Por Robério Honorato dos Santos
Introdução
Esse artigo faz um recorte do trabalho final elaborado para a disciplina Políticas sociais e educação especial: a construção de práticas intersetoriais do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP), cursado como aluno ouvinte na modalidade de Curso de Extensão durante o segundo semestre de 2015.
Para tanto, dentre as políticas sociais para análise, foi selecionada a política de esportes para a pessoa com deficiência física, tendo como recorte a socialização da pessoa com deficiência física através dos esportes adaptados. Foi levantada uma questão de fundo, suscitada através do filme Meu pai, meu héroi, de Nils Tavernier (2013), posta dessa forma: qual é a contribuição dos esportes adaptados para a socialização da pessoa com deficiência física, tanto no contexto familiar quanto na sociedade?
Desse modo, o presente artigo tem por objetivo analisar de que maneira o esporte adaptado pode promover a socialização interpessoal e social, tomando como ponto de referência a pessoa com deficiência física no contexto social.
Entrecruzamento do filme com o tema.
Inspirado na vida real dos norte-americanos Dick Hoyte e seu filho Rick, interpretado pelos atores Jacques Gamblin, que dá vida a personagem Paul Amblard (pai) e Fabien Héraud, que vive a personagem Julien (filho), o filme Meu pai, meu héroi, dirigido por Nils Tavernier (2013), traz à tona duas questões: primeiro, a dificuldade das famílias e, no caso específico, do pai de Julien em aceitar seu filho com paralisia cerebral. Segundo, a expressa angústia vivida por Julien, em função da rejeição de seu pai, num primeiro momento, o que, por vezes, se observa na sociedade. Rejeição agravada pela ausência física do pai, assim como afetiva, pela não aceitação e convivência com o filho.
Julien, ao tomar conhecimento de um artigo sobre a história de Dick e Rick, propõe ao seu pai participarem do Ironman, uma competição que reúne as seguintes modalidades de esportes: 3.800 metros de natação, 180 km de ciclismo, 42 km de caminhada e mais de 195 metros de corrida, o que se configura, certamente, como uma das competições mais exigentes dentre as várias modalidades esportivas.
Tendo aceitado o desafio do filho, Paul e Julien passam a se preparar através de um intenso treinamento físico e psicológico, imbuído de convívio e aprendizagem interpessoal pela via do esporte. É nesse contexto que o filme conversa com a presente discussão.
Segundo, Slonski et al. (2013), “a superação dos limites é a força inspiradora dos atletas”. Movido por essa força, constantemente Julien motivou seu pai a não desistir da ideia de participarem do ironman, tampouco durante a competição.
Durante a competição, pai e filho viveram juntos sentimentos que não tinham experimentado anteriormente, como por exemplo, o medo de não conseguir realizar a prova, mas também a alegria pela vitória de superação dos próprios limites físicos. De acordo com Souza (2007), apud Slonski et al. (2013), o esporte pode servir de fonte de liberação de sentimentos como nervosismo, estresse, raiva, medo, frustração e agressividade, assim como autorrealização, satisfação, alegria e autoconfiança, de modo que influenciarão a visão da pessoa com deficiência tanto de si quanto dos outros.
Tanto Paul quanto Julien mudaram a forma de se ver e de ver um ao outro. O esporte propiciou o estreitamento da relação entre ambos. Uma das maiores contribuições para essa aproximação entre pai e filho foi à mudança da auto-percepção de Julien sobre si mesmo, assim como de Paul sobre as capacidades e habilidades de seu filho. A ênfase dada, sobretudo por Paul à deficiência de Julien foi minimizada através da prática de esportes, na medida em que Julien teve as adaptações de que necessitava atendidas para a prática de esporte, possibilitando-o a superação das várias barreiras que o contexto social lhe impunha, tornando-se cada vez mais autônomo.
Para Slonski et al. (2013), “[…] a quebra da imagem de “pessoa deficiente”, […]”, configura-se como um dos benefícios mais significativos para a pessoa com deficiência física. Ainda, segundo os autores, o esporte é muito importante para muitos atletas, pois minimiza fragilidades do corpo ou da ideia de corpo perfeito e eficiente, possibilitando que sejam vistos, como por exemplo, campeões da modalidade e medalhistas, propiciando alto-estima e inclusão social.
Conclusão
Infelizmente as condições que Julien teve não se observam para todos os atletas com algum tipo de deficiência, tampouco para aqueles que, nunca havendo praticado esportes, desejam fazê-lo. Mais agravante ainda é que muitas pessoas com deficiência não contam com as mínimas condições de adaptação e outros de que necessitam que lhes garantam vida digna e autonomia.
Referência bibliográfica.
SLONSKI, E.C.;SOUZA, W. C. de; SOUZA, W. B. de; GRZELCZAK, M. T.; MASCARENHAS, L. P. G. O esporte adaptado como instrumento na sociabilidade da pessoa com deficiência. EFDeportes.com, Revista Digital, Buenos Aires, Año 18, n. 180, may. 2013. Disponível em: http://www.efdeportes.com. Acesso em: 20 de nov. 2016.
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- Robério Honorato dos Santos, especialista em Filosofia para Professores do Ensino Fundamental e Médio e em Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (REDEFOR/UNESP). Professor de Filosofia na rede pública estadual paulista no Ensino Médio e de Filosofia e História na rede privada paulista no Ensino Fundamental II e Médio. E-mail: roberio_rh@yahoo.com.br