{"id":34696,"date":"2025-04-21T12:34:02","date_gmt":"2025-04-21T12:34:02","guid":{"rendered":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=34696"},"modified":"2025-04-22T12:39:24","modified_gmt":"2025-04-22T12:39:24","slug":"a-invisibilidade-dos-indigenas-com-deficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=34696","title":{"rendered":"A (in)visibilidade dos ind\u00edgenas com defici\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods10\/a-invisibilidade-dos-indigenas-com-deficiencia\/\">#Colabora<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por&nbsp;<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/author\/vanessa-monteiro\/\">Vanessa Monteiro<\/a>&nbsp;<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/tema\/ods10\/\">ODS 10<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">S\u00e9rie especial &#8216;Invis\u00edveis dos Invis\u00edveis&#8217; mostra que apag\u00e3o de dados e falta de pol\u00edticas p\u00fablicas dificultam acessibilidade e inclus\u00e3o desse grupo social<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00f3s somos os invis\u00edveis dos invis\u00edveis\u201d. \u00c9 assim que Siana Guajajara, ind\u00edgena de 29 anos, acredita que a sociedade e o governo consideram pessoas como ela. Siana tem paralisia cerebral e faz parte do universo de ind\u00edgenas com defici\u00eancia que n\u00e3o consta nas estat\u00edsticas oficiais. Embora a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.acnur.org\/fileadmin\/Documentos\/portugues\/BDL\/Declaracao_das_Nacoes_Unidas_sobre_os_Direitos_dos_Povos_Indigenas.pdf\">Declara\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas<\/a>&nbsp;recomende nos artigos 21 e 22 que os estados adotem medidas eficazes e especiais para melhoria da condi\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica dos povos ind\u00edgenas, com especial aten\u00e7\u00e3o aos idosos, mulheres, jovens e pessoas com defici\u00eancia, h\u00e1 um apag\u00e3o global de dados sobre essa \u00faltima categoria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leu essas?&nbsp;<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/especial\/invisiveis-dos-invisiveis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Todas as reportagens da s\u00e9rie especial \u2018Invis\u00edveis dos invis\u00edveis\u2019<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs pessoas acham que n\u00e3o existimos, que nosso povo nos matava. N\u00e3o s\u00f3 existimos, como queremos pol\u00edticas p\u00fablicas que nos atenda\u201d, reivindica Siana, que nasceu de forma prematura, aos sete meses. No hospital, diz ter sido v\u00edtima de erro m\u00e9dico: \u201cDeixaram a incubadora sem oxigena\u00e7\u00e3o\u201d. Os m\u00e9dicos acreditam, comenta, que esse foi o motivo para ela ter adquirido a defici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_91971\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/siana-no-atl-foto-ana-rios.jpg\" alt=\"Siana junto com outros ind\u00edgenas no ATL. (Foto: Ana Rios)\" class=\"wp-image-91971\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Siana Guajajara junto com outros ind\u00edgenas no ATL. (Foto: Ana Rios)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando beb\u00ea, Siana n\u00e3o sentava e demorou a andar, o que chamou aten\u00e7\u00e3o dos pais. O diagn\u00f3stico de paralisia cerebral s\u00f3 veio aos tr\u00eas anos de idade. \u00c0 \u00e9poca, um m\u00e9dico sugeriu que a fam\u00edlia procurasse a Rede Sarah de Hospitais de Reabilita\u00e7\u00e3o, que possu\u00eda uma unidade em S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora morasse na cidade, a fam\u00edlia de Siana fazia parte do Territ\u00f3rio Ind\u00edgena Canabrava, que fica a cerca de 498 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da capital do estado, uma viagem que chega a durar at\u00e9 oito horas. A m\u00e3e de Siana, Marline Le\u00e3o Guajajara levava a filha \u00e0s consultas e repassava as orienta\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas para o restante da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Siana&nbsp;viveu entre a aldeia e a cidade at\u00e9 os 18 anos, tendo,&nbsp;nesse meio tempo, morado nos munic\u00edpios Barra do Corda&nbsp;e Graja\u00fa, que ficam nos arredores da terra ind\u00edgena.&nbsp;Devido a dist\u00e2ncia at\u00e9 o hospital, Siana chegou a perder o&nbsp;hor\u00e1rio algumas vezes. \u201cOs \u00f3rg\u00e3os ind\u00edgenas n\u00e3o davam&nbsp;esse suporte, somente passagem e pod\u00edamos ficar na&nbsp;Casai, mas era o ind\u00edgena que precisava garimpar a&nbsp;informa\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora recebesse olhares de estranhamento de parentes de outras aldeias vizinhas, sendo chamada de apelidos preconceituosos por conta da limita\u00e7\u00e3o f\u00edsica, ela diz que a fam\u00edlia sempre a apoiou. Mesmo superprotegida pelos pais, era estimulada a conquistar independ\u00eancia e chegou a ganhar uma bicicleta de presente. E ri quando lembra que nunca aprendeu a pedalar: \u201cGostava mais do vento no rosto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a morte da m\u00e3e, Siana se distanciou do territ\u00f3rio ind\u00edgena e mudou com a fam\u00edlia para Alto Para\u00edso de Goi\u00e1s, onde reside atualmente. Com a mudan\u00e7a de endere\u00e7o, passou a ser atendida na Rede Sarah de Bras\u00edlia. Usu\u00e1ria de muleta, a paralisia cerebral n\u00e3o afetou sua capacidade cognitiva, somente a motora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisadora de educa\u00e7\u00e3o inclusiva, est\u00e1 cursando Licenciatura em Letras-Portugu\u00eas no Instituto Federal de Bras\u00edlia, no Campus S\u00e3o Sebasti\u00e3o. De casa at\u00e9 a faculdade \u00e9 preciso pegar tr\u00eas condu\u00e7\u00f5es, em um trajeto que dura cerca de duas horas, diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas as dificuldades n\u00e3o a impedem de nada. \u201cEstamos demarcando espa\u00e7o. Estou viva e continuo persistindo\u201d. Militante contra o capacitismo, Siana defende o direito dos ind\u00edgenas com defici\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos mostrar aos parentes do contexto urbano e os que est\u00e3o no territ\u00f3rio nossa exist\u00eancia, que, por muito tempo, foi apagada e demonizada<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Siana Guajajara<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPrecisamos mostrar aos parentes do contexto urbano e os que est\u00e3o no territ\u00f3rio nossa exist\u00eancia, que, por muito tempo, foi apagada e demonizada\u201d, diz Siana, se referindo ao fato de que, em algumas etnias, era tradi\u00e7\u00e3o a pr\u00e1tica do infantic\u00eddio em beb\u00eas nascidos com algum tipo de defici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Apag\u00e3o de dados<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) constatou, no documento \u2018Pessoas Ind\u00edgenas com defici\u00eancia, acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e emprego\u2019, publicado em 2015, que o grupo onde est\u00e3o inclu\u00eddos os ind\u00edgenas com defici\u00eancia \u00e9 considerado o mais vulner\u00e1vel. Essas pessoas, segundo a OIT, enfrentam m\u00faltiplas formas de discrimina\u00e7\u00e3o baseadas \u201cna ra\u00e7a, etnia, g\u00eanero, l\u00edngua e defici\u00eancia\u201d, o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u201cprejudica sua participa\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e no emprego, conduzindo-os \u00e0 grave exclus\u00e3o social e pobreza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Siana conhece bem essa realidade e diz viver m\u00faltiplas lutas. \u201cSou mulher, ind\u00edgena, com defici\u00eancia e n\u00e3o possuo alguns tra\u00e7os estereotipados atribu\u00eddos ao meu povo, n\u00e3o tenho o cabelo liso, por exemplo, o que gera questionamentos quanto \u00e0 minha origem\u201d, diz, ao falar dos cabelos cacheados. \u201cNada disso me faz menos ind\u00edgena\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a OIT, existem no mundo 54 milh\u00f5es de ind\u00edgenas com defici\u00eancia. E o motivo para o apag\u00e3o de dados \u00e9 claro: \u201crelut\u00e2ncia dos estados em reconhecerem seus povos ind\u00edgenas; restri\u00e7\u00f5es de recursos para o desenvolvimento e aplica\u00e7\u00e3o de um conjunto mais abrangente de instrumentos e falta de envolvimento com as perspectivas ind\u00edgenas sobre defici\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a Rede Global de Pessoas Ind\u00edgenas com Defici\u00eancia (em ingl\u00eas,&nbsp;<em>Indigenous Persons with Disabilities Global Network<\/em>, cuja sigla \u00e9 IPWDGN), a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena com defici\u00eancia \u00e9 de 71 milh\u00f5es, um n\u00famero ainda maior do que aquele projetado pela OIT.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, a popula\u00e7\u00e3o total de ind\u00edgenas \u00e9 de 1,7 milh\u00e3o, o que representa 0,83% do quantitativo de brasileiros, segundo o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/secom\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2023\/08\/brasil-tem-1-69-milhao-de-indigenas-aponta-censo-2022\">Censo demogr\u00e1fico de 2022<\/a>. Mas o mesmo Censo ainda n\u00e3o contabilizou o percentual de ind\u00edgenas com defici\u00eancia. De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), esses dados ainda n\u00e3o foram totalizados e a divulga\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es est\u00e1 prevista para 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O recorte tamb\u00e9m n\u00e3o fez parte da \u00faltima Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (PNAD), que concluiu um total de 18,6 milh\u00f5es brasileiros com algum tipo de defici\u00eancia \u2013 esses dados se referem exclusivamente a pessoas que se autodeclararam branco, preto ou pardo, apesar de o IBGE ter inserido a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena como categoria de pesquisa desde 1991.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falta apoio dos \u00f3rg\u00e3os que dizem que nos representam. Sem um quantitativo de quem somos e onde estamos, como v\u00e3o fazer projetos de pol\u00edtica p\u00fablica que nos alcancem?<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Siana Guajajara<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFalta apoio dos \u00f3rg\u00e3os que dizem que nos representam. Sem um quantitativo de quem somos e onde estamos, como v\u00e3o fazer projetos de pol\u00edtica p\u00fablica que nos alcancem?\u201d, questiona Siana, comentando que as poucas informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis est\u00e3o fragmentadas nos minist\u00e9rios da Sa\u00fade e da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Post desabafo<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a morte da m\u00e3e e a mudan\u00e7a de estado, Siana se afastou dos costumes e tradi\u00e7\u00f5es do povo Guajajara.&nbsp;Em&nbsp;2017, quando tinha 22 anos, decidiu acompanhar a irm\u00e3 ao&nbsp;Acampamento Terra Livre (ATL). \u201cFoi quando me senti&nbsp;pertencente novamente, toda a mem\u00f3ria voltou, lembrei da&nbsp;minha m\u00e3e, me senti em casa de novo\u201d. N\u00e3o demorou a&nbsp;perceber a aus\u00eancia de ind\u00edgenas com defici\u00eancia na maior&nbsp;assembleia dos povos e organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas do Brasil:&nbsp;\u201cSentia que s\u00f3 havia eu ali\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 que quatro anos depois, em 2021, avistou dois ind\u00edgenas na mesma condi\u00e7\u00e3o que&nbsp;ela no ATL. Ouviu de um deles um coment\u00e1rio cr\u00edtico ao&nbsp;encontro: \u201cMe falou que debochavam da nossa presen\u00e7a,&nbsp;porque o acampamento n\u00e3o oferecia nenhuma estrutura&nbsp;para pessoas com defici\u00eancia, como n\u00f3s\u201d. A observa\u00e7\u00e3o&nbsp;serviu como motiva\u00e7\u00e3o. Estimulada por uma amiga, Siana&nbsp;participou, no ano seguinte, da Marcha das Mulheres&nbsp;Ind\u00edgenas de 2022 e concluiu todo o percurso. \u201cAs pessoas&nbsp;olhavam com estranhamento, tiravam fotos, se assustavam&nbsp;por eu estar ali\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A necessidade de mostrar que ind\u00edgenas com defici\u00eancia existem e precisam de pol\u00edticas p\u00fablicas que lhes garantam direitos fez com que Siana iniciasse um movimento nas redes sociais. \u201cPrecisava encontrar os parentes e mostrar que existimos\u201d. Ap\u00f3s um post desabafo no Instagram publicado no Dia dos Povos Ind\u00edgenas, em 2022, eles come\u00e7aram a aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das primeiras ind\u00edgenas a entrar em contato com Siana ap\u00f3s ler seu&nbsp;<em>post<\/em>&nbsp;foi a jovem Kanhu Raka, de 26 anos, da etnia Kamayur\u00e1.&nbsp; Por volta dos cinco anos, ela come\u00e7ou a sentir os primeiros sintomas da distrofia muscular progressiva, doen\u00e7a que enfraquece os movimentos at\u00e9 impossibilitar que a pessoa caminhe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nascida no Parque Ind\u00edgena do Xingu, no Mato Grosso (MT), Kanhu defende, assim como Siana, a necessidade urgente de se discutir inclus\u00e3o de pessoas com defici\u00eancia dentro e fora das aldeias. \u201cMesmo na luta somos esquecidos. N\u00f3s precisamos gritar que estamos aqui, n\u00f3s queremos ser ouvidos!\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_91970\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/foto-acessibilingidena-de-costas-com-cartaz.jpg\" alt=\"Ind\u00edgena com defici\u00eancia no ATL. (Foto: Acessibilind\u00edgena)\" class=\"wp-image-91970\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ind\u00edgena com defici\u00eancia no ATL. (Foto: Acessibilind\u00edgena)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Garantia de direitos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao perceber que n\u00e3o estava sozinha, Siana se juntou a&nbsp;Kanhu, e elas se aproximaram de outras pessoas com&nbsp;defici\u00eancia. Nascia assim o Acessibilind\u00edgena, um coletivo voltado \u00e0 tem\u00e1tica de pessoas ind\u00edgenas com defici\u00eancia e&nbsp;neurodivergentes. Inicialmente, eram quatro colaboradores&nbsp;e seis ind\u00edgenas cofundadores. Hoje, o coletivo \u00e9 formado&nbsp;por Siana, Kanhu, Ynathari Patax\u00f3, Renata Tupinamb\u00e1, Levi Tapuia, Carla Potiguara e tem como colaboradora&nbsp;Milene Correia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em dois anos de coletivo, foram v\u00e1rias as reuni\u00f5es, confer\u00eancias, palestras,&nbsp;<em>lives<\/em>&nbsp;e debates que o grupo j\u00e1 participou. O Acessibilind\u00edgena j\u00e1 esteve com a ministra dos Povos Ind\u00edgenas, S\u00f4nia Guajajara, e com o secret\u00e1rio de Sa\u00fade Ind\u00edgena, Weibe Tapeba. Os encontros ocorreram em 2023, e, desde ent\u00e3o, o grupo espera que as promessas feitas pelas autoridades, especialmente o mapeamento dos ind\u00edgenas com defici\u00eancia no Brasil, sejam cumpridas. O #Colabora solicitou ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e \u00e0 Secretaria de Sa\u00fade Ind\u00edgena (Sesai) informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre o andamento das a\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o obteve respostas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maior adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o. O que falta para os profissionais de sa\u00fade \u00e9 ir at\u00e9 as aldeias, identificar esses ind\u00edgenas e encaminhar para atendimento especializado<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Siana Guajajara<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das pol\u00edticas p\u00fablicas, Siana defende que \u00e9 preciso investir em conhecimento:&nbsp;<strong>\u201c<\/strong>A maior adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o. O que falta para os profissionais de sa\u00fade \u00e9 ir at\u00e9 as aldeias, identificar esses ind\u00edgenas e encaminhar para atendimento especializado\u201d. Outra reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9 a capacita\u00e7\u00e3o de profissionais ind\u00edgenas que atuem dentro dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u201cParente escuta parente. Como v\u00e3o cuidar ou entender as pessoas com defici\u00eancia, se n\u00e3o tem acesso a essa informa\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em fevereiro \u00faltimo, o Acessibilind\u00edgena participou da elabora\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio conjunto, produzido em parceria com outras 14 organiza\u00e7\u00f5es do Brasil e de pa\u00edses como Bangladesh, Quenia, Nepal e Ruanda. Entre as organiza\u00e7\u00f5es que assinam o documento est\u00e3o a IPWDGN, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/minorityrights.org\/app\/uploads\/2024\/02\/indigenous-pwds-joint-submission-mrg-pt.pdf\">Minority Rights Group International<\/a>&nbsp;(MRGI, na sigla em ingl\u00eas) e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Pessoa Ind\u00edgena com Defici\u00eancia (CRDIPD), do Nepal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No documento, as organiza\u00e7\u00f5es detalham dificuldades comuns aos ind\u00edgenas com defici\u00eancia nesses pa\u00edses. A lista \u00e9 grande, mas as principais lacunas s\u00e3o a falta de dados globais sobre essa popula\u00e7\u00e3o; viola\u00e7\u00e3o de direitos fundi\u00e1rios e inseguran\u00e7a alimentar; maior incid\u00eancia de viol\u00eancia sexual contra mulheres ind\u00edgenas com defici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo elencou cinco \u00e1reas tem\u00e1ticas principais que precisam ser consideradas no enfrentamento ao estigma que vivem as pessoas ind\u00edgenas com defici\u00eancia: \u201cdesvantagem econ\u00f4mica e pobreza; viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o; participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e tomada de decis\u00f5es; acesso a cuidados de sa\u00fade e assist\u00eancia social; altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.&nbsp;Ao final do encontro, as entidades listaram recomenda\u00e7\u00f5es, que foram encaminhadas ao relator especial do&nbsp;<a href=\"https:\/\/minorityrights.org\/app\/uploads\/2024\/02\/indigenous-pwds-joint-submission-mrg-pt.pdf\">Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre os Direitos dos Povos Ind\u00edgenas<\/a>, Francisco Cali Tzay.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_90803\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/indigena-muleta-foto-de-levi-tapuia.jpg\" alt=\"Siana Guajajara. Foto: Arquivo Acessibilind\u00edgena\" class=\"wp-image-90803\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Siana Guajajara. Foto: Arquivo Acessibilind\u00edgena<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Exclus\u00e3o social<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente de Siana, que sempre contou com o apoio dos parentes, Kanhu n\u00e3o teve a mesma sorte. \u201cQuando eu tinha por volta dos seis anos, meus pais perceberam que eu era diferente. Eu vivia doente\u201d, lembra. Neta do cacique Kotok Kamayur\u00e1, ela rapidamente recebeu um diagn\u00f3stico dos anci\u00e3os da aldeia: estava amaldi\u00e7oada. \u201cEnt\u00e3o eu deveria ficar isolada dos demais, porque o que eu tinha poderia ser contagioso\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kanhu passou anos isolada em uma maloca, sem conviver com os demais membros da aldeia. \u201cAt\u00e9 que um dia, apareceu uma turista na terra ind\u00edgena e meus pais pediram ajuda. Eles queriam entender o que acontecia comigo e essa mo\u00e7a indicou que f\u00f4ssemos para Bras\u00edlia\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meus pais n\u00e3o falavam portugu\u00eas e fic\u00e1vamos para l\u00e1 e para c\u00e1, e os m\u00e9dicos n\u00e3o tinham paci\u00eancia para entender o que meus pais tentavam explicar<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kanhu Raka<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2006, Kanhu e a fam\u00edlia sa\u00edram do Parque Nacional do Xingu e se mudaram para a capital federal. \u201cMeus pais n\u00e3o falavam portugu\u00eas e fic\u00e1vamos para l\u00e1 e para c\u00e1, e os m\u00e9dicos n\u00e3o tinham paci\u00eancia para entender o que meus pais tentavam explicar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kanhu conseguiu atendimento e, assim como Siana, recebe assist\u00eancia na Rede Sarah de Bras\u00edlia. Ao ser diagnosticada com distrofia muscular de cintura, passou a receber o tratamento m\u00e9dico adequado e sua vida mudou: \u201cA cadeira de rodas me deu oportunidades novas, pude ter uma vida melhor, fui pra escola, consegui ver um futuro pra mim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o tratamento na cidade, Kanhu se distanciou do territ\u00f3rio. Os pais e os quatro irm\u00e3os sempre v\u00e3o \u00e0 aldeia, mas ela n\u00e3o. \u201cEu s\u00f3 posso me deslocar para l\u00e1 de avi\u00e3o, o que fica muito caro. Como sou cadeirante, \u00e9 dif\u00edcil porque na aldeia n\u00e3o tem acessibilidade. Se na \u00e1rea urbana n\u00e3o tem, imagine em uma aldeia?\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem muito buraco na aldeia e eu n\u00e3o tenho como passar. Se fizessem uma cal\u00e7ada, s\u00f3 em uma parte e n\u00e3o na aldeia toda, j\u00e1 ajudaria. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem banheiro para mim<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kanhu Raka<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar das dificuldades, Kanhu acredita que algumas mudan\u00e7as j\u00e1 fariam a diferen\u00e7a \u2014 adapta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o mudariam o dia a dia da aldeia, mas que permitiriam que ela, por exemplo, conseguisse visitar o local com mais frequ\u00eancia. \u201cTem muito buraco na aldeia e eu n\u00e3o tenho como passar. Se fizessem uma cal\u00e7ada, s\u00f3 em uma parte e n\u00e3o na aldeia toda, j\u00e1 ajudaria. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem banheiro para mim\u201d, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde que saiu do Xingu, s\u00f3 voltou para l\u00e1 uma \u00fanica vez, em dezembro de 2019. \u201cFiquei muito nervosa com esse retorno, porque sempre ouvi que minha defici\u00eancia era contagiosa, que era amaldi\u00e7oada. Tinha receio de ser tratada assim novamente. Mas foi ao contr\u00e1rio. Quando cheguei, fizeram uma festa e eu finalmente me senti aceita. Foi como se dissessem \u2018n\u00f3s erramos com voc\u00ea\u2019\u201d, relembra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, seu irm\u00e3o ca\u00e7ula foi diagnosticado com a mesma doen\u00e7a, mas n\u00e3o enfrenta as mesmas dificuldades que Kanhu. Convidada a voltar \u00e0 aldeia outras vezes, chegou a ouvir uma promessa do av\u00f4, de que construiriam uma estrutura m\u00ednima para receb\u00ea-la. \u201cAt\u00e9 cogitei voltar mais vezes, mas, al\u00e9m de precisar estar em Bras\u00edlia por conta do tratamento, a viagem at\u00e9 a aldeia leva o dia inteiro e \u00e9 muito cansativa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s concluir o Ensino M\u00e9dio em Bras\u00edlia, Kanhu foi aprovada, em 2022, no curso de Ci\u00eancia Pol\u00edtica no vestibular ind\u00edgena da Universidade de Bras\u00edlia (UnB). \u201cMeu sonho \u00e9 conseguir me formar e voltar para minha aldeia\u201d. O sonho ainda n\u00e3o vingou, porque a estudante enfrenta dificuldades em permanecer na universidade.&nbsp;Ela chegou a ser desligada em abril deste ano (2024), por n\u00e3o conseguir&nbsp;frequentar as aulas regularmente e pelo fato de a faculdade n\u00e3o ter conseguido disponibilizar um monitor para ela. Mas j\u00e1 conseguiu a reintegra\u00e7\u00e3o e retornou \u00e0s aulas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Usu\u00e1ria de cadeira de rodas, Kanhu necessita de um monitor para ajud\u00e1-la na locomo\u00e7\u00e3o e para adaptar os trabalhos, que, por vezes, requerem muita escrita. Para chegar \u00e0 UnB, Kanhu precisa pegar tr\u00eas \u00f4nibus e depois outras tr\u00eas condu\u00e7\u00f5es para voltar para casa \u2013 um transporte que nem sempre \u00e9 acess\u00edvel para um cadeirante. \u201cA cidade n\u00e3o \u00e9 adaptada para pessoas com defici\u00eancia, ind\u00edgenas ou n\u00e3o\u201d, finaliza.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_93184\"><a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/especial\/invisiveis-dos-invisiveis\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/banner-cta-invisiveis-dos-invisiveis-1500x446.jpg\" alt=\"Especial Invis\u00edveis dos Invis\u00edveis \" class=\"wp-image-93184\"\/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Especial Invis\u00edveis dos Invis\u00edveis (Arte: Pablo Candeia)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em #Colabora Por&nbsp;Vanessa Monteiro&nbsp;ODS 10 S\u00e9rie especial &#8216;Invis\u00edveis dos Invis\u00edveis&#8217; mostra que apag\u00e3o de dados e falta de pol\u00edticas p\u00fablicas dificultam acessibilidade e inclus\u00e3o desse grupo social \u201cN\u00f3s somos os invis\u00edveis dos invis\u00edveis\u201d. \u00c9 assim que Siana Guajajara, ind\u00edgena de 29 anos, acredita que a sociedade e o governo consideram pessoas como ela. 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