Texto Ana Prado
Theo tinha uma coleção de coisas.
Uma pena encontrada na praça. Um ingresso antigo de um jogo do seu time. Uma fotografia amassada. E uma tampinha de garrafa que guardava havia meses.
Ninguém entendia por que ele conservava aquela tampinha.
Theo dizia que ela era a medalha de uma expedição que ninguém mais lembrava.
Talvez fosse verdade.
Talvez não.
Theo costumava reparar em coisas que passavam despercebidas para quase todo mundo.
Guardava histórias do mesmo jeito que guardava objetos. Algumas eram verdadeiras. Outras talvez não fossem. Mas todas pareciam importantes para ele.
Havia também as árvores da praça.
A Capitã, perto do portão.
A Gigante, que oferecia sombra nas tardes mais quentes.
E a Mistério.
Nem Theo conseguia explicar direito por que ela se chamava assim.
Quando alguém perguntava por que dava nome às árvores, respondia que árvore sem nome parecia muito solitária.
Gostava da água da piscina nos dias quentes. Gostava das disputas de videogame que terminavam em comemorações barulhentas.
As mãos estavam sempre ocupadas: segurando descobertas, apontando detalhes e transformando objetos comuns em histórias extraordinárias.
Gostava de notar detalhes que a maioria das pessoas deixava escapar: um ninho novo entre os galhos, uma rachadura no muro que parecia um mapa ou uma nuvem com formato de dinossauro.
Essa curiosidade o acompanhava por onde fosse.
Na escola, levantava a mão antes de organizar completamente a pergunta. Na quadra, torcia, participava, comemorava e reclamava quando achava que alguma regra era injusta.
Passava tardes inteiras na praça do bairro. Conhecia os caminhos, os atalhos, as árvores e os lugares onde os passarinhos costumavam aparecer.
Havia dias leves e dias difíceis.
Em alguns dias, era chamado para brincar.
Em outros, as brincadeiras começavam sem ele.
Algumas pessoas se aproximavam para conhecê-lo.
Outras pareciam decidir quem ele era antes mesmo de conversar com ele.
Às vezes, descobria tarde demais que a risada era sobre ele.
Em outros momentos, ficava em silêncio mesmo quando tinha vontade de falar.
Às vezes voltava para casa sorrindo.
Às vezes voltava para casa carregando perguntas que ninguém deveria precisar responder tão cedo.
Ao cair da noite, o dia ia se recolhendo devagar. As vozes ficavam mais baixas. Os jogos terminavam. As aventuras esperavam pela manhã seguinte.
Adiava o sono o quanto podia, como fazem tantas crianças.
Então encostava sua cadeira de rodas ao lado da cama, fechava os olhos e adormecia.