Instrutores com deficiência são maioria em curso para atendimento à pessoa com deficiência na saúde

O Ministério da Saúde, por meio da Escola Nacional de Saúde Pública ENSP/Fiocruz, está oferecendo curso inédito de especialização para qualificar profissionais de saúde que atuam na implementação da Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência e na Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência.

Adotando como princípio a representatividade, em sintonia com o lema “Nada sobre nós sem nós”, 46% dos instrutores são pessoas com deficiência no curso, que vai formar 230 pessoas em todo o Brasil.

Segundo a aluna Luana Cavalcante, mulher com deficiência, o curso fortalece a luta anticapacitista dentro da rede de cuidados e do sistema de saúde porque garante a participação ativa das próprias pessoas com deficiência nos espaços de ensino e cuidado.

A aluna Adelane de Araújo, mulher com deficiência afirmou: “processos formativos podem favorecer não apenas a qualificação técnica, mas também o fortalecimento de presenças políticas, contribuindo para a construção de sujeitos que ocupam seu lugar no mundo de forma consciente, crítica e comprometida com a justiça social, a humanização do cuidado e a defesa cotidiana de direitos”.

A facilitadora docente Estrela Rodrigues concorda: “É um curso inovador. A gente nunca teve um protagonismo tão grande de pessoas com deficiência. Muitos profissionais que não tinham tido contato com pessoas com deficiência já estão fazendo a diferenca em seus locais de trabalho”.

A pesquisadora Laís Silveira Costa, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), coordenou a criação e a execução do curso e diz que “o grande diferencial foi reconhecer a experiência das pessoas com deficiência como fonte legítima de conhecimento”.

a coordenadora Lais Silveira Costa, a professora com síndrome de down e alunos.

Representatividade como prática

A proposta priorizou inclusão real:

  • 46% do corpo docente é formado por pessoas com deficiência
  • Pela primeira vez em uma pós-graduação, duas docentes com deficiência intelectual integram o curso
  • 69% das vagas foram destinadas às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste
  • 54% das pessoas participantes são negras
  • 10% dos participantes são pessoas com deficiência.

Segundo a coordenadora Laís Silveira Costa, essa estrutura busca romper a lógica tradicional em que profissionais de saúde ocupam posição hierárquica sobre pessoas com deficiência, valorizando o protagonismo dessas pessoas.

aula online. centro professora com sindrome de down.

Debate sobre capacitismo

Outro destaque do curso é o enfrentamento ao capacitismo.

Capacitismo é a discriminação baseada na ideia de que pessoas com deficiência têm menos valor ou capacidade.

Durante as aulas, algumas participantes relataram que foi a primeira vez que compreenderam esse conceito, mesmo já atuando há anos na rede de cuidados.

Esse debate amplia a formação técnica e também fortalece a consciência política, a defesa de direitos, a justiça social e a humanização do cuidado.

professor cadeirante com alunos ao redor.

Produção de materiais acessíveis

A ENSP também produziu cartilhas em formatos acessíveis, como:

  • linguagem simples
  • cordel (gênero literário popular, muito comum no Nordeste brasileiro)
  • Libras
  • audiodescrição.

Esses materiais tratam de temas como:

  • aleitamento humano inclusivo
  • saúde sexual e direitos sexuais
  • cuidado menstrual
  • atenção primária à saúde da pessoa com deficiência
  • combate ao capacitismo.

As publicações são gratuitas, estão disponíveis online e também foram distribuídas em versão impressa para apoiar ações em todo o país.

Transformação social e mudança de perspectiva

A convivência entre estudantes e docentes com diferentes experiências, inclusive docentes com deficiência intelectual, tem promovido mudanças concretas na forma como profissionais enxergam pessoas com deficiência e suas famílias.

O curso não oferece apenas qualificação técnica. Ele também fortalece autonomia, protagonismo e transformação social.

professora com muletas ao lado de video com logo da ENSP.

Exemplo a ser ampliado

A experiência da ENSP mostra que inclusão e representatividade precisam fazer parte da formação profissional.

Mais instituições podem seguir esse caminho para construir processos formativos mais justos, acessíveis e comprometidos com os direitos das pessoas com deficiência.

Confira o programa Acessando Lucília, com participantes curso da ENSP:

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