
* Por Hugo Fanton, jornalista, assessor da Ação Educativa
“Antes, era cada carta uma letra diferente. Agora, é a minha letra. Minha família tem tudo guardadinho lá em casa, tudo com a minha letra”. O escrever ganha nova significação nessa frase confusa e gaguejada. Ouço-a num lugar também novo para mim, e muito triste. A visita é toda ela transformadora. As marcas daquele espaço imergem na minha memória e emergem nas pessoas que lá vivem, e para sempre.
Recém alfabetizado, Moacir pagava outros presos para conseguir se comunicar com “o mundo lá de fora”. Aprendeu a escrever nas aulas preparatórias para exames de certificação em Educação de Jovens e Adultos. O trabalho desenvolvido no Centro de Detenção Provisória de Diadema, SP, é possível pelos esforços individuais na luta pela garantia do direito à educação no cárcere. O Estado contribui com o salário de duas estagiárias e um estagiário.
“Alguém chama o Anderson”, grita um, logo que chego. Na escrita ele é o mais famoso. A redação “Liberdade 2007” deu-lhe R$ 500, o primeiro lugar entre oito mil no concurso Escrevendo a Liberdade, livros para o CDP e alguma fama entre seus pares. Já faz um ano e ele ainda não voou.
“Oi, tudo bem”, e aperta minha mão. Esse gesto só ganharia significado mais tarde. Aos 30, conta que escreveu um livro e espera conseguir publicá-lo. A visita continua no andar de cima. O CDP é vertical e tem pouco mais de 900 pessoas, organizadas por não se sabe quem. As salas de aula são improvisadas e só existem pelo esforço de um agente. Em apenas dois centros de detenção no estado de São Paulo os presos exercem o direito à educação. E como nas penitenciárias, isso é entendido por alfabetização e preparação para exames de certificação.
Subo as escadas acompanhado por um rapaz novo. “Saio no final de novembro”, conta. Cumpriu pena de oito meses. “Eram três anos, mas a juíza reviu”. O ambiente é igual, mas os rostos mudam, parecem mais velhos. Durante toda a visita ouço comandos que não entendo. “A camisa, a camisa!”. “Corredor!”. Fazem faxina para o amanhã, dia de visita.
As paredes são amareladas e a lousa improvisada na parede. As salas de aula são os espaços entre as escadarias e as celas. “O que você faz?”. “Trabalho numa organização que luta pelo direito à Educação”. “Aquelas crianças lá da República precisam mais de ajuda que a gente. De um jeito ou de outro vamos indo, né?! Elas não”. “Você também estuda aqui?”. “Não, prefiro deixar espaço pra outras pessoas, vou sair em menos de um mês”.
Ao final da conversa, estendo a mão, mas recebo apenas um aceno. O agente explica que há punição para quem cumprimenta o “inimigo”. “Pra eles, é tudo polícia”. Mais um signo que se transforma e me transforma. E a tristeza vai virando alegria pela lembrança daquele aperto de mão.
O rapaz foi condenado por uma briga com um dos de cima na sociedade. “Deu azar”. E sairá de lá membro de uma facção. “É muito comum isso aqui. Recebemos cada caso, gente que não é do crime, mas faz escola aqui dentro”.
Não. Não tem como não estar triste.
Fonte: Ação Educativa
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