Texto de Ana Prado
Há um gesto mínimo que sustenta a vida social: cumprimentar.
Um “oi”, um aceno, um reconhecimento breve que não exige elaboração, mas produz um efeito decisivo — inscreve o outro no campo da presença. Cumprimentar é uma forma de dizer: você está aqui, eu reconheço isso.
E, no entanto, esse gesto falha.
Não como exceção, mas como padrão quando o encontro envolve a cegueira. Não se trata de distração ocasional. Trata-se de um modo de funcionamento.
Pessoas cegas, com frequência, não são cumprimentadas — não porque não estejam ali, mas porque não são reconhecidas dentro da lógica que organiza o próprio ato de cumprimentar.
O cumprimento, tal como se instituiu, é profundamente visual. Ancora-se em sinais: o olhar que encontra, o rosto que se identifica, a troca rápida que confirma quem é quem. Quando esse circuito não se estabelece, muitos suspendem a ação.
Não agir também é uma forma de gestão.
Gestão do desconforto que o encontro com aquilo que escapa aos códigos habituais produz. Em vez de reorganizar a percepção, mantém-se o gesto suspenso. Evita-se o risco de errar, de não saber, de ter que inventar outra forma de relação. O não cumprimento, assim, não é apenas ausência — é também economia.
O que aparece, então, não é um erro individual, mas um comportamento socialmente aprendido.
E é na escola que muitos desses modos de relação são aprendidos e reiterados. Se a escola se apresenta como espaço de encontro, convivência e formação, é também nela que se observa como o reconhecimento é distribuído. Quando a comunidade escolar suspende o cumprimento diante da diferença, ensina, ainda que sem palavras, quem deve ser reconhecido e quem pode ser ignorado. O gesto que falta não se limita ao presente; projeta-se como aprendizagem. Aprende-se, muito cedo, não apenas a ver, mas a selecionar quem merece ser visto.
Como nos ajuda a pensar Michel Foucault, as práticas sociais não são neutras: produzem e regulam modos de existência. O cumprimento, aparentemente banal, participa dessa lógica. Ele não apenas expressa reconhecimento — ele o distribui.
Quem é facilmente reconhecido é facilmente cumprimentado.
Quem escapa a essa legibilidade encontra hesitação, silêncio ou ausência.
No campo dos estudos da deficiência, como aponta Anahi Guedes de Mello, esse tipo de situação pode ser compreendido como efeito de barreiras atitudinais socialmente produzidas. Não se trata de obstáculos físicos, mas de disposições incorporadas. A questão não está na pessoa cega, mas nas condições que definem quem pode ser reconhecido.
Não cumprimentar, nesse sentido, é uma prática social.
Uma prática que evita o contato quando ele não é imediatamente reconhecido, que recua diante da diferença e mantém o encontro dentro de zonas de conforto perceptivo.
Mas não se trata apenas de não cumprimentar.
Há escolhas no próprio gesto. Cumprimenta-se quem é facilmente reconhecido; investe-se afeto — no corpo, na proximidade, na duração — em quem confirma expectativas. Diante da cegueira, o gesto muda: hesita, empobrece ou se retrai. O abraço se suspende, o beijo desaparece, a relação se encurta. Não é ausência de forma — é diferença de tratamento.
Corpos que recebem proximidade.
Outros, distância.
Alguns são acolhidos no encontro.
Outros, apenas atravessados por ele.
O que se distribui, nesses gestos, não é apenas cordialidade. É valor.
A ausência ou a redução do cumprimento produz um tipo específico de apagamento: não o da presença física, mas do reconhecimento social. A pessoa está ali, mas não entra plenamente na cena.
A interação social não se organiza apenas pela presença dos corpos, mas pela sua legibilidade. É preciso ser reconhecido dentro de certos códigos para ser incluído nos gestos mais simples. Quando esses códigos falham, a relação se interrompe antes mesmo de começar.
A cegueira, nesse contexto, não impede o encontro.
Ela expõe os critérios que o regulam.
Expõe o quanto a vida social ainda depende de uma norma visual que organiza a percepção e o reconhecimento. O quanto, fora desse eixo, muitos simplesmente não sustentam o contato.
Como indicam Gilles Deleuze e Félix Guattari, os modos de relação não são dados; são produzidos. E aquilo que é produzido pode ser transformado.
Cumprimentar não exige visão.
Exige disposição.
Exige reconhecer que a presença do outro não depende de um olhar que a valide. Exige deslocar o gesto de um automatismo visual para uma atenção mais ampla.
Quando isso não acontece, o que se mantém não é apenas um hábito — é uma forma restrita de convivência.
Por isso, a questão não é ensinar pessoas cegas a se tornarem mais reconhecíveis.
É interrogar por que o reconhecimento continua condicionado a critérios tão limitados.
O não cumprimento não é um detalhe.
É um sintoma.
Um sintoma de uma gramática social que ainda define quem merece ser reconhecido a partir de parâmetros estreitos de percepção.
E a pergunta permanece:
quem você aprendeu a não ver — mesmo quando está diante de você?