O comercial da Apple mostra acessibilidade e representatividade. Mas não pra todo mundo

menina cega loura usando iphone.

O comercial da Apple pelo dia internacional da pessoa com deficiência (3/12) é uma obra impressionante.

 “I’m not remarkable”, algo como “Eu não sou especial” começa com imagens contagiantes e muito vistas em filmes de Hollywood, com jovens recebendo com festa a notícia de aprovação na universidade.

Segue mostrando a vida de universitários com deficiência no campus, junto com pessoas sem deficiência, com o apoio de recursos de acessibilidade que a empresa oferece em seus produtos como leitor de tela, lupa para baixa visão, controle de voz para cegos, video chamadas para surdos entre outros.

Estas tecnologias são fundamentais e muito bem-vidas para garantir a inclusão de estudantes com deficiência em todas as etapas de sua educação.

O filme todo segue com um rock genial, com o mesmo nome da propaganda (letra abaixo), cantado pelos personagens, muita dança e diversão dos universitários. O clima é contagiante!

À primeira vista é tudo o que a gente que defende para dar mais visibilidade, com atuação de atores com deficiência, com o objetivo de propagar uma imagem positiva e inclusiva das pessoas com deficiência na mídia.

Mas uma ausência salta aos olhos.

Revisamos o filme principal várias vezes e não encontramos nenhuma pessoa com síndrome de Down participando do comercial. Também não fica clara a participação de personagens autistas.

A diretora premiada Kim Gehrig já havia dirigido o filme “The Greatest”, ou “Os Maiores”, também para a Apple, em 2022. Naquela ocasião havia uma mulher com síndrome de Down no comercial: https://vimeo.com/776811579

Há muitos exemplos de pessoas com síndrome de Down cursando o ensino superior no Brasil e no resto do mundo, embora em número bem menor do que gostaríamos.

A falta representação no comercial da Apple reforça ainda mais o estereótipo de que pessoas com deficiência intelectual não chegam à universidade. Mas sabemos que isso é fruto de uma sociedade capacitista e da falta de medidas de acessibilidade para entrada e permanência de pessoas com deficiência intelectual no ensino superior.

Outra falta gritante foi o uso de Comunicação Alternativa e Aumentativa para comunicação no campus. Os aplicativos baixados em tablets são cada vez mais usados por pessoas com necessidades complexas de comunicação. Certamente seus usuários em todo mundo se sentiram excluídos do comercial.

Ao aplaudir os avanços tecnológicos que ajudam a derrubar barreiras e incluir cada vez as pessoas com deficiência em diferentes espaços, esperamos que as próximas peças publicitárias da Apple e de outras empresas se lembrem de todos os seus consumidores. E que os recursos de acessibilidade sejam cada vez mais economicamente acessíveis para que, de fato, quem precisa deles seja incluído.

Veja o filme (nas configurações, escolha legenda em português)

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Letra da música

Eu não sou especial

De

Tim Minchin

Por Kittyy & The Class

1, 2

1, 2, 3, 4!

Eu não sou especial

Estou só estou encontrando o meu caminho

Não é moleza

Mas, amor, eu consegui as notas

Não quero ser admirado

Eu não sou sua inspiração

Se você quer se inspirar

Tem uma biblioteca no corredor

Você notou uma admiração

Às vezes cheira um pouco a pena?

Eu posso ser forte

Eu não entendo algumas coisas (Arrrrggghh!)

E nem sempre falo bonito

Eu não sou especial

Não sou heroico ou corajoso

Não tenho superpoderes

Eu nem consigo fazer essa equação ridícula!

Eu não sou especial

E você também não é!

Todos nós temos dedos nos pés (Como eles são estranhos!?)

Todos nós ficamos engraçados pelados!

Eu tenho um rosto

Eu tenho um lugar

Eu tenho uma vida

Eu tenho um nome

E eu preciso de coisas

E você precisa de coisas

E todas as nossas coisas

Não é a mesma coisa

E tem dias que fico tão cansada

Ela fica mal-humorada

Ele fica mandão

Sim, bem, eu tenho uma Necessidade Especial… Eu chamo isso de “café”

Preciso ser especial?

Só estou tentando

Não sou frágil nem indestrutível

E como todo mundo, às vezes eu choro

E eu não sou como os outros…

Mas, afinal, o resto de vocês também não é como os outros

Não sou um santo, não sou um pecador

Eu não sou um perdedor, não sou um vencedor

Eu não sou mais e não sou menos

Eu sou só uma bagunça humana comum!

Eu não sou especial

E você também não é

Eu não sou especial

E você também não é (eu também não!)

Todos nós temos dedos dos pés (Espera, eu não tenho!)

Todos nós ficamos lindos nus

Eu tenho um rosto

Eu tenho um lugar

Eu tenho uma vida

Eu tenho um nome

E eu preciso de coisas

E você precisa de coisas

E todas as nossas coisas

Não são as mesmas coisas

E vamos nos esforçar

E vamos falhar

E vamos nos machucar

Mas vamos prevalecer

E vai ser alegre

E vai ser ruim

E vou ficar sozinho

E vou ser amado

E no caminho

Vamos descobrir

Não somos iguais

Mas não somos o outro

Existe uma vida lá fora que eu me recuso a perder

Só sou especial porque todo mundo é.

Patricia Almeida é jornalista, mestre em Estudos da Deficência, criadora e cofundadora da GADIM – Aliança Global para Inclusão da Pessoa com Deficiência na Mídia e no Entretenimento, e GADIM Brasil.

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