{"id":7983,"date":"2009-06-03T12:38:50","date_gmt":"2009-06-03T12:38:50","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciainclusive.wordpress.com\/?p=7983"},"modified":"2009-06-03T12:38:50","modified_gmt":"2009-06-03T12:38:50","slug":"a-grande-midia-contra-as-acoes-afirmativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=7983","title":{"rendered":"A grande m\u00eddia contra as a\u00e7\u00f5es afirmativas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Fernando Concei\u00e7\u00e3o em 2\/6\/2009<\/strong><br \/>\nO que o Estado Democr\u00e1tico de Direito, o que o republicanismo, o que o interesse p\u00fablico podem esperar quando se alinham, em un\u00edssono \u00e0 maneira de campanha, tr\u00eas conglomerados de comunica\u00e7\u00e3o que, no Brasil, s\u00e3o os propriet\u00e1rios privados dos mais influentes ve\u00edculos da imprensa nacional? Uma \u00fanica coisa: o abuso do direito constitucional \u00e0 liberdade de express\u00e3o e de opini\u00e3o. A coa\u00e7\u00e3o dos demais poderes institucionais. O desrespeito ao princ\u00edpio de igualdade de oportunidade, cerne da democracia.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 exatamente o que a sociedade brasileira assiste hoje, estupefata, com a s\u00f3rdida manipula\u00e7\u00e3o encampada pela Rede Globo, Grupo Folha e Editora Abril \u2013 respectivamente donos da TV aberta de maior audi\u00eancia, com suas filiadas em todo o territ\u00f3rio brasileiro, controladores da TV por assinatura, de O Globo, de emissoras de r\u00e1dio; dos jornais Folha de S. Paulo e Valor Ecn\u00f4mico, do poderoso portal UOL; da maior e mais potente revista noticiosa semanal, Veja, e de v\u00e1rios outros tent\u00e1culos midi\u00e1ticos articulados entre si.<\/p>\n<p>Cotas s\u00e3o o inferno<\/p>\n<p>Esse poderos\u00edssimo Leviat\u00e3 apresenta-se na atual conjuntura como o suced\u00e2neo do Leviat\u00e3 hobbesiano. O prop\u00f3sito do monstro \u00e9 amedrontar a sociedade repetindo insaci\u00e1vel, incontinenti e monocordiamente que o Inferno em breve se instalar\u00e1 no Brasil. Incansavelmente a Rede Globo, a Folha e Veja anunciam que isso j\u00e1 tem hora e data marcada.<\/p>\n<p>O Brasil ser\u00e1 transformado no reino de L\u00facifer a partir do momento em que deputados e senadores em Bras\u00edlia votem pela aprova\u00e7\u00e3o de dois projetos que tramitam no Congresso Nacional, um deles h\u00e1 mais de dec\u00eanio: o Estatuto da Igualdade Racial (projeto de lei 6564\/05, do senador Paulo Paim, PT), e o projeto de lei 73\/99 (da deputada Nice Lob\u00e3o, DEM) incorporado ao projeto de lei 3.627\/2004, do governo federal. Ambos estabelecem, pela primeira vez no pa\u00eds, um sistema de pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias, inclusive de acesso \u00e0s universidades p\u00fablicas federais, como forma de corrigir as profundas desigualdades repercutidas at\u00e9 hoje pelos mais de 300 anos de escravid\u00e3o negra e ind\u00edgena que marcam a hist\u00f3ria socioecon\u00f4mica brasileira.<\/p>\n<p>A grande m\u00eddia simplifica tais pol\u00edticas compensat\u00f3rias, rotulando-as como projeto de cotas &#8220;raciais&#8221;. Isso tem reduzido a abrang\u00eancia daquelas proposi\u00e7\u00f5es e tornado irracional o debate. A quest\u00e3o de &#8220;ra\u00e7a&#8221; \u00e9 posta no primeiro plano, em uma sociedade que custa a acreditar na exist\u00eancia do racismo em suas rela\u00e7\u00f5es cotidianas e institucionais. Um povo que acredita, a despeito do desmascaramento do mito, ser o Brasil uma &#8220;democracia racial&#8221;, merc\u00ea de todos os mais respeit\u00e1veis dados e \u00edndices de medi\u00e7\u00e3o da estrutura demogr\u00e1fica afirmarem sempre o contr\u00e1rio. A sociedade brasileira \u00e9 cingida por uma forte persist\u00eancia da heran\u00e7a escravocrata, que atinge &#8220;pretos&#8221; e &#8220;pardos&#8221; (na defini\u00e7\u00e3o do IBGE), colocando-os como grupo nas piores posi\u00e7\u00f5es da pir\u00e2mide s\u00f3cio-econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Racismo como ideologia<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os propositores daqueles projetos de lei que inventaram a no\u00e7\u00e3o de &#8220;ra\u00e7a&#8221; como fator de identidade atribu\u00edda \u00e0s pessoas de acordo com seus pap\u00e9is e o lugar social por elas ocupado na forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>&#8220;Ra\u00e7a&#8221; sempre foi utilizada pelos &#8220;senhores da terra&#8221;, desde o nascedouro da empreitada colonial nas Am\u00e9ricas, como tra\u00e7o distintivo. Aos africanos, trazidos como escravos para todos os g\u00eaneros de labuta, foi-lhes pregada a defini\u00e7\u00e3o de &#8220;negros&#8221; como marca de um tipo de animal racialmente inferior aos demais humanos. N\u00e3o importaram as suas diferencia\u00e7\u00f5es culturais, ou \u00e9tnicas, tampouco as suas tradi\u00e7\u00f5es de origem. Todos s\u00e3o (ou eram) da &#8220;ra\u00e7a&#8221; negra, consequentemente podendo ser escravos pelo estatuto do ordenamento jur\u00eddico da Col\u00f4nia e do Imp\u00e9rio. O racismo foi uma das ferramentas ideol\u00f3gicas de organiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o colonial. A Rep\u00fablica n\u00e3o solucionou, at\u00e9 o presente, essa equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qual patriota \u2013 e a p\u00e1tria, j\u00e1 disse algu\u00e9m, \u00e9 o \u00faltimo ref\u00fagio dos canalhas \u2013 quer ver seu pa\u00eds &#8220;pegar fogo&#8221;, ter a sua &#8220;harmoniosa&#8221; popula\u00e7\u00e3o &#8220;separada&#8221; entre &#8220;brancos&#8221; (no Brasil identificados como rico ou doutor) e &#8220;negros&#8221; (sempre suspeitos e vil\u00f5es)? Quem quer ver a &#8220;paz&#8221; que hoje reina, como antanho, desde o princ\u00edpio do escravismo colonial, quem quer todas essas nossas tradi\u00e7\u00f5es de cordialidade (no fundo perversas) perdidas por conta da aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Igualdade Racial e do projeto 3.627?<\/p>\n<p>Nessa tecla batem, de forma orquestrada e combinada, os grandes conglomerados de m\u00eddia. Com seus impressos, telejornais, experts em antropologia social, r\u00e1dios, internet, publica\u00e7\u00f5es, almejam influenciar \u2013 e muito \u2013 os humores e a disposi\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, isto \u00e9, dos brasileiros formadores de opini\u00e3o e dos eleitores.<\/p>\n<p>Sem-precedentes a n\u00e3o ser no abolicionismo<\/p>\n<p>O Estatuto e o outro projeto de lei seriam obra demon\u00edaca (ou stalinista?). Permitir que congressistas tenham o livre-arb\u00edtrio de votar abalizados por raz\u00f5es \u00e9ticas, de senso de justi\u00e7a, de consci\u00eancia hist\u00f3rica dos horrores que at\u00e9 hoje vigem da discrimina\u00e7\u00e3o negativa contra os negros, isto a Rede Globo, a Folha de S. Paulo e a Veja simplesmente n\u00e3o querem aceitar. Portanto, mobilizam-se, com poucos precedentes similares nos debates legislativos, para derrotar aquelas proposi\u00e7\u00f5es. Reeditam dessa forma, 130 anos depois, a mesma tipologia das paix\u00f5es verificadas durante a \u00e1rdua luta que resultou na aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Todos os artigos, todas as mat\u00e9rias, todos os editoriais veiculados direcionam-se a semear o p\u00e2nico e a disseminar a id\u00e9ia de que assim procede a m\u00eddia em defesa da unidade e do bem nacionais. Todas as reportagens ou entrevistas s\u00e3o produzidas e editadas de forma a referendar essa tese.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo \u00e9 simples e corriqueiro. Para disfar\u00e7ar o flagrante desrespeito \u00e0s regras b\u00e1sicas do jornalismo em sociedades abertas (deve-se dar voz a todas as opini\u00f5es), esses grandes ve\u00edculos usam a f\u00f3rmula 10 para 1. D\u00e3o espa\u00e7o e peso diferenciados aos que s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0queles projetos e ao demais. Este, j\u00e1 que favor\u00e1vel, tem a sua opini\u00e3o, posta no contexto das outras contr\u00e1rias, com um enquadramento que remete ao bizarro, ao fora de prop\u00f3sito. Vira exotismo defender pol\u00edticas compensat\u00f3rias para os descendentes de escravos no Brasil, que s\u00e3o a esmagadora maioria dos pobres e miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>Interesses anti-sociais das empresas<\/p>\n<p>Rede Globo e seu noticioso carro-chefe, o Jornal Nacional \u2013 j\u00e1 classificado por seu editor como produto dirigido a gente de mentalidade de Homer Simpson \u2013, Veja e Folha de S.Paulo querem convencer os formadores de opini\u00e3o, eleitores e seus representados no Congresso Nacional de que essas empresas privadas (ou seja, Globo, Folha e Abril, assim como os seguidores de tal ide\u00e1rio) defendem nessa campanha o que \u00e9 melhor para &#8220;o pa\u00eds&#8221;. No entanto, os formadores de opini\u00e3o, e principalmente os atuais detentores de mandatos parlamentares, deveriam atentar para a seguinte obviedade escamoteada nesse debate: Rede Globo, Folha e Editora Abril s\u00e3o crias alimentadas pela \u00faltima ditadura militar que destruiu a democracia, prendeu, torturou, matou e fechou, por consequ\u00eancia, esse mesmo Congresso Nacional. Perseguiu e cassou mandatos de parlamentares e tantos outros l\u00edderes sociais e pol\u00edticos n\u00e3o-adesistas.<\/p>\n<p>Entre os sombrios anos 1960 ao ocaso dos anos 1980, a maior parte do tempo foram conflitantes e at\u00e9 mesmo opostos os interesses republicanos e os interesses dessa hoje tr\u00edplice-alian\u00e7a. Essas empresas se fortaleceram, se beneficiaram e se consolidaram, cada uma ao seu modo, pelas facilita\u00e7\u00f5es que o regime militar lhes proporcionou. Apoiaram abertamente ou foram coniventes em algumas fases com aquela ditadura.<\/p>\n<p>Sobre a Globo h\u00e1 vasto corpus documental a respeito, dentro dele a exist\u00eancia de uma CPI. Carlos Guilherme Mota e Maria Helena Capelato (1980) registraram em Hist\u00f3ria da Folha de S. Paulo: 1921-1981 a estrat\u00e9gia de posicionamento pol\u00edtico que fez este jornal jamais ter sofrido sequer de leve os abusos ditatoriais infligidos ao seu concorrente local, O Estado de S.Paulo. A Editora Abril sempre flertou com a c\u00fapula do sistema, tendo em Golbery do Couto e Silva um dos seus referenciais de conduta e em Antonio Carlos Magalh\u00e3es um dos seus queridinhos.<\/p>\n<p>Dourando a p\u00edlula do comprometimento<\/p>\n<p>A Folha buscou se redimir, a partir dos tempos de Claudio Abramo e mais ainda com Boris Casoy, na memor\u00e1vel campanha das Diretas-J\u00e1, que na primeira metade da d\u00e9cada de 1980 exigia nas ruas o retorno ao Estado de Direito, com o estabelecimento de elei\u00e7\u00f5es livres para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Naquela vez, Folha, Veja e Globo ficaram em campos diferenciados.<\/p>\n<p>A vontade da poderos\u00edssima Globo no per\u00edodo todos n\u00f3s conhecemos. Se op\u00f4s tenazmente a que o povo brasileiro readquirisse a sua soberania por meio do voto. Ignorou ou mentiu, seguindo um padr\u00e3o jornal\u00edstico de obedi\u00eancia \u00e0 linha-dura do regime \u00e0 qual serviu o tempo todo com denodo, demonizando os advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Provas ainda piores de que a Globo, quando quer, \u00e9 o reino da pervers\u00e3o dos interesses cidad\u00e3os est\u00e3o nos anais da hist\u00f3ria brasileira recente em dois escandalosos epis\u00f3dios. O que ficou conhecido como &#8220;Caso Globo\/Proconsult&#8221; e o debate final da campanha eleitoral de 1989, entre Lula e Fernando Collor. No primeiro, a Globo foi pega de cal\u00e7as curtas na sua ign\u00f3bil tentativa de manipular contra Leonel Brizola o resultado da elei\u00e7\u00e3o para governador do Rio de Janeiro, em 1982. No segundo, a exibi\u00e7\u00e3o no Jornal Nacional da edi\u00e7\u00e3o do debate, beneficiando a performance de Collor, at\u00e9 hoje \u00e9 estudada como um case do hist\u00f3rico de abuso de poder que essa rede televisiva possui.<\/p>\n<p>Nesse segundo epis\u00f3dio, o ent\u00e3o todo-poderoso diretor da Central Globo de Jornalismo, Armando Nogueira, teve pruridos de hombridade, foi ao cacique Roberto Marinho e apresentou sua demiss\u00e3o do cargo. Vemos a confiss\u00e3o envergonhada dele para o teledocument\u00e1rio Beyond Citizen Kane (Simon Hartog, 1993), que a Globo judicialmente censurou, impedindo sua exibi\u00e7\u00e3o em todo o territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>Um hist\u00f3rico de sujeiras<\/p>\n<p>Esse document\u00e1rio (assista aqui), que circulou em c\u00f3pias piratas, \u00e9 um consistente trabalho jornal\u00edstico da TV brit\u00e2nica, mostrando os tent\u00e1culos do imp\u00e9rio de Roberto Marinho e suas ramifica\u00e7\u00f5es no comando do poder pol\u00edtico nacional. Permitir a sua difus\u00e3o \u00e0 \u00e9poca seria contr\u00e1ria \u00e0 estrat\u00e9gia que com o retorno da democracia a Globo tra\u00e7ou, visando apagar da mem\u00f3ria o seu passado macbethiano.<\/p>\n<p>Foi nesse v\u00e1cuo, por exemplo, que alguma programa\u00e7\u00e3o da emissora, como o Fant\u00e1stico, at\u00e9 se deu ao luxo de exibir uma reportagem sobre o nascente Movimento Pelas Repara\u00e7\u00f5es dos Afrodescentente, enfocando o surgimento no Brasil de uma articula\u00e7\u00e3o social por pol\u00edticas compensat\u00f3rias de a\u00e7\u00e3o afirmativa.<\/p>\n<p>Entretanto, pruridos iguais ao de Nogueira hoje n\u00e3o possui Ali Kamel. Este profissional, agora \u00e0 frente do Jornalismo da TV Globo, \u00e9 um dos comandantes do ataque sem tr\u00e9gua ao Estatuto da Igualdade Racial e ao Projeto de Lei do Executivo. Age de cima de um armamento pesado de artilharia, muito al\u00e9m do que poderiam vis mortais, como o autor dessas mal-tra\u00e7adas linhas, desprovidos estes do instrumental fabuloso que s\u00e3o os comandos da TV Globo, da Veja, da Folha de S.Paulo. Nem um desses ve\u00edculos abre espa\u00e7o e tempo equitativos para o exerc\u00edcio de opini\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0s suas neste tema. Seus colunistas e articulistas, com raras exce\u00e7\u00f5es de um Elio Gaspari, t\u00eam todos n\u00e3o-surpreendentemente o mesmo ponto de vista de quem lhes paga sal\u00e1rios e b\u00f4nus.<\/p>\n<p>Trapa\u00e7a e covardia no debate<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 em toda a grande m\u00eddia brasileira um \u00fanico articulista ou comentarista negro comprometido com a luta anti-racista contratualmente assegurado para, de forma regular, emitir sua opini\u00e3o nesses ve\u00edculos. Mesmo o limitado espa\u00e7o da se\u00e7\u00e3o &#8220;Tend\u00eancias\/Debates&#8221; da p\u00e1gina 3 da Folha, ou o seu suplemento &#8220;Mais!&#8221;, nos \u00faltimos oito anos t\u00eam sistematicamente rejeitado colabora\u00e7\u00f5es contestadoras \u00e0 sua tese. N\u00e3o faltam pessoas com esse ponto de vista capacitadas para publicar na Folha, e uma lista de intelectuais comprometidos na luta por a\u00e7\u00f5es afirmativas foi entregue \u00e0 Secretaria de Reda\u00e7\u00e3o desse ve\u00edculo por uma representa\u00e7\u00e3o do Movimento Negro h\u00e1 mais de tr\u00eas anos, em visita \u00e0quele jornal. Certamente a lista foi para o lixo.<\/p>\n<p>Diante de t\u00e3o avassaladora campanha &#8220;c\u00edvica&#8221;, mentalidades conservacionistas do establishment sentem-se agora encorajadas a bradar as suas posi\u00e7\u00f5es contra as mudan\u00e7as institucionais previstas por aqueles dois projetos de lei. V\u00eaem-se estimuladas essas vozes porque sabem poder contar com a tutela dos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o temem, neste momento, a rea\u00e7\u00e3o adversa das ruas. Porque as ruas est\u00e3o desmobilizadas pela insufici\u00eancia das for\u00e7as sociais que, sabedoras da justeza pol\u00edtica das a\u00e7\u00f5es compensat\u00f3rias aos estratos sempre exclu\u00eddos (por raz\u00f5es hist\u00f3ricas), acham-se \u00f3rf\u00e3s do poder belicoso dos que possuem o controle da grande m\u00eddia.<\/p>\n<p>Ouso dizer que por tr\u00e1s de todo esse poder esconde-se a prepot\u00eancia dos covardes. Em breve eles tamb\u00e9m pressionar\u00e3o os integrantes do Supremo Tribunal Federal, quando a mat\u00e9ria for ali analisada.<\/p>\n<p>\u00c9 esta covardia da Globo, da Veja e da Folha que interdita o nosso acesso equ\u00e2nime aos seus tempos e espa\u00e7os. Ali Kamel jamais nos convidaria para um debate desarmado, ainda que em ambiente por ele dominado, em qualquer um dos seus jornal\u00edsticos ou talk shows cuja edi\u00e7\u00e3o seja honesta. Otavio Frias Filho, para cujo jornal muitas vezes no passado escrevi, tendo dois textos meus reeditados em colet\u00e2neas organizadas pela Publifolha \u2013 e a partir dos quais produzi minha tese de doutorado \u2013 n\u00e3o me ofereceria em sua Folha um lugar de articulista frequente em contraponto ao seu pensamento. E Veja, para estampar uma &#8220;p\u00e1gina-amarela&#8221; que fosse, somente se eu &#8220;revelasse&#8221; que L\u00facifer n\u00e3o existe no al\u00e9m, L\u00facifer \u00e9 a &#8220;alcunha&#8221; de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Como as coisas assim n\u00e3o se dar\u00e3o, ou os defensores e interessados pela democratiza\u00e7\u00e3o verdadeira das rela\u00e7\u00f5es sociais no Brasil retomam aguerridamente a sua milit\u00e2ncia, pressionam os parlamentares, ganham as ruas e outros espa\u00e7os de cidadania; ou, ent\u00e3o&#8230; adeus \u00e0s mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>P.S. \u2013 Uma nota adicional. Comecei a redigir este artigo em Madri, Espanha. Estou na Europa h\u00e1 oito meses como bolsista de p\u00f3s-doutorado da Capes no Lateinamerika Institut da Freie Universit\u00e4t Berlim, verificando a presen\u00e7a e influ\u00eancia do ge\u00f3grafo Milton Santos no debate intelectual em pa\u00edses europeus, subs\u00eddio para escrever a biografia autorizada dele. Dia desses tive de me deslocar em \u00f4nibus para Salamanca. Ao desembarcar na esta\u00e7\u00e3o, \u00e0 porta do ve\u00edculo vieram me recepcionar tr\u00eas homens que se identificaram como agentes da pol\u00edcia local. Eu era o \u00fanico negro entre os demais passageiros e n\u00e3o estava chegando ao pa\u00eds naquele momento. Fui o \u00fanico detido e submetido aos olhares suspeitosos dos demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratava de agentes da Imigra\u00e7\u00e3o. Eram policiais comuns \u00e0 paisana, que me levaram a um cub\u00edculo, me retiraram os documentos e remexeram minha mochila, cheia de livros \u2013 para a surpresa confessa deles \u2013 e folhearam meu passaporte com coment\u00e1rios jocosos sobre o n\u00famero de viagens marcado por v\u00e1rios vistos ali apostos. Telefonaram para sei l\u00e1 quem, ditando meus nome e sobrenome. Depois do vexame e do constrangimento, permitiram que eu fosse encontrar com um acad\u00eamico da universidade local, estudioso da obra do brasileiro. A essa altura eu j\u00e1 tinha perdido meu humor.<\/p>\n<p>Registro aqui o fato para ilustrar uma simples verdade, que se tenta escamotear: \u00e9 muito f\u00e1cil, para os prepostos do poder (p\u00fablico ou privado) saber quem \u00e9 negro. Afirmo em resposta \u00e0 quest\u00e3o bizantina levantada pelos inimigos das cotas. No Brasil, epis\u00f3dios como esse s\u00e3o banais. Na Europa frequentemente ocorrem. A cor da pele subsiste como valor de distin\u00e7\u00e3o, de discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito. Gostemos ou n\u00e3o, esses s\u00e3o os fatos.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=540JDB003\">http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=540JDB003<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fernando Concei\u00e7\u00e3o em 2\/6\/2009 O que o Estado Democr\u00e1tico de Direito, o que o republicanismo, o que o interesse p\u00fablico podem esperar quando se alinham, em un\u00edssono \u00e0 maneira de campanha, tr\u00eas conglomerados de comunica\u00e7\u00e3o que, no Brasil, s\u00e3o os propriet\u00e1rios privados dos mais influentes ve\u00edculos da imprensa nacional? 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