{"id":35925,"date":"2026-08-13T08:18:00","date_gmt":"2026-08-13T08:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=35925"},"modified":"2026-08-19T13:44:58","modified_gmt":"2026-08-19T13:44:58","slug":"quando-as-palavras-ensinam-a-excluir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=35925","title":{"rendered":"Quando as palavras ensinam a excluir"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Texto de Ana Prado<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00e3o tenho pernas para isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase surge numa reuni\u00e3o de trabalho, numa conversa entre amigos ou nos corredores da escola. Quase ningu\u00e9m estranha. O mesmo acontece quando algu\u00e9m diz que n\u00e3o tem bra\u00e7os para assumir mais uma tarefa, que determinada pessoa est\u00e1 cega para o problema, que algu\u00e9m \u00e9 surdo aos argumentos ou que certa ideia \u00e9 retardada. S\u00e3o express\u00f5es t\u00e3o comuns que passam despercebidas \u2014 e \u00e9 justamente a\u00ed que reside sua for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Costumamos pensar que as palavras apenas descrevem a realidade. No entanto, elas tamb\u00e9m revelam modos de perceb\u00ea-la. Quando observamos com aten\u00e7\u00e3o essas express\u00f5es, uma pergunta se imp\u00f5e: por que recorremos justamente a refer\u00eancias \u00e0 defici\u00eancia quando queremos falar de fracasso, desaten\u00e7\u00e3o, ignor\u00e2ncia ou incapacidade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dizemos que algu\u00e9m est\u00e1 cego para uma situa\u00e7\u00e3o. Dizemos que \u00e9 surdo aos argumentos. Dizemos que n\u00e3o tem pernas para enfrentar determinado desafio ou que n\u00e3o tem bra\u00e7os para dar conta de uma tarefa. Em outros casos, a associa\u00e7\u00e3o assume contornos diferentes. Quando algu\u00e9m \u00e9 acusado de \u201cdar uma de Jo\u00e3o sem bra\u00e7o\u201d, a defici\u00eancia deixa de representar apenas incapacidade e passa a ser associada \u00e0 simula\u00e7\u00e3o, \u00e0 esperteza ou \u00e0 tentativa de escapar de responsabilidades. Embora descrevam situa\u00e7\u00f5es concretas, essas express\u00f5es compartilham algo em comum: recorrem \u00e0 defici\u00eancia para representar aquilo que \u00e9 percebido como negativo, inadequado ou indesej\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, quando queremos falar de intelig\u00eancia, criatividade, sensibilidade ou compet\u00eancia, raramente recorremos \u00e0 defici\u00eancia. A met\u00e1fora quase sempre aponta na mesma dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a defici\u00eancia que explica essa escolha. \u00c9 o conjunto de valores que aprendemos a associar a ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As palavras carregam hist\u00f3rias. Na perspectiva de Mikhail Bakhtin, nenhum enunciado nasce vazio. Cada palavra traz consigo marcas das rela\u00e7\u00f5es sociais que a produziram. Quando determinadas express\u00f5es atravessam gera\u00e7\u00f5es sem serem questionadas, acabam adquirindo a apar\u00eancia de algo natural. Mas a naturalidade, muitas vezes, \u00e9 apenas o nome que damos aos preconceitos quando nos acostumamos com eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se as palavras carregam hist\u00f3rias, carregam tamb\u00e9m valores. \u00c9 justamente por isso que seus efeitos n\u00e3o dependem apenas da inten\u00e7\u00e3o de quem as utiliza. N\u00e3o se trata de afirmar que cada pessoa que recorre a essas express\u00f5es esteja conscientemente discriminando algu\u00e9m. A quest\u00e3o \u00e9 mais profunda. A linguagem participa da produ\u00e7\u00e3o dos sentidos que organizam nossas formas de conviv\u00eancia. Ela nos ensina, muitas vezes sem que percebamos, quais caracter\u00edsticas tendem a ser valorizadas, quais s\u00e3o vistas como problemas e quais podem ser transformadas em motivo de desqualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As met\u00e1foras que utilizamos n\u00e3o surgem no vazio. Elas s\u00e3o produzidas em sociedades que definem continuamente o que consideram desej\u00e1vel, aceit\u00e1vel ou normal. Os estudos da defici\u00eancia oferecem uma chave importante para compreender esse processo. Ao analisar a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da normalidade, Lennard J. Davis demonstra que aquilo que costumamos chamar de normal n\u00e3o corresponde a uma medida natural da condi\u00e7\u00e3o humana. Trata-se de uma refer\u00eancia historicamente produzida que passou a funcionar como par\u00e2metro para avaliar corpos, comportamentos, ritmos de aprendizagem e formas de participa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando essa refer\u00eancia se torna invis\u00edvel, seus efeitos tamb\u00e9m tendem a passar despercebidos. A normalidade deixa de parecer uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e passa a ser percebida como evid\u00eancia. Nesse contexto, tudo aquilo que n\u00e3o corresponde \u00e0s expectativas dominantes corre o risco de ser interpretado como insufici\u00eancia, inadequa\u00e7\u00e3o ou problema. A linguagem participa desse movimento ao transformar determinadas experi\u00eancias humanas em met\u00e1foras recorrentes para falar daquilo que a sociedade considera indesej\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente a\u00ed que essas express\u00f5es encontrem sua perman\u00eancia. Elas parecem falar sobre pessoas com defici\u00eancia, mas revelam muito sobre os valores de uma sociedade que continua organizando grande parte de suas expectativas em torno de determinados ideais de capacidade. N\u00e3o por acaso, o desempenho costuma ser tomado como medida de valor, enquanto a necessidade de apoio \u00e9 frequentemente percebida como sinal de insufici\u00eancia. A independ\u00eancia \u00e9 muitas vezes apresentada como objetivo universal, mesmo que a experi\u00eancia humana seja marcada por rela\u00e7\u00f5es constantes de apoio, cuidado e coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ironia \u00e9 que ningu\u00e9m constr\u00f3i sua vida sozinho. Dependemos diariamente de uma complexa rede de rela\u00e7\u00f5es que envolve familiares, amigos, professores, profissionais da sa\u00fade, trabalhadores dos transportes, agricultores e tantas outras pessoas que sustentam, direta ou indiretamente, nossa exist\u00eancia. Dependemos tamb\u00e9m de objetos, tecnologias e infraestruturas t\u00e3o incorporados ao cotidiano que quase deixam de ser percebidos: \u00f3culos, celulares, computadores, medicamentos, elevadores, sistemas de transporte, aplicativos de navega\u00e7\u00e3o, livros, mesas, cadeiras e in\u00fameros recursos que ampliam nossas possibilidades de agir no mundo. A independ\u00eancia que tantas vezes idealizamos s\u00f3 se torna poss\u00edvel porque est\u00e1 apoiada em m\u00faltiplas formas de depend\u00eancia que costumam permanecer invis\u00edveis. A interdepend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Ela \u00e9 uma de suas caracter\u00edsticas mais fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na escola, essa reflex\u00e3o ganha especial relev\u00e2ncia. Professores n\u00e3o trabalham apenas com conte\u00fados e avalia\u00e7\u00f5es. Trabalham tamb\u00e9m com narrativas, expectativas e classifica\u00e7\u00f5es. Express\u00f5es como \u201cn\u00e3o acompanha a turma\u201d, \u201cn\u00e3o d\u00e1 conta sozinho\u201d, \u201cn\u00e3o consegue atingir o esperado\u201d ou \u201cprecisa de muito apoio\u201d aparecem com frequ\u00eancia em reuni\u00f5es pedag\u00f3gicas, relat\u00f3rios e conversas cotidianas. Embora descrevam situa\u00e7\u00f5es concretas, elas nunca s\u00e3o inteiramente neutras. Afinal, acompanhar qual turma? Atingir qual esperado? Dar conta segundo quais crit\u00e9rios?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desafio n\u00e3o est\u00e1 em ignorar dificuldades, necessidades de apoio ou barreiras que afetam os processos de escolariza\u00e7\u00e3o. O desafio est\u00e1 em evitar que essas dimens\u00f5es se transformem na principal lente por meio da qual determinados estudantes passam a ser compreendidos. Quando isso acontece, corre-se o risco de reduzir sujeitos complexos a um conjunto de aus\u00eancias, dificuldades ou expectativas n\u00e3o alcan\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o aspecto mais inquietante dessas express\u00f5es seja que elas nos obrigam a olhar para al\u00e9m da pr\u00f3pria linguagem. Afinal, por que continuamos recorrendo \u00e0 defici\u00eancia quando queremos falar de erro, fracasso ou incapacidade? O que essa escolha revela sobre os modos como aprendemos a atribuir valor \u00e0s pessoas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta talvez seja desconfort\u00e1vel. As express\u00f5es capacitistas persistem porque encontram terreno f\u00e9rtil em uma sociedade que ainda opera a partir de concep\u00e7\u00f5es estreitas de capacidade humana. Uma sociedade que frequentemente confunde valor com desempenho, reconhecimento com adequa\u00e7\u00e3o a determinados padr\u00f5es e participa\u00e7\u00e3o com a capacidade de corresponder \u00e0s expectativas dominantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o problema nunca tenha estado nas pessoas que foram historicamente definidas a partir da falta. Talvez esteja no olhar que insiste em transformar diferen\u00e7as em hierarquias. As express\u00f5es que utilizamos cotidianamente n\u00e3o s\u00e3o apenas maneiras de falar. Elas funcionam como pequenas pistas dos valores que sustentam nossas formas de conviv\u00eancia. Talvez seja por isso que as palavras mere\u00e7am tanta aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o porque sejam capazes de produzir, sozinhas, a exclus\u00e3o, mas porque frequentemente revelam aquilo que a sociedade aprendeu a considerar natural. E aquilo que parece natural costuma organizar silenciosamente aquilo que tomamos como verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Ana Prado \u201cN\u00e3o tenho pernas para isso.\u201d A frase surge numa reuni\u00e3o de trabalho, numa conversa entre amigos ou nos corredores da escola. Quase ningu\u00e9m estranha. 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