Texto de Katherine McLaughlin, Fundadora, CEO e Treinadora Principal da Elevatus Training.
Traduzido de National Sexual Violence Resource Center
Ensinando Relacionamentos Saudáveis e Sexualidade para Jovens com Deficiências Intelectuais e de Desenvolvimento
Parte 1: Uma Abordagem Baseada em Direitos
“Eu estava na aula regular de saúde no ensino médio, aprendendo sobre saúde com alunos sem deficiência. Quando a unidade sobre sexualidade começou, eles me tiraram da sala.” — Jovem Adulto Anônimo com Deficiência Intelectual

Quando ouvi essa história pela primeira vez, lembro-me do choque que senti. Que mensagem forte para enviar a alguém com deficiência. Meu primeiro pensamento foi: “Tudo bem aprender sobre atividade física e nutrição, mas quando o assunto muda para sexualidade, nós tiramos você da sala de aula e dizemos indiretamente que você não precisa desse tipo de informação, ou pior, que você não merece?”. Meu pensamento seguinte foi: “Será que eu fui de alguma forma transportada de volta para a década de 1940?”. Certamente já sabemos mais do que isso hoje em dia.
Ainda assim, histórias como essa são comuns. Muitos jovens com deficiências intelectuais e de desenvolvimento (DID) são excluídos da educação sobre sexualidade e relacionamentos devido a crenças culturais e capacitistas profundamente enraizadas que moldam políticas, práticas e decisões cotidianas nas escolas e nos sistemas de atendimento.
Crenças Prejudiciais e Consequências Reais
Os jovens com DID muitas vezes têm o acesso negado à educação sobre relacionamentos e sexualidade com base em suposições de que eles:
- Não têm interesse em relacionamentos sexuais ou românticos.
- São incapazes de entender a sexualidade ou de dar consentimento.
- São infantis e precisam de proteção contra a sexualidade, e não de educação sobre ela.
Essas crenças não são apenas imprecisas — elas são perigosas.
Quando pessoas com DID têm o acesso negado a uma educação precisa e acessível, isso pode ter sérios efeitos em suas vidas. A falta de educação aumenta a probabilidade de que as pessoas simplesmente obedeçam em vez de consentir, experimentem uma autonomia corporal reduzida e se sintam desempoderadas em suas próprias vidas. Pesquisas e experiências vividas mostram consistentemente taxas mais altas de abuso sexual, gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis e solidão crônica entre pessoas com deficiência que não têm acesso a essas informações.
A educação não é um risco — é proteção. Conhecimento é poder.
Para aqueles de nós que trabalham com pessoas com DID, essa verdade é familiar. Ainda assim, muitos educadores e prestadores de serviços sentem-se incertos sobre como ensinar relacionamentos saudáveis e sexualidade de maneiras que sejam éticas, eficazes e respeitosas. Este artigo explora as principais mensagens do movimento pelos direitos das pessoas com deficiência, convida à autorreflexão e apresenta princípios para avaliar necessidades e ensinar de maneiras acessíveis e empoderadoras.
Mensagens Principais do Movimento das Pessoas com Deficiência
Em 2008, educadores especiais e organizações voltadas para deficiências de desenvolvimento me procuraram em busca de ajuda para abordar a educação sexual para pessoas com DID. Naquela época, havia muito poucos recursos disponíveis, então comecei a desenvolver minhas próprias aulas e currículo.
Antes de seguir em frente, me reuni com membros da Green Mountain Self-Advocates — uma organização estadual de autodefesa em Vermont administrada por e para pessoas com deficiências intelectuais e de desenvolvimento — para compartilhar o que eu estava desenvolvendo. A resposta deles mudou tudo. Eles disseram: “Nada sobre nós sem nós. Queremos ajudar a criar esses materiais — e queremos ser alguns dos professores.”
Isso foi um alerta para mim e um daqueles momentos de revelação. Claro que eles deveriam estar envolvidos. Claro que eu não entendia — e não poderia entender — totalmente o que as pessoas com DID precisavam sem ouvir as pessoas com experiência vivida. Só porque eu tenho uma deficiência física não significa que eu entenda tudo sobre as experiências deles. Eles eram os especialistas em suas próprias vidas, e a visão deles era essencial para fazer as coisas do jeito certo.
O lema das Nações Unidas “Nada Sobre Nós Sem Nós” enfatiza a participação e tem sido adotado por organizações de pessoas com deficiência em todo o mundo. Para mim, significa fazer duas perguntas fundamentais: como incluímos as pessoas com deficiência nas decisões e como criamos oportunidades iguais para todos?
A Dignidade do Risco
A segunda mensagem do movimento das pessoas com deficiência é que todos têm o direito de correr riscos, todos têm a dignidade do risco.
“Negar o direito de fazer escolhas para proteger a pessoa com deficiência do risco é diminuir a sua dignidade humana.” — Robert Perske, ativista de longa data pelos direitos das pessoas com deficiência intelectual.
Todos nós corremos riscos em nossas vidas. Alguns de nós assumem mais riscos do que outros. Alguns de nós ainda usam máscaras para prevenir a COVID-19, enquanto outros pararam. Algumas pessoas são cautelosas, e outras menos. Independentemente de você ser cauteloso, gostar de correr riscos ou estar em algum lugar no meio, o importante é que você pode decidir o nível de risco que deseja assumir. Você obtém informações sobre os riscos e toma sua decisão de acordo. Você merece a dignidade de correr riscos. A “dignidade do risco” é parte do que vem com viver uma vida plena.
Uma Visão Baseada em Direitos sobre a Deficiência
Uma abordagem baseada em direitos defende que todos têm direito a relacionamentos e ao conhecimento e às habilidades necessárias para navegá-los com segurança e eficácia. Para entender por que isso é importante, é útil observar os modelos comuns de deficiência.
Modelos Não Baseados em Direitos:
- Modelo Médico: A deficiência é vista como um problema que precisa ser corrigido ou consertado. O problema é a deficiência da pessoa, e podemos consertá-la por meio de tratamento.
- Modelo Moral: Este modelo vê a deficiência como uma falha do indivíduo, de sua família ou mesmo de seus ancestrais. Ele culpa o caráter da pessoa ou sua família pela deficiência.
- Modelo de Caridade: Este modelo vê a deficiência como uma tragédia e uma situação triste. Precisamos ter pena da pessoa com deficiência.
Nenhum desses modelos tem como foco os direitos da pessoa.
Modelos Baseados em Direitos:
- Modelo Social: Este modelo vê a deficiência e a diversidade como parte da vida, e que a pessoa não precisa ser consertada, mas sim a sociedade.
- Modelo de Direitos Civis ou Humanos: Este modelo vê que a pessoa possui uma deficiência, mas é a sociedade que incapacita as pessoas, não a deficiência. Se nossa sociedade tivesse todo o conteúdo em linguagem simples e fácil de ler, pessoas com DID poderiam aprender sobre sexualidade e relacionamentos saudáveis, e não haveria desigualdade no acesso à educação sexual e de relacionamentos. A barreira é a falta de materiais cognitivamente acessíveis, não a pessoa.
Modelos baseados em direitos reconhecem as pessoas com deficiência como iguais, não inferiores. Quando adotamos essa perspectiva, nos comprometemos a fornecer acesso à educação, informação e oportunidades de conexão.
Da Proteção ao Empoderamento
Quando você adota o lema ‘nada sobre nós sem nós’, apoia as decisões das pessoas de assumir riscos e emprega uma abordagem baseada em direitos, as pessoas com deficiência intelectual são empoderadas a assumir o controle de seus corpos, tomar as rédeas de suas vidas, fazer suas próprias decisões e ter orgulho de quem são.
Esse empoderamento reduz tanto a vulnerabilidade ao abuso quanto o isolamento, ao mesmo tempo em que aumenta a segurança, a confiança e as conexões saudáveis.
Principais Conclusões
A educação inclusiva sobre sexualidade e relacionamentos não é um luxo — é um direito humano. Quando jovens com deficiências intelectuais e de desenvolvimento são excluídos dessas conversas, é negada a eles a informação que apoia sua segurança, autonomia e capacidade de formar conexões significativas.
Ao abraçar os princípios do ‘nada sobre nós sem nós’, honrando a dignidade do risco e usando uma estrutura baseada em direitos, os apoiadores podem passar da proteção através da exclusão para o empoderamento através do acesso.
Quando mudamos nossa mentalidade de “Eles conseguem lidar com isso?” para “Como tornamos isso acessível?”, criamos espaço para que os jovens com DID aprendam, cresçam, façam escolhas informadas e experimentem as mesmas alegrias, desafios e conexões que qualquer outra pessoa.
Isso não é apenas uma boa prática. É justiça.

Sobre a Autora
Katherine McLaughlin, M.Ed., Educadora Sexual Certificada pela AASECT, é a Fundadora, CEO e Treinadora Principal da Elevatus Training. Uma líder nacional em educação sexual para pessoas com deficiências intelectuais e de desenvolvimento (DID), ela faz parcerias com profissionais, pais e autodefensores para promover autonomia, dignidade e relacionamentos saudáveis. Saiba mais em www.elevatustraining.com.