{"id":9665,"date":"2009-08-01T07:05:57","date_gmt":"2009-08-01T10:05:57","guid":{"rendered":"http:\/\/agenciainclusive.wordpress.com\/?p=9665"},"modified":"2009-08-01T07:05:57","modified_gmt":"2009-08-01T10:05:57","slug":"e-sempre-o-negro-o-delinquente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/inclusivenews.com.br\/?p=9665","title":{"rendered":"\u00c9 sempre o negro o delinquente"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Entrevista com a ju\u00edza <strong>Luislinda Valois Santos<\/strong><\/p>\n<div class=\"mceTemp\" style=\"text-align:justify;\">\n<dl class=\"wp-caption   alignleft\">\n<dt class=\"wp-caption-dt\"><a href=\"http:\/\/agenciainclusive.files.wordpress.com\/2009\/07\/luislindafinal1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9666\" title=\"luislindafinal1\" src=\"http:\/\/agenciainclusive.files.wordpress.com\/2009\/07\/luislindafinal1.jpg\" alt=\"luislindafinal1\" width=\"320\" height=\"186\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"wp-caption-dd\">Tr\u00eas momentos na vida da ju\u00edza Luislinda Valois Santos.<\/dd>\n<\/dl>\n<\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\">O professor pediu o material de desenho, a custo o pai de Luislinda conseguiu comprar um, meio remendado. Pois bastou o professor ver o material para mago\u00e1-la para sempre. &#8220;Menina, deixe de estudar e v\u00e1 aprender a fazer feijoada na casa dos brancos&#8221;. Ela chorou, ainda se emociona quando relembra, 58 anos depois. Mas tomou coragem e retrucou: &#8220;Vou \u00e9 ser ju\u00edza e lhe prender&#8221;. A primeira parte, ela cumpriu. Em 1984, a baiana Luislinda Valois Santos tornou-se a primeira ju\u00edza negra do Pa\u00eds. N\u00e3o \u00e0 toa, tamb\u00e9m foi quem proferiu a primeira senten\u00e7a contra racismo no Brasil. Em 28 de setembro de 1993, condenou o supermercado Olhe Pre\u00e7o a indenizar a empregada dom\u00e9stica A\u00edla de Jesus, acusada injustamente de furto. Aos 67 anos, lan\u00e7a em agosto seu primeiro livro, O negro no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Como foi sua inf\u00e2ncia? Imagino que n\u00e3o tenha tido muitos recursos&#8230;<\/p>\n<p>Fa\u00e7a uma pequena ideia (risos). Minha m\u00e3e era lavadeira e costureira e meu pai era motorneiro de bonde. Minha inf\u00e2ncia foi miser\u00e1vel, mas meus pais sempre primaram pela educa\u00e7\u00e3o e pela nossa sa\u00fade. Quando eu tinha 9 anos, estava come\u00e7an\u00addo a estudar, um professor pediu um material de desenho e meu pai, coitado, n\u00e3o p\u00f4de comprar o que ele pediu, mas comprou outro. Quando cheguei \u00e0 escola, feliz da vida, ele disse: &#8220;Menina, se seu pai n\u00e3o pode comprar o material, deixe de estudar e v\u00e1 aprender a fazer feijoada na casa dos brancos&#8221;. Imagine como foi marcante pra mim (chora). Sa\u00ed chorando. Mas sou muito impetuosa. Voltei, fui em cima dele efalei: &#8220;N\u00e3o vou fazer feijoada para branco, n\u00e3o. Vou \u00e9 ser ju\u00edza e lhe prender&#8221;. Em casa, ainda tomei uma baita surra do meu pai. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o se podia desrespeitar professor.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a trabalhar cedo?<\/p>\n<p>Com 7 anos, quis aprender datilografia e, para pagar o curso, minha m\u00e3e sugeriu que eu lavasse aquelas fraldas de pano que se usava na \u00e9poca. A\u00ed fiz isso. Mas, trabalhar realmente, comecei com 14 anos, como datil\u00f3grafa. Comecei na Companhia Docas da Bahia e, logo em seguida, minha m\u00e3e tinha acabado de morrer, me arrumaram um trabalho no DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, hoje Dnit). Fui crescendo l\u00e1: trabalhei como escrevente, escritur\u00e1ria, chefe de or\u00e7amento. Estudei filosofia, n\u00e3o con\u00adclu\u00ed, depois comecei teatro, mas meu pai n\u00e3o me deixou cursar, disse que era coisa de prostituta. A\u00ed, um dia, decidi fazer direito. J\u00e1 tinha uns 34, 35 anos. Me inscrevi e passei na Universidade Cat\u00f3lica. Me formei aos 39 anos, no dia 8 de dezembro e, no dia 9, come\u00e7aram as inscri\u00e7\u00f5es para o concurso de procurador do DNER. Passei em primeiro lugar no Brasil. Mas n\u00e3o pude assumir aqui.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>A pessoa que passou em \u00faltimo tamb\u00e9m era daqui da Bahia. Como eu n\u00e3o tinha padrinho pol\u00edtico, algumas autoridades me puseram numa sala e falaram: &#8220;Doutora, precisamos da sua vaga aqui. Vamos lhe oferecer Sergipe ou Paran\u00e1&#8221;. A\u00ed fa\u00adlei: como voc\u00eas est\u00e3o me mandando embora, vou logo para longe. Fui para o Paran\u00e1. Com 90 dias, o chefe da procuradoria de l\u00e1 se aposentou e fui designada para a vaga dele. Morei l\u00e1 quase 8 anos.<\/p>\n<p>Li que, antes de estudar direito, a senhora participou de um concurso de beleza. Como foi isso?<\/p>\n<p>Trabalhava no DNER, tinha uns 20 anos, e um dia me chamaram na diretoria e falaram: \u201cest\u00e3o abrindo um concurso da Mais Bela Mulata e voc\u00ea vai ser a nossa miss\u201d (risos). A\u00ed eles foram falar com meu pai. Era de mai\u00f4 e tudo, imagine&#8230; Meu pai ficou bastante reticente, mas por fim pediu a seu Rangel, que era o chefe do administrativo, para assinar um documento se responsabilizando pela minha integridade f\u00edsica (risos). A integridade f\u00edsica da \u00e9poca era a tal da virgindade, a preocupa\u00e7\u00e3o era essa. Teve v\u00e1rias etapas. As mais importantes foram no Forte de S\u00e3o Marcelo e na Rua Chile, que era o point. Ganhei como Miss Simpatia.<\/p>\n<p>E como se tornou ju\u00edza?<\/p>\n<p>Estava em Curitiba e vim de f\u00e9rias para c\u00e1, soube do concurso pelo jornal A TARDE, que meu pai comprou. Falei: pronto, \u00e9 agora. No dia seguinte, fiz a inscri\u00e7\u00e3o e as provas. A\u00ed, uma noite, o telefone tocou e a menina disse que eu tinha sido aprovada. Acordei meia Curitiba, n\u00e9? (risos). O fato de ser a primeira ju\u00edza negra do Brasil s\u00f3 me d\u00e1 responsabilidade. At\u00e9 hoje s\u00f3 temos dois ministros negros nos tribunais superiores. Por que isso? A intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 privacidade de nenhuma ra\u00e7a. At\u00e9 porque s\u00f3 existe uma ra\u00e7a, a humana. Ser ju\u00edza n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. \u00c9 s\u00f3 ter bom senso, estudar de manh\u00e3, meio-dia, de tarde e de noite e gostar de lidar com gente. N\u00e3o pode pensar que, s\u00f3 porque o cidad\u00e3o \u00e9 marginal, ele j\u00e1 merece estar enclausurado. Primeiro se vai ver por que aquele sujeito virou marginal. A sociedade \u00e9 quem escolhe quem vai delinquir. E te digo mais: nesse momento, a sociedade escolheu que \u00e9 o negro, pobre, jovem, da periferia. Na hora que se tem de condenar, se n\u00e3o tiver a quem condenar, se condena o negro, mesmo que ele ainda esteja no ventre da m\u00e3e.<\/p>\n<p>A senhora falou que n\u00e3o \u00e9 \u201cporque o cidad\u00e3o \u00e9 marginal que j\u00e1 merece estar enclausurado\u201d. A sociedade espera uma resposta, de todo modo.<\/p>\n<p>A sociedade n\u00e3o colabora para que as pessoas n\u00e3o cheguem a delinquir. O que \u00e9 que se tem de dar? Oportunidades. Primeiro, educa\u00e7\u00e3o de qualidade e continuada. Imagine uma pessoa que tem oito, dez filhos, se depara uma manh\u00e3 sem ter o p\u00e3o para alimentar seus filhos. Se n\u00e3o tiver muito equil\u00edbrio, faz bobagem.<\/p>\n<p>J\u00e1 se viu diante de um caso desse? Como a senhora agiu?<\/p>\n<p>J\u00e1, no interior. Resolvi da seguinte forma: fui at\u00e9 o prefeito e consegui um servi\u00e7o de jardinagem para ele. A pena que dei foi que, com o primeiro sal\u00e1rio, ele pagasse o que tinha pego. Nunca mais ouvi falar que esse rapaz fizesse nada de ilegal. Digo sempre o seguinte: se tiver eu e uma loira juntas, o que sumir primeiro, fui eu que peguei. \u00c9 sempre o negro que \u00e9 o delinquente de hoje.<\/p>\n<p>No seu trabalho como ju\u00edza, ainda sofre muito preconceito?<\/p>\n<p>Sou a s\u00e9tima ju\u00edza mais antiga do Estado e nunca consegui ser convocada para o Tribunal. Me sinto preterida. Tenho certeza de que j\u00e1 era para eu ser desembargadora h\u00e1 muito tempo, preencho todos os requisitos. Para se saber o que \u00e9 racismo, \u00e9 s\u00f3 ficar negro por 48h. Certa vez, no juizado de Piat\u00e3, aproveitei o tempo para arrumar uns processos. Chegou uma advogada e falou: &#8216;O juiz vem hoje?&#8217;. Eu a\u00ed fiz um sinal para a mo\u00e7a n\u00e3o dizer que era eu. A advogada ficou l\u00e1, reclamando que juiz nunca chegava na hora, coisa e tal. Na hora da audi\u00eancia, subi, pus a toga e, quando ela me viu, n\u00e3o acertou fazer nada. Tive de adiar a audi\u00eancia. Falei: &#8216;Tenha paci\u00eancia, a senhora toma um chazinho de erva-cidreira e, amanh\u00e3, n\u00f3s continuamos&#8217;. Precisa maior racismo do que esse?<\/p>\n<p>A senhora proferiu a primeira senten\u00e7a contra racismo no Brasil. Como foi a repercuss\u00e3o do caso?<\/p>\n<p>Me lembro bem. A\u00edla Maria de Jesus foi a um supermercado e quando estava saindo, o seguran\u00e7a a humilhou, disse que ela tinha posto na bolsa um frango congelado e dois sabonetes. Ela falou que, se ele chamasse a pol\u00edcia, ela abriria a bolsa. A\u00ed, a pol\u00edcia chegou e viu que n\u00e3o tinha nada. Na \u00e9poca, a repercuss\u00e3o foi que o feiti\u00e7o virou contra o feiticeiro (risos). Comecei a receber amea\u00e7as, o pessoal ligava para a minha casa dizendo: &#8220;Onde \u00e9 que essa negra faz supermercado?&#8221; Fiquei com medo e pedi afastamento, resolvi voltar para Curitiba. A\u00ed fui ao banco com meu filho, me sentei e ele foi resolver as coisas para mim. Passou um tempo o seguran\u00e7a ficou meolhando, depois veio outro, depois veio o gerente. E eu l\u00e1 sem saber o que fazer. Pensei: se eu me mexer para pegar minha carteira de ju\u00edza, eles podem pensar que eu estou armada e me matar. Quando meu filho voltou, criei alma nova. Ele falou: &#8220;O que \u00e9 isso com minha m\u00e3e?&#8221;. E o gerente respondeu: &#8220;Ela ficou muito tempo a\u00ed sentada&#8221;. Chorei a tarde inteira.<\/p>\n<p>No livro O negro no s\u00e9culo XXI, a senhora diz que &#8220;a Justi\u00e7a \u00e9 inacess\u00edvel ao negro pobre&#8221;. A senhora \u00e9 uma das idealizadoras do Balc\u00e3o de Justi\u00e7a e Cidadania, que atende moradores das periferias. Isso vem melhorando?<\/p>\n<p>Sim. Criei o Balc\u00e3o de Justi\u00e7a e Cidadania, o Justi\u00e7a Bairro a Bairro, Justi\u00e7a Itinerante da Bahia de Todos-os-Santos e o programa Justi\u00e7a, Escola e Cidadania, para levar a Justi\u00e7a \u00e0s escolas p\u00fablicas. Recebi em Bras\u00edlia, em 2006, o Primeiro Premio de Acesso \u00e0 Justi\u00e7a, pelo trabalho desenvolvido pelo Balc\u00e3o. A ideia \u00e9 resolver conflitos pela media\u00e7\u00e3o, inclusive div\u00f3rcios, separa\u00e7\u00f5es, pens\u00e3o aliment\u00edcia, que s\u00e3o os casos mais frequentes. As pessoas acham que, para ir at\u00e9 a Justi\u00e7a, t\u00eam de estar com uma roupa muito arrumada, mas n\u00e3o precisa nada disso. Hoje, trabalho no juizado da Unijorge, que eu implantei.<\/p>\n<p>Por que a Justi\u00e7a na Bahia \u00e9 uma das mais lentas no Brasil?<\/p>\n<p>Primeiro, temos um n\u00famero pequeno de magistrados e um n\u00famero inaceit\u00e1vel de desembargadores. No Paran\u00e1, que \u00e9 bem menor que a Bahia, s\u00e3o 120 desembargadores. Aqui, s\u00e3o apenas 35. \u00c9 humanamente imposs\u00edvel. E a falta de recursos colabora bastante negativamente.<\/p>\n<p>O movimento negro muitas vezes pleiteia pol\u00edticas espec\u00edficas, como as cotas. Isso n\u00e3o fere a Constitui\u00e7\u00e3o, que diz que &#8220;todos s\u00e3o iguais perante a lei&#8221;?<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode igualar os desiguais. Tudo que \u00e9 inferior \u00e9 encaminhado ao negro. As cotas s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o permanentemente, porque sen\u00e3o parece esmola. \u00c9 enquanto se equipara o ensino p\u00fablico e privado. O problema \u00e9 que a qualidade da escola p\u00fablica n\u00e3o melhora.<\/p>\n<p>A maioria das v\u00edtimas de homic\u00eddio em Salvador s\u00e3o jovens negros. Qual \u00e9 a parcela de responsabilidade da Justi\u00e7a? H\u00e1 apenas duas varas do j\u00fari para julgar esses casos.<\/p>\n<p>Depois da visita a pres\u00eddios, resolvi criar um projeto: Inclua no trabalho e na educa\u00e7\u00e3o e exclua da pris\u00e3o, para ocupar os jovens da periferia. A televis\u00e3o fica com aquele &#8216;compre, compre, compre&#8217;. O adolescente v\u00ea um t\u00eanis e quer adquirir, seja como for. Pai e m\u00e3e tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es, saem para trabalhar, deixam o menino sozinho. O que acontece? O traficante vai e coopta. O poder p\u00fablico \u00e9 culpado por n\u00e3o dar condi\u00e7\u00f5es para as fam\u00edlias terem uma vida mais digna. Isso tudo vai desaguar no Judici\u00e1rio, e falta estrutura.<\/p>\n<p>No livro, a senhora tamb\u00e9m fala sobre aborto. \u00c9 a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Acho que se trata o assunto olhando somente a mulher pobre. A mulher rica faz aborto a todo instante, mas isso n\u00e3o vem a p\u00fablico, ela n\u00e3o morre, nem \u00e9 presa. Acho que tem de deixar de ser crime, sim. Ningu\u00e9m aborta porque quer.<\/p>\n<p>A senhora \u00e9 de santo, e o pastor M\u00e1rcio Marinho, da Igreja Universal, assina a contracapa do seu livro. Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/p>\n<p>Me criei no candombl\u00e9, sou filha de Ians\u00e3. Acho que, primeiro, n\u00e3o se deve olhar a religi\u00e3o da pessoa,<\/p>\n<p>mas sim quem ela \u00e9. J\u00e1 fiz parcerias com a Igreja Universal, e eles sempre cumpriram o papel deles.<\/p>\n<p>Entrevista publicada em Muito, revista semanal do grupo A Tarde, domingo, 26 de julho de 2009, #69.<br \/>\nTexto: Tatiana Mendon\u00e7a, tmendonca@grupoatarde.com.br<br \/>\nFotos: Rejane Carneiro, rcarneiro@grupoatarde.com.br<\/p>\n<p><strong>Fonte de \u00a0informa\u00e7\u00e3o:<\/strong> Portal Geled\u00e9s &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.folhadabahia.com.br\/noticias\/lerNoticia.php?id=2122\">http:\/\/www.folhadabahia.com.br\/noticias\/lerNoticia.php?id=2122<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com a ju\u00edza Luislinda Valois Santos Tr\u00eas momentos na vida da ju\u00edza Luislinda Valois Santos. O professor pediu o material de desenho, a custo o pai de Luislinda conseguiu comprar um, meio remendado. 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