
No Dia Internacional da Síndrome de Down, docente da ENSP/Fiocruz apresenta em Genebra, na Suíça, cartilhas sobre inclusão profissional de pessoas com deficiência intelectual
Geórgia Bergantin, Uma professora com síndrome de Down da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), vai apresentar na sede da Organização das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça, no próximo dia 21 de março, duas cartilhas voltadas à inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho. A iniciativa integra as celebrações do Dia Internacional da Síndrome de Down e levará à comunidade internacional uma experiência pioneira desenvolvida no Brasil.

As publicações “Trabalho com Apoio” e “Quero Trabalhar”, produzidas pela ENSP/Fiocruz, apresentam orientações práticas sobre o Trabalho com Apoio, metodologia que prevê suporte individualizado para que pessoas com deficiência intelectual possam ingressar e permanecer no mercado de trabalho. O material também traz informações voltadas diretamente às próprias pessoas com deficiência intelectual que desejam trabalhar, reforçando princípios como autonomia, escuta ativa e garantia de direitos.
As cartilhas foram elaboradas pela pesquisadora da ENSP Laís Silveira Costa, em parceria com Flávia Cortinovis, Andréa Barbi, Carolina Nascimento, Geórgia Bergantin e outras pessoas com deficiência intelectual e com a Federação Nacional do Emprego Apoiado (FANEA). Produzidas em linguagem simples e acessível, as publicações foram traduzidas para três idiomas e serão apresentadas em inglês durante o evento internacional.
O lançamento acontece em um contexto de profundas desigualdades no acesso ao trabalho para pessoas com deficiência no Brasil. Dados analisados pela pesquisadora Laís Costa, com base em informações do IBGE de 2021, 2023 e 2025, mostram que pessoas com deficiência têm duas vezes menos chances de ingressar no mercado de trabalho do que pessoas sem deficiência. Quando se trata de deficiência intelectual ou psicossocial, a desigualdade é ainda maior: essas pessoas têm 14 vezes menos chances de conseguir emprego. A renda média também é cerca de 30% menor, e muitos acabam recorrendo ao trabalho informal, com menor acesso à proteção social.

O tema dialoga com o mote global definido por autodefensores para o Dia Internacional da Síndrome de Down em 2026: “Xô SOLIDÃO”. A Federação Brasileira das Associações da Síndrome de Down aderiu ao mote, que é um chamado para enfrentar barreiras sociais que ainda limitam a participação plena de pessoas com deficiência, inclusive no mundo do trabalho.
Experiência pioneira na formação em saúde
A presença de professoras com síndrome de Down na ENSP faz parte de uma iniciativa inédita no mundo acadêmico. Em 2025, a Fiocruz tornou-se a primeira instituição no Brasil e no mundo a reunir duas mulheres com deficiência intelectual no corpo docente de uma pós-graduação.
A especialização tem como objetivo qualificar profissionais da saúde para o cuidado às pessoas com deficiência, incorporando na formação acadêmica a perspectiva de quem vivencia, no cotidiano, os desafios de acesso aos serviços e às políticas públicas.
As docentes, autodefensoras vindas de diferentes regiões do país, compartilham suas experiências de vida e contribuem para ampliar a compreensão sobre a complexidade do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a pesquisadora Laís Costa, idealizadora do projeto, a iniciativa representa uma mudança importante na forma como o conhecimento é produzido e compartilhado na área da saúde.
“A Federação Brasileira das Associações da Síndrome de Down vem formando autodefensores e permitindo que pessoas com deficiência intelectual ocupem espaços sociais e lutem por aquilo que consideram seus direitos. Esperamos que essa iniciativa da Fiocruz seja muito boa para estudantes e trabalhadores do SUS, porque rompe um pouco a hierarquia dessa relação entre pessoas com e sem deficiência, principalmente ENTRE AQUELAS COM deficiência intelectual”, afirma.
Inclusão e autonomia
As cartilhas que serão apresentadas na ONU buscam justamente ampliar esse debate, oferecendo ferramentas práticas para promover a inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mundo do trabalho.
O modelo de TRABALHO COM APOIO, apresentado nos materiais, prevê adaptações no ambiente profissional e acompanhamento especializado para garantir que trabalhadores com deficiência possam desenvolver suas atividades com autonomia e segurança.
Além de orientar gestores e empregadores, as publicações também dialogam diretamente com pessoas com deficiência intelectual que desejam trabalhar, explicando de forma acessível direitos, caminhos e possibilidades.
Acesso gratuito
As cartilhas estão disponíveis gratuitamente para download:
Trabalho com Apoio:
https://arca.fiocruz.br/handle/icict/74888

Quero Trabalhar:
https://arca.fiocruz.br/handle/icict/74880
