{"id":6618,"date":"2009-03-31T23:52:52","date_gmt":"2009-03-31T23:52:52","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciainclusive.wordpress.com\/?p=6618"},"modified":"2009-03-31T23:52:52","modified_gmt":"2009-03-31T23:52:52","slug":"inclusao-para-a-autonomia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=6618","title":{"rendered":"Inclus\u00e3o para a autonomia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5468 alignleft\" title=\"blogosfera\" src=\"http:\/\/agenciainclusive.files.wordpress.com\/2009\/02\/blogosfera.jpg\" alt=\"Descri\u00e7\u00e3o da imagem: globo formado por teclado de computador.\" width=\"90\" height=\"86\" \/><strong>Gil Pena<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.disdeficiencia.net\/2009\/03\/30\/inclusao-para-a-autonomia\/\">http:\/\/blog.disdeficiencia.net\/2009\/03\/30\/inclusao-para-a-autonomia\/<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size:medium;font-family:Times New Roman;\">O tema proposto para essa palestra \u00e9 Inclus\u00e3o para a Autonomia. \u00c9 um tema bonito, que vem sendo discutido nacionalmente, em raz\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o do Dia Internacional da S\u00edndrome de Down, dia 21 de mar\u00e7o, neste ano, marcando os 50 anos da descoberta da trissomia 21, altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica presente nos portadores da S\u00edndrome de Down.<\/span><\/p>\n<div><span style=\"font-size:large;font-family:Times New Roman;\"><span style=\"font-size:medium;\">A pergunta que eu fa\u00e7o \u00e9: por que \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d?<\/span><\/span><\/div>\n<p><span style=\"font-size:large;font-family:Times New Roman;\"><span style=\"font-size:medium;\">Come\u00e7ando pela autonomia: <strong>autonomia<\/strong>\u00a0significa a liberdade ou independ\u00eancia moral ou individual, ou a capacidade de governar-se por si pr\u00f3prio.<\/span><\/span><\/p>\n<p><strong>Inclus\u00e3o<\/strong> quer dizer fazer parte de um conjunto ou um grupo, estar inserido em um meio.<\/p>\n<p>Se fizermos uma an\u00e1lise do dia de hoje, do momento que vivemos, podemos dizer que as pessoas com s\u00edndrome de Down conquistaram ou constru\u00edram sua autonomia?<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o, \u00e9 que caminhamos muito, mas ainda temos muito a conquistar.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, sobre a inclus\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel dizer que vivemos em uma sociedade inclusiva?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui, penso que apesar de muitos avan\u00e7os, a nossa sociedade \u00e9 ainda cheia de exclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Numa sociedade n\u00e3o t\u00e3o inclusiva, num contexto que n\u00e3o favorece a constru\u00e7\u00e3o da autonomia, o tema \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d surge como uma proposi\u00e7\u00e3o para a sociedade, um modelo que buscamos, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade que vivemos. Se nos colocamos em uma linha do tempo, nos situamos em um momento presente, o aqui e o agora, podemos nos virar para o passado e ver quanta exclus\u00e3o e preconceito j\u00e1 conseguimos vencer e avaliamos que toda a inclus\u00e3o que conquistamos foi importante no processo de constru\u00e7\u00e3o da autonomia. Daqui desse mesmo ponto, aqui e agora, podemos olhar para o futuro, e imaginar que essa rota da inclus\u00e3o nos conduz para a autonomia.<\/p>\n<p>O hoje, o aqui, o agora, \u00e9 onde e quando podemos fazer alguma coisa para transformar a realidade e dar mais um passo. N\u00f3s n\u00e3o habitamos o passado ou o futuro. \u00c9 hoje que damos o passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d, deixando definitivamente para tr\u00e1s a exclus\u00e3o e a heteronomia. J\u00e1 trilhamos um longo caminho mas ainda h\u00e1 muito a caminhar. Hoje se d\u00e1 um passo a mais. Antes de dar esse passo, gostaria de usar esse momento como uma reflex\u00e3o dessa nossa caminhada e planejar que passo devemos dar. Planejar esse pr\u00f3ximo passo depende de saber onde estamos, como chegamos aqui e aonde queremos ir.<\/p>\n<p>Partir de um mundo exclusivo, da heteronomia, para um mundo inclusivo, da autonomia, nos exige alguma mudan\u00e7a: avaliar a possibilidade de dar um passo diferente, inventar um novo caminho, aprender novas coisas.<\/p>\n<p>Falou em mudan\u00e7a, ficou dif\u00edcil. Ser\u00e1 que tenho mesmo que ser diferente do que sou, aprender mais, mudar meu jeito de pensar? Mudar n\u00e3o \u00e9 mesmo f\u00e1cil. N\u00f3s somos muito conservadores, pois a experi\u00eancia nos tem demonstrado que se as coisas continuam como est\u00e3o, podemos supor que continuaremos a viver como vivemos. \u00c9 preciso garantir o que conquistamos. Mudar \u00e9 sempre um risco. Podemos perder aquilo que nos custou tanto a conseguir.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos, de natureza, conservadores. Porque habitamos um mundo de rela\u00e7\u00f5es relativamente est\u00e1vel, e relutamos em mudar, com receio de perder o nosso lugar nesse mundo de rela\u00e7\u00f5es. Apesar das grandes transforma\u00e7\u00f5es vividas pela sociedade nos \u00faltimos tempos, nossa tend\u00eancia, em geral, \u00e9 reproduzir com nova roupagem, velhos comportamentos. De algum modo, estamos sempre mudando; num mundo em transforma\u00e7\u00e3o, precisamos estar sempre mudando. A\u00ed est\u00e1 a quest\u00e3o: mudamos para conservar. Quando mudamos, nossa mudan\u00e7a sempre est\u00e1 direcionada para aquilo que desejamos conservar. Mais facilmente mudamos, se sabemos que essa mudan\u00e7a n\u00e3o vai mudar o que queremos conservar. Para mudar, antes de decidir mudar, preciso definir: o que eu quero conservar? Mudar, aprender coisas novas, pensar diferente, tudo isso nos traz uma ansiedade. Dar um passo em uma nova dire\u00e7\u00e3o. Esse passo que s\u00f3 nos \u00e9 poss\u00edvel dar agora. Queremos nos manter na rota da mudan\u00e7a? Ou relutamos em dar um passo a mais? Nos confortamos em estar vivendo nessa realidade. Podemos dizer: \u201c\u00e9 a vida\u201d. \u201cDeus d\u00e1 o frio, conforme o cobertor\u201d. A realidade, essa vida que nos leva, nos domina, essa \u00e9 a heteronomia, n\u00e3o mais nos governamos, vivemos a reboque do mundo, nosso futuro j\u00e1 se estabeleceu naquele passado distante. A realidade agora \u00e9 essa. Mudar j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Como ajudar as pessoas com s\u00edndrome de Down constru\u00edrem-se como adultos aut\u00f4nomos, se nos falta a n\u00f3s pr\u00f3prios, pais, professores e terapeutas, a nossa pr\u00f3pria autonomia, de escolher o passo que damos, no caminho da \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d?<\/p>\n<p>Dar esse passo, mais um nessa caminhada, implica em saber onde estamos e para onde quero ir.<\/p>\n<p>Aprender alguma coisa nova, diferente, implica em saber o que j\u00e1 sei, e o que quero saber.<\/p>\n<p>Para ir a algum lugar novo, preciso saber onde estou: que lugar \u00e9 esse onde estamos? O que vem a ser essa exclus\u00e3o, a que se vive hoje? Como essa exclus\u00e3o bloqueia a possibilidade da constru\u00e7\u00e3o da autonomia?<\/p>\n<p>Em geral, somos muito treinados em perceber situa\u00e7\u00f5es claramente excludentes, como a recusa de uma escola em receber uma matr\u00edcula, mas n\u00e3o conseguimos compreender muito bem como a inclus\u00e3o tem de ser feita, de modo que se caminhe na constru\u00e7\u00e3o da autonomia.<\/p>\n<p>J\u00e1 algumas vezes debateu-se o que significa inclus\u00e3o, e o reverso dessa moeda que \u00e9 a exclus\u00e3o. O termo inclus\u00e3o \u00e9 amplamente disseminado, at\u00e9 mesmo um pouco desgastado pelo uso, na medida em que in\u00fameras iniciativas de inclus\u00e3o v\u00eam sendo propostas, com os mais variados fins. Hoje, fala-se em inclus\u00e3o escolar, inclus\u00e3o educacional, inclus\u00e3o social, inclus\u00e3o digital. Se olharmos no dicion\u00e1rio o significado de inclus\u00e3o, vemos que um elemento ou material pode estar inclu\u00eddo em um conjunto ou em um meio. Nesse significado, n\u00e3o est\u00e1 subentendido que o elemento inclu\u00eddo interaja com os outros elementos ou com o meio. A simples presen\u00e7a do elemento, significa que ele pertence ao \u201cconjunto\u201d ou esteja inclu\u00eddo no \u201cmeio\u201d. O ser humano, contudo, \u00e9 um elemento com certas peculiaridades, e no conjunto ou no meio das rela\u00e7\u00f5es humanas, h\u00e1 intera\u00e7\u00f5es entre esses elementos e tamb\u00e9m entre os elementos e o meio. Intera\u00e7\u00f5es entre humanos t\u00eam uma tend\u00eancia a se tornarem recorrentes. A hist\u00f3ria de nossas intera\u00e7\u00f5es com o meio e com os outros elementos responde por muitas de nossas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>Uma sala de aula pode ser um meio e os alunos e professor um conjunto de pessoas. Apenas a presen\u00e7a de um aluno \u201cdiferente\u201d neste meio e neste conjunto, n\u00e3o significa inclus\u00e3o, na acep\u00e7\u00e3o humana. Apenas o r\u00f3tulo diferente j\u00e1 o destaca do conjunto e o coloca para fora, pois as intera\u00e7\u00f5es que se fazem, se produzem levando em conta a \u201cdiferen\u00e7a\u201d. As intera\u00e7\u00f5es assim produzidas, n\u00e3o possibilitam a supera\u00e7\u00e3o da defici\u00eancia e a constru\u00e7\u00e3o da autonomia. Ao contr\u00e1rio, refor\u00e7am a diferen\u00e7a. Embora, avaliando-se o conjunto, a situa\u00e7\u00e3o seja de inclus\u00e3o, na realidade operam-se subconjuntos, mantendo a mesma realidade anterior, excludente. Houve uma mudan\u00e7a, mas conservou-se o fundamento da diferen\u00e7a para os elementos inclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Na sala de aula, o professor ensina, o aluno aprende. O professor explica, o aluno compreende. Ensinar e aprender, explicar e compreender s\u00e3o faces de uma mesma moeda. Apenas compreendendo como o aluno explica sua compreens\u00e3o, pode o professor explicar de modo que o aluno compreenda. Somente nessa intera\u00e7\u00e3o, o ir e vir, o escutar e o falar, de um e de outro, professor e aluno conseguem avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o da autonomia. Cada aluno tem um processo de compreens\u00e3o diferente, e pode exigir uma explica\u00e7\u00e3o diferente. E tem um tempo de compreens\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>Por mais paradoxal que seja, uma escola \u201cinclusiva\u201d, n\u00e3o pode ter \u201calunos de inclus\u00e3o\u201d. Uma escola \u201cinclusiva\u201d tem de reconhecer o \u00fanico que h\u00e1 em cada um de seus alunos. Uma escola \u201cinclusiva\u201d tem de estar comprometida com o processo de aprendizado e de compreens\u00e3o de cada um dos seus alunos, e reformular e reinventar o ensino e as explica\u00e7\u00f5es, para que todos aprendam e compreendam.<\/p>\n<p>\u00c9 estranho que se fale em educa\u00e7\u00e3o \u201cinclusiva\u201d, como aquela que possibilita ao \u201cdiferente\u201d aprender. N\u00e3o h\u00e1 um aprendizado para a pessoa normal, outro para a pessoa com alguma defici\u00eancia: o aprendizado em cada caso, se d\u00e1 pela supera\u00e7\u00e3o das dificuldades ou obst\u00e1culos. O aprendizado, em cada caso, pressup\u00f5e a aquisi\u00e7\u00e3o de ferramentas da cultura, que nos possibilitem transpor ou contornar uma dificuldade ou obst\u00e1culo. O aprendizado n\u00e3o \u00e9 diferente para um ou outro caso. Em qualquer situa\u00e7\u00e3o, as ferramentas da cultura t\u00eam de ser oferecidas, de modo que possam ser assimiladas pelos alunos, nas suas peculiaridades. N\u00e3o se pode simplificar o ensino, deixando de oferecer a riqueza cultural que nos possibilita resolver os problemas.<\/p>\n<p>A supera\u00e7\u00e3o das dificuldades se faz com instrumentos da cultura, que podem compensar os efeitos da defici\u00eancia. A defici\u00eancia sempre vai produzir a compensa\u00e7\u00e3o, mas a compensa\u00e7\u00e3o pode estar direcionada, por um lado, \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da defici\u00eancia ou, por outro, \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da defici\u00eancia, na medida em que se quer garantir o ganho secund\u00e1rio que a pr\u00f3pria defici\u00eancia proporciona.<\/p>\n<p>H\u00e1 apenas uma Educa\u00e7\u00e3o. A que educa na diversidade, reconhecendo em cada indiv\u00edduo a sua voca\u00e7\u00e3o humana de superar-se, de tornar-se uma pessoa aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Nesse passo que temos a dar, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d, temos de confiar nessa nossa humana capacidade para a supera\u00e7\u00e3o das dificuldades. Temos de confiar que podem se construir como pessoas aut\u00f4nomas, pois s\u00e3o pessoas destinadas a se constru\u00edrem como pessoas aut\u00f4nomas, pois essa \u00e9 a nossa voca\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso confiar nisso. \u00c9 preciso confiar nas pessoas. Mas, na nossa experi\u00eancia passada, em tudo o que nos disseram at\u00e9 hoje, nos falam que s\u00e3o deficientes, que possuem processos cognitivos rudimentares, que a hipotonia muscular dificulta isso ou aquilo, que sua compreens\u00e3o \u00e9 deficiente, n\u00e3o s\u00e3o capazes de dominar o abstrato. Como dar o passo da \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d se \u00e9 s\u00f3 isso que nos dizem, se o mundo \u00e9 assim? Esse, o vatic\u00ednio triss\u00f4mico. Ser\u00e1 mesmo que o futuro est\u00e1 escrito, n\u00e3o importa que passo venhamos a dar? A \u201cInclus\u00e3o para a Autonomia\u201d \u00e9 apenas mais que um slogan de campanha, uma alus\u00e3o comemorativa aos 50 anos da descoberta de Lejeune?<\/p>\n<p>Aut\u00f4nomos ou heter\u00f4nomos, n\u00f3s mesmos, pais, professores ou terapeutas, n\u00f3s fazemos as nossas escolhas. O passo que damos agora, \u00e9 a nossa decis\u00e3o. Ficamos na mesma, exclus\u00e3o e heteronomia. Ou mudamos, \u201cInclus\u00e3o para a autonomia\u201d.<\/p>\n<p>De que lado ficamos? Da mesmice ou da mudan\u00e7a?<\/p>\n<p align=\"left\">\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"margin:0 0 12pt;\">\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Mesmice<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Mudan\u00e7a<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Resigna\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Comprometimento<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Custa a aprender<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Temos de aprender a ensinar<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Tem dificuldade em manter a aten\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Provocaremos sua aten\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Se expressam mal<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Fomentaremos a sua comunica\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">N\u00e3o compreendem<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Facilitaremos a sua compreens\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">N\u00e3o raciocionam<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Com nosso racioc\u00ednio, eles o far\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">S\u00e3o lentos<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Os empurraremos com a auto-estima<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Depender\u00e3o sempre de n\u00f3s<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Daremos oportunidade para sua autonomia<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">Que ser\u00e1 dele sem n\u00f3s?<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Trabalharemos o presente e ser\u00e1 melhor o futuro<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">N\u00e3o h\u00e1 problema<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Problematizamos<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"259\" valign=\"top\">N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td width=\"328\" valign=\"top\">Criamos solu\u00e7\u00f5es<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ir da mesmice \u00e0 mudan\u00e7a, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se a mesmice \u00e9 um problema. \u00c9 preciso problematizar as situa\u00e7\u00f5es que vivemos, assim produzindo oportunidades para criarmos solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em reuni\u00f5es com pais e professores, sempre discutimos a pr\u00e1tica, as dificuldades que enfrentamos, cognitivas, motoras, de autonomia. Essas discuss\u00f5es avan\u00e7am pouco em rela\u00e7\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o de problemas. Conforta-nos perceber que as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis que enfrentamos s\u00e3o enfrentadas por outras pessoas, e isso nos torna parte de uma certa irmandade, compartilhando as agruras e as conquistas que o destino nos reserva. Tamb\u00e9m nas listas de discuss\u00e3o em Internet, boa parte das coloca\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas nesse exerc\u00edcio de solidariedade e ajuda para as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis vividas. O mais comum \u00e9 discutirmos essa pr\u00e1tica, sem nos colocarmos como protagonistas da a\u00e7\u00e3o. Vemos-nos submersos \u00e0 realidade, como se f\u00f4ssemos objetos, incapazes de atuar no sentido de redesenhar a realidade. A discuss\u00e3o da pr\u00e1tica \u00e9 boa, mas \u00e9 melhor exerc\u00edcio quando nos percebemos agentes dessa pr\u00e1tica, e n\u00e3o objetos. \u00c9 claro que muitas vezes nossa pr\u00e1tica est\u00e1 condicionada por outras estruturas e nem sempre conseguimos interferir na pr\u00e1tica de outras pessoas, seja na escola, ou no contexto social mais amplo.<\/p>\n<p>Pensar a pr\u00e1tica, repensar, avaliar, refazer, tendo em mente a dire\u00e7\u00e3o que seguimos, onde planejamos chegar, nesse caminho que, passando pela inclus\u00e3o, chega \u00e0 autonomia.<\/p>\n<p>Mais do que convencido, \u00e9 preciso estar comprometido com a autonomia. \u00c9 um processo de constru\u00e7\u00e3o permanente. Na constru\u00e7\u00e3o civil, se usam andaimes. Tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o da autonomia, formamos andaimes. S\u00e3o os formatos de a\u00e7\u00e3o conjunta. O adulto e a crian\u00e7a, o professor e o aluno, o mestre e o aprendiz, estabelecem formatos de a\u00e7\u00e3o conjunta. Mostramos como se faz, fazemos juntos, ajudamos a completar a tarefa, e na medida que v\u00e3o construindo a autonomia, v\u00e3o fazendo sozinhos. Conseguem agora fazer sozinhos, porque essa nossa ajuda, a orienta\u00e7\u00e3o que demos, foi sendo gradativamente incorporada ao seu pensamento. Assim, aprenderam a pensar e a agir por si mesmos, conseguindo realizar a tarefa autonomamente. As ferramentas que fornecemos passam a fazer parte do arsenal de ferramentas culturais do indiv\u00edduo. Ao enfrentar uma nova tarefa, um novo desafio, podem se valer dessas ferramentas.<\/p>\n<p>Acontece muito freq\u00fcentemente pais e familiares de crian\u00e7as com s\u00edndrome de Down ficarem aturdidos com a not\u00edcia, paralisados, compreendendo a pessoa ali como uma s\u00edndrome, que necessita de um tratamento m\u00e9dico para a doen\u00e7a, uma terapia para a defici\u00eancia. Com isso, o v\u00ednculo m\u00e3e e filho, pai e filho, av\u00f4\/av\u00f3 e neto, entre os irm\u00e3os, n\u00e3o se faz no sentido de buscar a autonomia. Aqueles andaimes, os formatos de a\u00e7\u00e3o conjunta, n\u00e3o se estabelecem. Surgem ent\u00e3o lacunas cognitivas muito dif\u00edceis de se resolver. Inclus\u00e3o para a autonomia, implica incluir esses pequenos no momento em que nascem, que n\u00e3o se v\u00e1 do luto a luta, mas da alegria, da confian\u00e7a, \u00e0 luta. Nascer um beb\u00ea com s\u00edndrome de Down deve ser um motivo de grande alegria, pois nos demonstra o quanto a vida \u00e9 maravilhosa, o quanto s\u00e3o valentes e valorosos, pois desafiam a condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que carregam, e nos mostram que \u00e9 poss\u00edvel fazer-nos humanos a despeito do que nos vem inscrito nos genes. Por mais que queiram nos fazer crer que h\u00e1 um determinismo gen\u00e9tico, a vida nos prova, exatamente por nossos filhos, que o que caracteriza o ser humano \u00e9 seu inacabamento, a possibilidade de escrever a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, construindo-se como ser humano.<\/p>\n<p>A defici\u00eancia porventura inscrita nos genes, se pode desviar pela cultura. Aprender \u00e9 criar esses desvios. Se ao cego n\u00e3o fosse dado um alfabeto Braille, n\u00e3o poderia ler. A compreens\u00e3o do escrito, pela sensa\u00e7\u00e3o de tato \u00e9 o artif\u00edcio da cultura, driblando a defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Para a pessoa com s\u00edndrome de Down, \u00e9 preciso oferecer os itiner\u00e1rios mentais, ferramentas que os auxiliem a superar as pr\u00f3prias defici\u00eancias e dificuldades. Precisam de aprender tudo. Organizar-se no tempo e no espa\u00e7o. Ter compromisso com suas tarefas de filho\/filha, de estudante, de irm\u00e3o\/irm\u00e3. \u00c9 necess\u00e1rio que aprendam a ler, at\u00e9 para que possam falar melhor. \u00c9 preciso pensar neles como adultos que vir\u00e3o a ser. N\u00e3o quero falar apenas dos pequenos ou dos mais jovens. N\u00e3o h\u00e1 um limite para uma pessoa aprender alguma coisa. E sempre temos algo a aprender, se temos a disposi\u00e7\u00e3o para aprender.<\/p>\n<p>\u00c9 importante saber que os genes n\u00e3o podem determinar como se escreve a nossa vida. \u00c9 muito importante saber que as pessoas com s\u00edndrome de Down podem aprender a ler e a escrever. Tamb\u00e9m \u00e9 importante saber que n\u00e3o precisam se atrasar em rela\u00e7\u00e3o aos seus companheiros de idade cronol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00c9 muito ruim saber que as escolas ensinam muitas vezes sem ter um conhecimento te\u00f3rico sobre como ocorre o aprendizado. H\u00e1 os m\u00e9todos, a pr\u00e1tica estabelecida, aquela que funciona para a maioria das pessoas. \u00c9 poss\u00edvel considerar bom o m\u00e9todo que ensina a 90% das pessoas? A maioria segue em frente, uns poucos v\u00e3o ficando para tr\u00e1s, os chamados derrotados, os fracassados. Lembra daquela coisa do explicar e do compreender? Bem, podemos ficar contentes que explicando assim, 90% entende 90% do que explicamos? Uns poucos precisariam de mais tempo, de outra explica\u00e7\u00e3o, mas esses s\u00e3o os derrotados, os fracassados, n\u00e3o contemplados nesse m\u00e9todo. Quem falha n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo, de efic\u00e1cia comprovada em 90% dos casos. Derrotados ou fracassados n\u00e3o s\u00e3o necessariamente pessoas com s\u00edndrome de Down, s\u00e3o apenas pessoas com determinada peculiaridade, tamb\u00e9m v\u00edtimas da exclus\u00e3o. Note-se que em qualquer caso, quem fracassa \u00e9 a pessoa, nunca a escola. S\u00e3o alunos-problema, um outro subconjunto operando a exclus\u00e3o na sala de aula. Algu\u00e9m j\u00e1 escutou falar de escolas-problema? \u00c9 ruim saber que as escolas n\u00e3o pensam sobre a sua pr\u00e1tica ou em mudar de m\u00e9todo ou de explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 ruim saber que as escolas n\u00e3o estejam comprometidas com o aprendizado de todos os seus alunos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da escola \u201cinclusiva\u201d surge neste contexto escolar: que inclus\u00e3o \u00e9 essa? Melhor se perguntarmos: que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 essa? Essa, a educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria. O estudante apenas um deposit\u00e1rio do conhecimento, conhecimento dominado pelo professor. N\u00e3o h\u00e1 intera\u00e7\u00e3o entre professor e aluno. Professor e aluno n\u00e3o se fazem educador e educando. Educador educa educando-se, e educando educa-se educando. Pessoas de um lado e de outro, explicando e compreendendo, ensinando e aprendendo.<\/p>\n<p>N\u00f3s, pais e m\u00e3es, comprometidos com constru\u00e7\u00e3o da autonomia, temos de buscar esse comprometimento na escola. N\u00f3s que pensamos a pr\u00e1tica e a refazemos, temos de buscar o compromisso que a escola, as pessoas da escola, os professores, tamb\u00e9m repensem e refa\u00e7am a sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A escola \u00e9 um pouco mais que a fam\u00edlia, na busca da inclus\u00e3o para a autonomia. Mas n\u00e3o \u00e9 tudo. Temos que pensar no trabalho, na moradia, na autonomia de ir e vir, no namoro. H\u00e1 uma sociedade inteira que temos de fazer comprometida com a diversidade. Sociedade essa que n\u00f3s mesmos formamos.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m disse que \u00e9 f\u00e1cil?<\/p>\n<p>Mudar n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, se definimos o que queremos conservar. Pais e, principalmente m\u00e3es, de pessoas com s\u00edndrome de Down, s\u00e3o pessoas de luta. Essa luta, queremos conservar. O trabalho pela conquista do respeito que todas as pessoas merecem, isso queremos conservar.<\/p>\n<p>Temos a dire\u00e7\u00e3o: inclus\u00e3o para a autonomia. Inclus\u00e3o na fam\u00edlia em primeiro lugar: a confian\u00e7a, como o princ\u00edpio de tudo. Inclus\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o significa educa\u00e7\u00e3o de qualidade, para todos. Inclus\u00e3o na sociedade significa viver num meio de valores \u00e9ticos e de respeito humano, que entenda a diversidade como um valor.<\/p>\n<p>Temos uma longa caminhada pela frente. \u00c0 Inclus\u00e3o para a Autonomia!<\/p>\n<p>Antes de seguir o caminho, de terminar essa exposi\u00e7\u00e3o, ainda olho para tr\u00e1s, mais atr\u00e1s, volto a um tempo onde foi ainda maior a exclus\u00e3o e o preconceito, e vejo que muito se caminhou para que estejamos hoje aqui. Vejo que esse processo hist\u00f3rico de constru\u00e7\u00e3o da inclus\u00e3o para autonomia, j\u00e1 come\u00e7ou l\u00e1 atr\u00e1s. A essas pessoas, pais e m\u00e3es de pessoas com s\u00edndrome de Down, \u00e0s pessoas com s\u00edndrome de Down, hoje adultas, que trilharam antes e trilham hoje esse caminho, da conquista da inclus\u00e3o e pela busca da autonomia, eu deixo a minha admira\u00e7\u00e3o e o meu respeito. A todos, sinceramente agrade\u00e7o que tenham aberto esse caminho e nos apontado dire\u00e7\u00e3o pela qual devemos seguir.<\/p>\n<p>Muito obrigado.<\/p>\n<p><span class=\"078190913-05062008\"><span style=\"font-size:small;font-family:Trebuchet MS;\"><span style=\"font-size:x-small;\">Gil Pena \u00e9 m\u00e9dico patologista e pai. 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