{"id":30723,"date":"2017-10-18T19:23:27","date_gmt":"2017-10-18T22:23:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.inclusive.org.br\/?p=30723"},"modified":"2017-10-18T19:23:27","modified_gmt":"2017-10-18T22:23:27","slug":"nascer-com-ou-adquirir-uma-deficiencia-nao-exclui-a-sexualidade-de-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=30723","title":{"rendered":"Nascer com ou adquirir uma defici\u00eancia n\u00e3o exclui a sexualidade de ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Leandra Migotto Certeza *<\/strong><\/p>\n<p>Eu sempre fui vaidosa mesmo em meio a gessos, dores, formas contorcidas, e falta de pernas. Sempre gostei muito de sorrir. Sempre senti vontade de me mostrar. De me exibir. De me amar. De me querer. Quando tinha cinco para seis anos fiz meu primeiro \u2018ensaio\u2019 fotogr\u00e1fico. Posei para minha tia. Fantasias mil&#8230; Vestiram-me de coelhinha (n\u00e3o a da <em>Playboy<\/em> rsrsrs), palhacinha, indiazinha&#8230; Fiz \u2018caras e bocas\u2019. Sorri. Fui feliz. Muito feliz.<\/p>\n<figure id=\"attachment_30725\" aria-describedby=\"caption-attachment-30725\" style=\"width: 278px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30725 size-full\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/le1.jpg\" alt=\"le1\" width=\"278\" height=\"337\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-30725\" class=\"wp-caption-text\">Leandra Migotto Certeza &#8211; Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois vieram os carnavais. Desfilei de melindrosa, fadinha&#8230; Dancei no colo, tomando emprestadas as pernas do meu pai e dos meus tios amados. Gostava de me exibir! Contaram-me que antes desses tempos eu j\u00e1 gostava de posar para fotos. Que sempre gostei de me mostrar. Por que ser\u00e1? Ainda bem. S\u00f3 depois que descobri o quanto isso foi bom para minha vida. Muito mais do que auto-estima e tralal\u00e1s &#8211; como dizem os especialistas &#8211; eu simplesmente me AMAVA. Em meio a uma sociedade cheia e impregnada de supostos \u2018valores morais\u2019, infestada de pr\u00e9-conceitos sobre o que \u00e9 certo e o que \u00e9 errado, apenas fui eu mesma, sem medo de ser FELIZ (como sabiamente disse o querido compositor brasileiro, Gonzaguinha).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando a adolesc\u00eancia chegou tive vergonha de assumir que me gostava. Pensava: o que as pessoas v\u00e3o dizer? Sei que n\u00e3o sou mais crian\u00e7a (h\u00e1 muito tempo toquei meu corpo e senti vida pulsando!), mas ainda tenho tamanho de uma. E me tratam como se fosse&#8230; Sexo? Eu? Como? N\u00e3o posso, mas quero. Quero tanto! Minha \u2018m\u00e3e\u2019 interior dizia que eu ficava feia de saia. Meu \u2018pai\u2019 interior n\u00e3o queria que eu usasse batom.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca as meninas falavam de vestidos, saias, saltos altos, valsas, cabelos longos, maquiagens&#8230; Eu ia me formar na antiga oitava s\u00e9rie, e tinha vergonha de me mostrar como era: uma menina que estava desabrochando. Pelos seios que cresciam em meu pequeno corpo, quadris que se alargavam junto as minhas curtas pernas, p\u00ealos que apareciam em lugares \u2018proibidos\u2019, e principalmente pela grande vontade de beijar na boca!<\/p>\n<p>Depois vieram as baladas, as festas, as noitadas&#8230; E eu nunca freei meus desejos. Dancei at\u00e9 cair nas pistas. Vesti mini-saias. Caprichei nos decotes grandes. Abusei dos brilhos. Soltei os cabelos. Usei salto alto (na medida do poss\u00edvel). Vesti meias arrast\u00e3o. Fiz cara e bocas. Seduzi a vida! O encontro com o sexo, veio muito tempo depois. Infelizmente, como grande parte das pessoas com defici\u00eancia, fui sempre taxada como assexuada. Dei meu primeiro beijo na boca s\u00f3 aos 21 anos.<\/p>\n<p>Antes os meninos riam de mim. N\u00e3o se aproximavam. Deviam me achar mesmo uma \u2018aberra\u00e7\u00e3o da natureza\u2019 por sempre se afastar das minhas investidas. Sempre fui olhada, observada, esquartejada, detalhada&#8230; Sempre fui comentada, cochichada, fofocada, julgada&#8230; Poucos se aproximavam para me conhecer. Ainda n\u00e3o os compreendo, mas n\u00e3o os culpo muito (s\u00f3 um pouco). Mas naquela \u00e9poca foi MUITO duro viver. Era muito duro entender que comigo tudo parecia \u2018meio diferente\u2019. Roupas tinham que ser feitas \u2018na medida\u2019. Afinal, nasci em uma sociedade que valoriza o equil\u00edbrio, a beleza perfeita, o linear, a sincronia, a coer\u00eancia, a igualdade das formas&#8230; Resumindo: o ideal da perfei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe nesse Planeta.<\/p>\n<p>Hoje eu brado em todos os cantos do mundo que todos os seres humanos s\u00e3o DIFERENTES. Todos sem exce\u00e7\u00e3o. Para mim a beleza \u00e9 a forma CALEIDOSC\u00d3PICA que TODAS as pessoas t\u00eam. Beleza, sedu\u00e7\u00e3o, sensualidade, sexualidade, amor, paix\u00e3o, sexo, tes\u00e3o e desejo s\u00e3o energias t\u00e3o sutis e t\u00e3o FORTES que est\u00e3o em tudo que fazemos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, l\u00e1 no fundo, me questionava: porque eu ainda temia mostrar a todos que gostava de mim mesma sendo diferente delas? N\u00e3o sei. At\u00e9 hoje me pergunto, porque sofri tanto me preocupando com a opini\u00e3o dos outros&#8230; Mas como dizem os especialistas s\u00f3 construirmos nossa imagem pelos olhares dos outros. Para Ana Rita de Paula, (doutora em psicologia cl\u00ednica), Mina Regen e Penha Lopes, (assistentes sociais) autoras do livro: \u201cSexualidade e Defici\u00eancia: Rompendo o Sil\u00eancio\u201d: <em>\u201ccomo o novo sempre nos assusta, procuramos nos vincular ao j\u00e1 conhecido. E, assim, buscamos ref\u00fagio nas imagens que a sociedade, geralmente, nos apresenta tanto de sexualidade (sexy \u00e9 quem exibe um corpo supostamente \u2018perfeito\u2019 e sim\u00e9trico, segundo os padr\u00f5es de beleza e est\u00e9tica da m\u00eddia); quanto das pessoas com defici\u00eancia (algu\u00e9m que erroneamente supomos ser imperfeito, incapaz, fr\u00e1gil, e que n\u00e3o pode fazer parte da sociedade dita \u2018normal\u2019)\u201d. <\/em><\/p>\n<p>O mais dif\u00edcil para o desenvolvimento da minha sexualidade foi mostrar para minha fam\u00edlia e amigos que eu cresci. Que n\u00e3o sou crian\u00e7a e nem assexuada!! Quando comecei a namorar o meu atual marido ouvi coment\u00e1rios terr\u00edveis que me rasgaram por dentro. As pessoas que eu mais amo na vida, n\u00e3o acreditavam que eu pudesse ser, simplesmente, FELIZ.<\/p>\n<p>Hoje, eu e meu marido, somos aceitos pela maioria dos amigos e familiares, mas ainda conhecemos muitas pessoas que os pais de pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o aceitam que seus filhos t\u00eam sexualidade. Por que ser\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o doloroso para eles assumirem que seus filhos podem ser felizes se realizando na cama (no sof\u00e1, no ch\u00e3o, na escada, no elevador, no&#8230;) com seus corpos, simplesmente, diferentes? Espero que um dia, todos aprendam que a simetria e a perfei\u00e7\u00e3o foram conceitos criados por eles mesmos, e, portanto, podem ser destru\u00eddos a qualquer momento!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mitos e tabus precisam ser quebrados.<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_30726\" aria-describedby=\"caption-attachment-30726\" style=\"width: 412px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30726 size-full\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/le3.jpg\" width=\"412\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-30726\" class=\"wp-caption-text\">Cartum de Ricardo Ferraz &#8211; Descri\u00e7\u00e3o: Um homem pergunta a mulher cadeirante: &#8220;Como foi? Insemina\u00e7\u00e3o?&#8221;, no que ela responde &#8220;Foi sexo mesmo! Com amor!!&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como jornalista comecei a pesquisar sobre sexualidade e descobri que especialistas afirmam que sexualidade \u00e9 um fator essencial da natureza humana e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel diminu\u00ed-la, neg\u00e1-la ou faz\u00ea-la desaparecer. Nascer ou adquirir alguma defici\u00eancia, seja por acidente gen\u00e9tico ou de tr\u00e2nsito, arma de fogo, doen\u00e7a entre outros fatores n\u00e3o deveria nunca ser motivo para anular ou esconder a sexualidade das pessoas.<\/p>\n<p>Segundo Anahi Guedes de Mello, cientista social, mestranda do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social e Adriano Henrique Nuernberg,\u00a0 psic\u00f3logo, doutor em Ci\u00eancias Humanas, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina:<\/p>\n<p><em>\u201cA defici\u00eancia \u00e9 uma experi\u00eancia corporal com significado social e cultural, destacando-se nesse processo o recorte de g\u00eanero. A defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nunca a prova de que a sexualidade n\u00e3o existe. Pelo contr\u00e1rio, a defici\u00eancia, sempre inesperada, \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de que a subjetividade, e com ela a sexualidade, nunca \u00e9 aquele lugar ideal, seguro e est\u00e1vel. Justamente por isso que as pessoas com defici\u00eancia s\u00e3o tamb\u00e9m sujeitos desejantes. A pessoa com defici\u00eancia, seja qual for, sempre \u00e9 diferente da defici\u00eancia em si e essa diferen\u00e7a se joga em sua subjetividade\u201d* <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_30727\" aria-describedby=\"caption-attachment-30727\" style=\"width: 423px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30727 size-full\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/le4.jpg\" alt=\"le4\" width=\"423\" height=\"312\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-30727\" class=\"wp-caption-text\">Cartum de Ricardo Ferraz &#8211; Descri\u00e7\u00e3o: Dois homens assistem a um casal de cadeirantes beijarem-se e um diz ao outro: &#8220;Ele precisa \u00e9 de uma mulher normal pra cuidar dele!&#8221;. O outro apenas pensa: &#8220;Ser\u00e1 que eles conseguem?!&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por\u00e9m, Fabiano Puhlmann (psic\u00f3logo especializado em sexualidade) alerta que em pleno s\u00e9culo 21 a maioria da sociedade n\u00e3o imagina que quem vive com uma defici\u00eancia tenham uma vida sexual ativa! \u201c<em>Uma cliente minha, que nasceu com uma defici\u00eancia, estava gr\u00e1vida. Ao pegar um t\u00e1xi, o motorista perguntou quem foi que lhe tinha feito aquilo. Como se ela tivesse sido estuprada e n\u00e3o tivesse escolhido a gravidez como todo mundo, ou como se n\u00e3o tivesse sexualidade e n\u00e3o fosse f\u00e9rtil\u201d. <\/em><\/p>\n<p>A sociedade ainda n\u00e3o d\u00e1 a devida aten\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades e direitos de todas as pessoas com defici\u00eancia vivenciar e expressar sua sexualidade plenamente. Somente a partir do movimento pol\u00edtico de luta por seus direitos, ao longo das d\u00e9cadas de 1960 e 1980, o tema come\u00e7a a ser discutido. Por isso, ainda s\u00e3o muitos os mitos em rela\u00e7\u00e3o a quem tem defici\u00eancia visual, auditiva, f\u00edsica, intelectual, m\u00faltipla e\/ou surdocegueira.<\/p>\n<p>Acredita-se que mulheres com defici\u00eancia f\u00edsica, (que usam cadeira de rodas), n\u00e3o podem ter filhos ou praticar o ato sexual; ou mulheres e\/ou os homens com cegueira possuem um toque \u2018mais sens\u00edvel\u2019 (o que tornaria o sexo muito \u2018mais prazeroso\u2019); e que as pessoas com defici\u00eancia intelectual s\u00e3o \u2018sem-vergonhas\u2019, \u2018inconvenientes\u2019, e \u2018masturbadores compulsivos\u2019, por terem uma suposta sexualidade exacerbada e sem governo.<\/p>\n<p>Por isso, tabus precisam ser quebrados imediatamente para que todas as pessoas compreendam que a mulher com defici\u00eancia f\u00edsica ou motora pode ou n\u00e3o ter filhos, pois n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o nenhuma entre defici\u00eancia (seja ela qual for) e a sua fertilidade; a n\u00e3o ser que a infertilidade seja ocasionada por fator externo \u00e0 defici\u00eancia, assim como ocorre com mulheres sem defici\u00eancia.<\/p>\n<p>A mulher ou o homem com defici\u00eancia visual pode exercer sua sexualidade usando ou n\u00e3o o tato; assim como escolher se querem ter filhos ou n\u00e3o. Pessoas com defici\u00eancia intelectual podem exercer sua sexualidade, respeitando as conven\u00e7\u00f5es do que pode ser feito em p\u00fablico ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Pessoas com qualquer defici\u00eancia tem direito a viver plenamente em sociedade com suas identidades sexuais e de g\u00eanero, seja: homossexuais, heterossexuais, bissexuais, trans, entre outras. Tamb\u00e9m t\u00eam direito de realizar quaisquer fantasias sexuais, se masturbarem e manterem relacionamentos sexuais somente por prazer (sem o objetivo de reprodu\u00e7\u00e3o) com o apoio de terapeutas especializados e\/ou profissionais do sexo.<\/p>\n<p>Esclarecer e refletir sobre quest\u00f5es do preconceito que se relacionam ao corpo com defici\u00eancia, sobre os limites subjetivos e objetivos para viver e expressar a afetividade e a sexualidade, a partir de uma leitura social e cultural da defici\u00eancia e da sexualidade, parece ser um caminho promissor para contribuir na supera\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o social e sexual que prejudica os ideais da sociedade inclusiva.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Ana Rita de Paula, explica que muitas pessoas com defici\u00eancia s\u00f3 tiveram experi\u00eancias distantes do prazer, por isso, lidar com a sua sexualidade se torna t\u00e3o complexo. <em>\u201cDurante anos, seu corpo foi (ou \u00e9) alvo de interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, fisioter\u00e1picas ou corretivas que n\u00e3o contribuem para despertar o erotismo. Ao contr\u00e1rio, apontam o que h\u00e1 de errado, diferente, que precisa ser \u2018consertado\u2019, \u2018normatizado\u2019, caso contr\u00e1rio ser\u00e1 sempre um corpo doente. Como se isso n\u00e3o bastasse, o espelho para o mundo \u00e9 um padr\u00e3o de \u2018corpo perfeito\u2019, divulgado pela m\u00eddia. Como fica, ent\u00e3o, a auto-estima da pessoa com defici\u00eancia? A tend\u00eancia \u00e9 n\u00e3o se achar atraente, duvidar que possa ser alvo do desejo dos outros\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Um dos aspectos mais importantes da sexualidade, segundo Fabiano \u00e9 a sedu\u00e7\u00e3o.<em> \u201cPara seduzir voc\u00ea precisa saber quais s\u00e3o as suas for\u00e7as. Se algu\u00e9m acha que n\u00e3o tem nenhum poder de sedu\u00e7\u00e3o porque tem defici\u00eancia, ou se a cadeira de rodas \u00e9 um peso enorme, o outro sempre vai v\u00ea-lo no papel de amigo. Desta forma fica dif\u00edcil para a pessoa que n\u00e3o tem defici\u00eancia se envolver, pois \u00e9 um horizonte novo. <\/em>Para ele se quem tem defici\u00eancia consegue se relacionar no meio social, passeia, tem amigos, a chance de conseguir ter um parceiro \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo tamb\u00e9m esclarece que pensando em uma pessoa que ficou com uma defici\u00eancia \u00e9 preciso redescobrir o corpo como um todo, e h\u00e1 v\u00e1rias formas para isso. <em>\u201cA principal \u00e9 se tocar de novo, ver as \u00e1reas sens\u00edveis e er\u00f3genas. Explorar a sensibilidade como um todo. Imagine uma pessoa que sentia seu corpo inteiro e de repente p\u00e1ra de sentir. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso usar recursos para flexibilizar os valores porque, \u00e0s vezes, \u00e9 preciso inverter o jeito que se observava as coisas. Caso a pessoa com defici\u00eancia seja muito \u2018quadrada\u2019, \u00e9 preciso torn\u00e1-la mais male\u00e1vel, com cursos de dan\u00e7a inclusiva \u2013 nos quais as pessoas s\u00e3o tocadas e desenvolvem a sensibilidade \u2013 ou com a ida a sex shops. A pessoa com defici\u00eancia vai a uma loja dessas e v\u00ea o que as pessoas compram como brinquedos de masturba\u00e7\u00e3o, camisinhas com extens\u00e3o de p\u00eanis e etc. Isso faz com que ela comece a ver o sexo de forma mais solta, com mais humor\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pessoas com defici\u00eancia sofrem viol\u00eancia sexual de forma recorrente no pa\u00eds.\u00a0 <\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_30728\" aria-describedby=\"caption-attachment-30728\" style=\"width: 407px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30728 size-full\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/le5.jpg\" alt=\"le5\" width=\"407\" height=\"309\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-30728\" class=\"wp-caption-text\">Cartum de Ricardo Ferraz &#8211; Dois homens conversam enquanto observam uma mulher sendo severamente recriminada. &#8220;Por que tanta viol\u00eancia?&#8221;, diz um deles. O outro responde: &#8220;Ela vai se casar com um deficiente f\u00edsico!&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aos 18 anos, eu fui obrigada a ir h\u00e1 uma ginecologista da fam\u00edlia. Uma mulher amarga, est\u00fapida e totalmente anti\u00e9tica, que enfiou um livro de anatomia na minha cara, me tratou como crian\u00e7a. Proibiu de eu ter rela\u00e7\u00f5es sexuais, e ainda afirmou &#8211; olhando nos meus olhos e apontando o dedo para o meu nariz &#8211; que eu n\u00e3o poderia fazer NADA com meu corpo sem antes falar para algu\u00e9m da minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A p\u00e9ssima profissional ainda teve a cara de pau de perguntar se eu j\u00e1 tinha namorado um garoto. Quis saber, em detalhes, tudo o que eu tinha feito com ele. Obrigou-me a contar tudo. Coagiu-me. N\u00e3o respondeu nenhuma pergunta que fiz. N\u00e3o esclareceu nenhuma d\u00favida. N\u00e3o me informou sobre os m\u00e9todos contraceptivos, e os que evitam doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis. E o pior de tudo, nem quis me examinar para saber se eu tinha alguma doen\u00e7a. Sa\u00ed de l\u00e1 muito assustada, frustrada e com medo. N\u00e3o desejo ao pior inimigo o que passei naquele consult\u00f3rio. Infelizmente, eu nunca vou esquecer. Fui estuprada emocionalmente!<\/p>\n<p>Segundo dados Sistema de Notifica\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade o n\u00famero de pessoas com defici\u00eancia v\u00edtimas de estupro quase dobrou no Brasil, passando de 941 em 2011 para 1.803 em 2016. As informa\u00e7\u00f5es colhidas em hospitais p\u00fablicos e privados, representam quase 8% dos estupros atendidos pelos servi\u00e7os de sa\u00fade. E ainda 40% dos munic\u00edpios n\u00e3o reportam os dados.<\/p>\n<p>A Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos tamb\u00e9m recebeu 133.061 mil den\u00fancias de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos no ano de 2016. O m\u00f3dulo de registro de den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es de direitos da pessoa com defici\u00eancia \u00e9 o terceiro no ranking em n\u00fameros absolutos. Foram registradas no Disque 100, 37,9% de viola\u00e7\u00f5es por neglig\u00eancia, 23,5% de viol\u00eancia psicol\u00f3gica, 16,8% viol\u00eancia f\u00edsica, 14,4% de abuso financeiro\/econ\u00f4mico e viol\u00eancia patrimonial, e 7,4% de outras viola\u00e7\u00f5es. Das defici\u00eancias informadas, a mental aparece com 54%, de defici\u00eancia f\u00edsica, 23%, intelectual, 16%, defici\u00eancia visual, 5%, e auditiva, 3%.<\/p>\n<p>*Cita\u00e7\u00e3o do texto \u201cCorpo, g\u00eanero, sexaulidade na experi\u00eancia da defici\u00eancia: algumas nota de campo\u201d, escrito para o \u201cIII Semin\u00e1rio Internacional Enla\u00e7ando Sexualidades\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><u>Mais informa\u00e7\u00f5es sobre o Sexualidade e Defici\u00eancia:<\/u><\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Livro de Ana Rita de Paula, MIna Regen e Penha Lopes: <\/strong>\u201cSexualidade e defici\u00eancia: rompendo o sil\u00eancio\u201d (Editora Express\u00e3o e Arte).<\/li>\n<li><strong>Cartuns de Ricardo Ferraz sobre Mitos e Tabus: <\/strong><a href=\"http:\/\/www.cadetudo.com.br\/ricardoferraz\/\">http:\/\/www.cadetudo.com.br\/ricardoferraz\/<\/a><\/li>\n<li><strong>Artigo de Victor Vasconcelos sobre sexualidade no portal Sem Barreiras: <\/strong><a href=\"http:\/\/www.sembarreiras.jor.br\/2017\/08\/25\/pessoas-com-deficiencia-nao-sao-seres-assexuados\/\">http:\/\/www.sembarreiras.jor.br\/2017\/08\/25\/pessoas-com-deficiencia-nao-sao-seres-assexuados\/<\/a><\/li>\n<li><strong>Artigo sobre o III SEMIN\u00c1RIO INTERNACIONAL ENLA\u00c7ANDO SEXUALIDADES:<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.sedese.mg.gov.br\/conped\/images\/conferencias\/corpo_genero_sexualidade.pdf\">http:\/\/www.sedese.mg.gov.br\/conped\/images\/conferencias\/corpo_genero_sexualidade.pdf<\/a><\/li>\n<li><strong>Casos de viol\u00eancia sexual contra pessoas com defici\u00eancia:<\/strong><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/09\/1917303-deficientes-sao-vitimas-de-1-em-cada-10-estupros-registrados-no-pais.shtml\"><strong>http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2017\/09\/1917303-deficientes-sao-vitimas-de-1-em-cada-10-estupros-registrados-no-pais.shtml<\/strong><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>_________________<\/p>\n<figure id=\"attachment_30709\" aria-describedby=\"caption-attachment-30709\" style=\"width: 130px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30709 size-full\" src=\"http:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/Image8.jpg\" alt=\"Image8\" width=\"130\" height=\"229\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-30709\" class=\"wp-caption-text\">Leandra Migotto Certeza<\/figcaption><\/figure>\n<p>* <b>Leandra Migotto Certeza<\/b> \u00e9 comunicadora pela Universidade Anhembi Morumbi, jornalista desde 1998 com ampla e premiada experi\u00eancia em inclus\u00e3o. Trabalha como consultora e palestrante em empresas, ONGs e escolas. \u00c9 estudante de Jornalismo Liter\u00e1rio e Escrita Criativa e escreve poemas desde os 9 anos. Lan\u00e7ar\u00e1 o selo <i>Caleidosc\u00f3pio<\/i> de biografias sobre pessoas com defici\u00eancia, e come\u00e7ar\u00e1 pela <i>Cole\u00e7\u00e3o Janelas<\/i> contando a sua trajet\u00f3ria profissional. Assina a coluna \u201cBate papo\u201d no portal http:\/\/www.sembarreiras.jor.br\/, mant\u00eam 2 blogs e participa do Coletivo Mulheres pela Inclus\u00e3o. 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