{"id":35633,"date":"2026-05-10T23:00:51","date_gmt":"2026-05-10T23:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=35633"},"modified":"2026-05-10T23:00:51","modified_gmt":"2026-05-10T23:00:51","slug":"maternidades-interditadas-o-capacitismo-e-o-direito-de-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=35633","title":{"rendered":"Maternidades interditadas: o capacitismo e o direito de existir"},"content":{"rendered":"\n<p>Ana Prado<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"661\" src=\"https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/duas-maos-dadas--1024x661.png\" alt=\"duas maos dadas, crian\u00e7a e mulher.\" class=\"wp-image-35634\" style=\"aspect-ratio:1.5482444362721743;width:525px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/duas-maos-dadas--1024x661.png 1024w, https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/duas-maos-dadas--300x194.png 300w, https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/duas-maos-dadas--768x496.png 768w, https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/duas-maos-dadas--1536x992.png 1536w, https:\/\/inclusivenews.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/duas-maos-dadas-.png 1604w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cTodo mundo \u00e9 feito de muitas pessoas.\u201d A frase de Clarice Lispector parece tocar um ponto essencial quando pensamos nas maternidades atravessadas pela defici\u00eancia: nenhuma exist\u00eancia humana \u00e9 aut\u00f4noma, completa ou suficiente em si mesma. Ainda assim, mulheres com defici\u00eancia continuam sendo submetidas a exig\u00eancias que sequer s\u00e3o cobradas de corpos cuja humanidade raramente \u00e9 questionada. O problema nunca esteve na defici\u00eancia. O problema sempre esteve em uma organiza\u00e7\u00e3o social fundada na normatividade corporal e na ideia de que apenas determinados corpos merecem reconhecimento pleno.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe algo profundamente cruel no modo como a sociedade olha para uma mulher com defici\u00eancia gr\u00e1vida. O espanto vem antes do afeto. Antes de perguntarem sobre o nome do beb\u00ea, perguntam se ela \u201cvai conseguir\u201d. Antes de celebrarem a maternidade, investigam se ela corresponde ao que entendem como uma m\u00e3e leg\u00edtima. Antes de enxergarem uma mulher, enxergam um corpo historicamente marcado pela suspeita, pela infantiliza\u00e7\u00e3o e pela nega\u00e7\u00e3o da autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 perguntas que parecem simples, mas carregam s\u00e9culos de viol\u00eancia capacitista: \u201cQuem vai cuidar da crian\u00e7a?\u201d, \u201cMas voc\u00ea consegue?\u201d, \u201cSeu filho vai precisar cuidar de voc\u00ea?\u201d. Nenhuma dessas perguntas nasce de cuidado genu\u00edno. Elas nascem de uma estrutura social atravessada pela necessidade de hierarquizar vidas e decidir quais exist\u00eancias merecem reconhecimento, desejo e autoridade. O capacitismo se sustenta justamente nessa viol\u00eancia: transformar determinados corpos em corpos permanentemente colocados sob suspeita.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais perverso \u00e9 que essas viol\u00eancias costumam surgir revestidas de delicadeza social. O preconceito raramente anuncia o pr\u00f3prio nome. Ele aparece como conselho, como d\u00favida \u201cbem-intencionada\u201d, como excesso de prote\u00e7\u00e3o, como pena. A mulher com defici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 proibida explicitamente de maternar; ela \u00e9 lentamente levada a sentir que talvez n\u00e3o devesse. E essa \u00e9 uma das formas mais sofisticadas de exclus\u00e3o: transformar a exist\u00eancia de determinados corpos em algo permanentemente submetido \u00e0 valida\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo Michel Foucault demonstrava como as sociedades disciplinam corpos atrav\u00e9s de normas, vigil\u00e2ncias e classifica\u00e7\u00f5es. O corpo com defici\u00eancia historicamente ocupou o lugar da tutela, da incapacidade presumida e da nega\u00e7\u00e3o social de autoridade. Quando uma mulher com defici\u00eancia decide maternar, rompe o lugar de passividade que lhe foi imposto. Seu corpo deixa de existir apenas como objeto de observa\u00e7\u00e3o e passa a afirmar desejo, v\u00ednculo, autonomia e pertencimento. E isso amea\u00e7a estruturas que aprenderam a reconhecer apenas alguns corpos como dignos de autoridade e humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A te\u00f3rica Rosemarie Garland-Thomson mostra que a defici\u00eancia n\u00e3o pode ser compreendida apenas como condi\u00e7\u00e3o individual, mas como resultado das rela\u00e7\u00f5es sociais que produzem exclus\u00e3o, acessibilidade ou marginaliza\u00e7\u00e3o. O olhar capacitista n\u00e3o produz apenas barreiras arquitet\u00f4nicas ou institucionais; produz imagin\u00e1rios de inferioridade. Produz estranhamento sempre que mulheres com defici\u00eancia ocupam espa\u00e7os historicamente negados a elas. Produz desconforto diante de corpos que amam, desejam, criam filhos e existem publicamente sem pedir desculpas pela pr\u00f3pria presen\u00e7a, porque a simples exist\u00eancia de certos corpos j\u00e1 \u00e9 lida socialmente como excesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe tamb\u00e9m viol\u00eancia na imagem da \u201cm\u00e3e ideal\u201d. Essa figura foi constru\u00edda sobre uma fic\u00e7\u00e3o de autossufici\u00eancia que nunca existiu. Espera-se da m\u00e3e disponibilidade infinita, resist\u00eancia constante e perfei\u00e7\u00e3o emocional ininterrupta. As m\u00e3es com defici\u00eancia exp\u00f5em a fragilidade desse modelo normativo. Revelam que toda maternidade \u00e9 feita de adapta\u00e7\u00f5es, vulnerabilidades, cansa\u00e7os, improvisos e redes de apoio. Revelam que afeto n\u00e3o cabe nas m\u00e9tricas da funcionalidade. Revelam, sobretudo, que nenhuma maternidade nasce pronta; toda maternidade \u00e9 inven\u00e7\u00e3o cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso tantas m\u00e3es com defici\u00eancia sejam transformadas em espet\u00e1culo. Ou s\u00e3o vistas com pena, ou convertidas em exemplos de \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d. Quase nunca lhes \u00e9 permitido existir simplesmente como m\u00e3es. Como mulheres inteiras, contradit\u00f3rias, cansadas, amorosas e complexas. Como pessoas que n\u00e3o precisam transformar a pr\u00f3pria exist\u00eancia em prova permanente de valor para merecer dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando perguntam a uma m\u00e3e com defici\u00eancia \u201cquem cuida de quem\u201d, a pergunta carrega uma tentativa de rebaixamento simb\u00f3lico. Porque o cuidado, em uma sociedade profundamente capacitista, ainda \u00e9 tratado como privil\u00e9gio de determinados corpos. O que incomoda n\u00e3o \u00e9 a defici\u00eancia. O que incomoda \u00e9 perceber que corpos historicamente marginalizados continuam produzindo afeto, sustentando v\u00ednculos, educando, criando futuros e reivindicando exist\u00eancia plena.<\/p>\n\n\n\n<p>As m\u00e3es com defici\u00eancia n\u00e3o precisam provar humanidade. N\u00e3o precisam transformar dor em inspira\u00e7\u00e3o p\u00fablica. N\u00e3o precisam justificar o pr\u00f3prio direito de amar, cuidar e existir. Precisam apenas viver sem serem tratadas como corpos sob suspeita.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o maior desconforto social esteja justamente a\u00ed: toda vez que uma m\u00e3e com defici\u00eancia existe publicamente, o mundo capacitista \u00e9 obrigado a encarar a viol\u00eancia das normas que tentam decidir quem pode amar, cuidar e existir plenamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Prado \u201cTodo mundo \u00e9 feito de muitas pessoas.\u201d A frase de Clarice Lispector parece tocar um ponto essencial quando pensamos nas maternidades atravessadas pela defici\u00eancia: nenhuma exist\u00eancia humana \u00e9 aut\u00f4noma, completa ou suficiente em si mesma. 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