Antes do sinal

Texto de Ana Prado

Minha mochila é pesada de um jeito que não aparece. Não é só livro. É o cuidado de não errar, de não demorar demais, de não deixar nada cair. Minha mãe ajeita as alças como quem tenta me segurar no dia antes que ele comece. Ela sorri. O sorriso dela sempre vem um pouco antes da preocupação.

Eu já sei como é a escola.

Sei o som do sinal. Sei a pressa dos corredores. Sei o jeito que as pessoas esticam a mão quando acham que alguma coisa vai cair. Às vezes cai. Às vezes eu seguro. Às vezes não. Nem sempre esperam para ver.

O meu tempo não vem correndo.

Ele vem chegando.

Entro na sala com cuidado. Seguro o estojo com as duas mãos. Coloco o caderno devagar sobre a carteira. Gosto quando as coisas ficam no lugar. Quando ninguém faz por mim antes de eu terminar o gesto. A professora começa a falar. As palavras no quadro aparecem e somem rápido demais. Quando vou atrás delas, já foram. No meu caderno, elas ficam. Elas me esperam.

Quando algo cai perto de mim, alguém pega antes. Sempre alguém. Dizem “deixa”. Dizem “eu ajudo”. Dizem isso como carinho. Meu rosto esquenta. Eu abaixo a cabeça. Não digo nada. Vergonha também é uma coisa que cai dentro da gente.

Eu sei as respostas. Sei mesmo. Guardo muitas delas dobradas no bolso, inteiras, esperando a hora. Mas o caminho até fora é longo. Quando levanto a mão, ela sobe devagar. Às vezes, antes de chegar, outra voz fala. A professora responde. A aula segue. A minha resposta fica guardada.

Aprendi a guardar respostas.

Aprendi a guardar gestos.

Aprendi a guardar vontade.

No recreio, o pátio fica grande demais. As crianças correm, gritam, se empurram. Eu fico mais para o lado. Às vezes alguém senta perto de mim. Fica ali um pouco. Mas brincar mesmo, não. Dizem que eu posso cair. Dizem isso como cuidado. Ninguém pensa em outra brincadeira. Ninguém pergunta o que eu consigo.

Eu sei que consigo.

Na hora do lanche, como devagar. Às vezes a comida escapa da boca, porque meus gestos chegam depois. Não porque eu não saiba comer. Alguém olha. Alguém ri. Eu engulo rápido, não a comida, a vergonha. Seguro a lancheira. Finjo que não ligo.

Mas ligo.

As palavras travam antes de sair. Então fico. Olhando. Mastigando com atenção. Cada dia, fico um pouco mais quieta.

Quando alguém corre por mim, eu paro.

Quando alguém decide por mim, eu desapareço um pouco.

Às vezes, antes de dormir, penso que seria melhor não ir. Que se eu acordasse doente, ninguém estranharia. Não é que eu não queira aprender. É que dói tentar caber num lugar que anda sempre mais rápido do que eu.

Eu não me sinto parte.

Eu me sinto perto.

E isso cansa.

O sinal toca de novo. Ele nunca muda. Eu junto minhas coisas com cuidado. Se algo cai, eu abaixo, pego, levanto. No meu tempo. Não gosto quando me puxam antes de eu terminar. Não gosto quando fazem por mim como se eu não estivesse ali.

Eu posso.

Eu sei que posso.

Mas preciso que esperem.

Preciso que pensem comigo, não por mim.

Preciso que me deixem ficar inteira.

Porque quando não esperam, eu não grito.

Eu não reclamo.

Eu me fecho.

E, aos poucos, vou ficando menor do que sou.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *