Os efeitos do racismo que impedem o desenvolvimento na primeira infância.

ilustracao de menina negra com cara enfezada.

O racismo é adoecedor e na primeira infância desencadeia danos que podem ser irreversíveis, impedindo o desenvolvimento emocional, saudável da criança causando banzo, um sofrimento psíquico intenso e um elevado nível de estresse. A criança negra nunca descansa, pois precisa estar sempre atenta e alerta. Ela não consegue entender o que acontece o porquê é tratada com tanta diferença. O racismo gera uma ansiedade constante e a criança negra tenta compreender por que não recebe afeto e carinho.

Em 2012, Cristal (nome fictício) entrou em sala com seus cabelos arrumados com várias tranças e miçangas coloridas, uma jaqueta amarela por cima da camiseta do uniforme. As meias coloridas de abelhas e a saia azul, olhos escuros e pele negra retinta, contrastavam lindamente com todo aquele colorido de suas roupas, mas ainda assim, as crianças riam dela, e, desta forma, ela foi se descaracterizando, perdendo sua identidade e deixando de ser quem ela era. Não era bullying: era racismo! A escola se tornou um ambiente aversivo para ela.

O racismo atravessa a infância e impede que a criança negra desenvolva seus atributos para que desde pequena possa acreditar em sua capacidade. Ela precisa lidar com a morte subjetiva provocada pelo racismo estrutural, que impede que seja vista com olhar afetivo, impactando negativamente sua autoestima. Segundo Grada Quilombo, existem características que definem o racismo, entre elas, a diferença, que só se torna diferente porque se difere.  O corpo preto é um corpo dito não normativo, porque não é um corpo branco, essa diferença impede o pertencimento da criança negra. Ela não se encaixa nos padrões, se sente angustiada, mas não reconhece esse sentimento. Não consegue entender qual a diferença que ela tem das outras crianças, e que o nome dessa diferença é racismo. Desta forma, mesmo antes de aprender a ler e escrever, ela aprende que há padrões estéticos excludentes.

O racismo estrutural vai dando forma, impedindo que a criança se desenvolva. Há uma negação do outro que gera um não pertencimento. O silenciamento e a invisibilidade que o racismo impõe sobre uma criança negra desencadeia um impacto negativo que afeta profundamente a sua vida. Essa omissão do cuidado, negligencia a criança em todos os âmbitos, impedido os seus direitos na assistência, social e psíquica, vai gerando um adoecimento, uma perda de identidade que se transforma em insegurança, ansiedade, isolamento, medo e baixa autoestima. Todos esses danos causados pelo racismo podem fazer com que a criança se torne submissa e dependente, gerando crenças limitantes, como “ninguém vai gostar de mim”, “nunca serei boa o suficiente”, “eu não mereço”, “a culpa é minha”. Desencadeando baixo rendimento escolar e acadêmico, além de distúrbios afetivos, ideações suicidas e sentimento de desvalor, impedindo um desenvolvimento emocional saudável.

Uma educação afrocentrada é importante para a construção da identidade. A sociedade vai legitimando o racismo, através da inibição dessas crianças. O Brasil é o segundo maior país do mundo em população negra. Portanto, a sociedade racista sustenta todo esse adoecimento. A criança não consegue processar todos os danos do racismo, e a infância, que é um estágio fundamental no desenvolvimento psicológico e emocional, é afetada pelo racismo estrutural. As crianças não percebem o dano porque são crianças, mas, ao longo da vida, o racismo vai deixando marcas profundas e impactantes que nem sempre são superadas. E sem acesso à terapia para ressignificar e alcançar autossuficiência emocional as crianças crescem com os seus marcadores sociais se tornando alvos fáceis da necropolítica.

Precisamos trabalhar o enfrentamento ao racismo nas bases da educação. Ser antirracista é entender que o racismo é um problema de todos nós e que, portanto, precisamos combatê-lo. Estabelecer um diálogo coerente neste processo não é algo simples. Por isso, precisamos falar sobre o racismo na família, na escola, envolver a sociedade no debate. A fase inicial da infância é quando estamos mais vulneráveis a desenvolver alguns transtornos de humor. Combater o racismo não é algo simples, principalmente na primeira infância mas é uma questão urgente e necessária. Precisamos refletir sobre até quando vamos alimentar um sistema que nós condenamos. Afinal, como diria Carolina Maria de Jesus … “Adeus, adeus eu vou morrer e deixo esses versos ao meu país se é que eu tenho o direito de renascer, quero um lugar onde o preto é feliz!”

Neusa Maria psicóloga, coautora do Eu Me Protejo

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