Texto de Ana Prado
“Não tenho pernas para isso.”
A frase surge numa reunião de trabalho, numa conversa entre amigos ou nos corredores da escola. Quase ninguém estranha. O mesmo acontece quando alguém diz que não tem braços para assumir mais uma tarefa, que determinada pessoa está cega para o problema, que alguém é surdo aos argumentos ou que certa ideia é retardada. São expressões tão comuns que passam despercebidas — e é justamente aí que reside sua força.
Costumamos pensar que as palavras apenas descrevem a realidade. No entanto, elas também revelam modos de percebê-la. Quando observamos com atenção essas expressões, uma pergunta se impõe: por que recorremos justamente a referências à deficiência quando queremos falar de fracasso, desatenção, ignorância ou incapacidade?
Dizemos que alguém está cego para uma situação. Dizemos que é surdo aos argumentos. Dizemos que não tem pernas para enfrentar determinado desafio ou que não tem braços para dar conta de uma tarefa. Em outros casos, a associação assume contornos diferentes. Quando alguém é acusado de “dar uma de João sem braço”, a deficiência deixa de representar apenas incapacidade e passa a ser associada à simulação, à esperteza ou à tentativa de escapar de responsabilidades. Embora descrevam situações concretas, essas expressões compartilham algo em comum: recorrem à deficiência para representar aquilo que é percebido como negativo, inadequado ou indesejável.
Curiosamente, quando queremos falar de inteligência, criatividade, sensibilidade ou competência, raramente recorremos à deficiência. A metáfora quase sempre aponta na mesma direção. Não é a deficiência que explica essa escolha. É o conjunto de valores que aprendemos a associar a ela.
As palavras carregam histórias. Na perspectiva de Mikhail Bakhtin, nenhum enunciado nasce vazio. Cada palavra traz consigo marcas das relações sociais que a produziram. Quando determinadas expressões atravessam gerações sem serem questionadas, acabam adquirindo a aparência de algo natural. Mas a naturalidade, muitas vezes, é apenas o nome que damos aos preconceitos quando nos acostumamos com eles.
Se as palavras carregam histórias, carregam também valores. É justamente por isso que seus efeitos não dependem apenas da intenção de quem as utiliza. Não se trata de afirmar que cada pessoa que recorre a essas expressões esteja conscientemente discriminando alguém. A questão é mais profunda. A linguagem participa da produção dos sentidos que organizam nossas formas de convivência. Ela nos ensina, muitas vezes sem que percebamos, quais características tendem a ser valorizadas, quais são vistas como problemas e quais podem ser transformadas em motivo de desqualificação.
As metáforas que utilizamos não surgem no vazio. Elas são produzidas em sociedades que definem continuamente o que consideram desejável, aceitável ou normal. Os estudos da deficiência oferecem uma chave importante para compreender esse processo. Ao analisar a construção histórica da normalidade, Lennard J. Davis demonstra que aquilo que costumamos chamar de normal não corresponde a uma medida natural da condição humana. Trata-se de uma referência historicamente produzida que passou a funcionar como parâmetro para avaliar corpos, comportamentos, ritmos de aprendizagem e formas de participação social.
Quando essa referência se torna invisível, seus efeitos também tendem a passar despercebidos. A normalidade deixa de parecer uma construção histórica e passa a ser percebida como evidência. Nesse contexto, tudo aquilo que não corresponde às expectativas dominantes corre o risco de ser interpretado como insuficiência, inadequação ou problema. A linguagem participa desse movimento ao transformar determinadas experiências humanas em metáforas recorrentes para falar daquilo que a sociedade considera indesejável.
Talvez seja justamente aí que essas expressões encontrem sua permanência. Elas parecem falar sobre pessoas com deficiência, mas revelam muito sobre os valores de uma sociedade que continua organizando grande parte de suas expectativas em torno de determinados ideais de capacidade. Não por acaso, o desempenho costuma ser tomado como medida de valor, enquanto a necessidade de apoio é frequentemente percebida como sinal de insuficiência. A independência é muitas vezes apresentada como objetivo universal, mesmo que a experiência humana seja marcada por relações constantes de apoio, cuidado e cooperação.
A ironia é que ninguém constrói sua vida sozinho. Dependemos diariamente de uma complexa rede de relações que envolve familiares, amigos, professores, profissionais da saúde, trabalhadores dos transportes, agricultores e tantas outras pessoas que sustentam, direta ou indiretamente, nossa existência. Dependemos também de objetos, tecnologias e infraestruturas tão incorporados ao cotidiano que quase deixam de ser percebidos: óculos, celulares, computadores, medicamentos, elevadores, sistemas de transporte, aplicativos de navegação, livros, mesas, cadeiras e inúmeros recursos que ampliam nossas possibilidades de agir no mundo. A independência que tantas vezes idealizamos só se torna possível porque está apoiada em múltiplas formas de dependência que costumam permanecer invisíveis. A interdependência não é uma exceção à condição humana. Ela é uma de suas características mais fundamentais.
Na escola, essa reflexão ganha especial relevância. Professores não trabalham apenas com conteúdos e avaliações. Trabalham também com narrativas, expectativas e classificações. Expressões como “não acompanha a turma”, “não dá conta sozinho”, “não consegue atingir o esperado” ou “precisa de muito apoio” aparecem com frequência em reuniões pedagógicas, relatórios e conversas cotidianas. Embora descrevam situações concretas, elas nunca são inteiramente neutras. Afinal, acompanhar qual turma? Atingir qual esperado? Dar conta segundo quais critérios?
O desafio não está em ignorar dificuldades, necessidades de apoio ou barreiras que afetam os processos de escolarização. O desafio está em evitar que essas dimensões se transformem na principal lente por meio da qual determinados estudantes passam a ser compreendidos. Quando isso acontece, corre-se o risco de reduzir sujeitos complexos a um conjunto de ausências, dificuldades ou expectativas não alcançadas.
Talvez o aspecto mais inquietante dessas expressões seja que elas nos obrigam a olhar para além da própria linguagem. Afinal, por que continuamos recorrendo à deficiência quando queremos falar de erro, fracasso ou incapacidade? O que essa escolha revela sobre os modos como aprendemos a atribuir valor às pessoas?
A resposta talvez seja desconfortável. As expressões capacitistas persistem porque encontram terreno fértil em uma sociedade que ainda opera a partir de concepções estreitas de capacidade humana. Uma sociedade que frequentemente confunde valor com desempenho, reconhecimento com adequação a determinados padrões e participação com a capacidade de corresponder às expectativas dominantes.
Talvez o problema nunca tenha estado nas pessoas que foram historicamente definidas a partir da falta. Talvez esteja no olhar que insiste em transformar diferenças em hierarquias. As expressões que utilizamos cotidianamente não são apenas maneiras de falar. Elas funcionam como pequenas pistas dos valores que sustentam nossas formas de convivência. Talvez seja por isso que as palavras mereçam tanta atenção. Não porque sejam capazes de produzir, sozinhas, a exclusão, mas porque frequentemente revelam aquilo que a sociedade aprendeu a considerar natural. E aquilo que parece natural costuma organizar silenciosamente aquilo que tomamos como verdade.