{"id":2969,"date":"2009-01-12T23:37:41","date_gmt":"2009-01-12T23:37:41","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciainclusive.wordpress.com\/?p=2969"},"modified":"2009-01-12T23:37:41","modified_gmt":"2009-01-12T23:37:41","slug":"a-escola-nao-ensina-a-viver-com-a-diferenca-diz-primeira-travesti-do-brasil-a-cursar-doutorado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=2969","title":{"rendered":"&#034;A escola n\u00e3o ensina a viver com a diferen\u00e7a&#034;, diz primeira travesti do Brasil a cursar doutorado"},"content":{"rendered":"<figure style=\"width: 188px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.acapa.com.br\/site\/images\/noticia\/86787.jpg\" alt=\"Na imagem, Luma Andrade\" width=\"188\" height=\"139\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Na imagem, Luma Andrade<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por Marcelo Hailer 12\/1\/2009 &#8211; 13:21<\/p>\n<p>Luma Andrade ganhou destaque ao ser perfilada pelo jornal Folha de S\u00e3o Paulo, na edi\u00e7\u00e3o do dia 4 de janeiro, que chamava aten\u00e7\u00e3o pelo fato de ela ser a primeira travesti do Brasil a chegar ao doutorado, o mais alto n\u00edvel do mundo acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Aos 31 anos, do signo de le\u00e3o e natural do Cear\u00e1, Luma conversou com a reportagem do A Capa. Muito simp\u00e1tica contou o come\u00e7o de sua vida nas escolas. &#8220;Eu apanhava por ficar com as meninas&#8221;. Ela falou tamb\u00e9m sobre a dificuldade de uma travesti permanecer no col\u00e9gio. Por conta dessa realidade, Luma resolveu levantar a tese de como \u00e9 a vida das travestis no ensino p\u00fablico.<\/p>\n<p>Para ela, enquanto n\u00e3o mudarem o m\u00e9todo aplicado e n\u00e3o passarem a tratar bem as travestis nas escolas, pouca coisa vai mudar. &#8220;Ela [a travesti] \u00e9 testada o tempo todo, \u00e9 chamada de homem. Ent\u00e3o, \u00e9 muito constrangedor, isso acaba excluindo. Eu passei por tudo isso, mas ergui a cabe\u00e7a e segui. A maioria n\u00e3o consegue&#8221;, reconhece Luma.  Confira a seguir a entrevista.<\/p>\n<p><strong>Em seu Estado, Cear\u00e1, voc\u00ea coordena 28 escolas?<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o ano passado eram 28, hoje s\u00e3o 26.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 a recep\u00e7\u00e3o quando voc\u00ea chega a esses col\u00e9gios?<\/strong><br \/>\nNo inicio foi muito complicado, a presen\u00e7a de uma pessoa diferente na escola ainda causa impacto, ainda n\u00e3o se trabalha a quest\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e a quest\u00e3o da viv\u00eancia com a diferen\u00e7a, at\u00e9 porque o pr\u00f3prio professor n\u00e3o tem forma\u00e7\u00e3o para isso. Na universidade eles n\u00e3o oferecem a possibilidade de se trabalhar com a diversidade, a\u00ed eles incorporam o que a escola ensina, aquilo que \u00e9 chamado de normal, que \u00e9 a quest\u00e3o de viver como h\u00e9tero. E segundo [Michael] Focault, isso na verdade \u00e9 um estabelecimento de uma sociedade, mas que pode sofrer altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Hoje voc\u00ea sente que h\u00e1 mais respeito e credibilidade pelo seu trabalho? <\/strong><br \/>\nA minha presen\u00e7a nas escolas causa estranhamento e ao mesmo tempo as pessoas t\u00eam a oportunidade de entrar em contato. Nessa oportunidade, eu tenho que passar a elas outra realidade, porque eles pensam que travesti s\u00f3 faz programa, que \u00e9 burro, que n\u00e3o freq\u00fcenta escola, pois s\u00e3o totalmente marginalizadas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea desenvolve um trabalho de pedagogia nas escolas?<\/strong><br \/>\nTrabalho na 10\u00aa Coordenadoria Regional de Desenvolvimento de Educa\u00e7\u00e3o e a gente trabalha na parte pedag\u00f3gica. Mas acaba que n\u00f3s tamb\u00e9m trabalhamos com as quest\u00f5es interpessoais.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acompanha alguns casos de alunos?<\/strong><br \/>\nEm um caso tive que intervir. A professora estava chamando os pais de um aluno porque ele tinha um comportamento homossexual na escola, a diretora queria discutir o comportamento do aluno. Sentamos todos juntos, eu apresentei alguns casos e levei informa\u00e7\u00e3o, pois eles n\u00e3o t\u00eam essa informa\u00e7\u00e3o, a gente n\u00e3o pode culp\u00e1-los, pois n\u00e3o h\u00e1 trabalho na forma\u00e7\u00e3o deles [professores]. H\u00e1 necessidade de eles terem esse conhecimento, a\u00ed sim voc\u00ea pode cobrar.<\/p>\n<p><strong>A escola \u00e9 um espa\u00e7o homof\u00f3bico? <\/strong><br \/>\nDepende de quem est\u00e1 a frente do col\u00e9gio. A mola mestre da escola \u00e9 o gestor do col\u00e9gio. Se o gestor da escola \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o tem uma abertura para um ensino diferenciado, mais contempor\u00e2neo, uma educa\u00e7\u00e3o mais liberta, ele vai cometer uma educa\u00e7\u00e3o tradicional e nisso cabe\u00e7as rolam, n\u00e3o s\u00f3 das travestis. Dos deficientes, dos negros&#8230; Enfim, as diferen\u00e7as como um todo. Falo isso porque, quando se fala que vai trabalhar a quest\u00e3o dos deficientes, voc\u00ea acaba por excluir e n\u00e3o \u00e9 essa a ideia. Tem que trabalhar o conjunto. O ideal \u00e9 que a quest\u00e3o da inclus\u00e3o n\u00e3o seja ilus\u00f3ria. Eles fazem assim: &#8220;vamos incluir os deficientes f\u00edsicos&#8221;, a\u00ed chega uma verba para se fazer as rampas. Ser\u00e1 que s\u00f3 isso \u00e9 inclus\u00e3o? Eu entendo que n\u00e3o, porque isso acontece de uma maneira meio que de pena. &#8220;Ah pobrezinho da travesti e do deficiente, vamos coloc\u00e1-lo na escola&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Falta uma renova\u00e7\u00e3o de m\u00e9todo?<\/strong><br \/>\n\u00c9 exatamente isso. Faltam novas propostas e novos programas, ainda h\u00e1 muita coisa a ser feita. Estive presente na confer\u00eancia nacional de educa\u00e7\u00e3o e na ocasi\u00e3o ressaltei essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A sua tese trata das travestis em escolas p\u00fablicas. Como voc\u00ea entende essa quest\u00e3o? <\/strong><br \/>\nEla \u00e9 muito complexa. Primeiro, porque a travesti \u00e9 homossexual. Nessa fase, que \u00e0s vezes nem sabe que \u00e9 homossexual, ela \u00e9 muito xingada, mal tratada. Eu sei por experi\u00eancia pr\u00f3pria. Me xingavam, me batiam, porque eu s\u00f3 andava com as meninas&#8230; Ent\u00e3o, se voc\u00ea est\u00e1 num ambiente que te trata mal, que n\u00e3o te faz bem&#8230; essa n\u00e3o \u00e9 a proposta da escola, que tem que te fazer bem. A partir do momento que ela [a escola] n\u00e3o consegue fazer isso, voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea a sa\u00edda. No caso da travesti que n\u00e3o consegue ser chamada como gostaria, ser xingada, ser considerada um homem que se veste de mulher &#8211; e isso est\u00e1 no pr\u00f3prio dicion\u00e1rio: travesti \u00e9 um homem que se veste de mulher -, tem que haver uma mudan\u00e7a nessa compreens\u00e3o e nesse pensamento. Quando isso acontecer, a travesti vai se sentir inclu\u00edda.<\/p>\n<p><strong>O ambiente escolar exclui a travesti? <\/strong><br \/>\nDependendo de como ocorrem esses tipos de atitudes citadas, exclui sim. E isso acontece com a maioria, a travesti \u00e9 testada o tempo todo, ela \u00e9 chamada de homem, ent\u00e3o \u00e9 muito constrangedor, isso acaba excluindo. Passei por tudo isso, mas ergui a cabe\u00e7a e segui, mas a maioria n\u00e3o consegue, porque a\u00ed vem a prostitui\u00e7\u00e3o que lhe oferece uma maneira de ganhar dinheiro mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea afirma que \u00e9 preciso desconstruir a imagem da travesti que s\u00f3 faz programa. Como fazer isso? <\/strong><br \/>\nPrimeiro \u00e9 dar a elas a possibilidade de frequentar a escola e de se sentirem bem nela. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso fazer um trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o na escola e trat\u00e1-las como cidad\u00e3s. A travesti est\u00e1 na escola exercendo um direito que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o. A partir do momento que ocorre uma sensibiliza\u00e7\u00e3o da escola em trat\u00e1-las como amigas. Mas, at\u00e9 agora n\u00e3o aconteceu nenhum tipo de trabalho de capacita\u00e7\u00e3o nacional que trate da diferen\u00e7a nas escolas.<\/p>\n<p><strong>Na sele\u00e7\u00e3o dos projetos acad\u00eamicos colocaram o seu nome de batismo. Como voc\u00ea lida com isso? <\/strong><br \/>\nIsso n\u00e3o me causa nenhum problema. A maioria das pessoas me chama de Luma. Agora, se voc\u00ea me perguntar do que voc\u00ea prefere ser chamada, a\u00ed sim, de Luma. Porque ela \u00e9 a minha identidade. Agora estou pensando em entrar na justi\u00e7a para mudar o nome.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua opini\u00e3o sobre o projeto &#8216;Brasil Sem Homofobia&#8217;? <\/strong><br \/>\nAinda est\u00e1 muito no papel, tive a oportunidade de fazer parte do come\u00e7o dele [do projeto], que tamb\u00e9m foi constru\u00eddo por uma travesti aqui do Cear\u00e1, a Jana\u00edna Dutra, que \u00e9 uma travesti advogada. Mas assim, tem que transformar aquilo que foi idealizado em realidade. Sei que o processo \u00e9 dif\u00edcil, porque n\u00e3o depende s\u00f3 da gente, tem o Congresso Nacional que a maioria \u00e9 fundamentalista, \u00e9 uma coisa que vai demorar.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea relata \u00e0 reportagem do jornal Folha de S\u00e3o Paulo que houve um diretor de uma escola que espionava as suas aulas e que n\u00e3o queria aceitar voc\u00ea. Al\u00e9m dessa situa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea passou por algum outro tipo de constrangimento? <\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Ele [o diretor] tinha uma curiosidade de ver o que acontecia porque n\u00e3o confiava. A partir do momento que ele viu que eu dominava a aula, que eu tinha um elo de amizade com os meus alunos, isso mostrou pra ele que realmente eu tinha um trabalho, a\u00ed passou a ter outro olhar, viu que era poss\u00edvel [uma travesti dar aula].<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 para uma travesti, em um pa\u00eds preconceituoso como Brasil, chegar ao doutorado?<\/strong><br \/>\nEu nem sabia que era a \u00fanica do Brasil, quem me disse isso foi a rep\u00f3rter [Kamila Fernandes] da Folha. Que bom. Que sirva de li\u00e7\u00e3o para as outras, e que fa\u00e7am disso uma coisa normal. Mas eu penso assim, qualquer pessoa, independente do sexo, tem o direito de buscar o conhecimento. Estou fazendo isso.<\/p>\n<p><strong>No momento voc\u00ea est\u00e1 namorando?<\/strong><br \/>\nQuando eu entrei no doutorado, entrei livre. Porque n\u00e3o consegui uma bolsa, tenho que trabalhar, ent\u00e3o por conta disso fica muito complicado. A gente faz como pode, n\u00e9?<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.acapa.com.br\/site\/noticia.asp?codigo=6787&amp;titulo=%22A+escola+n%E3o+ensina+a+viver+com+a+diferen%E7a%22%2C+diz+primeira+travesti+do+Brasil+a+cursar+doutorado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.acapa.com.br\/site\/noticia.asp?codigo=6787&amp;titulo=%22A+escola+n%E3o+ensina+a+viver+com+a+diferen%E7a%22%2C+diz+primeira+travesti+do+Brasil+a+cursar+doutorado <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcelo Hailer 12\/1\/2009 &#8211; 13:21 Luma Andrade ganhou destaque ao ser perfilada pelo jornal Folha de S\u00e3o Paulo, na edi\u00e7\u00e3o do dia 4 de janeiro, que chamava aten\u00e7\u00e3o pelo fato de ela ser a primeira travesti do Brasil a chegar ao doutorado, o mais alto n\u00edvel do mundo acad\u00eamico. 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