{"id":3110,"date":"2009-01-21T00:52:40","date_gmt":"2009-01-21T00:52:40","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciainclusive.wordpress.com\/?p=3110"},"modified":"2009-01-21T00:52:40","modified_gmt":"2009-01-21T00:52:40","slug":"a-hora-dos-movimentos-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=3110","title":{"rendered":"A hora dos movimentos sociais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Boaventura de Sousa Santos acredita que o FSM pode assumir um papel relevante na crise<\/strong><\/p>\n<p>por Rita Freire<br \/>\nFonte: <a href=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/sitefinal\/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=5874\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.revistaforum.com.br\/sitefinal\/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=5874<\/a><\/p>\n<figure style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/Imagens\/HtmlEditor\/Boaventura.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"292\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Foto: Andr\u00e9 Veloso. Na imagem, o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma das personalidades mais atuantes nas edi\u00e7\u00f5es do F\u00f3rum Social Mundial, o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos analisa as possibilidades do governo Obama e enxerga no enfrentamento \u00e0 crise global uma importante oportunidade para o movimento social.<\/p>\n<p>F\u00f3rum \u2013 O senhor costuma sempre passar uma parte do ano nos Estados Unidos. Comemorou a elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama ou chegou a se emocionar com a festa dos estadunidenses?<\/p>\n<p>Boaventura de Sousa Santos \u2013 \u00c9 evidente que pela minha forma\u00e7\u00e3o marxista n\u00e3o estou acostumado a que os homens individualmente transformem a hist\u00f3ria e tenho reservas em rela\u00e7\u00e3o a esperar demasiado de uma pessoa quando o sistema que a elegeu praticamente se mant\u00e9m o mesmo. Mas, dito isto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida para uma pessoa que, para lembrar Jos\u00e9 Mart\u00ed, vive nas entranhas do monstro, onde este sentimento de cr\u00edtica \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o imperialista agravou-se extraordinariamente durante o governo Bush, que a vit\u00f3ria do Obama foi um acontecimento muito especial. Ali\u00e1s, especial n\u00e3o apenas para os EUA como para o mundo.<\/p>\n<p>Em 2009, um presidente negro vai entrar em uma Casa Branca que foi constru\u00edda por escravos. H\u00e1 40 anos, em alguns estados nos quais ele ganhou eleitoralmente, branco n\u00e3o podia casar com preto. Sua mulher descende de escravos e vai entrar para a Casa Branca como primeira dama. \u00c9 uma grande transforma\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, um grande ato de pol\u00edtica simb\u00f3lica e n\u00e3o uma vit\u00f3ria qualquer. Um ativista dos direitos civis nos anos 60 e 70, ao ver a vit\u00f3ria de Obama, me disse: \u201cDurante todos os anos tenho me considerado um afroamericano, mas a partir de hoje tenho a impress\u00e3o de que eu sou simplesmente um americano\u201d. \u00c9 uma transforma\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de identidade.<\/p>\n<p>Depois que a autoestima dos americanos foi completamente corrompida pela incompet\u00eancia, avareza, belicismo inconsequente e absolutamente frustrante, esta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para os Estados Unidos. Foram guerras ilegais e agressivas que n\u00e3o resolveram nenhum dos problemas apontados, exceto aquele objetivo nunca confessado, que era assegurar o controle da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Apesar de terem sido grande refer\u00eancia para muita gente no mundo, j\u00e1 que a globaliza\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 tamb\u00e9m a americaniza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da grande ind\u00fastria do entretenimento, a imagem dos EUA degradou-se extraordinariamente, a tal ponto que os americanos \u00e0s vezes tinham vergonha de visitar alguns pa\u00edses, uma situa\u00e7\u00e3o absolutamente inaudita para eles. \u00c9 evidente que deste ponto de vista a elei\u00e7\u00e3o do Obama permitiu o orgulho de outra vez serem americanos.<\/p>\n<p>Isto pode ser bom e pode ser mau. Pode trazer de volta o triunfalismo e o sensacionalismo porque foram capazes de fazer o prov\u00e1vel pior presidente dos EUA, Bush, mas tamb\u00e9m de eleger um negro num pa\u00eds que teve uma situa\u00e7\u00e3o de escravatura e discrimina\u00e7\u00e3o racial t\u00e3o fortes.<\/p>\n<p>F\u00f3rum \u2013 E para al\u00e9m dos Estados Unidos?<\/p>\n<p>Boaventura \u2013 Essa elei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 importante para a Europa, que tem uma certa arrog\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos EUA. Mas o que aconteceu nos Estados Unidos n\u00e3o podia acontecer l\u00e1. A Alemanha tem 800 mil cidad\u00e3os turcos, em uma popula\u00e7\u00e3o de imigrantes por volta de 3 milh\u00f5es. A Fran\u00e7a tamb\u00e9m tem muitos imigrantes com cidadania. Mas quando olhamos para seus parlamentos a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 quase totalmente branca. Na Inglaterra, de 600 membros da Casa dos Comuns, 15 pessoas n\u00e3o s\u00e3o brancas. D\u00e1-me a impress\u00e3o de que a Europa se v\u00ea em um contrap\u00e9 da hist\u00f3ria, porque os EUA s\u00e3o capazes de eleger um presidente que n\u00e3o tem a hist\u00f3ria a que os europeus se habituaram como sendo as suas pr\u00f3prias, sobretudo depois do que temos visto com a xenofobia, as leis de imigra\u00e7\u00e3o, os Berlusconi e Sarkozy que t\u00eam transformado a Europa em uma fortaleza, a se defender sobretudo dos imigrantes, e que tenta evitar a todo custo que eles possam se estabilizar com suas fam\u00edlias, que suas culturas possam enriquecer a cultura do continente.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos minimizar em termos pol\u00edticos o significado da vit\u00f3ria de Obama. \u00c9 evidente que ela ocorre no pior per\u00edodo dos Estados Unidos, e talvez s\u00f3 por isso tenha sido poss\u00edvel. N\u00e3o s\u00f3 por causa das guerras que n\u00e3o se pode ganhar e que foram erradas desde o primeiro momento, mas tamb\u00e9m da crise financeira que vai ter certamente as mesmas dimens\u00f5es da Grande Depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse momento de decl\u00ednio entra um homem de uma etnia que n\u00e3o \u00e9 a euroc\u00eantrica que sempre dominou os EUA. Ele pode ter algum \u00eaxito e ser a afirma\u00e7\u00e3o que a diversidade deste pa\u00eds enriquece politicamente. E, se as coisas correrem mal, tenho certeza de que muitos racistas deste pa\u00eds \u2013 que n\u00e3o deixou de ser racista no dia 4 de novembro \u2013 v\u00e3o dizer que as coisas n\u00e3o deram certo porque um negro n\u00e3o deu conta da situa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 trouxe inova\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias de campanha que foram uma vit\u00f3ria para a democracia liberal. N\u00e3o para a democracia participativa, como a defendemos, mas com alguma virtualidade desta. Um novo conceito entrou no vocabul\u00e1rio pol\u00edtico, que s\u00e3o os netroots, pessoas que contribu\u00edram com seu dinheiro, percorrendo bairro a bairro, exatamente uma estrat\u00e9gia das organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, e que o levaram ao poder. Num cen\u00e1rio otimista, se estes grupos n\u00e3o se desarmarem, continuarem ligados, mantiverem a sua rede, sua lista, poder\u00e3o e dever\u00e3o cobrar o presidente por promessas que, sem essa cobran\u00e7a, ele n\u00e3o viria a cumprir. E esta energia n\u00e3o terminaria nas elei\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma suspens\u00e3o hist\u00f3rica que acontece em determinados momentos. Como eu disse, \u00e9 a realidade que foi almo\u00e7ar e vamos ver como regressa do almo\u00e7o. E ela est\u00e1 a regressar.<\/p>\n<p>F\u00f3rum \u2013 H\u00e1 sinais de algum movimento organizado j\u00e1 cobrando Obama, como por exemplo o chamado feito na imprensa estadunidense pelo movimento das Liberdades Civis para que j\u00e1 no primeiro dia o presidente tome algumas medidas para sinalizar a disposi\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a, entre elas a de fechar Guant\u00e1namo. Que medidas tomadas no in\u00edcio poder\u00e3o indicar o rumo que ter\u00e1 esse governo?<\/p>\n<p>Boaventura \u2013 De alguma forma aconteceu nos EUA algo compar\u00e1vel ao que aconteceu com o Lula, quando algu\u00e9m de um grupo discriminado, um metal\u00fargico, chegou \u00e0 presid\u00eancia do Brasil. De alguma maneira os movimentos sociais, com exce\u00e7\u00e3o talvez do MST, se desarmaram um pouco no primeiro momento, porque tinham um amigo no Planalto. N\u00e3o pode acontecer isso nos Estados Unidos. Os movimentos n\u00e3o podem se desarmar, e muito especificamente o movimento negro e o movimento dos direitos civis, que s\u00e3o muito grandes.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica simb\u00f3lica \u00e9 algo que tem efeitos reais imediatos mas que n\u00e3o afeta o sistema no seu n\u00facleo duro. Fechar Guant\u00e1namo \u00e9 uma coisa que se pode fazer, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil. S\u00e3o 255 detidos dos quais. S\u00e3o todas pessoas detidas ilegalmente e, se n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para estarem l\u00e1, por que n\u00e3o solt\u00e1-los?<\/p>\n<p>Por outro lado h\u00e1 os que devem ser julgados. O pr\u00f3prio Obama j\u00e1 disse que as comiss\u00f5es militares s\u00e3o tribunais fantoches, uma farsa de Justi\u00e7a, e portanto devem ser julgados em tribunal convencional. Pode ser um sistema novo, porque no tribunal v\u00e3o ser mostradas muitas provas consideradas secretas e se considera que isto afeta a seguran\u00e7a dos Estados Unidos. Isso naturalmente cria uma fric\u00e7\u00e3o dentro do pr\u00f3prio grupo de Obama. Mas fechar Guant\u00e1namo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil. \u00c9 preciso coragem para tir\u00e1-los de l\u00e1 e pensar como poder\u00e3o regressar aos seus pa\u00edses de origem. Em alguns casos, n\u00e3o poder\u00e3o. E a\u00ed, com toda franqueza, por que os EUA n\u00e3o os podem aceitar se n\u00e3o h\u00e1 nada contra eles? N\u00e3o cometeram nenhum crime como aquele caso escandaloso dos 17 chineses que foram detidos porque foram encontrados no Afeganist\u00e3o, sem nada a ver com terrorismo. Foi um ato de autoritarismo da pior esp\u00e9cie, quase primitivo. H\u00e1 uma possibilidade de Obama responder positivamente a esta demanda e \u00e9 f\u00e1cil acabar com Guant\u00e1namo porque \u00e9 um tumor cancer\u00edgeno instalado dentro de Cuba.<\/p>\n<p>F\u00f3rum \u2013 Com a celebra\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de Obama, o senhor disse que a realidade foi almo\u00e7ar mas j\u00e1 estava voltando. Acho que a parte da realidade que j\u00e1 voltou tem a ver com as finan\u00e7as mundiais. Pergunto qual a palavra certa: estamos vivendo uma crise ou um colapso do sistema?<\/p>\n<p>Boaventura \u2013 N\u00f3s assistimos de fato a um colapso de uma parte, exatamente o sistema financeiro que existiu at\u00e9 agora. D\u00e1-me a impress\u00e3o que o neoliberalismo se autodestruiu. Se calhar, nem foi derrubado pelos movimentos sociais que t\u00eam lutado contra os para\u00edsos fiscais ou defendendo a taxa Tobin. Tantas coisas que t\u00eam sido promovidas pelos movimentos sociais para por fim a este capitalismo de cassino que funcionou nos \u00faltimos 30 anos, e ele se autodestruiu. Como Marx disse, o limite do capitalismo \u00e9 o pr\u00f3prio capital, que tem uma ambi\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande por acumula\u00e7\u00e3o que acaba por destruir as fontes que poderiam lhe dar sustentabilidade, portanto entra regularmente em crise. A crise significa o colapso do sistema financeiro, mas n\u00e3o \u00e9 uma crise final do capitalismo, \u00e9 um realinhamento que se vai dar mas n\u00e3o sabemos com que perfil.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil caracterizar essa crise. Tudo leva a crer que pelo menos nos pr\u00f3ximos anos, se n\u00e3o houver uma pol\u00edtica agressiva de promo\u00e7\u00e3o de emprego, teremos uma recess\u00e3o. \u00c9 preciso lembrar que a recess\u00e3o de 1929 s\u00f3 chegou ao bolso das fam\u00edlias em 1933, levou tempo porque o sistema tem uma certa in\u00e9rcia. Mas n\u00e3o estamos em 1929 e penso que existem muitos mecanismos internacionais que n\u00e3o existiam antes e que agora est\u00e3o a for\u00e7ar o controle da crise.<\/p>\n<p>Uma reivindica\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais \u00e9 acabar com o Banco Mundial, FMI e OMC, e que se volte o sistema para as Na\u00e7\u00f5es Unidas e a Unctad e institui\u00e7\u00f5es onde a Assembleia da ONU tenha um papel mais democr\u00e1tico. O FMI foi autorizado agora a analisar a situa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, mas \u00e9 rid\u00edculo, eles n\u00e3o v\u00e3o se deixar analisar pelo FMI, tampouco pelas organiza\u00e7\u00f5es dos direitos humanos quando as viola\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00f3bvias neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um dos papeis fundamentais vai ser jogado pelos pa\u00edses que, desde o primeiro F\u00f3rum, dizemos que s\u00f3 se eles se unissem ter\u00edamos uma mudan\u00e7a no sistema. Os grandes pa\u00edses perif\u00e9ricos, de desenvolvimento intermedi\u00e1rio, e com uma popula\u00e7\u00e3o grande, que s\u00e3o o Brasil, \u00cdndia, \u00c1frica do Sul e talvez a China; se estes pa\u00edses se unissem, este sistema hip\u00f3crita que imp\u00f5e o liberalismo a todos, menos na Europa e nos EUA, acabaria. Para esses pa\u00edses, \u00e9 uma janela de oportunidade para impor outras regras. Os pr\u00f3prios chineses est\u00e3o muito divididos, porque investiram demasiado nos EUA, ao contr\u00e1rio do Brasil e da \u00c1frica do Sul, e est\u00e3o muito mais dependentes do futuro da economia norte-americana. A \u00faltima coisa que podem querer \u00e9 o aprofundamento da crise.<\/p>\n<p>Lula deixa muito claro que n\u00e3o pode tolerar o alinhamento total com os EUA, pelo contr\u00e1rio, fez um alinhamento em termos econ\u00f4micos, de promo\u00e7\u00e3o neoliberal, mas politicamente escolheu uma certa solidariedade com os pa\u00edses irm\u00e3os na Am\u00e9rica Latina. Esse regionalismo a emergir na regi\u00e3o \u00e9 muito evidente tamb\u00e9m na \u00c1frica, com a proposta de uma unidade monet\u00e1ria como na Europa, e tamb\u00e9m na \u00c1sia h\u00e1 sinais de um certo regionalismo que atende mais \u00e0s necessidades dos pa\u00edses. Se assim for, poder\u00edamos ter rela\u00e7\u00f5es menos imperialistas e mais difusas em fun\u00e7\u00e3o de o mundo ser mais partilhado por estes grandes regionalismos que podem enfrentar Europa e EUA.<\/p>\n<p>Eu, ao contr\u00e1rio dos que pensam que a solu\u00e7\u00e3o tem de vir da Europa e dos EUA, penso que eles precisam ser pressionados pelo resto do mundo, porque \u00e9 fora dos EUA e da Europa que hoje est\u00e3o as energias transformadoras do sistema. O Brasil, por exemplo, est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o diferente, mas se houver uma recess\u00e3o na China ela vai se refletir no Brasil. Agora, a arrog\u00e2ncia unilateral dos EUA, a arrog\u00e2ncia unilateral das organiza\u00e7\u00f5es multilaterais, que s\u00e3o multilaterais apenas no nome, essa terminou. Portanto, vamos ver como as coisas v\u00e3o se posicionar e que janelas de oportunidades existem para algumas quest\u00f5es no movimento social. Por exemplo, para a Via Campesina, \u00e9 muito importante eliminar o capital especulativo nesta \u00e1rea de soberania alimentar. No momento, h\u00e1 aqui alguma oportunidade quando as estruturas hegem\u00f4nicas est\u00e3o um pouco fragilizadas. Mas n\u00e3o sabemos at\u00e9 que ponto.<\/p>\n<p>F\u00f3rum \u2013 O presidente Lula, na discuss\u00e3o em Washington sobre a solu\u00e7\u00e3o para a crise internacional, fala em concluir a rodada de Doha, e isso soa um pouco estranho ao movimento social depois de tanta luta para desgastar a OMC, que hoje realmente n\u00e3o tem mais o papel que pretendia. O que o senhor pensa disso?<\/p>\n<p>Boaventura \u2013 O Brasil \u00e9 a ambiguidade dos pa\u00edses semiperif\u00e9ricos, tem uma capacidade de manobra que lhe d\u00e1 uma certa arrog\u00e2ncia neste momento. Nota-se na \u00e1rea da biotecnologia, porque o Brasil tem uma grande diversidade, mas tem tamb\u00e9m uma ind\u00fastria biotecnol\u00f3gica que quer produzir e portanto as suas posi\u00e7\u00f5es na \u00e1rea do patenteamento da biodiversidade s\u00e3o muito amb\u00edguas.<\/p>\n<p>A diplomacia brasileira \u00e9 que tem sido muito boa em muitos n\u00edveis. O desgaste dos Estados Unidos e do sistema que at\u00e9 agora era imposto na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Com\u00e9rcio (OMC), e contra o qual o Brasil lutava ao questionar o protecionismo na Europa e nos EUA, criou novas possibilidades para o que este grupo vinha colocando dentro da OMC. O que temos de ver \u00e9 se o que \u00e9 bom para o Brasil \u00e9 tamb\u00e9m para os pa\u00edses do Quarto Mundo, os perif\u00e9ricos, que n\u00e3o est\u00e3o nesta fatia intermedi\u00e1ria do rendimento mundial. Estou falando da \u00c1frica e de muitos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1sia e de muitos outros que s\u00e3o dependentes em rela\u00e7\u00e3o a estes pa\u00edses, como a Tail\u00e2ndia \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China. Eu ainda temo que este regime seja t\u00e3o viciado que as pot\u00eancias intermedi\u00e1rias, como no caso brasileiro, quando t\u00eam alguma capacidade de manobra, comportem-se como virtuais pot\u00eancias hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Aqui, o distanciamento de um Ch\u00e1vez \u00e9 muito salutar. Ou n\u00f3s temos uma l\u00f3gica n\u00e3o-capitalista, uma l\u00f3gica outra, ou n\u00e3o vamos a lado nenhum. E o Brasil n\u00e3o tem tido de modo nenhum esta posi\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio: faz desalinhamento pol\u00edtico mas alinhamento econ\u00f4mico, o que funcionou at\u00e9 agora porque coincidiu com o grande boom da China, que resolveu muitos problemas brasileiros, se n\u00e3o contarmos com os ind\u00edgenas e camponeses que est\u00e3o sofrendo com o alargamento da fronteira agr\u00edcola e a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, que ocorre no Par\u00e1 e no Mato Grosso do Sul. Mas isso obviamente permitiu ao Brasil o que at\u00e9 agora n\u00e3o tinha tido, que \u00e9 uma certa autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao FMI e portanto houve um segundo Grito do Ipiranga: N\u00f3s podemos ditar nossa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Mas a burguesia nacional, altamente transnacionalizada desde a ditadura, n\u00e3o mudou com a democratiza\u00e7\u00e3o, est\u00e1 totalmente vinculada a este sistema, e quando tem qualquer margem de manobra para ter os seus lucros, n\u00e3o vai querer mais mexer no sistema e nem nesta ideia de que n\u00e3o se pode ter tratado de com\u00e9rcio sem direitos sociais e econ\u00f4micos e sem uma outra pol\u00edtica ambiental. Porque h\u00e1 uma crise econ\u00f4mica, energ\u00e9tica e clim\u00e1tica. N\u00e3o podemos usar a l\u00f3gica economicista do neoliberalismo, temos de usar uma l\u00f3gica mais ampla, e o Brasil est\u00e1 relativamente atrasado porque entrou naquela onda do agrocombust\u00edvel, que se chama no Brasil biocombust\u00edvel, mas que \u00e9 um nome errado porque n\u00e3o \u00e9 energia renov\u00e1vel e \u00e9 extremamente destruidor da soberania elementar. Energia renov\u00e1vel s\u00e3o os ventos, o sol e as ondas. O Brasil n\u00e3o tem mostrado muito interesse nisso mas sim nos combust\u00edveis f\u00f3sseis e no agrodiesel. Como vai se comportar neste momento que vai trazer as quest\u00f5es clim\u00e1ticas para o centro das discuss\u00f5es, mesmo nos EUA.<\/p>\n<p>Foi um erro do Lula desvincular-se de algumas outras pol\u00edticas ambientais que estavam em curso para uma alian\u00e7a com os EUA, n\u00e3o se dando conta de que seria de curta dura\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o \u00e9 uma energia renov\u00e1vel. No dom\u00ednio energ\u00e9tico e clim\u00e1tico n\u00e3o vejo o Brasil muito bem equipado para uma resposta inovadora porque n\u00e3o foi por a\u00ed que a diplomacia se orientou. Mas vamos ver porque n\u00e3o acredito muito naquilo que os governos podem fazer, mas no que os movimentos podem pressionar.<\/p>\n<p>Penso que o FSM pode assumir uma lideran\u00e7a maior, com espa\u00e7o aberto. Se os movimentos sociais estivessem preparados com propostas muito concretas do que pode ser feito, neste momento de suspens\u00e3o do sistema mundial devido \u00e0 crise e ao novo governo dos EUA, penso que algumas alian\u00e7as poderiam ser feitas com organiza\u00e7\u00f5es e mesmo com partidos dentro do establishment que percebem que suas solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o funcionaram.<\/p>\n<p>F\u00f3rum \u2013 Ent\u00e3o vou citar uma fala de Chomsky que n\u00e3o v\u00ea nessa crise o ocaso da economia dos EUA e que tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00ea sinal de alternativas constru\u00eddas pelo movimento para um momento destes, em um artigo bem recente. Em sendo verdade, isto significa que o processo do FSM falhou ao afirmar a possibilidade de outro mundo?<\/p>\n<p>Boaventura \u2013 Estamos provavelmente em um processo de transforma\u00e7\u00e3o que \u00e9 quase sim\u00e9trico a este outro que n\u00f3s estamos analisando. Desde o final de 1989, quando tivemos a queda do Muro de Berlim, aquelas alternativas socialistas, pelo menos as que haviam sido desenhadas ao longo do s\u00e9culo XX, entraram em crise. Muita gente pensou que era s\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o e o socialismo que estavam em crise, mas que o reformismo socialdemocrata, pelo contr\u00e1rio, teria sua vingan\u00e7a e o seu momento de apogeu. Longe disso. Quando morreu a revolu\u00e7\u00e3o, morreu tamb\u00e9m o reformismo socialdemocrata. O capitalismo livre de quaisquer liga\u00e7\u00f5es e regula\u00e7\u00f5es keynesianas dos Estados tentou libertar-se dos direitos laborais e da regulamenta\u00e7\u00e3o e foram estes anos que n\u00f3s tivemos.<\/p>\n<p>No fundo, a busca do F\u00f3rum Social Mundial de uma sociedade alternativa come\u00e7ou com uma crise que agora atinge este sistema. Come\u00e7ou no final da d\u00e9cada de 80 e foi um per\u00edodo de rejei\u00e7\u00e3o e um grande inconformismo com a situa\u00e7\u00e3o de desigualdade social dos \u00faltimos anos. E tamb\u00e9m uma maturidade que ajuda a florescer um sentimento muito vago de que n\u00e3o temos alternativas. Por isso que a gente diz que um outro mundo \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 um \u201coutro mundo\u201d porque n\u00e3o sabemos qual \u00e9 esse mundo.<\/p>\n<p>Para muitos movimentos, falar do socialismo \u00e9 um erro. Se vamos para a \u00c1frica ou para a \u00c1sia v\u00e3o nos dizer que o socialismo \u00e9 uma armadilha euroc\u00eantrica como qualquer outra. N\u00e3o sou t\u00e3o negativo como Chomsky e \u00e9 curioso que um intelectual por quem temos um grande respeito possua essa ambiguidade que vem do movimento anarquista. Por um lado, fazem uma luta por todos os movimentos de base e t\u00eam uma desconfian\u00e7a total dos Estados terroristas, mas todos os Estados o s\u00e3o, a come\u00e7ar pelos Estados Unidos. S\u00e3o grandes cr\u00edticos deste sistema mas ao mesmo tempo s\u00e3o maximalistas.<\/p>\n<p>Se quisermos uma revolu\u00e7\u00e3o ou uma alternativa verdadeiramente p\u00f3s-capitalista, n\u00e3o imagino que isso seja poss\u00edvel sem termos um Estado que seja efetivamente democr\u00e1tico e popular. Nunca uma ditadura de um partido \u00fanico. Mas enquanto n\u00e3o tivermos um governo mundial, democr\u00e1tico, que seria o sonho do movimento social internacionalizado mas que est\u00e1 como uma possibilidade ut\u00f3pica, n\u00f3s, os movimentos sociais em n\u00edvel regional e internacional, poder\u00edamos ter interlocutores fortes com quem se possa promover pol\u00edticas fortes. E n\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma inst\u00e2ncia que garanta direitos sen\u00e3o os Estados. Vamos entrar no dom\u00ednio das religi\u00f5es e da filantropia? Francamente, n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Eu acho que o movimento de esquerda deixou-se desarmar extraordinariamente nos \u00faltimos anos, exatamente porque aquela alternativa n\u00e3o era poss\u00edvel, o marxismo deixou de estar na moda, deixou de estar na agenda, de estar nas universidades, no movimento social. Curiosamente est\u00e1 voltando porque a situa\u00e7\u00e3o financeira veio a provar que Marx tinha muita raz\u00e3o na an\u00e1lise que fazia da sociedade capitalista. O marxismo regressa, mas s\u00f3 pode regressar parcialmente, como uma an\u00e1lise l\u00facida das crises do capitalismo e, portanto, de que \u00e9 preciso uma sociedade p\u00f3s-capitalista. Mas uma sociedade assim n\u00e3o pode ser aquela nos termos em que previu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boaventura de Sousa Santos acredita que o FSM pode assumir um papel relevante na crise por Rita Freire Fonte: http:\/\/www.revistaforum.com.br\/sitefinal\/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=5874 Uma das personalidades mais atuantes nas edi\u00e7\u00f5es do F\u00f3rum Social Mundial, o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Sousa Santos analisa as possibilidades do governo Obama e enxerga no enfrentamento \u00e0 crise global uma importante oportunidade para 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