{"id":7824,"date":"2009-05-26T12:12:31","date_gmt":"2009-05-26T12:12:31","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciainclusive.wordpress.com\/?p=7824"},"modified":"2009-05-26T12:12:31","modified_gmt":"2009-05-26T12:12:31","slug":"a-educacao-das-relacoes-etnico-raciais-em-compasso-de-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=7824","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais em compasso de espera"},"content":{"rendered":"<p>Por: Eliane Cavalleiro1<br \/>\n\u00c9 sabido que sem adotar uma segrega\u00e7\u00e3o legal, a Rep\u00fablica elegeu o princ\u00edpio formal da &#8220;igualdade perante a lei&#8221; que foi incorporada \u00e0 carta constitucional j\u00e1 em 1891. Como resultado dessa orquestra\u00e7\u00e3o, pautado na ideologia dominante de embraquecimento, pouco foi feito no campo educacional para favorecer a popula\u00e7\u00e3o afro-brasileira, tanto no que diz respeito \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, para a constru\u00e7\u00e3o da dignidade da popula\u00e7\u00e3o negra e para o rompimento, via educa\u00e7\u00e3o, de pr\u00e1ticas racista e discriminat\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional &#8211; LDB, lei 4024 de 1961 determina &#8221; condena\u00e7\u00e3o a qualquer tratamento desigual por motivo de convic\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, pol\u00edtica ou religiosa, bem como quaisquer preconceitos de classe ou de ra\u00e7a&#8221; Todavia, n\u00e3o prescreve um ensino de valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnico-racial presente na sociedade, menos ainda orienta para a elimina\u00e7\u00e3o das desigualdades raciais que faziam da popula\u00e7\u00e3o negra a grande massa de crian\u00e7as e jovens alijados dos sistemas de ensino e de adultos analfabetos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As demais leis &#8211; 5.540\/68, 5.692\/71 e a 7044\/82 &#8211; s\u00e3o omissas quanto ao tema em tela, ignorando totalmente as reivindica\u00e7\u00f5es do movimento negro e os tratados internacionais que instavam o Estado brasileiro a ado\u00e7\u00e3o de medidas necess\u00e1rias para suprimir a discrimina\u00e7\u00e3o racial, como o disposto no Artigo II, da Conven\u00e7\u00e3o da ONU de 1965, sobre a elimina\u00e7\u00e3o de todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o racial:<\/p>\n<p>Os Estados-Partes tomar\u00e3o, se as circunst\u00e2ncias o exigirem, nos campos social, econ\u00f4mico, cultural e outros, as meddias especiais e concretas para assegurar como convier o desenvolvimento ou a prote\u00e7\u00e3o de certos grupos raciais ou de indiv\u00edduos pertencentes a esses grupos com o objetivo de garantir-lhes, em condi\u00e7\u00f5es de igualdade, o pleno exerc\u00edcio dos direitos do homem e das liberdades fundamentais(..)2<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Estado assim, at\u00e9 a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, fugiu ao dever de afirmar os direitos sociais da popula\u00e7\u00e3o negra. A carta magna de 1988 \u00e9 percebida, por muitos, como um avan\u00e7o para a democracia. No que concerne \u00e0 possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o dos negros, ela estabelece como um de seus objetivos &#8221; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, ra\u00e7a, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o&#8221; (Art. 30, inciso IV). Esse artigo, se considerada a realidade educacional, permitiria que o Estado brasileiro, representado pelo MEC (Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o ), cuidasse de construir no interior de sua estrutura, bem como nos sistemas de ensino do pa\u00eds, pol\u00edticas articuladas sob o eixo do combate ao racismo e seus derivados, com vistas \u00e0 materializa\u00e7\u00e3o de um sistema nacional de educa\u00e7\u00e3o que de fato cumprisse o objetivo constitucional acima citado.<\/p>\n<p>________________<\/p>\n<p>1. Doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade da Universidade de S\u00e3o Paulo, professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia &#8211; UNB<\/p>\n<p>2. Conven\u00e7\u00e3o da ONU de 1965 sobre a elimina\u00e7\u00e3o de todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3p racial. Aprovada pelo Decreto Legislativo n\u00ba 23, de 1967, e promulgad pelo Decreto n\u00ba 65.810, de 1969.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, o disposto na Constitui\u00e7\u00e3o Federal n\u00e3o levou os sistemas de educa\u00e7\u00e3o a formular programas e pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas e reparat\u00f3rias \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra que secularmente vivia alijada do direito b\u00e1sico a uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A Legisla\u00e7\u00e3o Educacional e a perspectiva de cidadania para os(as) brasileiros(as) negros(as)<\/p>\n<p>\u00c9 importante considerarmos que a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional -LDB 9394, institu\u00edda no ano de 1996, representa o principal elemento qualitativo da transi\u00e7\u00e3o institucional da educa\u00e7\u00e3o brasileira. Ela permitiu a redefini\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is e responsabilidades dos sistemas de ensino, concedendo maior autonomia \u00e0 escola,flexibilizando os conte\u00fados curriculares e estimulando a qualifica\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio. Contudo, o seu texto original, para al\u00e9m da igualdade formal, e de princ\u00edpios amb\u00edguos para uma sociedade marcadamente desigual, n\u00e3o precisou a configura\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o de cunho anti-racista e anti-discriminat\u00f3rio. Localiza-se refer\u00eancia apenas em seu Art. 26, que apresenta orienta\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para a constru\u00e7\u00e3o dos curr\u00edculos do ensino fundamental e m\u00e9dio, \u00a74\u00ba. &#8220;O ensino da Hist\u00f3ria do Brasil levar\u00e1 em conta as contribui\u00e7\u00f5es das diferentes culturas e etnias para a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, especialmente das matrizes ind\u00edgena, africana e europ\u00e9ia&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A partir das orienta\u00e7\u00f5es da LDB, o trato pedag\u00f3gico ao tema no cotidiano escolar configurou-se apenas na apresenta\u00e7\u00e3o de um negro &#8220;escravo&#8221; feio, visto que a beleza est\u00e1 no branco; burro, pois a intelig\u00eancia est\u00e1 no europeu &#8220;descobridor do Brasil&#8221;; submisso e acomodado \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de escravo, considerando que a hist\u00f3ria omite seu protagonismo nas manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por sua vez, a elabora\u00e7\u00e3o dos Par\u00e2metros Curriculares Nacionais,pelo MEC em 1996, n\u00e3o propiciou a configura\u00e7\u00e3o de um trabalho pedag\u00f3gico que evidenciasse um cotidiano escolar atento para a diversidade racial e para os conflitos raciais nele presentes. O documento que deveria servir de orientador para a constru\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo escolar, n\u00e3o apresentou, de modo fundamentado, a problem\u00e1tica racial, ao contr\u00e1rio, o documento trata apenas de uma diversidade abstrata:<\/p>\n<p>&#8220;Para viver democraticamente em uma sociedade plural \u00e9 preciso respeitar os diferentes grupos e culturas que a constituem (&#8230;) O grande desafio da escola \u00e9 investir na supera\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o e dar a conhecer a riqueza representada pela diversidade etnocultural que comp\u00f5e o patrim\u00f4nio sociocultural brasileiro, valorizando a trajet\u00f3ria particular dos grupos que comp\u00f5em a sociedade. Nesse sentido, a escola deve ser local de di\u00e1logo, de aprender a conviver, vivenciando a pr\u00f3pria cultura e respeitando diferentes formas de express\u00e3o cultural.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nota-se ainda que nesse documento orientador, a exist\u00eancia de discrimina\u00e7\u00e3o racial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 apontada como tendo ocorrido apenas no passado. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00eanfase \u00e0 sua exist\u00eancia na atualidade. Essa omiss\u00e3o acoberta as tens\u00f5es raciais presentes na sociedade e no cotidiano escolar, favorecendo sobremaneira a perman\u00eancia de pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias no cotidiano escolar e dele para a sociedade, visto que n\u00e3o favorece uma tomada de consci\u00eancia por parte dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 apenas 15 anos depois que a LDB-9394\/96, alterada pela Lei Federal 10.639, de janeiro de 2003, torna obrigat\u00f3rio a inclus\u00e3o, no curr\u00edculo das escolas de ensino fundamental e m\u00e9dio (p\u00fablicas e privadas), do estudo da Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira e Africana, e tamb\u00e9m do &#8220;20 de novembro&#8221; como uma data comemorativa no calend\u00e1rio escolar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essa altera\u00e7\u00e3o na LDB 9394\/96 representa uma conquista do movimento negro brasileiro que sempre reivindicou do Estado brasileiro pol\u00edticas educacionais para efetiva\u00e7\u00e3o de um cotidiano escolar livre de ideologias racistas e de pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias, em prol do respeito e da valoriza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e da cultura negra, africana e brasileira.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ainda, ao encontro da altera\u00e7\u00e3o possibilitada pela Lei 10.639, o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o elaborou parecer com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa\u00e7\u00e3o das Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais e para o Ensino de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas, de 2004, regulamentando, portanto, a referida altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Podemos afirmar que tal documento constitui uma linha divis\u00f3ria na pol\u00edtica educacional brasileira, havendo pela primeira vez tratamento expl\u00edcito da din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es raciais no cotidiano escolar e nos sistemas de ensino, e sobre a inser\u00e7\u00e3o no curr\u00edculo escolar da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileiras e africanas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O avan\u00e7o pol\u00edtico e conceitual no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u00c9 em sua hist\u00f3ria recente que o Estado brasileiro, via Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o &#8211; MEC, tem mais efetivamente caminhado no sentido de seguir princ\u00edpios de uma educa\u00e7\u00e3o de respeito e de valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnico-racial, com a elabora\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas espec\u00edficas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das atividades desenvolvidas pelo MEC desde 2003, quando da implementa\u00e7\u00e3o da Lei 10.639, at\u00e9 os dias atuais evidenciam esfor\u00e7os diferenciados para o fortalecimento da tem\u00e1tica \u00e9tnico-racial. Nota-se tamb\u00e9m que o que h\u00e1 de mais concreto no MEC ocorre apenas com o avan\u00e7o no desenvolvimento do Programa Diversidade , e a partir da constitui\u00e7\u00e3o da SECAD , em janeiro de 2004 e da cria\u00e7\u00e3o de uma Diretoria de Diversidade e Cidadania e de uma Coordena\u00e7\u00e3o Geral de Diversidade e Inclus\u00e3o Educacional.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Todavia, as a\u00e7\u00f5es realizadas e divulgadas pelo MEC, tais como: forma\u00e7\u00e3o de professores, realiza\u00e7\u00e3o de estudos e pesquisas, realiza\u00e7\u00e3o de F\u00f3runs Estaduais e produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de livros sobre o tema, entre outras, demonstram que o tema valoriza\u00e7\u00e3o da cultura afro-brasileira e o combate ao racismo nos sistemas n\u00e3o se materializam como um trabalho realizado por toda a institui\u00e7\u00e3o MEC, sim apenas por uma Secretaria que integra o MEC.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Dentro dessa institui\u00e7\u00e3o nota-se que a parceria mais consistente, e sistem\u00e1tica, foi estabelecida com a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Superior &#8211; SESU, dando origem ao programa UNIAFRO, que contou com a inflex\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es do movimento negro, sobretudo dos N\u00facleos de Estudos Afro-Brasileiros &#8211; NEABs. Outras a\u00e7\u00f5es mostram-se pontuais com a Secretaria de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica &#8211; SEB, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira &#8211; INEP e a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Profissional e Tecnol\u00f3gica &#8211; SETEC.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nota-se que o MEC, a partir da SECAD, passa a desenvolver v\u00e1rias dimens\u00f5es de uma pol\u00edtica pedag\u00f3gica da diversidade, que culmina com o estabelecimento de parcerias com os sistemas de ensino, por meio de apoio t\u00e9cnico, recursos humanos e financeiros, para a solidifica\u00e7\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es decorrentes da Lei n\u00ba 10.639\/03.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Seguindo tais princ\u00edpios, o MEC, em 2004, divulga3 seus compromissos para a elimina\u00e7\u00e3o das desigualdades raciais nos sistemas de ensino:<br \/>\ncombater as desigualdades raciais e \u00e9tnicas de acesso e continuidade da escolariza\u00e7\u00e3o no sistema educacional em todos os n\u00edveis e modalidades de ensino;<br \/>\npromover a\u00e7\u00f5es que ampliem o acesso ao sistema educacional dos diversos grupos \u00e9tnico-raciais;<br \/>\npropor estrat\u00e9gias de implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas educacionais afirmativas para a execu\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 diversidade cultural e racial brasileira;<br \/>\ncontribuir para a amplia\u00e7\u00e3o do acesso e da perman\u00eancia no ensino superior, especialmente de popula\u00e7\u00f5es afro-brasileiras e ind\u00edgenas;<br \/>\napoiar os sistemas de ensino para a implementa\u00e7\u00e3o nas unidades escolares da educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais e o ensino de hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira. (Fonte: <a href=\"http:\/\/www.mec.gov.br\/secad\/diversidade\/ci\">www.mec.gov.br\/secad\/diversidade\/ci<\/a>, atualizado em 15\/04\/2008.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Segundo os documentos divulgados, de 2004 a 2006, a a\u00e7\u00e3o do MEC visa combater o racismo institucional, bem como o racismo individual, por meio de uma ampla pol\u00edtica que considere cinco eixos estruturantes da pol\u00edtica educacional, a saber: forma\u00e7\u00e3o de professores; forma\u00e7\u00e3o de gestores; elabora\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico e paradid\u00e1tico; curr\u00edculo escolar e projeto pol\u00edtico-pedag\u00f3gico.<\/p>\n<p>_________<\/p>\n<p>3. Para acessos aos documentos de divulga\u00e7]\u00e3o de fortalecimento da implementa\u00e7\u00e3o da lei 10.639\/03, por parte do MEC, consultar o site:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A redefini\u00e7\u00e3o de formas de financiamento: o enfraquecimento das pol\u00edticas focadas na implementa\u00e7\u00e3o da Lei 10.639<\/p>\n<p>O ano de 2006 \u00e9 marcado pelo fim do prazo de execu\u00e7\u00e3o do Programa Diversidade na Universidade, da SECAD. A partir de ent\u00e3o, percebe-se uma ruptura nas a\u00e7\u00f5es em andamento. A interrup\u00e7\u00e3o dos trabalhos ocorre em quest\u00f5es fulcrais para a aplica\u00e7\u00e3o da lei 10.639 nos sistemas de ensino bem como para a configura\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o anti-racista nas unidades escolares, a saber:<\/p>\n<p>1. Suspens\u00e3o de repasse de recursos financeiros ao Programa Cultura Afro-Brasileira, bem como ao Programa Educa\u00e7\u00e3o Quilombola;<\/p>\n<p>2. Suspens\u00e3o de estudos e pesquisas sobre o tema;<\/p>\n<p>3. Suspens\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es e de sua respectiva distribui\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>4. Rompimento das reuni\u00f5es e encontros com os F\u00f3runs Estaduais Permanentes sobre Educa\u00e7\u00e3o e Diversidade \u00c9tnico-Racial;<\/p>\n<p>5. Rompimento de uma agenda de encontros com a Comiss\u00e3o Assessora para Assuntos relacionados aos Afro-Brasileiros &#8211; Cadara.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es interrompidas certamente n\u00e3o dariam conta de promover a efetiva\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o anti-racista de valoriza\u00e7\u00e3o e respeito aos negros e negras. Mas \u00e9 certo que, mesmo essas a\u00e7\u00f5es carecendo de um processo consistente de monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o, avan\u00e7os foram conquistados. A interrup\u00e7\u00e3o dos trabalhos a partir do governo federal fragiliza tamb\u00e9m os trabalhos que se encontram em processo nas secretarias de educa\u00e7\u00e3o, sob a responsabilidade dos entes federados. Se o MEC, no que diz respeito \u00e0 tem\u00e1tica \u00e9tnico-racial, n\u00e3o evidencia a realiza\u00e7\u00e3o de um trabalho articulado no interior da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, como pode inflexionar para a configura\u00e7\u00e3o de um trabalho articulado nos sistemas de ensino?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O Plano de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o &#8211; PDE e a Lei 10.639\/03<\/p>\n<p>A interrup\u00e7\u00e3o dos trabalhos iniciados em 2004 alude a uma mudan\u00e7a na agenda do MEC, mediante a um esvaziamento conceitual da tem\u00e1tica e dos objetivos a serem alcan\u00e7ados. Considerando a persist\u00eancia e abrang\u00eancia do racismo na sociedade brasileira, o seu combate deveria se configurar como um eixo estruturador das pol\u00edticas educacionais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Contudo o que se observa \u00e9 a aus\u00eancia de refer\u00eancias sobre as desigualdades raciais na educa\u00e7\u00e3o, bem como os prop\u00f3sitos de uma educa\u00e7\u00e3o anti-racista em documentos que marcam &#8220;os princ\u00edpios pol\u00edticos, os fundamentos te\u00f3ricos, os m\u00e9todos educacionais&#8221; do MEC, como assinalado no Plano de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o &#8211; PDE, apresentado \u00e0 sociedade em 2007. Nesse sentido, o PDE constitui um exemplo do esvaziamento da tem\u00e1tica na agenda do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Em sua apresenta\u00e7\u00e3o, o Presidente da Rep\u00fablica afirma que o documento objetiva: &#8220;convidar todos os educadores, das mais variadas vis\u00f5es, os professores, os alunos, a sociedade brasileira, em suma, para conhecer mais de perto os fundamentos do trabalho que vem sendo desenvolvido, visando ao seu aprimoramento cada vez maior&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Esse documento faz refer\u00eancia apenas \u00e0 necessidade de uma educa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para as popula\u00e7\u00f5es de \u00e1reas remanescentes de quilombo. Deixa, contudo, de considerar o racismo, e as desigualdades raciais na educa\u00e7\u00e3o como elementos presentes em toda a sociedade brasileira, conseq\u00fcentemente em todo o sistema nacional de educa\u00e7\u00e3o. Atender \u00e0 especificidade da educa\u00e7\u00e3o quilombola \u00e9 necess\u00e1rio e \u00e9 parte do dever do MEC. Por\u00e9m n\u00e3o significa atentar para a necessidade de um trabalho em prol elimina\u00e7\u00e3o do racismo em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se o MEC n\u00e3o firma esse comprometimento em seus marcos regulat\u00f3rios, como considerar o trato da tem\u00e1tica nas a\u00e7\u00f5es e programas que ele constr\u00f3i?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A Confer\u00eancia Nacional de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica no marco dos 120 anos da aboli\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Em abril de 2008 o MEC realizou em Bras\u00edlia a Confer\u00eancia Nacional de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica &#8211; CONEB, cujo principal objetivo localiza-se na constru\u00e7\u00e3o de um Sistema Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Articulado. Entretanto, tal Confer\u00eancia sugere um retrocesso institucional no combate \u00e0s desigualdades raciais no cotidiano escolar e nos sistemas de ensino.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O documento base para essa confer\u00eancia n\u00e3o explicitou o reconhecimento do MEC sobre os efeitos nocivos acarretados pelo racismo e seus derivados nos sistemas, bem como seus efeitos prejudiciais para o desempenho escolar da popula\u00e7\u00e3o negra. \u00c9 algo preocupante, visto que de 2004 a 2006 o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio formulou e apresentou considera\u00e7\u00f5es acerca dos enormes preju\u00edzos acarretados pela discrimina\u00e7\u00e3o racial no cotidiano escolar, basta ver documentos e livros publicados pela SECAD.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O documento base da Confer\u00eancia deixa transparecer certo descaso com a problem\u00e1tica ao apresentar uma diversidade amb\u00edgua e gen\u00e9rica; desconsiderando tratados internacionais e a pr\u00f3pria LDB, e ao se silenciar quanto ao dever de o Estado brasileiro assumir a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas espec\u00edficas para grupos discriminados.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A aus\u00eancia n\u00e3o pode ser considerada uma postura neutra por parte do poder p\u00fablico, pois \u00e9 sabido que o MEC, embora n\u00e3o seja o administrador direto dos sistemas, ele \u00e9 respons\u00e1vel por sua coordena\u00e7\u00e3o, articula\u00e7\u00e3o, cabendo-lhe o apoio t\u00e9cnico e financeiro. Al\u00e9m disso, o MEC constitui um \u00f3rg\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica formador de opini\u00e3o, que direta e indiretamente organiza a agenda educacional do pa\u00eds. Ao n\u00e3o explicitar o que \u00e9 de sua responsabilidade para o combate ao racismo na sociedade e \u00e0s desigualdades nos sistemas de ensino, o MEC, no ano que marca os 120 anos da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, deixou sob a defini\u00e7\u00e3o dos delegados e delegadas que participaram da CONEB, a proposi\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade para negros e negras.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fato positivo neste evento \u00e9 que a sociedade civil deliberou positivamente sobre uma educa\u00e7\u00e3o de combate ao racismo. E essa conquista deve ser atribu\u00edda aos delegados e delegadas do movimento negro que l\u00e1 estavam presentes e militaram para tornar o documento mais consistente. Mas \u00e9 fato que nenhuma organiza\u00e7\u00e3o do movimento negro integrou a Comiss\u00e3o organizadora da Confer\u00eancia, o que exp\u00f5e com nitidez o desprezo para com esse movimento social.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ao final, a vit\u00f3ria a ser comemorada \u00e9 a perman\u00eancia e a reafirma\u00e7\u00e3o de direitos anteriormente conquistados, como por exemplo os advindos da Confer\u00eancia Mundial contra o Racismo (2001), que firmava o dever do Estado na implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o de profissionais da educa\u00e7\u00e3o para o combate ao racismo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais: uma d\u00edvida a ser resgatada<\/p>\n<p>Considerando a evolu\u00e7\u00e3o das leis e o que o movimento social negro tem reivindicado ao longo de s\u00e9culos para a elimina\u00e7\u00e3o do racismo na educa\u00e7\u00e3o, o Estado brasileiro tem realizado uma pol\u00edtica que peca por ser n\u00e3o-org\u00e2nica, fracionada e quantitativamente fr\u00e1gil em recursos financeiros e humanos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O esquecimento e\/ou desconsidera\u00e7\u00e3o \u00e9 algo preocupante, visto que a realidade evidencia que na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica o investimento apartado de pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o anti-racista e de valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnico-racial n\u00e3o \u00e9 suficiente para a revers\u00e3o do quadro de desigualdades nos sistemas de ensino. As pol\u00edticas que visam aumentar a qualidade na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, com aten\u00e7\u00e3o \u00e0s desigualdades raciais, representam uma condi\u00e7\u00e3o imperativa para a configura\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade e para elimina\u00e7\u00e3o do fosso entre negros e brancos nos sistemas de ensino.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o do sistema nacional de educa\u00e7\u00e3o articulado \u00e9 preciso reconhecer a responsabilidade por parte dos entes federados e das administra\u00e7\u00f5es locais para o fortalecimento dessa pol\u00edtica. Igualmente \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que a responsabilidade pela implementa\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o anti-racista nos sistemas de ensino &#8211; desde a educa\u00e7\u00e3o infantil at\u00e9 a superior &#8211; localiza-se tamb\u00e9m no MEC, pois a este a CF atribui papel de colaborador e de articulador dos sistemas de ensino.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Constata-se, desse modo, a necessidade de uma avalia\u00e7\u00e3o interna no MEC para que este \u00f3rg\u00e3o avalie em que medida est\u00e1 ele de fato contribuindo para o combate \u00e0s desigualdades na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica; inser\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica em programas e projetos j\u00e1 existentes e solidificados em sua estrutura.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o, entendida como direito b\u00e1sico universal, requer a configura\u00e7\u00e3o de uma educa\u00e7\u00e3o anti-racista como elemento estrat\u00e9gico e indispens\u00e1vel para a constru\u00e7\u00e3o de um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nesses 120 anos de aboli\u00e7\u00e3o, para negros e negras, uma educa\u00e7\u00e3o para a cidadania, constitui um direito ainda a ser conquistado. Estamos pr\u00f3ximos dessa conquista? O MEC tem o dever de responder.<\/p>\n<p>Fonte: Pol\u00edtica Democr\u00e1tica. Cadernos de debates. Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira. Bras\u00edlia, Ano I no. 2, maio 2008 (p. 65-70) &#8211; <a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=728:a-educacao-das-relacoes-etnico-raciais-em-compasso-de-espera&amp;catid=96:textos-relacionados-educacao\">http:\/\/www.geledes.org.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=728:a-educacao-das-relacoes-etnico-raciais-em-compasso-de-espera&amp;catid=96:textos-relacionados-educacao<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Eliane Cavalleiro1 \u00c9 sabido que sem adotar uma segrega\u00e7\u00e3o legal, a Rep\u00fablica elegeu o princ\u00edpio formal da &#8220;igualdade perante a lei&#8221; que foi incorporada \u00e0 carta constitucional j\u00e1 em 1891. 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