00e3o deveria suplantar, mas quase nunca isso est\u00e1 em quest\u00e3o, porque talvez quase nunca isso aconte\u00e7a de verdade.<\/p>\n<p>Em processos como esses, a equaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 do tipo outorgada. Possivelmente &#8220;funciona&#8221; em muitos casos e at\u00e9 seja satisfat\u00f3ria, mas n\u00e3o para todos. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o individual que, dada por uma solu\u00e7\u00e3o standard, mumifica o significado da inclus\u00e3o, para usar uma met\u00e1fora de f\u00e1cil compreens\u00e3o. Parece, inclusive, que lhe \u00e9 sin\u00f4nima, enquanto a mim parece ser mais apenas um dos arranjos poss\u00edveis dessa &#8220;equaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, mais jamais o \u00fanico e exclusivo porque sen\u00e3o o comprometimento do conceito seria imenso e as consequ\u00eancias educacionais e culturais muito graves.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, muitas vezes, tenho a sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de estar tentando, ao menos metaforicamente, fazer funcionar um software moderno num hardware antigo e inadequado. Mas a quest\u00e3o, tendo-se em vista que n\u00e3o tenho meios de modificar as caracter\u00edsticas do meu filho, n\u00e3o \u00e9 o software, \u00e9 o hardware. Deveria, talvez, simplesmente mudar de hardware e decretar a disfuncionalidade da escola. Ent\u00e3o eu tranquilamente poderia sair e dizer como muitos parecem querer ouvir: &#8220;n\u00e3o funciona!&#8221; \u00c9 um tipo de solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica com a qual n\u00e3o simpatizo em nada, porque me parece levar a um c\u00edrculo vicioso infinito.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, pelo contr\u00e1rio, eu quero insistir, tanto por que \u00e9 um direito constitucional quanto porque sinto que as escolas de um modo geral precisam que isso aconte\u00e7a, porque os desafios da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o ponder\u00e1veis previamente, precisam ser constantemente discutidos e modificados (ou equalizados, como quero dizer) e deixar de provoc\u00e1-las a isso \u00e9 o mesmo que abandon\u00e1-las, mas no caso com crian\u00e7as, muitas crian\u00e7as, a bordo. E isso est\u00e1 longe de me agradar. E se agrada \u00e0 sociedade, talvez o problema seja ainda de maior monta.<\/p>\n<p>Se alguma vez o tive, agora \u00e9 certo que j\u00e1 abandonei de vez o sonho de encontrar a escola ideal. Minha ideia, por outro lado, \u00e9 fazer da escola poss\u00edvel a escola ideal. Nem sempre as minhas expectativas ser\u00e3o atendidas, devo saber isso de antem\u00e3o. Nem sempre as do meu filho ser\u00e3o e \u00e9 preciso aceitar isso com o m\u00ednimo de naturalidade e serenidade. Principalmente ele precisa assimilar isso, ainda que isso tudo possa representar dificuldades importantes!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 certo que n\u00e3o vou atender exatamente a todas as expectativas da escola, isso \u00e9 claro que n\u00e3o. Vou reclamar, sugerir mudan\u00e7as e tamb\u00e9m acatar negativas justificadas, al\u00e9m de dialogar civilizadamente tamb\u00e9m, com argumentos, para que tudo n\u00e3o se transforme num queixume generalizado ou numa batalha campal. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o posso ver como um territ\u00f3rio de constru\u00e7\u00e3o do que quer que seja. Parece mais \u00e0 terra arrasada. \u00c9 preciso um m\u00ednimo de esp\u00edrito colaborativo, porque sen\u00e3o o processo \u00e9 esfriado e, principalmente, esvaziado de sentido. Tudo isso faz parte do que estou chamando aqui de &#8220;equaliza\u00e7\u00e3o&#8221; e, se isso n\u00e3o existe nem como possibilidade, bem, a\u00ed o problema ent\u00e3o \u00e9 bem mais s\u00e9rio. \u00c9 um problema de quebra de confian\u00e7a, de necessidade de mudan\u00e7a, e talvez at\u00e9 de mudan\u00e7a de endere\u00e7o.<\/p>\n<p>Por outro lado, existindo a boa vontade para o di\u00e1logo, ent\u00e3o eu acho que, pode, sim, pode mesmo, &#8220;funcionar&#8221; bem. Mas n\u00e3o \u00e9 nada que v\u00e1 se dar por conta pr\u00f3pria, num passe de m\u00e1gica ou automaticamente. Vai &#8220;depender&#8221; e muito do que se quer atingir. Do que se quer priorizar, avaliar e valorizar. Ou, como digo, do que se quer &#8220;equalizar&#8221;. E vai depender se a todos \u00e9 dado o direito de participar dessa equaliza\u00e7\u00e3o. Sei que essa n\u00e3o \u00e9 uma boa maneira de responder a uma quest\u00e3o aparentemente t\u00e3o simples e objetiva, por\u00e9m em se tratando da educa\u00e7\u00e3o, acho que n\u00e3o poderia ser diferente. \u00c0 guisa de oferecer alguma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica ou ideal, que desconfio que sequer exista, pelo menos \u00e9 uma tentativa em diminuir o ru\u00eddo e amplificar possibilidades. Num cen\u00e1rio por vezes adverso, num pa\u00eds cujo momento pol\u00edtico valida e d\u00e1 o exemplo da agressividade e da gritaria como argumento, pode ser o caminho de todos escutarem-se e fazerem-se entender, do modo pelo qual isso for poss\u00edvel. Porque se precisa &#8211; e todo mundo quer &#8211; \u00e9 uma inclus\u00e3o de sujeitos e n\u00e3o meramente uma educa\u00e7\u00e3o de objetos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se alguma vez o tive, agora \u00e9 certo que j\u00e1 abandonei de vez o sonho de encontrar a escola ideal. Minha ideia, por outro lado, \u00e9 fazer da escola poss\u00edvel a escola ideal. 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